As estatísticas mostram que a inflação persistentemente alta trouxe de volta a indexação da economia. Por não acreditarem no compromisso real do governo em controlar a carestia, comerciantes e industriais passaram a embutir altas futuras nos preços.
Esse movimento preventivo foi incorporado nas expectativas de mercado. Por isso, o Banco Central erra todas as projeções, e os analistas insistem em dizer que o custo de vida continuará alto por pelo menos mais dois anos.
O desarranjo na inflação é ampliado pelo descontrole de gastos do governo. O Palácio do Planalto acredita que, mantendo os cofres abertos, mesmo com a arrecadação fraquejando, impulsionará o crescimento.
Além de o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) não se confirmar, as contas públicas foram maquiadas de uma tal forma que a credibilidade do país derreteu. O rombo nos cofres do Tesouro Nacional já chega a 4% do PIB. É dado de país prestes a entrar em crise.
No campo energético, a situação é dramática. A cada semana, o Operador Nacional do Sistema (ONS), que acompanha o nível dos reservatórios das hidrelétricas, reduz o volume necessário de água para manter o abastecimento.
Agora, a perspectiva é de que as usinas do Sudeste e do Centro-Oeste, que respondem por 70% do fornecimento de energia hídrica do país, fechem este mês com apenas 18,4% da capacidade, nível inferior ao registrado em 2001, quando o Brasil decretou racionamento.
SEM APAGÕES (AINDA)
O atual governo conseguiu, até agora, se livrar de uma onda de apagões e do racionamento justamente porque a economia cresce pouco e os maiores consumidores, as indústrias, estão em recessão, com queda de produção há quatro trimestres consecutivos. Para piorar, o setor de energia está assistindo, atônito, a sua principal empresa, a Petrobras, sangrando em praça pública. A estatal se tornou o maior foco de corrupção que se tem notícia na história recente do país.
Dilma não tem mais o direito de errar. Para um país do porte do Brasil, com tantas pendências a serem sanadas, seja na infraestrutura, seja na educação e na saúde, é inaceitável que mais quatro anos sejam jogados fora. Diante do estrago que se viu no último quadriênio, as margens de manobra praticamente se esgotaram.
Portanto, não são promessas de mudanças, de novas ideias, de equipes novas que vão resolver todos os problemas no país. Os brasileiros merecem respeito. E isso passa por um governo eficiente, ético e inovador. Não adianta falar em futuro melhor se, a cada ato, nos distanciarmos mais dele.
30 de outubro de 2014
Vicente Nunes
Correio Braziliense
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