"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

domingo, 6 de julho de 2014

GEOPOLÍTICA AQUECIDA

 
Depois do embate na Ucrânia, vem à luz o conflito pela Eurásia, entre EUA/EU/Japão e o bloco eurasiano, até então restrito ao observatório internacional da geopolítica. Ele acontece em três fronts: o do centro europeu nas fronteiras da Rússia; o do Oriente Médio, envolvendo a Síria e o Iraque, nas vizinhanças do Irã; e o do mar da China, cercando o crescimento chinês.

O bloco eurasiano compreende a Bielo-Rússia, a Rússia, o Cazaquistão (certamente o Uzbequistão), o Irã e a China. No Ocidente, fustiga-se a Rússia. No Oriente Médio, Arábia Saudita à frente, aliada dos EUA, o avanço é das ricas monarquias absolutistas a incitar todos os grupos radicais sunitas, exceto a irmandade, para tomar o poder na Síria e no Iraque, isolando o Irã. No extremo oriente, os EUA buscam alianças sub-regionais contra a China.

 Movimentos russos se opuseram às investidas dos EUA-EU: a) a anexação da Crimeia; b) a formação do bloco Bielo-Rússia, Rússia e Cazaquistão no centro da Eurásia; c) o direcionamento de gasodutos e ferrovias da Rússia para a China e a Coreia do Norte, incluindo o contrato de US$ 400 bilhões para fornecer gás; d) a desnuclearização do Irã a impedir o planejado ataque israelense àquele país; e) a defesa intransigente de alauitas, xiitas, curdos e cristãos na Síria contra o sunismo.

Três movimentos iranianos, esclarecem o conflito: a) a renúncia à bomba atômica; b) o apoio ao Iraque chiita, em caso de divisão, a leste e a sul de suas fronteiras; c) a manutenção política do Hesbolah (o Exército de Deus) na Síria e no Líbano. A China também movimentou-se: a) fez um tratado histórico com a Rússia, dissipando a intriga de que lhe cobiçava a Sibéria asiática; b) convocou Putin para formar o grupo eurasiano, assinar a construção do gasoduto sino-russo e assegurar ao Irã a compra do seu petróleo.

A Eurásia tem uma população de 1,4 bilhão na China; 220 milhões na Bielo Rússia, na Rússia e no Cazaquistão; 80 milhões no Irã, num total de 1,7 bilhão de pessoas, além de 90% das terras raras do mundo, 60% dos minerais, força atômica, água, gás, petróleo e terras aráveis. O bloco é econômico, político e estratégico, daí o cerco que sofre.

O argumento democrático não está em causa. Os waabitas da península arábica são autoritários (as mulheres nem sequer podem dirigir), fornecedores fiéis de petróleo ao Ocidente. Oprimem a democracia no Egito, na Tunísia e na Líbia. Todos os grupos terroristas são sunitas: os talibãs, treinados pelos EUA para lutar contra a URSS; a Al-Quaeda, cujo mentor era de ilustre família saudita; a frente Al-Nusrri e a irmandade muçulmana salafita. Os EUA estão saindo do Oriente próximo e deixando que a Arábia Saudita, o Catar e o Egito estabilizem a região, tornando-a anti-Irã. Os EUA não mas agirão (fingem preocupação).

A Rússia defende decididamente a Síria, alauita (variação do xiismo), o Irã e o Iraque xiita (facção islâmica sem terrorismo), o que agrada à Rússia e à China, por terem fronteiras com comunidades sunitas terroristas. Cinco caças russos já estão em Bagdá, contra o "califado do levante" (o kalifa é uma espécie de papa muçulmano).

De notar as conexões. Primeiro, as "insurreições" na Síria e agora no Iraque exigem recursos permanentes (das monarquias ricas da península arábica) e apoio tático, para desestabilizar dois governos xiitas vitais à segurança do Irã. O problema é que o califado sírio-iraquiano pode perturbar tanto o Irã quanto as monarquias (a irmandade e salafitas egípcios estão infiltrados com doações comunitárias).

Segundo, o bloqueio do gás russo. A Bulgária paralisou as obras de um novo gasoduto construído pela Rússia - sem passar pela Ucrânia - para a Europa. Autoridades dos EUA obrigaram a Bulgária a parar o projeto. O South Stream elevaria o poder da Rússia em relação à Ucrânia, ao permitir a Moscou suspender o envio de gás sem afetar o suprimento da Europa Central. Dragomir Stoynev crê que o projeto acabará sendo retomado. "Se considerarmos a situação estratégica sem emoções, o projeto South Stream parece irreversível e importante para a Europa e para a Bulgária", disse ele à rádio búlgara.

Terceiro, a subida das tensões no Extremo Oriente. Gideon Rochamn, analista do Financial Times, observa que, nos últimos 30 dias, as marinhas russa e chinesa realizaram exercícios conjuntos, da mesma forma que a dos Estados Unidos e a das Filipinas. O secretário de Defesa dos EUA e o vice-chefe militar da China no Diálogo de Shangri-lá, em Cingapura, fizeram discursos confrontadores. Chuck Hagel acusou a China de "intimidação e coerção". Pequim respondeu que os EUA e o Japão vêm realizando "desafios e ações provocadoras contra a China". O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, defendeu a lei internacional mas o fez com tal veemência que um observador disse nunca ter visto "ninguém defendendo a paz de forma tão agressiva". São as marés da história. A boa notícia é que os conflitos são localizados. A guerra é geoeconômica.

06 de julho de 2014
Sacha Calmon, Correio Braziliense
 

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