"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

UMA FALHA NA ABERTURA DA OLIMPÍADA



Foi esquecida a importante influência de migrantes europeus

Foi um belo espetáculo a cerimônia de Abertura da Olimpíada2016, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. “Belíssimo, irretocável, emocionante” – disseram todos, escreveu o mundo. Eu assisti e ratifico: Uma maravilha. Criatividade, gigantesca e adequada cenografia, recursos audiovisuais, coreografia, artes circenses, tecnologias, efeitos especiais. Execução impecável de atores e voluntários. A equipe de criação e produção, formada por Abel Gomes, Andrucha Waddinton, Daniela Thomas e Fernando Meirelles estão de parabéns.

Porém uma falha na seleção e definição dos temas a serem desenvolvidos – que foi do nascimento da vida à defesa do meio ambiente no planeta, passando por toda a formação da Gente e da Cultura Brasileiras – é incompreensível, inaceitável que ocorresse. Se fosse a ausência de um detalhe, um ornamento, um personagem lateral, um figurante, um objeto fora de lugar – tudo isto seria irrelevante, perdoável. Mas houve uma falha grave, um erro importante no roteiro, um pecado mortal, que, creio, o entusiasmo, a emoção, a noite memorável, não permitiram que alguém percebesse e a Imprensa registrasse, em meio à grandiosidade e beleza do espetáculo.

Quando se passeou pelas matrizes e influências na formação da Nação, após o protagonismo do nativo, o índio, habitante de Pindorama, vieram os portugueses, colonizadores. Depois, os africanos, negros escravizados arrancados a chicote da sua terra, amordaçados, acorrentados. Em seguida, passamos à influência árabe, especialmente de sírios e libaneses, para, afinal, apresentar a imigração japonesa no início século passado. Tudo quase perfeito.

DOIS POVOS – Esqueceu-se de dois povos, cujas imigrações constituíram presenças muito mais importantes e influentes do que os árabes e os japoneses. Foram e são eles os alemães e os italianos.

A imigração alemã, iniciada antes da nossa Independência, tem uma história humana de quase duzentos anos, de chegadas, de jornadas que duraram até 1960, de muito trabalho, construção, conflitos, autonomias, assimilações, acréscimos, recepções, permutas, criações, doações, e contribuições à Civilização Brasileira. Enfim, os alemães aqui estabelecidos, e suas descendências, exibem uma vasta fenomenologia socioantropológica, visíveis em monumentais patrimônios sociais, econômicos e culturais, identificados e flagrantes na nossa Vida e na nossa Terra.

As “germanidades” e os traços germânicos habitam muitos fatos, façanhas, expressões e feitos da nossa Cultura, especialmente no Sul do País: na resistência da língua e dialetos alemães, ainda falados e escritos em muitas comunidades e, depois dividindo currículos com a língua portuguesa; em vários estilos de vida, mentalidades e ideologias, rurais e urbanas; no modo de ocupar, dividir e cultivar a terra e os recursos rurais que plasmaram grande parte da nossa Agricultura, diversificando-a e racionalizando-a, resultando um campesinato peculiar, marcados pela maneira de produção, convívio e desenvolvimento próprios, plasmados na racionalidade e na sustentação ambiental; na Culinária, nas Festas profanas e em várias manifestações do Folclore.

INFLUÊNCIA FORTE – Os alemães também marcam a urbanização e a industrialização do Brasil, difusamente, em vários Estados, de forma mais concentrada nos espaços meridionais, onde uma arquitetura foi erguida. Os alemães criaram e influenciaram muitas artes, da Literatura às Artes Plásticas, as Ciências e Tecnologias; na Educação e na Academia. A nossa paisagem humana, físico-social, está marcada por essa germanidade, ora espantosamente européia, íntegra, distinta, ora incorporando-se ao nosso modo de viver e conviver, enriquecendo a Cultura Brasileira. Pode-se afirmar que há uma população teuto-brasileira, integrada à Vida Brasileira, que não renunciou aos valores, referências, signos e símbolos, fortunas e expressões culturais alemães.

As mais eloqüentes presenças, afirmações, heranças e marcas dessa imigração, nós as encontramos, principalmente, nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Centenas de cidades e vilas brasileiras foram criadas ou intensamente povoadas por alemães.

Já os italianos, que chegaram depois, na segunda metade do Século XIX, não são menos importantes para a Terra a Sociedade, a Economia, a Cultura Brasileira. Hoje, os seus descendentes somam quase vinte por cento a população do País. Creio que depois das três matrizes básicas – o índio, o português e o negro – o italiano, sua língua, sua fala, suas tradições, hábitos e costumes estão em toda a parte, tangem mentalidades e comportamentos onde a imigração desembarcou, nas cidades e nos campos. Assim como temos um Nordeste em São Paulo, encontramos nesse Estado a maior messe de italianos fora da Itália.

FALA CANTADA – De onde vem a fala cantada, as inflexões e a prosódia paulistana típica, consolidada, se não da imigração italiana, non è vero? As contribuições e influências italianas ao País são importantíssimas, muitas vezes primaciais, fundamentais, mais visíveis, eloquentes, tal qual a alemã, no Sudeste e Sul do País, onde eles foram mão-de-obra substituta da escrava, principalmente nos cafezais paulistas.

Os italianos também foram vanguarda e maioria esmagadora na industrialização paulistana e, no Sul, fez o desenho da estrutura das pequenas propriedades, antilatifundiárias, na introdução de tecnologias agrícolas, e oposta à monocultura. O Catolicismo itálico azeitou a adaptação dos imigrantes ao convívio com brasileiros. As capacidades de trabalho, superação, adaptação e improvisação, a musicalidade, a alegria, a criatividade italianas foram fatores decisivos, amalgamadores, de integração e assimilação mútua ao cotidiano brasileiro.

ERRO GRAVE – No Rio Grande do Sul, bem como em toda a região meridional do País, a partir do Século XIX, as colônias italianas, de atividade agrícola, contrabalançaram, com a latinidade, com o sentimento e a alma latina, a germanização ortodoxa dos assentamentos, inflexível, às vezes cingidos pelo Luteranismo rígido e alguns manchadas pelo racismo, filho de execráveis e perversas ideologias políticas. Os italianos projetaram sua língua, modos de vida, costumes e sentimentos, seus gêneros, ritmos e talentos na música, dança, teatro, artesanato, poesia, nas artes plásticas e visuais, na culinária, no nosso plural Folclore, e até nos esportes que praticamos, por extensas áreas da terra brasileira, recriando, enriquecendo as correspondentes expressões nacionais. A escola e a universidade brasileira receberam mestres, pensadores, artistas e gestores oriundi de famílias dessa imigração, especialmente em São Paulo, que revolucionaram, inovaram, fizeram vanguarda em seus campos de atividades. Como os alemães, também fundaram vilas e cidades em diversos Estados.

Não se pode mostrar para o mundo, na Abertura de uma Olimpíada, num grande, belo e longo espetáculo cênico, de música, dança, luz, cores de grandes e belos efeitos visuais, num evento pensado e planejado durante anos, a formação e evolução da Nação e da Cultura Brasileiras, excluindo-se as doações e influências, as contribuições que recebemos dos alemães e italianos. Um esquecimento transformado em erro. Erro grave, injustificado, imperdoável, irremediável. Falta de uma consultoria cultural? Não se sabe. O tropeço serve como lição a ser aprendida.


12 de agosto de 2016
Marcelo Câmara

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