"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

OS NOVOS EUROPEUS

Já faz mais de duas décadas. Eu trabalhava na Folha de São Paulo quando me caiu nas mãos uma notícia: o cantor sueco Fulano de Tal... Junto, vinha a foto de um negro. Sueco negro? Jamais havia visto. Em verdade, era sueco. Isto é, era de origem jamaicana, mas tinha passaporte sueco. A notícia não precisava este detalhe. Desde então tornou-se comum encontrarmos cidadãos ingleses, franceses, alemães, belgas, holandeses ou escandinavos chamados Mahamud, Mohamed, Ahmed, Abdul.

Segundo o Sunday Times, o Reino Unido julga ter identificado o membro do Estado Islâmico (EI) – outro eufemismo adotado pela imprensa, já que uma horda de terroristas com Estado nada tem a ver - que decapitou o jornalista americano James Foley. Atribuindo a informação a "altos funcionários do governo britânico", o periódico diz não saber quem é o homem, mas aponta como principal suspeito o rapper britânico Abdel-Majed Abdel Bary, 23, conhecido como Jihadi John.

Temos então um cidadão britânico batizado como Abdel-Majed Abdel Bary. Que tenha passaporte britânico, não tenho dúvidas. Daí a ser britânico vai uma longa distância. Diz ainda o jornal:

“Em junho, causou comoção um vídeo em que os estudantes britânicos Nasser Muthana e Reyaad Khan, ambos de 20 anos, e Abdul Rakib Amin, de 25, defendiam a jihad (guerra sagrada) e pediam que mais jovens do ocidente deixassem seus países para se juntar ao grupo”. Pelo jeito, o politicamente correto está dominando a imprensa européia, que identifica árabes ou filhos de árabes com passaporte britânico como britânicos de cepa.

Segundo a agência EFE, para The Middle East Media Research Institute (MEMRI), centro que investiga em Washington a evolução do jihadismo, o recrutamento de europeus que se somam à jihad na Síria aumentou. Membros do EI que saíram da Europa para lutar na Síria estão usando a internet e as redes sociais para enviar vídeos e mensagens a seus respectivos países e aumentar a capacidade de recrutamento de extremistas. Dois jihadistas do EI protagonizam um vídeo no qual, falando em espanhol, pedem que a Andaluzia faça parte de seu califado, que aspira a instaurar a lei islâmica da Espanha à Indonésia.

“A Espanha é a terra de nossos avôs e vamos libertá-la com o poder de Alá”, ameaça o homem, com barba e um kufiya (o lenço quadriculado) sobre sua cabeça. "Esta não é a primeira vez que vemos combatentes estrangeiros falando em espanhol. Na semana passada, um vídeo foi postado na internet por um indivíduo do Chile com o pseudônimo de Abu Safiyya. O recrutamento de europeus, incluindo espanhóis, que se somam a Jihad na Síria aumentou", disse Rachel Rosenberg, porta-voz do instituto.

Para o secretário de Estado de Segurança do Ministério do Interior espanhol, Francisco Martínez Vázquez, a participação de combatentes europeus em guerras como a da Síria é 'o maior desafio' na luta antiterrorista global.

Para Bernardes Pires de Lima, do jornal português Diário de Notícias, a guerra na Síria é, em apenas dois anos, palco do maior contingente estrangeiro de jihadistas. Está para esta década como o Afeganistão esteve para os anos 1980, a Bósnia para os anos 1990 e o Iraque para o princípio deste século. Estudos recentes dão conta de mais de 6 mil estrangeiros a combater Assad, uns juntando-se à Al-Qaeda e seus afiliados, outros integrando as operações de resistência sunita.

“Líbios, tunisinos e sauditas estão no topo deste pelotão, mas há cada vez mais indicadores a alertar para a crescente presença de europeus na Síria. São perto de 10% desse contingente estrangeiro e vêm sobretudo de Reino Unido, Holanda, Bélgica, Dinamarca, França e Alemanha. Há dias, Manuel Valls, ministro francês do Interior, confirmou ao site Al Arabyia que 120 franceses estavam neste momento a combater na Síria e que receava o seu regresso à Europa. Já o Guardian, citando fontes do ministério do Interior alemão, confirmava a ida de 60 alemães para o Egito depois de receberem treino na Somália. Ou seja, os europeus radicalizados e motivados a integrar a jihad preferem o Médio Oriente a outras regiões, como o Mali, por exemplo”.

O diário espanhol ABC de hoje, traz reportagens sobre os principais viveiros de jihadistas na Europa. Ceuta e Melilla são os pontos de partida da jihad espanhola para a Síria e o Iraque. Madri é o epicentro de recrutamento. Só neste ano, foram presos 25 jihadistas, em operações que se estenderam até Huelva. Na Holanda, o recrutamento ocorre particularmente em Schilderswijk, bairro de Haia, onde os imigrantes estão inclusive aplicando a sharia, em flagrante desrespeito às leis do país.

Na Bélgica, o celeiro está em Scharebeek, bairro de Bruxelas, onde grupos integristas assumiram o controle de zonas inteiras, nas quais a polícia tem dificuldade para intervir. Na França, que abriga a maior comunidade muçulmana da Europa, Lille foi desde o inicio o cenário onde os militantes do islamismo puseram à prova a fortaleza democrática ao impor a segregação por sexo nas piscinas. Nos arredores de Paris e Marselha, os árabes isolam-se em bairros inteiros.

Europeus, estes senhores? Vamos deixar de eufemismos. Não é improvável que um europeu maluco e desajustado vá lutar em guerras insanas e alheias. Mas a maioria destes “europeus” são obviamente imigrantes de terceira ou quarta geração, que por um lado não se integraram à civilização européia e, por outro, alimentam sonhos messiânicos de um novo califado, onde gozariam de poder e riqueza.

São os filhos e netos de árabes que foram matar a fome no velho continente. Matada a fome, quiseram acesso ao bem-estar europeu, sem habilitação para tanto, ou por permanecerem isolados em seus guetos islâmicos. Desligados de sua cultura natal e sem conseguir ser europeus, alimentam-se de ressentimento. Lutar e matar, seja quem for, é um bom défoulement, como dizem os franceses.

Quando vivi em Paris, tive um amigo argeliano, o escritor Slimane Zeghidour, que inclusive escreveu um livro sobre A poesia árabe e o Brasil. A poesia árabe, dizia-me, é uma onda que procura margem. Sugeri um título que me pareceu excelente: Vague cherche rivage. Mas o livro não foi publicado em francês. Apenas em português. Perfeitamente integrado à cultura francesa, Slimane fez carreira na grande imprensa como cartunista e repórter. Eram os tempos de Valéry Giscard d’Estaing, que ofereceu dez mil francos e a passagem de volta a todo imigrante que voltasse a seu país.

- Podem me dar a França inteira – dizia-me Slimane -. Não volto. Eu não posso levá-la no bolso. Os árabes que abandonaram o fanatismo islâmico e não confundem Estado com religião vivem tranquilos na Europa e jamais se deixariam recrutar para guerras alheias. Tornaram-se quase europeus. Digo quase, porque estrangeiro algum se torna europeu. Pode ser aceito, mas será sempre estrangeiro.

Seja como for, a imprensa poderia tomar vergonha e deixar de chamar árabes de europeus. É um grosso sofisma que só serve para enganar os leitores. Não custa muito espaço escrever cidadão europeu de origem árabe ou imigrante árabe com passaporte europeu.


25 de agosto de 2014
janer cristaldo

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