"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

domingo, 6 de outubro de 2013

MARINA ACERTA AO ACUSAR "CHAVISMO" DO PT E PÕE FIM AO ESFORÇO DE LULA

Líder da Rede acerta ao acusar “chavismo” do PT e põe fim ao esforço de Lula de eliminar uma terceira força da disputa de 2014

Comecemos pela maior de todas as evidências: a entrada de Marina Silva no PSB, ainda que pro-tempore, demonstra como estavam errados, na situação e na oposição, os que tentaram definir os times dois anos antes do jogo. A observação vale para Lula e para FHC, para citar os respectivos técnicos do PT e do PSDB. ATENÇÃO! Estamos, neste sábado, a exato um ano do primeiro turno, marcado para o dia 5 de outubro de 2014.
E se deu, desde que se fala no assunto, o fato mais importante do processo. Marina acaba de se filiar formalmente ao partido liderado por Eduardo Campos — segundo ela, trata-se do “Plano C” (“C” de Campos, entenderam?). Organizou-se, para tanto, uma cerimônia em que ambos discursaram.
Se o observador se deixa levar pelo calor da hora, acaba concluindo que teve início uma marcha cujo desfecho é o triunfo. A tarefa é bem mais difícil do que parece. Chegarei lá em outro post. Destaco, como segundo dado relevantíssimo, uma crítica que Marina fez ao PT. Que dimensão ela vai tomar? É o que veremos no decorrer dos meses.
 
Na conversa que manteve com seus pares para tomar uma decisão, a ex-senadora, segundo revelaram interlocutores seus à imprensa, teria afirmado:

“Eu fiz esse acerto com o Eduardo Campos porque chegou a um ponto que eu não tinha outra alternativa. E o PSB é um partido sério. A minha briga, neste momento, não é para ser presidente da República; é contra o PT e o chavismo que se instalou no Brasil”.
 
Se Marina disse mesmo isso — e tudo indica que sim, porque as fontes variam, com conteúdo muito parecido —, então, pela primeira vez, eu a aplaudo. Eu, que não gosto das imprecisões de seus discursos, que considero que ela tem um pé no messianismo, que rejeito certas concepções de política que me parecem um tanto delirantes, afirmo: ela está certa ao apontar as tentações chavistas do petismo. Marina também teria dito que o PT tem mais de dois mil militantes espalhados na rede para desmoralizá-la.
 
É verdadeira a existência dessa máquina maligna, mas Marina não é seu único alvo. Qualquer força política que tenha a coragem de expressar um pensamento que o partido, ou seus esbirros, considerem contrários a seus interesses, passa a ser alvo dos ataques mais sórdidos: políticos de oposição, imprensa em geral e alguns jornalistas em particular.
 
Nada escapa. A máquina de difamação dolosa, financiada por estatais e por gestões petistas, expressa o auge dos delírios totalitários do partido. Se uma das motivações de Marina para se juntar temporariamente ao PSB é a constatação de que é preciso vencer esse esquema criminoso, então a sua decisão tem o meu respeito e o meu apreço — ainda que eu não goste de quase nada do que ela diz, com especial ênfase para as suas preferências poéticas.
Ocorre que a divergência sobre poesia é menos relevante do que as questões substanciais, e combater o chavismo petista é uma dessas questões substanciais.
 
Essa aliança, que ela chama programática — mas que é, no fundo, pragmática (já digo por quê) —, tem algumas implicações, que precisam ser pensadas.
 
1: Candidatura de Eduardo Campos ganha densidade
 
 
Parece evidente que, no terreno político ao menos — vamos ver como reagem os eleitores —, a candidatura de Eduardo Campos à Presidência da República ganha densidade política. Em muitos aspectos, Marina lhe fornece um conjunto de valores — coisa fundamental em política, como insisto há bem uns 20 anos — de que ele carecia.
Embora o governador de Pernambuco tenha excelente trânsito na imprensa, circule com desenvoltura no mundo empresarial, lidere uma gestão muito bem avaliada em Pernambuco, eu não via, e ninguém via, por onde poderia excitar o imaginário do eleitorado.
Dizer apenas que pode fazer melhor do que Dilma, que decide com mais desenvoltura, que é mais competente, bem, tudo isso, convenham, tinha muito pouco apelo.
 
2: Fratura do bloco hegemônico

Vocês sabem o que eu penso e o quanto lastimo a inexistência de um partido conservador forte no Brasil. Creio que está aí uma das raízes dos nossos desatinos. E esse partido inexiste justamente porque, exceção feita ao PT, as legendas brasileiras ou se perdem no administrativismo sem imaginação ou se entregam a miudezas fisiológicas — inclusive o PSB — sem apelar para conteúdos simbólicos, que marquem a adesão a uma visão de mundo. O PT comete, com ainda mais dedicação, garra e profissionalismo, todos os pecados da política, mas não se descuida dessa mística. Marina é uma liderança que se desgarrou do PT e que sabe operar essa tal esfera dos valores. Tanto é assim que a Rede, do ponto de vista ideológico, é um saco de gatos de várias cores, mas tem essa sacerdotisa que os une. Marina agrega à candidatura de Eduardo Campos um universo simbólico que, até havia pouco, ela não tinha.
 
Ora, pensemos um pouco: a ex-senadora vem do petismo; Campos, ele próprio, é uma das forças que se agregaram ao projeto petista. O que a eleição de 2014 pode trazer de inequivocamente novo é o racha do atual bloco hegemônico. Um pedaço dele — a frente ampla de esquerda que se formou em 2002, com agregados da direita — se descola da nave-mãe para buscar um voo solo. Se pensarem bem, a última vez em que se deu algo parecido no Brasil foi em 2002, quando o PFL resolveu se divorciar do PSDB. Todos saíram perdendo, muito especialmente o PFL, que, hoje com outro nome, beira a extinção — não só por aquilo, claro, mas foi o ato inicial.
 
Neste blog, não é a primeira vez que trato da questão. No dia 25 de fevereiro, escrevi aqui:
 
“Não são poucos os analistas que entendem que o petismo tomou de tal sorte conta da agenda política e construiu tal hegemonia que só será apeado do poder se o bloco hegemônico que lidera for fraturado. Cumpre lembrar que esse foi o episódio inaugural da derrota do PSDB em 2002: o fim da aliança com o PFL. Não estou escrevendo que tal episódio, sozinho, determinou a derrota. O fato é que as coisas começaram a desandar ali…”
 
3: Campos se fortalece, mas, curiosamente, aumenta o raio de manobra para não disputar

É preciso ver o que está em curso sem algumas travas do convencionalismo. No discurso na tarde deste sábado, Marina foi muito enfática ao afirmar que estava aderindo, por razões estratégicas, ao “Plano C” (Plano Campos). A candidatura do governador, afirmou ela, está posta. Assim, reitere-se, é óbvio que o governador sai fortalecido.
 
Mas não é menos evidente que falta muito tempo até a eleição. Vamos ver o que vai acontecer, como vão se mover as pesquisas. Noticiou-se que Marina estava indo para o PSB para ser vice na chapa, o que ninguém quis confirmar na solenidade, seguida de entrevista coletiva, neste sábado. O próprio Campos deixou a coisa em aberto — as definições ficam para mais tarde. Ora, quem tem a máquina do PSB nas mãos é ele, não ela. Logo, será candidato se quiser.
 
Mas digamos que se chegue a junho do ano que vem — vejam quanto tempo falta para a disputa e o quanto erraram PT e PSDB até aqui —, e as pesquisas insistam em apontar Marina com algo na casa dos 20 e poucos por cento dos votos, em segundo lugar, e Campos ali pelos 5% a 7%. A depender da conjuntura, uma Marina titular da candidatura pode ser a diferença entre haver e não haver segundo turno… Vênia máxima ao que parece óbvio, é evidente que o fortalecimento da candidatura de Campos convive perfeitamente bem com a ampliação, por contraste, da possibilidade de que ele não se candidate. Antes de Marina, ele estava entre duas alternativas:

a) candidatar-se mesmo nas circunstâncias mais adversas;
b) recuar, desmoralizando-se.
Agora, ele ganhou uma “Alternativa m”:
a) candidatar-se, mesmo nas circunstâncias mais adversas;
m) abrir mão em favor de Marina, em nome do segundo turno, guardando-se para 2018.
 
O mais provável é que se candidate, sim, mas não dá para ignorar que tem mais espaço para não disputar, com saída mais do que honrosa — o que antes não existia.
 
4: Para Dilma, essa união é boa ou ruim?

É evidente que é ruim. Os petistas saudaram entusiasmadamente o “não” do TSE ao partido Rede. Não partilho da ideia de que tenha havido alguma conspiração, mas é certo que os petistas gostaram daquele 6 a 1 no tribunal. Lula vinha atuando freneticamente para impedir também a candidatura Campos. O PT sonhava com a realização de um segundo turno já no primeiro. Num dado momento de sua fala na tarde deste sábado, Campos deu a entender que essa união com Marina acontece num momento em que ele próprio parecia um tanto desanimado. Assim, uma coisa é certa: a adesão de Marina ao PSB elimina uma dúvida do cenário: um dos dois será candidato. Já não há o que Lula possa fazer. Salvo um rompimento da aliança PSB-Rede — e creio que os dois lados serão espertos o bastante para evitá-lo —, já não há o que discutir: haverá, no mínimo, uma candidatura do PT, uma candidatura da oposição e uma candidatura do que Marina chama “posição”: ex-governistas tentando construir uma alternativa.
 
5: Para Aécio Neves, essa união é boa ou ruim? E para a oposição?

Para a oposição ao petismo (e à sua hegemonia autoritária), é certo que a união Marina-Campos é positiva — como seria, aliás, a eventual saída de José Serra do PSDB para disputar a eleição. Por quê? O argumento é aritmético antes de mais nada. Quando o partido do poder, que manipula uma habilíssima e maligna máquina de propaganda, joga todas as fichas na polarização, fragmentar a disputa é a forma mais inteligente de enfrentar o seu jogo. “Ora, se é bom para a oposição, então também é bom para Aécio, que é da oposição, certo?”
 
Errado! É um silogismo sem fundamento na realidade porque, nesse caso, desconsidera-se que, no terreno oposicionista, existe também uma disputa e que é preciso chegar em segundo lugar ao menos para ter direito à segunda rodada. Não estou aqui antevendo, de modo nenhum, que a dupla Campos-Marina se consolide em segundo lugar qualquer que seja a composição, mas é evidente que, em tese ao menos, essa possibilidade ganhou corpo.
 
6: Solenidade em favor da terceira via

É certo que, na solenidade deste sábado, quem mais apanhou foi o governo, foi o petismo em particular. Mais de uma vez, quando Marina e Campos se referiram a um tal “eles”, falavam de um sujeito oculto bastante conhecido. Mas a candidatura do PSDB também esteve na mira. A líder da Rede voltou a criticar a tal “oposição por oposição” e “situação por situação” (análise que considero besta, mas vá lá). O governador contestou o que chamou de “falsa polarização”.
 
Ainda que o PSB e o PSDB tenham feito uma espécie de pacto de não agressão, a dupla Campos-Marina, a partir deste sábado, convida, oficialmente, o eleitorado a dizer “não” tanto ao candidato do PSDB como à candidata do PT. De resto, é preciso convir que essas forças egressas do governismo conseguiram organizar um ato mais eloquentemente oposicionista do que conseguiu o PSDB nos últimos três anos. Assim, se Dilma não tem motivos para demonstrar satisfação, o mesmo se diga de Aécio, hoje considerado o candidato certo dos tucanos.
 
Ainda voltarei ao tema. A despeito da energia mobilizada neste sábado e da grandiloquência dos oradores, as dificuldades são imensas, bem maiores do que o entusiasmo dos protagonistas sugeria. De toda sorte, resta da união anunciada neste sábado uma crítica bastante dura ao autoritarismo do PT e do governo. E isso, numa democracia, é sempre saudável.
 
06 de outubro de 2013
Reinaldo Azevedo - Veja

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