"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

domingo, 7 de junho de 2015

CAUBY: O ENCONTRO DA ARTE COM A EMOÇÃO NO FILME DE HOINEFF

É sem dúvida um belo filme o que o diretor Nelson Honeiff realizou sobre a vida do cantor Cauby Peixoto, destacando sua ascensão, seu sucesso extraordinário, seu afastamento e agora sua lembrança de belos momentos passados. 

O filme atravessa o tempo da memória e da melodia destacando os momentos emocionantes que marcaram a vida do artista, os quais ficarão para sempre na história da música popular brasileira, e também de suas interpretações de obras musicais americanas. Cauby é um artista versátil, múltiplo, expressivo e que ao longo de sua carreira, levantada pelas lentes de Honeiff, demonstrou ter ao mesmo tempo um amor intenso pela sua arte, sua vida de artista e pelo público que o consagrou. 

Belo filme, como disse no título o encontro da arte com a emoção.

A sensibilidade de Cauby Peixoto emerge das décadas em que sua estrela brilhava nos palcos da vida musical e das suas interpretações personalíssimas. Dono de voz privilegiada, cruzou as marcas do tempo, como disse sobre ele Maria Betânia, passeando pelas melodias que cantou e com elas encantou multidões. Foi o intérprete de um dos maiores sucessos da música popular brasileira,”Conceição”, de Jair Amorim, sucesso ao mesmo nível daqueles que marcaram “Vingança”de Lupicínio Rodrigues e a “Banda” de Chico Buarque. Nas décadas de 50 e 60 não se passava numa esquina, na porta de uma loja de discos sem que não se ouvisse as belas letras que marcaram os êxitos populares gigantescos. “Conceição” na voz de Cauby, “Vingança” na voz de Linda Batista, a “Banda” na voz do próprio autor.
GRANDES INTERPRETAÇÕES
O filme inclui vários depoimentos sobre sua vida e sua arte todos eles destacando sua altíssima qualidade e forte presença no domínio da voz das interpretações e a condução dos ritmos. Foram interpretações inesquecíveis as que o filme apresenta, ele cantando “New York, New York” e “I’ve got you under my skin”, além de apresentações de rock and roll. Como a “Dança das horas”, de Bill Harley, que marcou uma ruptura com a melodia tradicional. Pouco após sua presença no rock gravou seu maior sucesso, “Conceição” e aí reencontrou em si mesmo a forma de voltar a interpretar canções românticas. Entre elas, “Mulambo” que, na sua voz ganhou uma importância que não havia se evidenciado anteriormente. Estou falando do final dos anos 50 e como não podia deixar de ser Cauby cantou também versos e acordes inesquecíveis de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Tom e Vinícius eternizaram-se na música popular brasileira, dando início a uma nova ruptura da interpretação musical. Com eles surgia a bossa nova em 1958 e 59. “Conceição” é de 1956, mesmo ano do lançamento de “Mulambo”.
Só que Vinícius e Tom romperam com uma estrutura musical, mas não romperam com a poesia. Ao contrário do que acabaria sucedendo mais tarde com o rock que deixou completamente de incluir no seu contexto o caminho poético substituindo-o pela dança e fortes movimentos corporais. Mas esta é outra questão. O que desejo dizer é que valeu muito a pena assistir o filme ao lado de Elena, minha mulher que também se comoveu. Aliás, foi dela a ideia de ver a fita. Ao terminar a sessão, entre outros na plateia, éramos dois emocionados. Imagine-se por aí a emoção do próprio Cauby Peixoto ao acompanhar o filme sobre si próprio incluindo depoimentos e explicações sobre suas diversas fases na carreira. Diversas fases?
UM JOVEM FÃ
Um adolescente entre 15 a 17 anos coleciona tudo sobre Cauby Peixoto, discos, CDs, revistas, enfim segue sua trajetória até hoje e se emociona às lágrimas quando do artista se aproxima num show em São Paulo. O adolescente tornou-se um personagem da história lindamente narrada por Honeiff e que sintetiza em si a passagem da arte de um tempo para outro, do passado para o presente. E olha que ele não era nascido quando Cauby Peixoto cantou “Conceição” pela primeira vez.
O fã apaixonado pela arte de Cauby tornou-se no plano de Honeiff uma testemunha importante a demonstrar que a beleza das canções é eterna. Foi um momento de emoção a lágrima que lhe caiu sobre a face jovem, comprovando assim o que deverá ser eternizado na música popular brasileira. Em Cauby o encontro da arte com a emoção fica para sempre. Confesso que no final da sessão, em Ipanema, as lágrimas não foram só dele.

07 de junho de 2015
Pedro do Coutto

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