Recentemente, a Tribuna da Internet já havia noticiado as intenções de compra da malha de gasodutos da Petrobras pela Brookfield (empresa canadense criada em 1899 para fornecer energia para o Rio de Janeiro, que posteriormente foi denominada Light), e a notícia agora se confirma por nota oficial da empresa brasileira, divulgada na tumultuada noite de quinta-feira. O processo de venda deve levar de 60 a 90 dias e a oferta da empresa canadense é de 5 bilhões de dólares pelo trecho mais importante, o sudeste, por onde escoam 80% do gás do Brasil. Esta malha liga os maiores produtores (Bacia de Campos e Pré-Sal) aos maiores consumidores (indústrias paulistas).
Do ponto de vista de banqueiro, um ótimo negócio para a Petrobras: a empresa gastou 1 bilhão de dólares na construção do gasoduto, teve lucros auferidos por anos (somente em 2012 pôde ser estimado pelo balanço um lucro de 300 milhões de dólares) e agora se desfaz recebendo 5 bilhões de retorno. Um fluxo de caixa fenomenal.
O problema com este raciocínio é que o preço parece bom, mas nem o valor do bem nem os riscos que foram corridos durante a implantação do empreendimento estão sendo considerados.
VALOR ESTRATÉGICO
O gasoduto tem valor estratégico para a Petrobras, pois é a única rota de escoamento da produção. Sem este caminho, toda a produção de petróleo do Brasil pára, pois o gás é um subproduto obrigatório da produção de óleo. A única opção que restará será voltar 20 anos no tempo, quando se queimava todo o gás por falta de gasoduto. Esta opção é proibida pela legislação atual.
Da mesma forma, empresas estrangeiras produtoras de petróleo (que nunca construíram seus próprios gasodutos) até agora precisavam “pedir a benção” para a Petrobras receber o gás, passarão a estar livres para negociar diretamente com a Brookfield. Isto certamente facilitará a entrada de empresas estrangeiras na produção do petróleo brasileiro (sem fazer juízo de valor: existem pessoas que acham este fato bastante positivo e outras que acham terrivelmente negativo).
A bem da verdade, há que se defender maior participação privada e o fim do monopólio (mesmo o estatal). No entanto, é preciso defender a participação desde que ela se dê com investimento privado: construindo seu próprio duto, correndo os riscos do empreendimento, recebendo o prêmio pelo sucesso e estabelecendo um mercado variado (como nos EUA). O monopólio privado deveria estar totalmente fora de cogitação. Em resumo: a Brookfield podia pegar seu 5 bilhões, construir dutos adicionais no Brasil, melhorando a precária infraestrutura, lucrando no processo e concorrendo de forna capitalista. No entanto, prefere fazer o papel de abutre, esperando para avançar em um alvo fácil e sem riscos.
UM MAU NEGÓCIO
Como se diz popularmente, é fato que a Petrobras está vendendo o almoço para pagar o jantar. Por conta disto pagará altíssimas taxas de transporte para a Brookfield (por falta de opção), que receberá o retorno de seu investimento rapidamente. Enquanto isso, a Petrobras precisará lançar um duto paralelo, lutando com os empréstimos, altos custos, novas propinas, lobby da Brookfield para impedir a permissão pública para a obra.
Mas, sem a venda dos ativos estratégicos, qual outra solução para a enorme dívida da Petrobras? Fora as opções mais criativas, resta somente o aporte do tesouro…
(Uma observação menos importante é que foi confirmada também a venda de vários ativos na Argentina, Bolívia e Chile. Nenhum destes podem ser considerados ativos estratégicos atualmente, visto que haviam sido comprados antes da exploração do pré-sal, e seriam necessários para garantir óleo e gás para o país caso nada mais fosse descoberto no Brasil. Neste caso, a única crítica que se poderia levantar é porque não ocorreu a venda em um momento mais propício, quando o barril estava acima de 100 dólares.)
16 de maio de 2016
Carlos Newton
Do ponto de vista de banqueiro, um ótimo negócio para a Petrobras: a empresa gastou 1 bilhão de dólares na construção do gasoduto, teve lucros auferidos por anos (somente em 2012 pôde ser estimado pelo balanço um lucro de 300 milhões de dólares) e agora se desfaz recebendo 5 bilhões de retorno. Um fluxo de caixa fenomenal.
O problema com este raciocínio é que o preço parece bom, mas nem o valor do bem nem os riscos que foram corridos durante a implantação do empreendimento estão sendo considerados.
VALOR ESTRATÉGICO
O gasoduto tem valor estratégico para a Petrobras, pois é a única rota de escoamento da produção. Sem este caminho, toda a produção de petróleo do Brasil pára, pois o gás é um subproduto obrigatório da produção de óleo. A única opção que restará será voltar 20 anos no tempo, quando se queimava todo o gás por falta de gasoduto. Esta opção é proibida pela legislação atual.
Da mesma forma, empresas estrangeiras produtoras de petróleo (que nunca construíram seus próprios gasodutos) até agora precisavam “pedir a benção” para a Petrobras receber o gás, passarão a estar livres para negociar diretamente com a Brookfield. Isto certamente facilitará a entrada de empresas estrangeiras na produção do petróleo brasileiro (sem fazer juízo de valor: existem pessoas que acham este fato bastante positivo e outras que acham terrivelmente negativo).
A bem da verdade, há que se defender maior participação privada e o fim do monopólio (mesmo o estatal). No entanto, é preciso defender a participação desde que ela se dê com investimento privado: construindo seu próprio duto, correndo os riscos do empreendimento, recebendo o prêmio pelo sucesso e estabelecendo um mercado variado (como nos EUA). O monopólio privado deveria estar totalmente fora de cogitação. Em resumo: a Brookfield podia pegar seu 5 bilhões, construir dutos adicionais no Brasil, melhorando a precária infraestrutura, lucrando no processo e concorrendo de forna capitalista. No entanto, prefere fazer o papel de abutre, esperando para avançar em um alvo fácil e sem riscos.
UM MAU NEGÓCIO
Como se diz popularmente, é fato que a Petrobras está vendendo o almoço para pagar o jantar. Por conta disto pagará altíssimas taxas de transporte para a Brookfield (por falta de opção), que receberá o retorno de seu investimento rapidamente. Enquanto isso, a Petrobras precisará lançar um duto paralelo, lutando com os empréstimos, altos custos, novas propinas, lobby da Brookfield para impedir a permissão pública para a obra.
Mas, sem a venda dos ativos estratégicos, qual outra solução para a enorme dívida da Petrobras? Fora as opções mais criativas, resta somente o aporte do tesouro…
(Uma observação menos importante é que foi confirmada também a venda de vários ativos na Argentina, Bolívia e Chile. Nenhum destes podem ser considerados ativos estratégicos atualmente, visto que haviam sido comprados antes da exploração do pré-sal, e seriam necessários para garantir óleo e gás para o país caso nada mais fosse descoberto no Brasil. Neste caso, a única crítica que se poderia levantar é porque não ocorreu a venda em um momento mais propício, quando o barril estava acima de 100 dólares.)
16 de maio de 2016
Carlos Newton
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