"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

domingo, 22 de dezembro de 2013

IMAGINA NA... AH, VOCÊ SABE


Acabei de voltar do Japão, na sexta-feira. Foi uma viagem sensacional, minha segunda vez por lá. Uma cultura completamente diferente e um país maravilhoso. Tóquio será a sede das Olimpíadas de 2020. Agora, adivinha qual é o papo que rola por lá entre os locais? O país não tem dinheiro para isso. A Olimpíada não é uma prioridade. Foi o tipo de decisão que só agradou aos governantes. Pra que fazer mais estádios? Pouca gente vai ganhar dinheiro com isso e aqueles que já tem dinheiro...

Ou seja, a população lá, tal qual a daqui, também não tá muito fã do evento. 95% da população japonesa não fala inglês e não compreende qualquer tipo de gesto explicativo. Comer num restaurante exige, no mínimo, medalha de prata no quesito mímica e onomatopeias. O povo japonês não morre de amores por estrangeiros e não se mistura de jeito nenhum. Fui expulso de dois restaurantes em Kyoto simplesmente porque eu não era japonês. A garçonete me empurrou pra fora assim que eu cruzei a porta de entrada. Mas me empurrou de verdade. Dizia: "no Japan". No Japan. Na maioria dos pontos turísticos não havia nenhum tipo de explicação em inglês ou até qualquer palavra utilizando letras reconhecíveis. E olha que eles receberam uma Copa do Mundo recentemente.

O que quero dizer com isso tudo? Que eu acho que vai dar tudo certo por aqui. Vamos superfaturar as obras (o que é um absurdo, óbvio), não falamos uma palavra de língua nenhuma, não temos o menor preparo para receber turista nenhum de outro país, mas mesmo assim, vai ser tudo um sucesso. Temos que cobrar sim, temos que protestar sim, temos que fazer barulho e ficar em cima, mas pelo que eu tô entendendo, nenhuma população de nenhum lugar do mundo acha muita graça em receber um evento dessa magnitude.

É mais caótico do que divertido. E o brasileiro adora menosprezar o Brasil. O aeroporto de Guarulhos é um lixo? É. Mas ficar uma hora esperando a bagagem chegar eu também fiquei em Paris e em Nova York. A escada rolante do aeroporto parada e em manutenção eu também encontrei em Lisboa. Pessoas esparramadas no chão dormindo pelo saguão da sala de embarque? Foi o que eu vi em Dubai. Claro que um erro não justifica o outro, mas é assim em toda cidade grande no mundo. As coisas dão errado.

Mas, em Paris, eu não vi nenhum brasileiro mandando um "imagina na Copa". É porque lá fora é primeiro mundo, né? Outro dia passando pelo detector de metais no Galeão, uma mulher, que teve que tirar o sapato porque tinha mais metal nele do que numa armadura medieval, falava em alto e bom som que só no Brasil mesmo para ela ter que passar por essa vergonha. Paisinho de merda. Eu não desejo a ela uma singela viagem pra Miami. Ela praticamente vai ter que tirar o DIU no aeroporto de lá.

A gente cisma que a gente é péssimo. Cisma que a gente é terceiro mundo. Cisma que nada aqui dá certo. E a gente até tem razão. Mas não vem pra cima de mim cismar que lá fora é que é legal que eu já te adianto que legal mesmo é onde a gente mora! Ponto.

 
22 de dezembro de 2013
Fábio Porchat, O Estado de S Paulo

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