"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

domingo, 29 de dezembro de 2013

VOCÊ MATARIA O GORDÃO?


SÃO PAULO - Para alguns, trata-se de uma praga que tomou de assalto a filosofia; para outros, é uma poderosa ferramenta que permite perscrutar os recônditos da psique humana. Falo da "trolleyology", o nome dado aos dilemas morais propostos por Philippa Foot nos anos 60 e desenvolvidos por outros autores.

Tomemos um exemplo. Uma locomotiva desembestada vai atropelar cinco pessoas que estão sobre a linha. Você tem a opção de acionar um dispositivo que faz com que o comboio mude de trilhos, e, neste caso, atinja um único passante. Você aciona a alavanca? Cerca de 90% das pessoas respondem que sim. É melhor perder uma vida do que cinco.

Vejamos agora uma variante do problema. Você está em cima de uma ponte e avista o trem desenfreado prestes a abalroar cinco caminhantes. A seu lado está um sujeito imenso, que, se lançado sobre os trilhos, teria massa para parar a locomotiva salvando os cinco. Você jogaria o gordão? Aqui, 90% respondem que não, embora, em termos puramente racionais, a situação seja a mesma: sacrificar uma vida para salvar cinco.

O filósofo David Edmonds acaba de lançar "Would You Kill the Fat Man?", em que analisa vários desses problemas e tenta pôr um pouco de ordem não só nas contradições da mente humana como também na cada vez mais volumosa (e às vezes tortuosa) literatura de dilemas morais.

Embora não traga nenhuma revolução interpretativa, o livro é divertido e informativo. Edmonds admite que esses experimentos mentais têm algo de "fake" --paradoxos de laboratório que não acontecem na vida real--, mas mostra que sua relevância está justamente nessa artificialidade. É ela que permite ao filósofo manipular as situações como um cientista e, assim, destrinchar as distinções morais relevantes para nossa espécie. Se há uma chance de a moral tornar-se uma ciência, na interface da filosofia, da psicologia e da biologia, é aí que vamos descobri-la.

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