"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

ESPERANDO AGOSTO

Com seu prestígio popular no volume morto e enfraquecida politicamente a ponto de não mandar nem mesmo em seus ministros, Dilma Rousseff tem todos os motivos para estar preocupada com o que pode esperar do Congresso Nacional depois do recesso parlamentar. A tal “pauta-bomba” para desgastar ainda mais o governo pode incluir até a apreciação do impeachment da presidente, principalmente se o Tribunal de Contas da União (TCU) vier a recomendar, agora em agosto, a rejeição das contas do Executivo de 2014. Como não tem possibilidade de influir diretamente no comportamento dos parlamentares, Dilma tenta transferir essa responsabilidade para os ministros da “base aliada” e os governadores de Estado.

Com os ministros “aliados” Dilma se reuniu na segunda-feira para lhes dizer o que estão cansados de saber, mas simplesmente não têm demonstrado a menor vontade de pôr em prática: orientar as respectivas bancadas no Congresso a aprovar matérias de interesse do Planalto e rejeitar as que não interessam, principalmente quando se tratar do ajuste fiscal. Afinal, essa é a ideia do “presidencialismo de coalizão” teoricamente em vigor. Aos governadores, convocados para uma reunião amanhã no Planalto, Dilma fará apelo semelhante, usando o argumento principal de que o agravamento do desajuste fiscal no plano federal terá, inevitavelmente, impacto direto nos Estados.

Essas duas iniciativas de Dilma revelam a dimensão de seu isolamento político, que a obriga a depender de terceiros, em muitos casos nada confiáveis, para que possa manter a ilusão de que está governando o País. Não está. Para que estivesse, seria necessário que seu próprio partido, unido e coeso, a apoiasse no Congresso. Não precisaria reunir os ministros dos demais partidos que integram o governo para dizer-lhes que as respectivas bancadas parlamentares têm a obrigação de retribuir, na atuação parlamentar, os benefícios do poder que compartilham. Nem precisaria também fazer de conta que tem alguma autoridade sobre 27 governadores protocolarmente reunidos ao seu redor.

Essas tentativas de salvar a pele de um governo que se equilibra à beira do precipício são publicamente apresentadas como tópicos de um “pacto de governabilidade” em benefício do País. Trata-se de um jogo em que entra a conhecida malandragem petista de exibir o punho cerrado quando está por cima e a mão estendida quando se mete em apuros. Há pouco mais de seis meses, os petistas planejavam consolidar um poder que pretendiam mais hegemônico do que nunca, “cortando as asas” de seu maior aliado, o PMDB, a partir da imposição de um representante de suas fileiras como candidato à presidência da Câmara. Espetacular erro de cálculo.

Em vez de cumprir lealmente os acordos que construíram a base parlamentar de apoio ao governo, gênios políticos petistas encastelados no Planalto continuam fazendo o possível para boicotar o “toma lá” que passou a ser coordenado pelo vice-presidente Michel Temer, atendendo a apelo da própria Dilma. É esse o modo peculiar petista de construir parcerias.

Esperto como ele só, dias atrás Lula soltou o balão de ensaio de um possível entendimento entre o governo e os tucanos em benefício do tal “pacto de governabilidade”. Em vez do habitual punho cerrado, a mão estendida. Teve a resposta que merecia por parte do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que recusou uma conversa que só serviria para “salvar o que não deve ser salvo”.

É muito triste verificar que a atual crise política – com seus perversos reflexos econômicos e sociais – provavelmente ainda vai piorar muito antes de começar a melhorar. Afinal, o maior impacto do desgoverno recai sempre, em última instância, sobre os ombros dos cidadãos, principalmente dos mais pobres.

É mais do que hora, portanto, de Lula, Dilma e o PT se darem conta de que perderam a confiança dos brasileiros. Como confiar num partido que apregoa que ama o povo mas se apaixonou pelo poder? Numa presidente incapaz de admitir os próprios erros e que mente em troca de votos? Num autoproclamado Salvador da Pátria que, do alto de um eterno palanque, só consegue enxergar o próprio umbigo? Felizmente, o Brasil começa a despertar desse pesadelo.

29 de agosto de 2015
Estadão

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