"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

COMANDANTE OU COMISSÁRIO?



O jornal Zero Hora publicou (24/1/2015, pág.8) matéria apresentando os “quatro comandantes da área da Defesa”, dos quais três são gaúchos e como não poderia deixar de ser, colorados: os generais De Nardi e Villas Bôas e o brigadeiro Rossato.

Fixei-me na entrevista do general Villas Bôas pelo interesse em saber o que pensa aquele que vai comandar o nosso Exército nos próximos anos, porque estou convicto que das suas decisões sairão os rumos que nos levarão ao exército dos nossos sonhos ou a um pesadelo de indesejáveis consequências.

Nesta entrevista o repórter perguntou ao general Villas Bôas se realmente era um conciliador e a sua resposta: “Meu perfil não difere do militar moderno. A inteligência emocional é o mais importante, foge do estereótipo do militar carrancudo e autoritário. Os relacionamentos são importantes. Hoje, não se consegue comandar só com base na hierarquia e na disciplina. Tem que haver liderança”.

Depois desta resposta e do que já li sobre o general, ficou-me a impressão de que uma das suas preocupações é estabelecer um corte no Exército entre o antes e o depois da sua entrada na cena, entre o “militar carrancudo e autoritário” que comandava “com base na hierarquia e na disciplina” e o “militar moderno” que não consegue comandar somente com base na hierarquia e na disciplina.

Diz a general que a “inteligência emocional é o mais importante, foge do estereótipo do militar carrancudo e autoritário” e a impressão que passa é que “inteligência emocional” é algo novo, como os drones, por exemplo, que os militares de antanho não dispunham no seu arsenal de recursos para comandar. Ora, as competências de inteligência emocional sempre existiram, não foram criadas, mas mapeadas e deram origem a uma enxurrada de livros de auto-ajuda e contam, inclusive, com outras palavras nos princípios gerais do nosso RDE, como obrigação do militar para aprimorar suas relações sociais: civilidade, respeito, deferência, bondade, camaradagem, cortesia e consideração.

O que o general não pode é se contaminar com aquela cultura do deslumbramento que predomina no Partido dos Trabalhadores e que leva a achar que tudo que agrada aconteceu depois que eles chegaram ao poder e, o resto, é a herança maldita dos séculos que ficaram para trás, desde que Cabral aqui aportou.

Quanto aos relacionamentos: segundo o general os “relacionamentos são importantes”, mas não era o forte dos militares carrancudos e autoritários. Discordo! Criado em vilas militares posso assegurar que esta pecha que o general quer colocar nos militares mais antigos é injusta. Nossos pais comandaram não só respeitando os superiores hierárquicos, mas tratando com afeição os irmãos de armas e com bondade os subordinados. Dou como exemplo meu pai que enfrentou a Legalidade e a Revolução de 64 comandando um regimento da Cavalaria, no interior do RS, “com a tropa na mão”, sem problemas e contando sempre com o respeito e a amizade de todos. E o meu pai não era a exceção. As exceções eram os poucos “militares carrancudos e autoritários” que sempre existirão.

Quanto ao relacionamento externo, acho que ninguém discorda que o sucesso em qualquer atividade depende, em muito, da network que se consegue montar. Agora pergunto: mas que tipo de relacionamento? Aquele com políticos que fornecem uma visão distorcida do Brasil real e que só serve para fortalecer lobbies ou o relacionamento que existia (e que não existe mais) entre lideranças civis e os militares carrancudos e autoritários, nos clubes da sociedade civil, nos clubes de serviços, nos sindicatos e associações patronais e que permitiam que os comandos das FFAA tivessem uma visão do Brasil real e que se criasse uma empatia nacional que resultou, em 1964, no sucesso da intervenção militar?

Esta visão de “militar moderno” de um lado e de “militar carrancudo e autoritário” do outro, somente serve para aqueles que querem romper com a unidade do Exército. A força do nosso Exército vem da unidade que sempre existiu entre a Ativa e a Reserva. Sempre achei que a Reserva prestigiada e trabalhando em sintonia com a Ativa pode fazer aquela revolução que as armas já não fazem, a revolução silenciosa, dentro da lei. Hoje quem está com as armas adequadas não é mais a Ativa, mas a Reserva que está espalhada pelo território nacional e sintonizada nos mesmos princípios que foram inoculados em todos nós, militares, modernos ou carrancudos e autoritários.

Agora, isso somente seria possível se conduzido por alguém que venha para ser o nosso comandante e não o comissário de um partido que nos vê como óbice ao seu projeto de se perenizar no poder.

Peço a Deus que o general Villas Bôas reflita sobre isso e que tenha todo o sucesso, pois dele dependerá o futuro do nosso Exército.

28 de janeiro de 2015
Péricles da Cunha é Coronel da reserva do EB.

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