"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O FIM DOS ROMANOV: DA INFÂMIA AO TERROR


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romanovA revolução Russa de 1917 não foi a luta do bem contra o mal que certa historiografia ideológica vendeu durante décadas de forma bem-sucedida.

O embate entre o czarismo e os revolucionários (mencheviques e bolcheviques) foi uma batalha do mal contra o mal que fez dos russos suas maiores vítimas.

A infame execução do czar Nicolau II junto com a sua família foi a consagração de uma utopia política que, fundida aos ideais revolucionários, prometia erigir uma sociedade ideal e um futuro perfeito, mas que conspurcou a Rússia com o sangue e os corpos de seus filhos.

Uma das várias virtudes de Os Últimos Dias dos Romanov (Record, 335 páginas, tradução de Luís Henrique Valdetaro) é narrar os dias de cárcere da família até a execução sem se deixar conduzir pela natural crueldade dos eventos e por formas obtusas de sentimentalismo.
A historiadora inglesa Helen Rappaport, também autora de um valioso livro sobre Lenin (Conspirator: Lenin in Exile), reconstrói a tensão e o sofrimento da família com a dose precisa de frieza.
Aqui, o rigor da historiadora e o estilo da escritora tendem a evitar que a humana compaixão que sentimos ao acompanhar o sofrimento dos Romanov não se converta num afeto capaz de eximir o czar do regime que impunha aos russos.

Por séculos submetida a um sistema político e social rígidos, que reservava os benefícios e as riquezas a um grupo privilegiado da corte czarista, a sociedade da Rússia se movimentava dentro das regras estritas de servidão voluntária e compulsória.
A derrubada do czar pelos revolucionários viera com a promessa de libertar o povo do regime de Nicolau II, qualificado por Lenin como um “carrasco sanguinário” , “o inimigo mais diabólico do povo russo”.
O terror imputado ao czar seria mais tarde ampliado e institucionalizado por Lenin e potencializado por Stalin, ambos com a singularidade de não escolher vítimas: qualquer um poderia ser acusado de inimigo do povo e executado. Na boca de Lenin, a palavra liberdade expelia o cheiro da morte.

A história da prisão e execução da família Romanov é conhecida e foi tema de vários livros, filmes e documentários. O que diferencia o trabalho de Rappaport é o recorte: a descrição dos últimos 14 dias de vida passados no cárcere, numa recriação fabulosa do ambiente claustrofóbico e enervante, a relação tênue e tensa com os carcereiros, o papel de Lenin no comando dos assassinatos.

Os dias de prisão na casa Ipatiev, localizada em Ecaterimburgo, estraçalharam os nervos do czar e da czarina Alexandra. O titubeante e fraco Nicolau II transformou sua impassibilidade num refúgio interior para preservar alguma força e assim cuidar dos quatro filhos, especialmente do caçula hemofílico, Alexei. A Czarina, por sua vez, manteve até o fim uma arrogância natural que a tornara impopular no império.

A execução de Nicolau II, de Alexandra, dos filhos Alexei, Olga, Tatiana, Maria e Anastasia, do médico dr. Botkin e dos ajudantes Trupp, Kharitonov e Demidova foram uma explosão de ressentimento daqueles que, aparentemente, agiam em nome de uma ideia. Quem disparou os tiros e espetou os corpos com baionetas foram homens que viam representada no czar a razão do seu fracasso e o reflexo daquilo que se transformaram. A ideologia cumpria a sua função de combustível a motivar a luta e justificar a violência.

Os nomes dos mortos no início do parágrafo não são um detalhe desimportante. São o atestado público de que aqueles que morrem são os indivíduos, mesmo quando o que se quer aniquilar é que aquilo que representam.
Helen Rappaport escreveu um livro notável porque humanizou o relato de uma história desumana sem mergulhar nos infortúnios de uma perspectiva dualista. Seria um equívoco posicionar-se a favor de um dos lados porque czarismo e bolchevismo violentaram sem misericórdia a sociedade que diziam representar.

O jornalista russo-judeu Herman Bernstein, um anticzarista e entusiasta inicial da revolução que trabalhava como correspondente do Washington Post, definiu com exatidão a mudança política ao ver os resultados do governo de Lenin: a Rússia czarista, onde qualquer aspiração por liberdade era cortada pela raiz, foi convertida pelos revolucionários num imenso laboratório onde os indivíduos eram as cobaias de um infame experimento social. O extermínio dos Romanov foi o esboço do que estava por vir.
 
01 de novembro de 2013
Publicado no site Ordem Livre
Bruno Garschagen é cientista político pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de Lisboa e University of Oxford, e podcaster do Instituto Ludwig von Mises.

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