"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

sexta-feira, 21 de março de 2014

A REFINARIA SEM REFINAMENTO DE DILMA

A ESPANTOSA e destrambelhada explicação que a presidente deu sobre sua parte em um negócio ruinoso da Petrobras abriu, se não as portas, ao menos as janelinhas de um inferno político e as da história do preço exorbitante do empreendimento, que, aliás, não tem sido contada de modo correto.

Na cúpula da Petrobras, diz-se que a presidente fez uma "baixeza" com a atual direção ou, mais ameno, uma "barbeiragem desinformada". No lulismo, que Dilma "se afobou como uma amadora e atirou no pé".

Dilma presidia o conselho de administração da Petrobras em fevereiro de 2006, quando ela e outros autorizaram a empresa a comprar refinaria nos EUA (US$ 360 milhões por 50% de um negócio que um ano antes saíra por US$ 42,5 milhões).

O negócio se revelaria pior. Dilma diz que não sabia que o negócio ficaria ainda pior, pois não teria recebido informações completas sobre o contrato, pelo que culpa Nestor Cerveró, então diretor da empresa.

A Petrobras comprou a metade da refinaria Pasadena da Astra Oil Trading. Além disso, Astra e Petrobras criaram uma trading (comercializadora) de petróleo e insumos para a refinaria.

A Astra faz parte do mundão de empresas do barão Albert Frère, 88, tido com o homem mais rico da Bélgica (não terminou o colegial e começou a carreira salvando o negócio de sucata da família).

Em meados de 2007, Astra e Petrobras começaram a divergir sobre "estratégias". Em dezembro de 2007, chegaram a firmar um acordo em que a Astra sairia do negócio. Pelo acordo de acionistas, a Astra tinha um direito meio fácil de obrigar a Petrobras a comprar sua parte.

Em 2008, o conselho da Petrobras rejeitaria a compra (que no acordo sairia por US$ 700 milhões, segundo consta do processo na Justiça americana). O caso virou então objeto de arbitragem em junho de 2008 e, a seguir, parou na Justiça, quando a Petrobras acusou a Astra de tirar vantagens indevidas na venda de petróleo, entre outros rolos.

A Petrobras perdeu na comissão de arbitragem e perdeu na Justiça. Foi condenada a pagar, até 27 de abril de 2009, US$ 295,6 milhões pela refinaria, US$ 170,7 milhões pela trading e US$ 156,4 milhões por um dinheiro que a Astra colocou no negócio, afora custas judiciais e juros, o que daria no fim uma conta de US$ 639 milhões. A Petrobras não pagou, recorreu e perdeu de novo.

Em 2012, jogou a toalha e fez um acordo final de US$ 820 milhões --é interessante investigar como se chegou a tal valor. De qualquer modo, enfim, a Petrobras não "pagou" outros US$ 820 milhões pela refinaria, mas também por outros negócios e pela lavada jurídica que levou.

Questões.

Cerveró caiu da direção em maio de 2008, quando o conselho e Dilma, dizem, foram informados de que seriam esfolados pela Astra. Mas caiu "para o lado". Era diretor financeiro da BR até ontem. Por que ficou? Era inocente? Sabia demais? Por que Dilma o expôs apenas agora?

Dilma achava que o negócio inicial era bom? Isto é, aprovou gastar US$ 360 milhões por 50% de uma refinaria vendida um ano antes por US$ 42 milhões?

O que foi feito para tirar a coisa a limpo? Houve tempo. Petrobras e Astra começaram a negociar um acordo no final de 2007. A petroleira jogou a toalha em março de 2012. Não deu tempo de investigar o motivo da tunda de US$ 1 bilhão?

 
21 de março de 2014
Vinicius Torres Freire, Folha de SP

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