"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

sábado, 19 de outubro de 2013

O PARADOXO


 

Lamentável. Louvável. Legalizado. Criminoso. Justo. Abusivo. Organizado. Tumultuado. Coerente. Irracional. Outubro Rosa. Mascarados.
 
A inoperância governamental nos deu de presente o caos e tentar consertar esse estrago é um árduo trabalho.
 
Busco nas minhas melhores lembranças a minha infância. Um tempo em que podíamos andar de bicicleta pelas ruas do bairro, ir a pé ao colégio com os amigos atravessando a ponte sobre o Rio Pinheiros, desbravar o campus da USP, andar pelo Butantã, Casa dos Bandeirantes, tomar um lanche no Wells ou no Chivas. Não havia celular, mas existia desde sempre a relação de confiança com os pais: horário estipulado era horário cumprido, estudo antes do lazer, aonde vai e com quem vai, refeições na sala de jantar com pais e irmãos. Conhecia-se a família dos amigos. Era seguro andar pelas ruas do bairro. A escola falava, era lei; professores estavam certos.
 
Professores ensinavam, alunos aprendiam. Polícia protegia, bandidos eram presos. Médicos tratavam, pacientes eram atendidos. Onde foi parar tudo isso?
 
Será mesmo que progredir significa deixar para trás valores como respeito, dignidade, responsabilidade? A população brasileira saltou de 90 milhões em 1970 para 200 milhões em 2013, segundo dados do IBGE. O que deveria saltar junto como qualidade, deu alguns milhões de passos para trás.
 
A infraestrutura necessária para garantir qualidade de vida para uma população que dobrou em quatro décadas deveria ter sido cuidada, mas foi vítima da displicência governamental. Um governo que fez questão de banalizar a Educação, de descuidar da saúde da população e de sonegar do cidadão o direito à segurança. Quando falo de governo, não me refiro a partidos, mas a todos os que puderam fazer algo e não o fizeram, seja por impossibilidade do sistema, seja pela corrupção que assola os maus-caracteres, seja pela ganância do poder ou pela própria incompetência.
 
Vivemos hoje um estado de guerra civil. As classes profissionais não têm nem o direito de lutar pelos próprios direitos porque os vândalos, a mando sabe-se lá de quem ou do quê, se infiltram nos protestos e tornam o movimento democrático e legítimo em um palco de guerra. Vândalos, mascarados, simplesmente pelo prazer de destruir ou porque são “enviados especiais” com o objetivo de mudar o foco das reivindicações.
 
A máscara que os protege é a mesma que tenta esconder a sujeira, a ganância e a inoperância de um país fadado às perdas no âmbito social.
 
Li em uma matéria que um dos mascarados justifica acreditar que para  reconstruir é necessário desconstruir.
 
Reconstrói-se uma relação desconstruindo erros, mágoas, desafetos. Esvazia-se o que não foi bom para poder superar os problemas e fazer um novo caminho. Reconstruir em uma nova caminhada, errar novos erros.
 
Reconstrói-se um aprendizado atualizando os saberes por meio de novas informações.
 
Em ambos os casos, não se destrói a história, não se destrói o caminho.
 
Então, faz ainda menos sentido ter que destruir patrimônios para se reconstruir uma nação. Isso é um abuso, uma violência. E violência só gera violência. Os protestos por saúde, educação e segurança são legítimos, necessários. O povo foi às ruas, o Gigante acordou e até a presença dos vândalos, tudo caminhava pela busca da verdadeira democracia, na legitimidade da população reivindicar direitos, justiça, qualidade de vida.
 
 Desde sempre é fato que justiça pelas próprias mãos não é a melhor opção. Destruir o que é do povo para o povo é crime, é vandalismo, sem justificativa cabível.
 
As crianças de hoje não podem andar pelas ruas, os jovens não saem sem que seus pais tenham a certeza da volta, a presença na escola não garante ensino de qualidade, a fila nos hospitais mata os que esperam por demais, a mesa de jantar nem sempre está completa, a distância entre as famílias aumentou.
 
A tecnologia aproxima as distâncias, favorece o contato mesmo que não presencial; aprende-se de maneiras diferentes, convive-se mais com o não igual, expande-se fronteiras, amplia-se o mercado de trabalho com novas profissões, cria-se alternativas para leituras. Pesquisa-se mais e descobre-se a cura para doenças, faz-se um trabalho preventivo. A informação pode chegar às pessoas de várias maneiras. O transporte pode unir ciclistas, pedestres, motoristas. Compra-se pela internet.
 
O avanço de pesquisas e descobertas não destruiu a história da humanidade. Somos o que somos e chegamos aonde chegamos porque temos uma história, jamais destruída, sempre lembrada. É pelo passado que se faz o presente e pelo presente se constrói o futuro. Não é preciso destruir para reconstruir.
Outubro Rosa, a prevenção para o câncer. E, do outro lado, um grupo que acredita que é preciso destruir para reconstruir. Um constrói; o outro destrói.
 
Paradoxo de uma sociedade...
 
19 de outubro de 2013
Lígia Fleury é Educadora

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