Afinal, o que pretendem os companheiros do PT: salvar a pele ou salvar o projeto? - perguntou o ex-presidente Lula na última segunda-feira.
O projeto começou a morrer quando a noção de governança (se é que essa noção havia sido assimilada) começou a derreter a partir das lambanças praticadas pelos companheiros no poder. E começou a derreter quando o governo PT, ainda no período Lula, imaginou que poderia adotar quaisquer políticas na área econômica, sem levar em conta o equilíbrio das contas públicas.
A partir do momento em que assumiu seu cargo no Ministério da Fazenda, Guido Mantega repudiou o que havia aprendido na Universidade de São Paulo (USP) e passou a adotar o que chamou depois de Nova Matriz Macroeconômica. Este foi um arranjo impropriamente inspirado em políticas anticíclicas e na aplicação tosca dos ensinamentos do maior economista do século 20, John Maynard Keynes.
Depois, a partir de imposições da presidente Dilma, desprezou as metas de superávit primário nas contas públicas e o controle do volume de moeda na economia (política de juros). Montou um ativismo baseado na farta distribuição de benesses sociais, na disparada do consumo e no desestímulo ao investimento.
O resultado é o desastre já conhecido: enorme rombo nas contas públicas mal disfarçado com maquiagens, estatísticas e pedaladas fiscais; sucessão de PIBs miseráveis; inflação no nono andar; desidratação da indústria; e aumento do desânimo e da perda de confiança. Compuseram a paisagem, também, o crescimento do corporativismo sindical, a corrupção em escala nunca vista, a corrida às boquinhas ou a corrida “aos cargos e ao emprego”, como disse Lula. E, em seguida, o desvanecimento da utopia e a enorme operação de salvação da própria pele, como também reconheceu o ex-presidente.
Equilíbrio das contas públicas não é imposição ideológica. É pressuposto para a escolha de quaisquer políticas, seja de direita, de centro, de esquerda ou de outra. Vale não só para a administração pública, mas para qualquer família ou empresa. Se a opção for beneficiar mais os negócios privados, como se espera de uma orientação neoliberal, é preciso austeridade fiscal; se for dar ênfase às políticas de distribuição de renda e de bem-estar social, como se espera de uma política das esquerdas, também é preciso operar com despesas proporcionais às fontes de receita.
Hoje se sabe que a política dos dez últimos anos do governo PT (excluído o período Palocci) foi de descalabro fiscal. Ao contrário do que pensam algumas pessoas de boa vontade, não há opção ao ajuste fiscal. E ajuste dói e custa caro, econômica e politicamente.
Este é o principal fator que paralisa agora o governo Dilma, que lhe tira a capacidade de conduzir uma agenda política e que espalha insegurança entre trabalhadores e empresários.
Ou, para ficar com as expressões do ex-presidente Lula, é o principal fator que empurrou Dilma e ele próprio para o “volume morto” e o PT, para “abaixo do volume morto”.
24 de junho de 2015
Celso Ming
O projeto começou a morrer quando a noção de governança (se é que essa noção havia sido assimilada) começou a derreter a partir das lambanças praticadas pelos companheiros no poder. E começou a derreter quando o governo PT, ainda no período Lula, imaginou que poderia adotar quaisquer políticas na área econômica, sem levar em conta o equilíbrio das contas públicas.
A partir do momento em que assumiu seu cargo no Ministério da Fazenda, Guido Mantega repudiou o que havia aprendido na Universidade de São Paulo (USP) e passou a adotar o que chamou depois de Nova Matriz Macroeconômica. Este foi um arranjo impropriamente inspirado em políticas anticíclicas e na aplicação tosca dos ensinamentos do maior economista do século 20, John Maynard Keynes.
Depois, a partir de imposições da presidente Dilma, desprezou as metas de superávit primário nas contas públicas e o controle do volume de moeda na economia (política de juros). Montou um ativismo baseado na farta distribuição de benesses sociais, na disparada do consumo e no desestímulo ao investimento.
O resultado é o desastre já conhecido: enorme rombo nas contas públicas mal disfarçado com maquiagens, estatísticas e pedaladas fiscais; sucessão de PIBs miseráveis; inflação no nono andar; desidratação da indústria; e aumento do desânimo e da perda de confiança. Compuseram a paisagem, também, o crescimento do corporativismo sindical, a corrupção em escala nunca vista, a corrida às boquinhas ou a corrida “aos cargos e ao emprego”, como disse Lula. E, em seguida, o desvanecimento da utopia e a enorme operação de salvação da própria pele, como também reconheceu o ex-presidente.
Equilíbrio das contas públicas não é imposição ideológica. É pressuposto para a escolha de quaisquer políticas, seja de direita, de centro, de esquerda ou de outra. Vale não só para a administração pública, mas para qualquer família ou empresa. Se a opção for beneficiar mais os negócios privados, como se espera de uma orientação neoliberal, é preciso austeridade fiscal; se for dar ênfase às políticas de distribuição de renda e de bem-estar social, como se espera de uma política das esquerdas, também é preciso operar com despesas proporcionais às fontes de receita.
Hoje se sabe que a política dos dez últimos anos do governo PT (excluído o período Palocci) foi de descalabro fiscal. Ao contrário do que pensam algumas pessoas de boa vontade, não há opção ao ajuste fiscal. E ajuste dói e custa caro, econômica e politicamente.
Este é o principal fator que paralisa agora o governo Dilma, que lhe tira a capacidade de conduzir uma agenda política e que espalha insegurança entre trabalhadores e empresários.
Ou, para ficar com as expressões do ex-presidente Lula, é o principal fator que empurrou Dilma e ele próprio para o “volume morto” e o PT, para “abaixo do volume morto”.
24 de junho de 2015
Celso Ming
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