"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O CORRETO USO DO PAPEL HIGENICO


Esta é a última crônica escrita por João Ubaldo Ribeiro
 
O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28%, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.
 
Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.
 
Agora me contam que, não sei se em algum Estado ou no País todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabete e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o Estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.
 
Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente.
 
Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma – chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote –, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.
A manifestação humana da Simpatia.
Vai fazer falta! 
Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social.
 
Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.
 
 
25 de julho de 2014

POR QUE GOVERNOS DE ESQUERDA FAZEM POLÍTICAS NEO-LIBERAIS


 Artigos - Economia 
Na Venezuela, Maduro e os chavistas discutem se devem aplicá-las ou não e na Argentina, Cristina sempre teve suas dúvidas. Porém, são políticas que desde há anos os governos de Ortega na Nicarágua, Santos na Colômbia, Correa no Equador, Humala no Peru, Morales na Bolívia, Tabaré e “Pepe” no Uruguai, e igualmente Lula e Dilma no Brasil, por exemplo, as aplicam.
 
“Neo” liberais significa mais ou menos inspiradas no Consenso de Washington (CdeW) dos anos 90, uma lista de “recomendações de política”, que na ocasião os burocratas do FMI e do Banco Mundial viram como “viáveis e sustentáveis”, quer dizer: aceitáveis pelos principais atores.
 
São 10, e se resumem assim: 1. Disciplina fiscal e orçamento em equilíbrio, 2. priorizar o gasto público: em medicina básica, educação primária, infra-estrutura, 3. impostos: baixar taxas para subir a arrecadação, 4. tipos de juros: livres, 5. taxa de câmbio: “competitiva”, 6. substituir barreiras quantitativas às importações por taxas alfandegárias e depois reduzi-las pouco a pouco até 10% ou 20% na média, 7. alentar todo o investimento estrangeiro direto, 8. privatizar empresas estatais, 9. eliminar barreiras legais à entrada e saída nos mercados e 10. reforçar direitos de propriedade. Até aqui diz o CdeW.
 
As principais razões dos governos socialistas para fazer estas políticas são quatro:
(I) A primeira é que o marxismo econômico eles já fizeram: aplicaram-no até onde se podia, entre os anos 1930 e 1970 mais ou menos, em quase todos os países do mundo.
 
Marxismo econômico é aquele “Programa Mínimo” do “Manifesto Econômico” de 1848, redigido por Marx e Engels. Constava de dez pontos que convém lembrar: 1. a “reforma agrária”, 2. o imposto progressivo aos ingressos, 3. o imposto às heranças, 4. a estatização das grandes empresas e companhias estrangeiras, 5. o Banco Central com seu monopólio de emissão, 6. transportes do Estado, 7. empresas de propriedade estatal e indústrias e comércios sob o controle do governo, 8. leis salariais e sindicais, 9. imposto aos lucros extraordinários, 10. educação pública socializada.
 
Isto é comunismo, embora em “grau mínimo”, segundo Marx e Engels. Deve-se acrescentar a medicina socializada, ponto que eles viram “muito avançado” para um programa “mínimo”. E a questão é que já fizeram tudo isto, há anos, e muitas destas políticas estão vigentes e são vistas como normais, correntes, inclusive parte integral e intocável do sistema “capitalista”.
 
O “laissez faire” já não existe porque os socialistas o suprimiram há muito tempo e, em troca, impuseram uma ditadura estatal à economia, embora só até certo ponto: o ponto no qual já não podem mais “avançar” sem cair na tragédia do parasita que mata o organismo hospedeiro. Ir além seria exterminar 100% da produção, que quase passa nos anos 70 com o “cepalismo” [1], e por isso retrocederam nos anos 90: privatizaram segundo o CdeW, cedendo nos pontos 4 e 7 do Manifesto. Dois passos atrás, para depois ir três adiante, disse Lenin.
As esquerdas enfrentam o dilema do parasita: têm de comer, então alguém tem de produzir. Assim que ao menos “no momento”, como disse Chávez, os socialistas pactuaram com os mercantilistas, velhos e novos, respeitaram seus privilégios, em troca de seguir produzindo sob as condições ditadas pelos socialistas, que comem dos altos impostos que eles e a classe média pagam. E para isso, o CdeW serve.
 
(II) Segunda razão: as políticas do CdeW não são muito liberais, são só um remédio para os piores resultados do “cepalismo” dos anos 70, ou seja, o barril sem fundo das empresas estatais e a diluviana impressão de cédulas, cujos efeitos pretendiam “conter” com meios grosseiros: controles de preços, de câmbios e tipos de juros. Até aí. Porém, o CdeW não é incompatível com um “Grande Estado” educador, médico, banco-centralista e regulamentador. Não figura a tripla redução do governo em funções, em poderes e em gastos, como seria se de verdade a lista tivesse sido inspirada no liberalismo clássico.
 
É um ticket de saída daquele velho estatismo selvagem de Allende, Cámpora, J. J. Torres, Velazco Alvarado e Alan García I (primeiro mandato), e de entrada a um estatismo mais “prolixo”, social-mercantilista: no contexto do “Pacto Social” com os empresários mercantilistas, nacionais ou estrangeiros. Por isso já nos anos 90 estas políticas foram seguidas pelos líderes e governos surgidos dos partidos nacional-populistas e de esquerdas, todos anti-liberais, como o PRI no México, o APRA no Peru, o MNR e o MIR na Bolívia, o Peronismo na Argentina, etc. Porque o CdeW não tem nada de liberalismo! Deve-se chamar “Neo” mercantilismo, ou melhor ainda: “Neo” estatismo.
 
(III) A terceira razão é estratégica: adotando a esquerda oficialista, o CdeW desde o governo tira as bandeiras da oposição que, de per si já é muito inepta e incapacitada, mas desta maneira fica totalmente desorientada, paralisada e muda, catatônica, sem saber o que fazer, o que pensar nem o que decidir. Assim os presidentes do Foro de São Paulo são re-eleitos sem maior dificuldade.
 
(IV) Por fim a quarta: o CdeW é 100% compatível com o marxismo cultural, a prioridade nº 1 destas esquerdas de agora. O marxismo cultural é essa enorme tarefa destrutiva, embora já não da economia senão do casamento, da família (aborto, eutanásia, matrimônio homossexual, etc.), da religião, do “meio-ambiente”, da doutrinação na escola, enfim, todo esse “politicamente correto” do “Socialismo do Século XXI”... que é tema para outro artigo.
 
Nota da tradutora:[1] Cepalismo refere-se à CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), fundada pela resolução 106 do Conselho Econômico e Social da ONU de 25 de fevereiro de 1948, tendo seu nome alterado em 27 de julho de 1948 pata Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.  A CEPAL é uma das cinco comissões regionais das Nações Unidas e sua sede é em Santiago do Chile. Foi fundada para contribuir com o desenvolvimento econômico da América Latina, coordenar as ações dirigidas à sua promoção e reforçar as relações econômicas dos países entre si e com as demais nações do mundo. Posteriormente seu trabalho se ampliou aos países do Caribe e se incorporou o objetivo de promover o desenvolvimento social.
 
25 de julho de 2014
Alberto Mansueti é advogado e cientista político – http://albertomansueti.com/.
Tradução: Graça Salgueiro

A DESTRUIÇÃO DA INTELIGÊNCIA

Artigos - Cultura

 

Poucas coisas são tão grotescas quanto a coexistência pacífica, insensível, inconsciente e satisfeita de si, da afetação de inconformismo com a subserviência completa à autoridade de um corpo docente.

Aprender, imitar e introjetar o vocabulário, os tiques e trejeitos mentais e verbais da escola de pensamento dominante na sua faculdade é, para o jovem estudante, um desafio colossal e o cartão de ingresso na comunidade dos seus maiores, os tão admirados professores.
 
A aquisição dessa linguagem é tão dificultosa, apelando aos recursos mais sutis da memória, da imaginação, da habilidade cênica e da autopersuasão, que seria tolo concebê-la como uma simples conquista intelectual. Ela é, na verdade, um rito de passagem, uma transformação psicológica, a criação de um novo “personagem”, apoiado no qual o estudante se despirá dos últimos resíduos da sentimentalidade doméstica e ingressará no mundo adulto da participação social ativa.
 
É quase impossível que essa identificação profunda com o personagem aprendido não seja interpretada subjetivamente como uma concordância intelectual, ao ponto de que, no instante mesmo em que repete fielmente o discurso decorado, ou no máximo faz variações em torno dele, o neófito jure estar “pensando com a própria cabeça” e “exercendo o pensamento crítico”.
 
A imitação é, com certeza, o começo de todo aprendizado, mas ela só funciona porque você imita uma coisa, depois outra, depois uma infinidade delas, e com a soma dos truques imitados compõe no fim a sua própria maneira de sentir, pensar e dizer.
 
No aprendizado da arte literária isso é mais do que patente. O simples esforço de assimilar auditivamente a maneira, o tom, o ritmo, o estilo de um grande escritor já é uma imitação mental, uma reprodução interior daquilo que você está lendo. A imitação torna-se ainda mais visível quando você decora e declama poemas, discursos, sermões ou capítulos de uma narrativa. Porém nas suas primeiras investidas na arte da escrita é impossível que você não copie, adaptando-os às suas necessidades expressivas, os giros de linguagem que aprendeu em Machado de Assis, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Balzac, Stendhal e não sei mais quantos. Esse exercício, se você é um escritor sério, continua pela vida a fora. Quando conheci Herberto Sales – que Otto Maria Carpeaux julgava o escritor dotado de mais consciência artística já nascido neste país --, ele estava sentado no saguão do Hotel Glória com um volume de Proust e um caderninho onde anotava cada solução expressiva encontrada pelo romancista, para usá-la a seu modo quando precisasse. Já era um homem de setenta e tantos anos, e ainda estava praticando as lições do velho Antoine Albalat.[1] É assim, por acumulação e diversificação dos recursos aprendidos, que se forma, pari passu com a evolução natural da personalidade, o estilo pessoal que singulariza um escritor entre todos. T. S. Eliot ensinava que um escritor só é verdadeiramente grande quando nos seus escritos transparece, como em filigrana, toda a história da arte literária.
 
Em outros tipos de aprendizado, a imitação é ainda mais decisiva. Nas artes marciais e na ginástica, quantas vezes você não tem de repetir o gesto do seu instrutor até aprender a produzi-lo por si próprio! Na música, quantas performances magistrais o pianista não aprende de cor até produzir a sua própria!
Nas ciências e na tecnologia, o manejo de equipamentos complexos nunca se aprende só em manuais de instrução: o aluno tem de ver e imitar o técnico mais experiente, num processo de assimilação sutil que engloba, em doses consideráveis, a transmissão não-verbal. [2]
 
Por que seria diferente na filosofia? Compreender uma filosofia não se resume nunca em ler as obras de um filósofo e julgá-las segundo uma reação imediata ou as opiniões de um professor. É impregnar-se de um modo de ver e pensar como se ele fosse o seu próprio, é olhar o mundo com os olhos do filósofo, com ampla simpatia e sem medo de contaminar-se dos seus possíveis erros. Se desde o início você já lê com olhos críticos, buscando erros e limitações, o que você está fazendo é reduzir o filósofo à escala das suas próprias impressões, em vez de ampliar-se até abranger o “universo” dele. Erros e limitações não devem ser buscados, devem surgir naturalmente à medida que você assimila novos e novos autores, novos e novos estilos de pensar, pesando cada um na balança da tradição filosófica e não da sua incultura de principiante.
 
Não seria errado dizer que, entre outros critérios, um professor de filosofia deve ser julgado, sobretudo, pelo número e variedade dos autores, das escolas de pensamento, das vias de conhecimento que abriu em leque para que seus estudantes as percorressem.[3]
 
Não é preciso mais exemplos. Em todos esses casos, a imitação é o gatilho que põe em movimento o aprendizado, e em todos esses casos ela não se congela em repetição servil porque o aprendiz passa de modelo a modelo, incorporando uma diversidade de percepções e estilos que acabarão espontaneamente se condensando numa fórmula pessoal, irredutível a qualquer dos seus componentes aprendidos.
 
Mas o que acontece se, em vez disso, o aluno é submetido, por anos a fio, à influência monopolística de um estilo de pensamento dominante, aliás muito limitado no seu escopo e na sua esfera de interesses, e adestrado para desinteressar-se de tudo o mais sob a desculpa de que “não é referência universitária”?
 
Se durante quatro, cinco ou seis anos você é obrigado a imitar sempre a mesma coisa, e ainda temendo que o fracasso em adaptar-se a ela marque o fim da sua carreira universitária, a imitação deixa de ser um exercício temporário e se torna o seu modo permanente de ser – um “hábito”, no sentido aristotélico.
 
É como um ator que, forçado a representar sempre um só personagem, não só no palco mas na vida diária, acabasse incapaz de se distinguir dele e de representar qualquer outro personagem, inclusive o seu próprio. Pirandello explorou magistralmente essa situação absurda na peça Henrique IV, onde um milionário louco, imaginando ser o rei, obriga os empregados a comportar-se como funcionários da côrte, até que eles acabam se convencendo de que são mesmo isso.
 
Toda imitação depende de uma abertura da alma, de uma impregnação empática, de uma suspension of disbelief em que o outro deixa de ser o outro e se torna uma parte de nós mesmos, sentindo com o nosso coração e falando com a nossa voz. Se praticamos isso com muitos modelos diversos, sem medo das contradições e perplexidades, nossa mente se enriquece ao ponto do nihil humanum a me alienum, daquela universalidade de perspectivas que nos liberta do ambiente mental imediato e nos torna juízes melhores de tudo quanto chega ao nosso conhecimento. Não é errado dizer que o julgamento honesto e objetivo depende inteiramente da variedade dos pontos de vista, contraditórios inclusive, que podemos adotar como “nossos” no trato de qualquer questão.
 
Em contrapartida, o enrijecimento da alma num papel fixo abusa da capacidade de imitação até corrompê-la e extingui-la por completo, bloqueando toda possibilidade de abertura empática a novos personagens, a novos estilos, a novos sentimentos e modos de ver.
 
Habituado a tomar como referência única o conjunto de livros e autores que compõe o universo mental da esquerda militante, e a olhar com temerosa desconfiança tudo o mais, o estudante não só se fecha num provincianismo que se imagina o centro do mundo, mas perde realmente a capacidade de aprendizado, tornando-se um repetidor de tiques e chavões, caquético antes do tempo.
Quem não sabe que, no meio acadêmico brasileiro, a receita uniforme, há mais de meio século, é Marx-Nietzsche-Sartre-Foucault-Lacan-Derrida, não se admitindo outros acréscimos senão os que pareçam estender de algum modo essa tradição, como Slavoj Zizek, Istvan Meszaros ou os arremedos de pensamento que levam, nos EUA, o nome de “estudos culturais”?
 
Daí a reação de horror sacrossanto, de ódio irracional, não raro de repugnância física, com que tantos estudantes das nossas universidades reagem a toda opinião ou atitude que lhes pareça antagônica ao que aprenderam de seus professores. Não que estejam realmente persuadidos, intelectualmente, daquilo que estes lhes ensinaram. Se o estivessem, reagiriam com o intelecto, não com o estômago. O que os move não é uma convicção profunda, séria, refletida: é apenas a impossibilidade psicológica de desligar-se, mesmo por um momento, do “eu” artificial aprendido, cuja construção lhes custou tanto esforço, tanto investimento emocional.
 
Justamente, a convicção intelectual genuína só pode nascer da experiência, do longo demorado com os aspectos contraditórios de uma questão, o que é impossível sem uma longa resignação ao estado de dúvida e perplexidade. A intensidade passional que se expressa em gritos de horror, em insultos, em afetações de superioridade ilusória, marca, na verdade, a fragilidade ou ausência completa de uma convicção intelectual. A construção em bloco de um personagem amoldado às exigências sociais e psicológicas de um ambiente ideologicamente carregado e intelectualmente pobre fecha o caminho da experiência, portanto de todo aprendizado subseqüente.
 
A irracionalidade da situação é ainda mais enfatizada porque o discurso desse personagem o adorna com o prestígio de um rebelde, de um espírito independente em luta contra todos os conformismos. Poucas coisas são tão grotescas quanto a coexistência pacífica, insensível, inconsciente e satisfeita de si, da afetação de inconformismo com a subserviência completa à autoridade de um corpo docente.
No auge da alienação, o garoto que passou cinco anos intoxicando-se de retórica marxista-feminista-multiculturalista-gayzista nas salas de aula, que reage com quatro pedras na mão ante qualquer palavra que antagonize a opinião de seus professores esquerdistas, jura, depois de ler uns parágrafos de Bourdieu para a prova, que a universidade é o “aparato de reprodução da ideologia burguesa”. Aí já não se trata nem mesmo de “paralaxe cognitiva”, mas de um completo e definitivo divórcio entre a mente e a realidade, entre a máquina de falar e a experiência viva.
 
Se, conforme se observou em pesquisa recente, cinqüenta por cento dos nossos estudantes universitários são analfabetos funcionais[4] – não havendo razão plausível para supor que a quota seja menor entre seus professores mais jovens --,  isso não se deve somente a uma genérica e abstrata “má qualidade do ensino”, mas a um fechamento de perspectivas que é buscado e imposto como um objetivo desejável. 
Não que a presente geração de professores que dá o tom nas universidades brasileiras tenha buscado, de maneira consciente e deliberada, a estupidificação de seus alunos. Apenas, iludidos pelo slogan que os qualificava desde os anos 60 do século XX como “a parcela mais esclarecida da população”, tomaram-se a si próprios como modelos de toda vida intelectual superior e acharam que, impondo esses modelos a seus alunos, estavam criando uma plêiade de gênios. Medindo-se na escala de uma grandeza ilusória, incapazes de enxergar acima de suas próprias cabeças, tornaram-se portadores endêmicos da síndrome de Dunning-Kruger[5] e a transmitiram às novas gerações. Os cinqüenta por cento de analfabetos funcionais que eles produziram são a imagem exata da sua síntese de incompetência e presunção.
        

Notas:
[1] V. Antoine Albalat, La Formation du Style par l'Assimilation des Auteurs (Paris, Alcan, 1901).
[2] V. sobre isso as considerações de Theodore M. Porter em Trust in Numbers. The Pursuit of Objectivity in Science and Public Life,  Princeton University Press, 1995, pp. 12-17.
[3] Digo isso com a consciência tranqüila de haver cumprido esse dever. Ao longo dos anos, introduzi no espaço mental brasileiro mais livros e autores essenciais  do que todos os corpos docentes de faculdades de filosofia neste país, somados aos “formadores de opinião” da mídia popular. Em vez de me agradecer, ou de pelo menos ter a sua curiosidade despertada pela súbita abertura de perspectivas, estudantes e professores, com freqüência, me acusaram de “citar autores desconhecidos” – dando por pressuposto que tudo o que é ignorado no seu ambiente imediato é desconhecido do resto do mundo e não tem a mais mínima importância.
[5] Efeito Dunning-Kruger: incapacidade de comparar objetivamente as próprias habilidades com as dos outros. “Quanto menos você sabe sobre um assunto, menos coisas acredita que há para saber.” V. David McRaney, You Are Not So Smart, London, Oneworld Publications, 2012, pp. 78-81.
 
Publicado no Digesto Econômico.

SEMPRE O MESMO BANDIDO

Lula atuou para que decisão do TCU isentasse Dilma no caso Pasadena

Após a conversa com Lula, José Múcio procurou os colegas de TCU e ponderou que responsabilizar Dilma neste momento eleitoral seria politizar demais o caso


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva comandou a operação do governo para evitar que a presidente Dilma Rousseff fosse responsabilizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por sua participação na compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás. Lula recebeu o ministro do TCU José Múcio Monteiro em um encontro na segunda-feira, em São Paulo, dois dias antes de o assunto entrar na pauta da corte de contas.

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Ex-diretores cobram responsabilidade de Dilma e conselho por perdas de Pasadena

Múcio confirmou ao Estado o encontro, mas negou que tivesse tratado de Pasadena. "Eu estava em São Paulo, não via o ex-presidente Lula desde o ano passado e resolvi fazer uma visita a ele de cortesia. Somos amigos. Não falamos absolutamente em Pasadena, não sabia que estava em pauta. Se eu soubesse, era capaz até de eu ter tocado no assunto. Conversamos sobre política, eleição, Brasil, o governo dele, as perspectivas, blablabá, a vida dele, a minha… conversa de compadre, foi exatamente o que aconteceu", disse.

Após a conversa com Lula, porém, o ministro do TCU procurou os colegas e ponderou que responsabilizar Dilma neste momento eleitoral seria politizar demais o caso, além de repetir a defesa do governo de que a presidente votou a favor da compra da refinaria com base em resumo incompleto sobre o negócio.

Ex-ministro de Relações Institucionais no governo Lula e conterrâneo do ex-presidente, Múcio foi nomeado para o TCU pelo petista. Até o início da semana, havia a expectativa no governo e na campanha de Dilma de que o ministro José Jorge, um ex-pefelista que se transformou no ministro responsável por relatar o caso, iria indicar a responsabilidade dela por ter votado a favor da compra da refinaria como presidente do Conselho de Administração da Petrobrás. Ele responsabilizou o ex-presidente da Petrobrás José Sergio Gabrielli, amigo de Lula, e os demais diretores da petroleira, mas decidiu excluir Dilma.

A interlocutores justificou que foi avisado de que, se incluísse a presidente, seu relatório seria todo rejeitado pela corte. Como havia divergência na área técnica sobre responsabilizar o conselho de administração, seria a justificativa para os votos contrários.
Neste caso, optou por "salvar" o relatório. Assim, o assunto se mantém na pauta do tribunal e da imprensa, uma vez que se inicia a fase de defesa e há a possibilidade de os "punidos" resolverem contar o que não veio à tona até agora.

25 de julho de 2014
Estadão online

DEFESA DE CERVERÓ VAI RESPONSABILIZAR DILMA NO CASO PASADENA

Após decisão do TCU que determinou o bloqueio de bens do executivo, advogado afirma que presidente do conselho na época deveria ter solicitado mais informações sobre a compra



A presidente Dilma Rousseff será o alvo da defesa do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró em sua argumentação contra a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de responsabilizar a antiga diretoria pela compra da refinaria de Pasadena em condições desfavoráveis à estatal.

Presidente do conselho de administração da empresa na época da decisão de compra da usina, Dilma foi inocentada de qualquer responsabilidade pelo Tribunal, que considerou que a presidente não teve o acesso devido às informações sobre as condições do contrato. Em contrapartida, o TCU responsabilizou, na quarta, os diretores pela aquisição e decidiu pelo bloqueio dos seus bens.

O argumento do advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, é que, pelo estatuto da empresa, o conselho de administração é o único responsável por qualquer aquisição. Ele cita trechos do estatuto que exigem do presidente do conselho tomar conhecimento dos detalhes das negociações. "O presidente do conselho pode pedir esclarecimentos sobre os contratos. O resumo executivo é meramente uma apresentação, um suplemento ao que é obrigatório", afirmou.


Dilma, em resposta à reportagem do Estado de março deste ano, disse não ter sido informada de cláusulas do contrato consideradas inapropriadas. São elas a de Put Option, que prevê que, em caso de desentendimento entre os sócios, a Petrobrás seria obrigada a adquirir a totalidade das ações da refinaria; e a Marlim, que determina que a Astra Oil, então sócia da estatal na usina, teria a garantia de retorno financeiro de 6,9% ao ano.

"O ministro relator foi induzido ao erro. Ele partiu de um pressuposto falso, que inúmeras vezes repetido, passou como se fosse verdadeiro. É falsa a declaração de Dilma de que o resumo executivo das condições de compra de Pasadena era técnica e juridicamente falho. Essa argumentação acabou responsabilizando quem não deveria ser responsabilizado, os diretores", argumentou Ribeiro.

Ele diz que a diretoria, na época, encaminhou documentação sobre as condições do contrato à secretaria-geral da Petrobrás, que tem como obrigação encaminhá-la ao conselho para apreciação. "Se a secretaria não encaminhou, os conselheiros não poderiam ter decidido pela compra", contestou.

25 de julho de 2014
Estadão online

AÉCIO JÁ BATE DILMA NAS APOSTAS DE DUAS CONSULTORIAS FINANCEIRAS

MCM Consultores e Nomura Securities acreditam que o candidato tucano tem mais chances de ser o próximo presidente da República



A MCM Consultores passou a atribuir uma probabilidade de 60% de derrota de Dilma Rousseff na eleição presidencial em outubro. Desde abril, a consultoria trabalhava com um cenário de probabilidade equivalente à reeleição e à vitória da oposição. Em relatório distribuído na quarta-feira, 23, os analistas da MCM rebaixaram as chances da presidente e agora trabalham com uma probabilidade de 60%-40% contra a reeleição.

A consultoria é a segunda instituição financeira a divulgar relatório a clientes apostando publicamente na derrota da presidente Dilma nas eleições presidenciais. A primeira instituição foi a corretora japonesa Nomura Securities, que na quarta-feira, após a pesuisa Ibope/Estadão, aumentou a probabilidade de vitória do candidato tucano Aécio Neves para 70%. No dia 11 de junho, a Nomura Securities já havia atribuído uma probabilidade de 60% de vitória do tucano num segundo turno da eleição presidencial.

“Não estamos declarando taxativamente, é bom esclarecer, que a presidente Dilma não se reelegerá. Longe disso. É muito cedo. A campanha ainda nem começou efetivamente”, escreveram os analistas da MCM na nota enviada a clientes ontem. “Contudo, a nosso juízo, já existem elementos suficientes para atribuir mais probabilidade de vitória à oposição do que à candidatura governista.”

Segundo a MCM, as últimas pesquisas Datafolha e Ibope representaram um ponto de virada (“turning point”) para o novo cenário, agora desfavorável à reeleição. “Ambas mostraram continuidade na tendência de encurtamento da vantagem de Dilma frente a Aécio Neves e Eduardo Campos no segundo turno e aumento da diferença entre a rejeição à presidente e aos candidatos de oposição”, afirmaram os analistas.

Além das pesquisas, destacou a MCM, a mudança de cenário também levou em conta a piora do quadro econômico, “sintetizado pelo resultado decepcionante do último Caged (abertura de apenas 25 mil vagas de trabalho em junho), os sinais de forte rejeição ao PT no Sudeste – de maneira mais acentuada em São Paulo -, e a baixa competitividade das candidaturas petistas nos estados mais importantes do país, excetuando-se Minas Gerais, onde Fernando Pimentel lidera as pesquisas”.

Segundo a MCM, os fatores que beneficiam a candidatura Dilma não desapareceram, entre os quais mais tempo de propaganda no rádio e na televisão, forte apoio entre os eleitores mais pobres, possibilidade de explorar no horário eleitoral gratuito os programas federais voltados principalmente aos eleitores de baixa renda e o apoio do ex-presidente Lula.

“Considerando a evolução do quadro econômico e político e suas perspectivas futuras, avaliamos que, neste momento, os elementos favoráveis à presidente Dilma são insuficientes para atribuirmos à reeleição maior probabilidade de sucesso do que de fracasso”, escreveram os analistas da consultoria.

25 de julho de 2014
Estadão online
 

ACREDITE SE QUISER...

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25 de julho de 2014
Enviado por Salvador Mazzetto

BRASIL ESTÁ SE PREPARANDO PARA ROMPER RELAÇÕES COM ISRAEL?

Israel critica governo do Brasil chamando-o de “anão diplomático” por convocar seu embaixador para protestar contra operação israelense antiterrorismo

Jerusalem Post
 
O governou socialista do Brasil nesta quinta-feira convocou seu embaixador em Israel para consultas em protesto contra a operação da IDF (Força de Defesa de Israel) contra o grupo terrorista islâmico Hamas na Faixa de Gaza.
 
 
Uma declaração emitida pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse que o Brasil considera a “escalada de violência entre Israel e Palestina” como inaceitável. “Nós condenamos fortemente o uso desproporcionado de força por parte de Israel na Faixa de Gaza.”
 
O Ministério das Relações Exteriores de Israel imediatamente reagiu à atitude do governo brasileiro.
 
“Esta é uma prova lamentável do motivo por que o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático,” disse Yigal Palmor, porta-voz do Ministério do Exterior de Israel.
 
Palmor acrescentou: “O relativismo moral por trás dessa atitude faz do Brasil um parceiro diplomático irrelevante, um país que cria problemas em vez de contribuir para soluções.” 
Durante a Operação Chumbo Fundido em 2008-2009, o governo socialista da Bolívia convocou seu embaixador para consultas, que foi um prelúdio para o posterior rompimento de relações diplomáticas.
 
O Brasil também está se preparando para romper suas relações com Israel?
O Brasil foi um dos 29 países no Conselho de Direitos Humanos da ONU que votaram para a ONU investigar as ações de Israel contra terroristas islâmicos em Gaza (17 países se abstiveram, e apenas os EUA se opuseram).
 
Uma autoridade israelense disse que o representante do Brasil no conselho tratou Israel de forma particularmente “má” ao dar um discurso no conselho.
Como cidadão brasileiro, peço perdão pelo modo maligno com que Israel foi tratado pelo governo socialista brasileiro na ONU.
 
Em sua inimizade ideológica para com Israel, o governo brasileiro não representa a mim nem a milhões de cristãos que apoiam Israel.
 
A diplomacia brasileira tem sido pior que um anão. Tem sido um desastre. O governo socialista da Venezuela vem massacrando seus próprios estudantes, que protestam contra os abusos de direitos humanos, e o governo brasileiro tem de forma burra ficado do lado do governo, não do povo, da Venezuela.
 
Se o Brasil quer usar sua posição na ONU para ser “mau” com uma nação, deveria escolher a Venezuela, a China ou Cuba, não Israel.
Se o Brasil romper suas relações com Israel, eu e minha família renunciaremos à nossa cidadania brasileira.
 
25 de julho de 2014
Com informações do Jerusalem Post.
 
Versão em inglês deste artigo:
 
Fonte: julio severo
 
Leitura recomendada:

ANÃO?! AH! NÃO!!!

 

Anao 1
 
Sem paz

 No conflito entre israelenses e palestinos, a paz é o que menos parece interessar. A nenhuma das partes calharia bem. Ambos os lados dependem crucialmente da ajuda internacional, que vem dos EUA para Israel e da União Europeia para a Palestina. Se a conflagração sumir do radar, a atenção internacional se voltará para outros pontos e as doações perigam minguar. Convém alimentar o conflito.
 
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Resoluções ONU

 Dezenas de resoluções já foram votadas na ONU, tanto na Comissão de Direitos Humanos quanto em plenário. Têm sido falatório estéril, de efeito nulo. O Brasil, membro fundador da organização, deveria saber disso. Quando dois insistem em brigar, não há força que se possa interpor.
 
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O voto de 23 de julho

 Nesta enésima votação, os 47 países que compõem a Comissão de Direitos Humanos da ONU votaram da seguinte maneira:
A favor (29):
África do Sul, Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Brasil, Casaquistão, Chile, China, Congo, Costa Rica, Costa do Marfim, Cuba, Emirados Árabes, Etiópia, Filipinas, Índia, Indonésia, Kuwait, Maldivas, Marrocos, México, Namíbia, Paquistão, Peru, Quênia, Rússia, Serra Leoa, Venezuela e Vietnam.
Contra (1):
EUA.
Abstenções (17):
Alemanha, Áustria, Benin, Botsuana, Burkina Faso, Coreia do Sul, Estônia, França, Gabão, Irlanda, Itália, Japão, Macedônia, Montenegro, Reino Unido, República Tcheca, Romênia.
 
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A escolha brasileira

 O mais prudente teria sido abster-se de votar ― foi o que fizeram países mais lúcidos. Sabem que, de qualquer maneira, não vai servir para nada. Diplomacia é arte sutil que não se exerce à luz do sol em mesas com 47 participantes, luzes, câmera e ação. O Brasil decidiu acompanhar a maioria. Até aí, nada de extraordinário. De qualquer maneira, o resultado prático da gesticulação será igual a zero.
 
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Anao 1
 
O exibicionismo equatoriano

 O Equador, que nem parte da Comissão é, chamou seu embaixador em Israel para consultas. Isso, em linguagem diplomática, é demonstração de forte desagrado, degrau que precede o rompimento de relações.
Como vinha do Equador, o gesto não rendeu nem noticia de rodapé em site de segunda classe.
 
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A imprudência brasileira

 O Planalto resolveu seguir o exemplo do pequeno Equador. Chamou de volta seu embaixador em Israel. Foi mais longe: convocou o embaixador israelense em Brasília para expressar-lhe, de viva voz, o profundo descontentamento do Planalto.
 
É interessante notar o ensurdecedor silêncio brasileiro diante de outras barbaridades tais como prisioneiros políticos em Cuba, lapidação de mulheres iranianas, abate de avião de linha na fronteira russo-ucraniana.
 
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O descontrole israelense

 Tivesse o Brasil se contentado em votar a favor da resolução, o assunto estaria encerrado. No entanto, o fato de ter seguido o exemplo do pequenino Equador, teve o poder de irritar o governo de Israel.
 
Num espantoso descontrole, o porta-voz do governo de Jerusalém cometeu a arrogância de atribuir ao Brasil o epíteto de «political dwarf» ― anão político. Cá entre nós, e que ninguém nos ouça: o que o homem disse não é mentira. Sabemos todos que a grande diplomacia brasileira começou e terminou com o Barão do Rio Branco.
 
O problema é que o porta-voz israelense feriu um princípio universal: eu posso falar mal da minha família, mas você, não. Em outras palavras: certas verdades, embora conhecidas por todos, não devem ser ditas em voz alta. Uma fala tem de ser politicamente correta.
 
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Anao 1
 
As consequências

 Com suas palavras, o governo israelense despertou a ira do povo brasileiro inteiro. Nada como um inimigo comum para federar as forças de uma nação.
A empáfia das autoridades israelenses periga surtir efeito contrário ao que eles imaginavam. Pode até reforçar o apoio do povo brasileiro à posição do Itamaraty e do Planalto. Estamos a menos de três meses de eleições gerais. Um povo, quando se sente agredido, tende a renovar sua confiança naqueles que mostram disposição para defendê-lo.
 
Em resumo: o diferendo com Israel é uma bênção para a campanha de dona Dilma. Bem explorado, o sucedido pode render-lhe a simpatia e a adesão de muitos indecisos.
 
25 de julho de 2014
José Horta Manzano

A HORA DOS BRICS




Irônica às vezes, mas nunca desatenta, a história não desperdiça oportunidades, em sua caminhada pelo tempo, para estabelecer mudanças, que às vezes se tornam prementes, no contexto da disputa dos povos e nações pelo poder.

Quando foi criado pelo economista Jim O’ Neill, do Goldman Sachs, o termo BRIC, hoje, BRICS, estava voltado para orientar especuladores e “investidores” para a obtenção de rápidos lucros, investindo em países de grande potencial de crescimento nos primeiros anos do Século XXI.

Certamente, ao criar o termo, O’ Neill não percebeu que, ao reunir em uma mesma sigla, quatro das maiores nações do mundo em território e população, elas poderiam descobrir, entre si, afinidades e pontos de contato mais profundos, que as características marcadamente econômicas que atraíam os clientes de sua empresa de consultoria em 2001.

Se tivesse parado para pensar, um pouco mais, na ocasião, em termos geopolíticos, ele poderia ter percebido que esses países não demorariam a se unir sob um ponto comum: o fato de todos terem sido dominados, explorados, e tido seu desenvolvimento tolhido, no passado, pelas alianças estabelecidas pelos países mais ricos, ao longo dos séculos XIX e XX, para assegurar seu domínio político e econômico sobre o resto da humanidade.

ÁFRICA DO SUL

Em junho de 2003, por iniciativa brasileira, criou-se, em Brasília, o IBAS, um fórum de diálogo sul-sul, entre Brasil, Índia, e – premonitoriamente – a África do Sul. Exatamente seis anos depois, em 16 de junho de 2009, o então BRIC, reunindo Brasil, Rússia, Índia e China, faria sua primeira  Cúpula Presidencial na cidade russa de Ekaterinemburg, à qual se seguiriam os encontros de Brasília, em 2010, Sanya, na China, em 2011 – quando incorporou-se a África do Sul – Nova Déli, na Índia, em 2012,  Durban, na África do Sul, em 2013, e, agora, Fortaleza, Brasil, em 2014. Reunião na qual, pela primeira vez, o Grupo BRICS estabelece mecanismos comuns de atuação, apresentando-se, sem subterfúgios, não mais como um acrônimo econômico, mas como uma aliança geopolítica de alcance mundial, que pode vir a influenciar, decisivamente, a evolução do mundo, nos próximos anos.

A imprensa ocidental sempre se dedicou, nos últimos anos, a desestimular e desacreditar o BRICS, apresentando-o como um saco de gatos de nações contraditórias e em certos termos concorrentes e como uma marca a mais, em um planeta por si só já pródigo em siglas de todo tipo, a maioria tão decorativas quanto inoperantes.

O estreitamento paulatino dos laços diplomáticos, comerciais e de defesa entre os BRICS, e, agora, o lançamento de seu banco, e de um fundo de reservas, com um montante de 150 bilhões de dólares, representa o primeiro desafio concreto à hegemonia ocidental nos últimos 200 anos. Abre caminho para um mundo novo, multipolar, mais justo, mais equilibrado.
 

ROMÁRIO DETONA CONTRATAÇÃO DE DILMAR RINALDI: "VAI FAZER DA CBF UM BANCO DE NEGÓCIOS"





Romário foi às redes sociais manifestar insatisfação com a contratação de Gilmar Rinaldi ao cargo de coordenador-geral da CBF. Colega do novo dirigente da entidade na conquista do tetracampeonato mundial, em 1994, o deputado federal pelo Rio de Janeiro fez duras críticas à contratação.

— Galera, só pode ser uma dessas duas coisas: sacanagem ou pegadinha. É inadmissível Gilmar Rinaldi ser escolhido para assumir o cargo de diretor/coordenador de Seleções da CBF. O cara é empresário de vários jogadores. Tive o desprazer de trabalhar com ele no Flamengo, é incompetente e sem personalidade — afirmou, antes de completar:

— Posso afirmar que Rinaldi vai fazer da CBF um banco de negócios para defender os seus interesses. Só os ratos do Marin e Del Nero para escolherem uma pessoa como essa. Para piorar, ele ainda é agente da FIFA.

Romário jogava no Flamengo em 1999, quando Rinaldi era dirigente. Na época, o ex-atacante saiu da concentração para uma noitada em Caxias do Sul após derrota para o Juventude, o que resultou em sua saída do clube.

25 de julho de 2014
Deu no Zero Hora

O QUE DEVEMOS FAZER AGORA É REFLETIR SOBRE O FUTURO DO PAÍS


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O ideal seria pôr fim logo ao sofrimento que a Copa do Mundo nos propiciou, mas falta ainda uma simples observação. No início do mês, a presidente da República, Dilma Rousseff, fez esta infeliz analogia: “Meu governo é padrão Felipão”.
Dias depois, se deixou fotografar usando a mão direita como haste e o antebraço esquerdo como travessão, formando o “T” do “Tóis” – uma palavra mágica inventada pelo jogador Neymar, que, segundo minha neta, significa o mesmo que “Nóis” –, uma corruptela do pronome “nós” (primeira pessoa do plural de ambos os gêneros).

A presidente pode até ter resistido à tentação, mas, orientada pelo seu ministro marqueteiro, se decidiu, já no fim, pelo uso do futebol em favor da sua reeleição. E outra vez errou. Esqueceu-se de que o esporte não deve servir à política nem ser usado por ela.

Confesso que, antes do início da Copa, sonhava com o astral do povo brasileiro lá no alto. Imaginei o melhor dos mundos: uma final entre Brasil e Costa Rica. Se o Brasil vencesse, o bom astral continuaria alto; se o excelente time de Costa Rica fosse vitorioso, o bom astral não seria tão afetado.
Pessoalmente, eu até sentiria um pouco de orgulho pela seleção costa-riquenha, que, na dura luta contra a Holanda, ao contrário do que nos aconteceu, deixou honrosamente o gramado.

É preciso dizer, então, leitor, que a dor das pauladas que tomamos precisa de tempo para passar.
E, quando a ferida fechar, a cicatriz não desaparecerá, viverá meio século ou, talvez, um século inteiro. Ou – o mais provável – ficará “per omnia seacula seaculorum”…

Como disse certa vez o professor, escritor e ex-senador Edgard Godoy da Mata Machado, mas por motivos bem mais sérios do que uma simples derrota no futebol, “sofrer passa, o que não passa nunca é ter sofrido”. Somente o tempo, nada mais, saberá pensar a ferida que se abriu no coração do outrora alegre povo brasileiro.

COLAPSO NERVOSO

Li tudo, ou quase tudo, sobre a dura paulada que a Alemanha nos deu. Finalmente, na última quinta-feira, encontrei alguém também lúcido. Após afirmar (como tem dito o nosso Tostão, o melhor comentarista da Copa) que “o Brasil parou no tempo”, o ex-jogador Pierre Littbarski, vice-campeão mundial em 1990, analisou assim o desastre e soube ainda apontar sua maior causa: “A seleção brasileira sofreu um colapso nervoso e perdeu inteiramente o controle na partida contra a Alemanha”.

O craque, que hoje trabalha no Wolfsburg (clube do volante Luiz Gustavo), lamentou que o “jogo do século” terminasse como terminou: “Sem um meio de campo compacto, não recebeu uma orientação de emergência (do Felipão) para mudar a tática quando o placar chegou a 2 a 0”. Não sei se ele diria o mesmo após a paulada da Holanda. Lá se viu: o colapso não foi só da seleção, é do nosso futebol.

Logo após a primeira e terrível paulada (7 a 1), alguns políticos já se apresentaram com sugestões estapafúrdias. O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, por exemplo, querendo melhorar o que antes dissera a presidente Dilma Rousseff, abriu sua esfarrapada cartilha e sugeriu a intervenção do Estado no futebol. Menos, ministro. É preciso pensar bastante antes de falar. Ou o que o seu governo deseja é acabar com o nosso futebol?

O que devemos fazer agora, ministro, além de refletir sobre o futuro do nosso país, é reconhecer que, se não fosse o povo brasileiro, essa Copa teria sido um desastre ainda maior fora de campo! E queremos as contas, a partir do Itaquerão!

(transcrito de O Tempo)

25 de julho de 2014
Acílio Lara Resende