"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

RUY CASTRO ENCONTRA HOUAISS: LOBBY, SIGNIFICADO E SIGNIFICANTE


Na sua sempre brilhante coluna na Folha de São Paulo, edição de sexta-feira, Ruy Castro procurou várias definições da palavra lobby no dicionário Leonel Vallandro e, a meu ver, reencontrou-se com meu amigo Antônio Houaiss, na medida em que inevitavelmente deslocou o pensamento  a percepção para o plano do significado e significante. Esta expressão era uma das chaves do tradutor de “Ulysses” de James Joyce, acentuada nos almoços comigo e José Lino Grunewald, para mostrar as transferências e mutações da palavra e das expressões quando usadas em contextos diversos. Foi pena que ele morresse antes de iniciar o projeto de criar o Museu da Palavra.
Ruy Castro, também meu amigo, de Jose Lino e de Houaiss, mostrou as várias faces do que se compreende como lobby, atividade legalizada nos EUA, evidentemente dentro dos limites que a ética impõe, mas que no Brasil transformou-se em sinônimo de corrupção, de corruptos e corruptores, servindo para classificar os ladrões que praticaram o gigantesco assalto à economia da Petrobrás, ao ponto de desestabilizar a empresa, abalar o governo Dilma Rousseff e provocar a fortíssima reação que se nota em quase toda a sociedade do país.
ODEBRECHT
O exemplo colocado por Ruy Castro das ações do empresário Marcelo Odebrecht, traçando até os movimentos do então chefe do Executivo em contatos internacionais, é perfeito.
Acentua nitidamente a diferença entre o significado e o significante. No caso, o significante sobrepõe-se ao significado. E, como o sufixo ing usado na língua inglesa, fornece a sensação de movimento. Algo, portanto, que está acontecendo. Em “brasileiro” moderno, lobby virou sinônimo de corrupção. Em larga escala, no episódio dramático da Petrobrás.
Falei no Museu da Palavra. Seria muito importante para o Rio de Janeiro ter um. Mostraria as mutações das palavras quando pronunciadas em momentos diferentes e também levando em conta o tom em que são pronunciadas e a musicalidade de que se revestem ao longo das expressões, emoções, comunicações humanas. Vale frisar que o tema significado e significante cabe em todas as línguas. Varia de cor, forma e conteúdo conforme os cenários. O que, de certa forma, nos transforma em atores de nós mesmos. Mas esta é outra questão.
MINISTÉRIO
Aproveito a colocação de Ruy Castro para focalizar um assunto paralelo.  Lobby, por exemplo, foi o que se desenrolou nos bastidores em torno da reforma ministerial promovida pela presidente Dilma Rousseff. Um desastre. Um esforço de correntes políticas, no fundo, para dividir o acesso às tradicionais fontes de poder e aos métodos brasileiros, século 21. O lobby desenvolvido nas sombras não considerou nem a competência dos novos ministros, muito menos suas aptidões para os cargos que vão ocupar. Assim, qual pode ser a traduções de lobby e dos lobbies?
Um forte empenho para que os segmentos partidários escolhidos possam representar os interesses que se encontram na travessia dos prédios do Legislativo para a Esplanada dos Ministérios.
Nessa travessia situam-se as licitações, os termos aditivos dos contratos, as transações de vulto. Assim, lobby pode ter ainda mais uma tradução: da planície para o planalto. O novo ministério pode inclusive não durar muitos meses. Pois o deputado Eduardo Cunha, autor de indicações, está sob processo de esvaziamento político e partidário.
O lobby de que se tornou autor pode se afastar do significado e se tornar insignificante. Coisas da política.

05 de outubro de 2015
Pedro do Coutto

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