"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

MACHADO PARA ANALFABETOS

O Brasil está cheio de escritores que escreveram mais de 50 ou 100 livros, dos quais não conhecemos nem os títulos. São o que chamo de escritores de Estado. Amigos do Rei e do MinC, têm suas “obras” distribuídas a bibliotecas e impostas às escolas como leitura obrigatória pela indústria nefasta da dita literatura infanto-juvenil.
Leitor mesmo – falo de quem lê por prazer e iniciativa própria - não têm nenhum.

Este parece ser o caso de Patrícia Secco, autora de mais de 250 livros, dos quais duvido que os leitores tenham ouvido falar. Nas últimas semanas, a prolífica escritora saiu do anonimato, após ter captado dinheiro graças à infame lei Rouanet, para adaptar a uma linguagem mais simplificada O Alienista, de Machado, e A Pata da Gazela, de José de Alencar, que devem sair mês que vem.

"Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis", diz a escritora. "Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso."

Pessoalmente, não tenho maior apreço por Machado e quem me lê sabe disso. E não é por seu vocabulário. Em um universo em que existem Cervantes, Swift, Dostoievski,Kuprin, Orwell, Koestler, Huxley, Machado faz feia figura. 

 Entende-se que tenha sido lido em sua época: poucos escreviam no Brasil no século XIX e Machado supria uma lacuna no panorama literário nacional. Como cronista da época, passa. Como autor que tenha algo a dizer ao leitor contemporâneo, é paupérrimo.

Enquanto Dostoievski, mais ou menos na mesma época, remexia os subterrâneos da alma humana, discutia Deus, terror, crime, castigo e sentido da vida, o carioquinha construía o grande drama nacional, se Capitu traiu ou não Bentinho.

O Alienista é uma das poucas obras de Machado que me dizem algo. Mas é bom lembrar que a história já está em Swift, com a diferença de que o irlandês situava sua história em um hospital para doenças físicas, e não mentais.

Leio na Folha de São Paulo que a equipe que "descomplica" o texto é formada "por um monte de gente", entre eles a própria autora e dois jornalistas amigos. A tiragem, de 600 mil exemplares, será distribuída de graça pelo Instituto Brasil Leitor.

O lançamento será em junho, e terá direito a um túnel construído com 60 mil livros no vale do Anhangabaú, centro da cidade.

Por que Machado ainda é lido e publicado? Graças ao affonsocelsismo da intelectuália tupiniquim, que precisa encontrar algo nacional para cultuar. Não fosse a imposição da leitura de seus livros através das escolas, vestibulares e universidades, morreria à míngua o editor que o publicasse.

Imagine se, para comer em um restaurante, você fosse obrigado a consumir vinho nacional. Claro que qualquer cidadão, em nome do elementar direito a beber o que bem entendesse, estrilaria. Curiosamente, quem pretende entrar na universidade é coagido a ler autores obsoletos, só porque são nacionais. Na hora de comprar um carro, beber uísque ou vinho, o consumidor prefere os importados. Na hora da literatura, os jovens recebem goela abaixo essa excrescência, o autor nacional.

Sê como o Machado que perfuma o vândalo que o fere – parafraseou alguém. Se perfuma quem o fere, imagine o que faz a quem o incensa. Machado vale ouro. Cultuar Machado é ter passe livre na academia. Não adorá-lo é exílio perpétuo. Mas vamos ao cerne da questão: adaptá-lo ou não adaptá-lo?

A adaptação seria feita para alunos, isto é, para adolescentes. Ora, Machado, adaptado ou não, não é leitura para adolescentes, mas para adultos. Por outro lado, pelo que diz a celebérrima escritora, adaptar seria simplificar sua linguagem. Ora, um escritor é fundamentalmente sua linguagem. Se trocarmos Machado em miúdos, Machado não é mais Machado.

Esse crime já foi cometido contra autores bem mais importantes, como Cervantes, Shakespeare, Swift e vários outros. As Viagens de Gulliver, o mais virulento libelo já escrito contra o ser humano, foram transformadas em conto de fadas.

Conheço muita gente que deixou de ler uma obra de gênio por julgá-la ser um livro infantil. Não li o Quixote adaptado. Mas pode-se imaginar como fica uma história recheada de palavras que designam objetos que não mais existem, transposta para um vocabulário contemporâneo. Como será traduzido o elmo de Mambrino? O capacete de Mambrino? E adarga em riste? Cacete apoiado no peito? Escudeiro será o quê? Secretário?

Por outro lado, a adaptação redutora proposta pela conhecidíssima escritora, rouba aos alunos uma das funções da leitura, o enriquecimento do vocabulário.

Em meus dias de Folha de São Paulo, tive colegas que falavam duas ou três línguas mas desconheciam palavras banais do português, como obus ou preito. E palavra que jornalista de um grande jornal não conhece, é palavra que não existe.

O jornalista considera então que o leitor é tão inculto quanto ele e evita a palavra que desconhece. Não é inusual encontrar na Folha, como aposto à palavra marxismo: doutrina criada pelo pensador alemão Karl Marx. Hoje, com um mísero vocabulário de 500 (ou 600 palavras, vá lá!) você entende qualquer jornal. Quando fujo por um segundo desse feijão-com-arroz, não falta leitor que proteste. Uma amiga reclamou certa vez que, para ler minhas crônicas, precisava de um dicionário ao lado. Era aeromoça, dominava inglês e espanhol, tinha longa quilometragem em vôos para todos os cantos do mundo e nem sempre conseguia entender-me.

Os educadores – e a brilhante escritora – parece ter esquecido de um livrinho que deve acompanhar toda pessoa que lê, o dicionário. Me considero pessoa razoavelmente culta, mas ao lado de meu computador repousa eternamente um dicionário, que mais não seja para dirimir dúvidas. Na prateleira ao lado, tenho mais de quarenta. De vocabulário, de línguas, de história e da Bíblia. Desta, tenho três. E acho muito difícil ler o Livro sem um bom dicionário ao lado.

Em minhas aulas de sueco, fiz um desafeto, um de meus professores. Segundo ele, a forma correta de dizer “deste modo” era på det sätt. Insisti que poderia dizer på detta sätt. Para ele, era erro. Puxei então Selma Lagerlöf. Lá estava på detta sätt. Ele ficou sem graça diante dos demais alunos e fechou-se em copas comigo. Eu lia os clássicos suecos. Ele não. Provavelmente, nas versões contemporâneas, Lagerlöf já foi devidamente adaptada.

O mesmo ocorreu em Madri. Em uma das aulas de literatura espanhola, uma aluna perguntou à professora o que queria dizer “vale”. É expressão usada para manifestar acordo, adesão, seja a uma idéia, seja a um convite. Segundo a professora, era criação da gíria contemporânea dos jovens. Parece que naquele dia o bom Deus dos ateus velava por mim: para fugir das bobagens que dizia a professora, eu relia o Quixote. E lá estava, encerrando o prólogo:

“Panza, su escudero, en qien, a mi parecer, te doy cifradas todas las gracias escuderiles que en la caterva de los livros varios de caballerias etán esparcidas. Y con esto, Diós te dé salud y a mi no me olvide. Vale”.


Eu lia o Quixote. Ela provavelmente não. E considerava ser gíria dos anos 80 uma palavra usada já há quatro séculos. Li a passagem para a professora. Um anjo pareceu ter descido na sala e um silêncio constrangedor tomou conta de todos. Menos de mim, que intimamente ria às gargalhadas.

Independentemente da excelência ou não de Machado, traduzi-lo para a pobreza vocabular contemporânea é empobrecê-lo. E empobrecer Machado é empobrecer seus leitores. No que não vai nada de original. A função da escola contemporânea parece ser manter seus alunos na inciência dos infantes.

Vale?


15 de maio de 2014
janer cristaldo

DOCES RECORDAÇÕES DA NOSSA AMARGA REALIDADE - I

BOKO HARAM E AS FARC: JAMAIS NEGOCIAR COM O TERROR


 Artigos - Terrorismo
Os nigerianos não aceitariam que os cabeças do Boko Haram dissessem que as meninas não estavam sendo violadas, senão sendo “instruídas nas artes do amor”, como afirmaram os chefes das FARC ao dizer que eles não seqüestram menores, mais de 1.000 só no ano passado.

Se não fosse o desdobramento noticioso do sequestro de cerca de 300 meninas na Nigéria, sua repetida violação durante o dia e sua posterior venda como escravas, muitos não haveriam se inteirado da existência do grupo terrorista fundamentalista islâmico Boko Haram.


Boko Haram, que em língua hausa significa “a educação ocidental é pecado”, embora não seja um grupo antigo, é o causador da morte de pelo menos 10 mil pessoas desde 2002 que, escudado em uma interpretação fundamentalista do Islã, tenta estabelecer uma espécie de talibanato africano no norte da Nigéria.

Resulta incrível para muitos que isto esteja ocorrendo em pleno século XXI, porém, embora os nossos conflitos empalideçam ao lado dos africanos e por isso são melhores referências para buscar soluções que os conflitos centro-americanos, o que a Colômbia sofreu por conta das guerrilhas e dos grupos armados ilegais de todos os matizes, proporcionalmente pode ser mais terrível do que o que está sucedendo na Nigéria.

A maldade dos membros do Boko Haram parece indizível, mas ninguém na Nigéria está estabelecendo que se tenha que negociar com estes selvagens. O presidente nigeriano Goodluck não está dizendo, como o nosso, que deve sacrificar a justiça para que delinqüentes e violadores deixem de exercer como tais. Na Nigéria poucos aceitarão que as ações de Boko Haram são as manifestações legítimas de um grupo que tem o direito de impor uma proposta social, que não é outra coisa que uma versão retorcida de uma “fantasia do passado”, como definiu há dias David Brooks.

Não acredito que na Nigéria se aceite que as atrocidades destes dementes escudados em desígnios religiosos, tenham o direito de dizer que eles não seqüestram, como sustentam os bandidos com que este governo nefasto “nos negocia” em Havana.

Os nigerianos não aceitariam que estes desequilibrados se atreveriam a dizer que as vítimas não são as meninas torturadas, senão eles, como disseram os que agora engordam em Havana. Tampouco aceitariam que os cabeças do Boko Haram dissessem que as meninas não estavam sendo violadas, senão sendo “instruídas nas artes do amor”, como afirmaram os chefes do grupo narco-terrorista das FARC ao dizer que eles não seqüestram menores, mais de 1.000 só no ano passado, porque o que sucede é que na Colômbia os meninos do campo amadurecem mais rápido, ou que suas vítimas durante cinco décadas não são vítimas deles, senão “do conflito”.

A perversidade de nosso conflito é maior por culpa de um presidente que, para tentar ganhar o céu, decidiu se aliar com diabos e convertidos em seus novos melhores amigos, minimiza os delitos destes delinqüentes e quer exonerá-los de punição, e cataloga de fascistas, no melhor estilo Maduro, aos que não estejam de acordo com sua perversa negociação.

Faltam poucos dias para as votações [1] e vão tentar por todos os meios possíveis distrair os colombianos com todos os “escândalos” que possam. Porém, quando for marcar seu voto lembre-se em que mãos estamos e poderíamos ficar.

15 de maio de 2014
Juan David Escobar Valencia
Nota da tradutora:
[1] O autor refere-se às eleições presidenciais que ocorrerão no domingo 25 de maio, em que Juan Manuel Santos concorre à re-eleição.

Tradução: Graça Salgueiro

AMBIENTALISMO: UMA COLUNA INFILTRADA DE PUTIN NO OCIDENTE

 Artigos - Ambientalismo
Um importante número de grupos ambientalistas radicais procede da metamorfose operada por organizações montadas pela URSS no Ocidente com fachadas enganadoras no tempo da Guerra Fria.

O jornal “Washington Post” apontou que “a mais moderna arma da Europa” contra a agressividade do presidente russo Vladimir Putin jaz enterrada sob os belos pastos de pitorescas aldeias.

Trata-se do gás e do petróleo de xisto – ou shale gas – que a Europa possui em quantidades suficientes para livrar-se das chantagens da “nova URSS”.

Agora, muitas vozes europeias nos setores conservadores aumentam de volume pedindo essa arma pacífica. O premiê inglês David Cameron somou-se a esse coro.

Mas não se extrai esses combustíveis da noite para o dia. Por que não o fizeram antes?

A Polônia depende de modo angustiante dos combustíveis russos, mas detém uma das maiores reservas de gás de xisto da Europa. A França já foi qualificada de Qatar do gás europeu, mas tampouco extrai e depende do gás árabe.

Os volumes de gás na Grã-Bretanha estão sendo comparados aos da Dakota do Norte (EUA), segundo o mesmo
“Washington Post”. As reservas europeias mensuradas são apenas menores que as do EUA. Estas, sim, vêm sendo exploradas e estão mudando o jogo planetário dos recursos energéticos.

“O potencial é enorme. O recurso é muito grande no Reino Unido e na Europa”, diz Francis Egan, diretor-chefe de uma das maiores firmas especializadas no fracking, técnica para a exploração desse recurso.

O fato é que uma campanha pertinaz do ambientalismo radical, sonolentamente acompanhada pela opinião pública, mas com forte apoio nos meios políticos oficiais, até o presente bloqueou qualquer aproveitamento sério desse maná energético e deixou a Europa de joelhos diante da ameaça russa e da instabilidade árabe.

Na Europa e também nos EUA, a bem paga militância ambientalista aprontou slogans, filmes e material propagandístico para assustar os habitantes das regiões onde se pode tirar o gás de xisto.

Água potável envenenada, torneiras saindo fogo, etc., destas fraudes propagandísticas já nos ocupamos em diversos posts. (Veja, por exemplo:
Ardis cinematográficos para impedir exploração de gás de xisto).

Dessa maneira, já se fala em Terceira Guerra Mundial, e a grande cartada de Putin para ameaçar o Ocidente não é a vetusta indústria bélica russa nem sua desequilibrada economia. Nem mesmo as imensas jazidas de gás e petróleo.

Essa grande cartada foi-lhe fornecida pelo ambientalismo radical que desarmou o Ocidente e o deixou preso na “corda de aço” dos dutos russos.

Um importante número de grupos ambientalistas radicais procede da metamorfose operada por organizações montadas pela URSS no Ocidente com fachadas enganadoras no tempo da Guerra Fria.


A Alemanha é talvez um dos países mais visados por esse esquema. Ela decidiu acabar com suas usinas nucleares no prazo de uma década, fato que a deixou ainda mais dependente do gás russo.

O ambientalismo insiste nas “energias renováveis”, mas seu discurso fica incompreensível quando se constata que não há ainda tecnologia que torne esses recursos substitutos viáveis das energias convencionais.

O governo alemão estaria considerando a possibilidade de construir imensos portos para receber o gás liquefeito dos EUA, e ainda outras medidas caríssimas. Mas não age como um governo de fato soberano, pois depende da longa manus ambientalista que serve aos interesses de Moscou.

Num momento em que se joga a paz na Europa e no mundo, os defensores do fracking – a tecnologia que permite aproveitar as jazidas salvadoras de gás – tomam coragem, mais a oposição “verde” é ferina.

Por exemplo, o deputado Michael Fuchs, do partido CDU – ao qual pertence Angela Merkel –, falou em Berlim, pedindo para se prestar um pouco de atenção no fracking, Suas contas de Twitter e Facebook foram sepultadas com mensagens de ambientalistas fanatizados.

Na Polônia, país na mira do “novo-sovietismo”, as atitudes públicas em relação ao fracking estão mudando. Porém, após quatro anos de experiências, o país avançou pouco sobre suas imensas reservas. Estas poderiam satisfazer às suas necessidades domésticas de energia durante séculos.

A crise da vizinha Ucrânia estimulou novos esforços e o premiê Donald Tusk propôs uma suspensão dos impostos durante seis anos para a produção de gás de xisto.


15 de maio de 2014
Luis Dufaur, escritor

NO PAÍS DA NEGAÇA




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No romance O Drible, o futebol é o nó que resiste à interpretação e revela ao extremo a alma brasileira
por FÁBIO DE SOUZA ANDRADE
 

Não é de hoje, às vésperas da invasão da Copa, que o mundo do futebol e o futebol como mundo vêm ocupando a imaginação dos brasileiros. Em tons de cinza ou em cores vivas, cruzou o século XX fazendo sonhar ricos, miseráveis e remediados, homens, mulheres e crianças, e hoje atrapalha o sono de black blocs e geraldinos. É um pouco nossa língua franca, matriz de metáforas que atravessa e se deixa atravessar pela diversidade pouco pacificada de classes, valores, preconceitos. Mais que válvula de escape, é tanto um laboratório de conflitos tragicamente adiados, como um lugar de reinventar muita vontade e potência represadas.

Que tudo é traduzível nos termos da paixão pela bola é uma certeza que o ensaísmo local cultiva há muito, extrapolando a sociologia do esporte para propor diagnósticos profundos do país a partir do futebol e seus lances. Para ficarmos só em tempos e exemplos recentes, Nuno Ramos arrisca uma poética do jogo em “Os suplicantes”, seção de seu Ensaio Geral (Globo, 2007); Tales Ab’Sáber faz uma leitura psicanalítica da derrota da Seleção de 1982, lapso ou sintoma de um time talentoso que recusa o pragmatismo globalizado; e José Miguel Wisnik, em seu ambicioso Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil (Companhia das Letras, 2008), enxerga dialeticamente na história do futebol brasileiro um espaço de conversão do reino da carência e do improviso em vantagem, de imposição do princípio do prazer à realidade, com os ganhos e impasses que o projeto comporta.

Expressão aguda de uma sociabilidade tensa sob uma mansidão de superfície, linguagem refinada e arte combinatória em si, fonte de expressões linguísticas que transitam livremente das metáforas dos analistas econômicos à filosofia popular, da retórica presidencial às reuniões de condomínio, o futebol é para os brasileiros um fato social total. Não assombra em nada, portanto, o fascínio que exerce sobre artistas, críticos de cultura e psicanalistas. Espantoso, na verdade, é o relativo silêncio da ficção brasileira ao redor do tema, hesitante como o batedor inseguro diante do pênalti decisivo. Temos cronistas memoráveis, de Nelson Rodrigues a Plínio Marcos, os clássicos pioneiros de Mário Filho, claro, mas ainda nos falta alguém que confira ao futebol brasileiro o estatuto ficcional que Zola, por exemplo, atribuiu à moda francesa em seu Au Bonheur des Dames (1883).

Publicado nos estertores de 2013, O Drible(Companhia da Letras), de Sérgio Rodrigues, carioca de Muriaé (MG), escritor, crítico literário e criador do blog Todoprosa, chega muitíssimo bem recomendado (elogios superlativos de Tostão, Luis Fernando Verissimo e Sérgio Augusto, estampados na quarta capa), disposto a jogar no vazio e ocupar esta lacuna literária.

Na ficção brasileira recente, não faltam alusões ao mundo do futebol, mas em nenhuma delas ele cresce para além de pano de fundo. Elemento entre outros, figura ora reduzido à representação mais ou menos criteriosa de uma de suas dimensões (histórico-sociológica, simbólica, ligada ao âmbito da psicologia social), ora focalizado a partir de acontecimentos traumáticos ou trajetórias individuais excêntricas. Assim se passa com o bom romance O Segundo Tempo, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2006), em que a memória de um Gre-Nal de 1989 serve de mote ao autor para lidar com o rito de passagem do narrador ao mundo adulto, confrontado com o colapso da vida familiar.
É o caso também de Páginas sem Glória, novela de Sérgio Sant’Anna (Companhia das Letras, 2012), em que se acompanha a ascensão e queda de um jogador atípico e aristocrático, Zé Augusto, o Conde, no futebol carioca dos anos 50. Mais antigo, “No último minuto” (1973), conto do mesmo Sant’Anna, esmiúça, valendo-se de múltiplos pontos de vista e variações de ritmos narrativos, as consequências funestas de um frango humilhante para um goleiro azarado, enquanto O Paraíso é Bem Bacana, romance de André Sant’Anna (Companhia das Letras, 2006), filho de Sérgio, se instaura no mundo da globalização do futebol, do Brasil celeiro exportador de craques, surpreendentemente combinado ao tema do terrorismo fundamentalista contemporâneo.
 
Neste quadro, a novidade do romance de Sérgio Rodrigues está não tanto em converter a lógica do jogo em forma – como a poesia de João Cabral logrou recriar em palavras o tempo capturado no estilo de Ademir da Guia –, mas em reconhecer no futebol este nó, resistente à interpretação e revelador ao extremo, da “alma brasileira” (para falar como Villa-Lobos), e dele fazer seu material romanesco, explorando-o em múltiplas direções. As contradições estruturais que regem a vida brasileira em vários planos, as mesmas que os grandes intérpretes do Brasil, de Machado de Assis a Sérgio Buarque de Holanda, souberam apanhar e formular, podem ser rastreadas, traduzidas e trabalhadas nos termos do mundo da bola. Mais: O Drible reconhece a pertinência desta tese (o futebol é a tinta com a qual se escreve e descreve a identidade brasileira), quanto sua natureza problemática.

Ainda que a menção a Zola pareça extemporânea, não é de todo estrambótica. Não se trata de naturalismo, nem Sérgio Rodrigues é um narrador ingênuo. Seu modo hábil de manipular os fios cronológicos, alternando presente e passado na narrativa, e encaminhando o leitor para um desenlace trágico com tintas de melodrama, é claro sinal disso. Neste aspecto, a finta estrutural aludida no título lembra a solução de outro bom romance contemporâneo, O Sentido de um Fim, de Julian Barnes (Rocco, 2012). Tampouco seu estilo é árido e seco, à maneira dos neorrealistas: flerta com uma prosa que tende à multiplicação de imagens surpreendentes, ao modo de Vladimir Nabokov, grande estilista da narrativa e também apaixonado pelo futebol, em seu tempo, um bom goleiro. É a disposição de esgotar a representação de um fenômeno que lembra o espírito realista do autor de Germinal.

Em O Drible, o aparente núcleo irradiador é um romance familiar, ajuste de contas que um eterno filho – Murilo Neto, revisor de livros de autoajuda, ruim de bola e pobre-diabo assumido, quarentão curtido em ressentimento, frustração e cultura pop – se vê obrigado a levar com o pai, Murilo Filho. O velho é um cronista esportivo dos anos de ouro do Jornal dos Sports, celebridade da praia e da noite cariocas, companheiro de redação de Nelson Rodrigues e parceiro de Millôr no frescobol. Reaproximado do velho que não vê há anos e a quem culpa pela morte precoce da mãe, no intervalo espaçado dos domingos, em torno a pescarias tediosas e diálogos de surdos, o filho tenta, sem sucesso, desviar o pai, doente terminal e ao que tudo indica senil, do mar de lembranças futebolísticas, rumo à única memória que para ele conta de verdade.

Aos poucos, os múltiplos planos do romance vão se armando. Os percursos diversos, o bem-sucedido do pai e o abortado do filho, decadente antes de ter atingido o ápice, recobrem e repercutem momentos diversos. Murilo Filho vive o Rio de Janeiro dos anos 50, o otimismo em alta, acolhendo e abrindo perspectivas ao mineiro provinciano; Neto luta para se desvencilhar da sombra do pai, castradora e associada às benesses do regime militar, nos anos da redemocratização do país, aderindo à febre do rock brasileiro e afogado em séries televisivas.

As imagens borradas de videoteipes televisivos de lances míticos do futebol brasileiro – como o gol de Pelé que poderia ter sido e que não foi contra o Uruguai em 1970 – não apenas sintetizam a incapacidade de ver o essencial que corrói a vida do anti-herói protagonista, como disparam outro dos motivos condutores do romance: o fato e as versões, ou a verdade reconfigurada no circuito da comunicação, da sua reinvenção linguística. O drible em xis desconcertante que Pelé e a bola, cúmplices, impuseram a Mazurkiewicz, goleiro da seleção uruguaia no lance em questão, Murilo Filho reescreve pelos olhos de Platão, pura beleza essencial mesmo não tendo redundado em gol.
Na sua recusa em tocar a bola feito um Bartleby súbito, diz, Pelé refinou o futebol à sua essência mais rarefeita. O futebol virou ideia e de repente homens, bola, ninguém mais se comportava como seria de se esperar que se comportasse neste mundo vão [...] Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo.

Não é fortuito que o pai do protagonista seja um jornalista com pendor às matérias de interesse humano, cronista do futebol, e que Nelson Rodrigues e Mário Filho façam figuração entre os personagens. Tal qual o imbróglio familiar, a identidade brasileira e a importância do futebol vão se constituindo enquanto enigmas da narrativa, para cujos contornos épicos a fabulação hiperbólica e estilizadora representa papel essencial. Pelos pés de seus personagens, Rodrigues (o Sérgio) passeia pela assunção do futebol a mito no Brasil, ressaltando o papel central que nela joga a inventividade verbal dos locutores de rádio, convertendo peladas sofríveis em eventos memoráveis. A história da transição bem-sucedida do futebol amador ao profissional, o estabelecimento de um star systemdos boleiros locais, contra as apostas, tão carrancudas quanto furadas, de Lima Barreto ou Graciliano Ramos, coincide com as voltas da comunicação de massa no país, com mão leve e sempre a partir do mote do futebol. O amplo arco histórico coberto pelo romance expande-se até o momento da exploração televisiva das conquistas futebolísticas pela ditadura e as consequências do olhar eletrônico sobre o jogo.
 
No domingo em que Murilo Filho lhe mostra em sua casa no Rocio o gol que Pelé não fez, você se dá conta pela primeira vez na vida de que aquele era o mesmo dia – 17 de junho de 1970 – em que Elvira driblou a frouxa segurança de um semipronto elevado do Joá para se atirar nas pedras batidas pelo mar lá embaixo. Claramente, como se uma luz de açougue acendesse dentro da sua cabeça, vê-se preso para sempre naquele dia, play, pause, rew, play, enquanto Pelé não fizesse o gol estaria preso dentro daquele dia, sonhando que a vida tinha continuado. Nesse momento você olha para o seu pai e revive pela última vez, com violência assombrosa, o velho sonho de matá-lo.

A associação do desastre familiar insinuado à trajetória trágica de um craque mítico – o amigo da infância mineira de Murilo Filho, Peralvo, um trickstergenial que resume Macunaíma e Garrincha, filho de mãe de santo – traz ao coração do romance outra ferida fundamental que não se deixa omitir quando se fala em realidade brasileira: a ideia de uma democracia racial que o futebol traduziria em sua melhor forma e que estaria na origem da habilidade desconcertante de qualquer menino nas ruas sem calçamento. Faz parte da intriga que separa pai e filho, além de um histórico de humilhações e uma rivalidade sexual velada, a dessemelhança física de ambos, o pai alourado e o menino apelidado Tiziu, e, para evocar mais uma vez Machado de Assis e Nelson Rodrigues, a desconfiança entre ambos não foge do contexto do ciúme doentio e do fantasma onipresente da traição que assombra os cantos obscuros da mente de Bentinho e os personagens rodriguianos.

Notável como O Drible puxa do futebol brasileiro um feixe de motivos tupiniquins que não são evidentemente a ele associados, mas que nele deixam suas marcas, discretas, sob as verdades prontas e o desfile de mitos (o Maracanaço, o tricampeonato, a ginga malemolente, a folha-seca, a improvisação salvadora) com os quais costumamos recobri-lo: o mundo do personalismo e dos favorecimentos, os afetos violentos sobrepostos à razão, o autoritarismo patriarcal, o apreço supersticioso pela magia simpática. Nestes termos, Sérgio Rodrigues é parente do outro Rodrigues, o dramaturgo, na escolha da matéria turva, mescla de passado com peso de natureza e fome de modernidade, que faz a nossa sociabilidade. Se não propriamente experimental, as soluções narrativas de O Drible são avisadas e muito eficazes.

Se muitos sentem falta de uma literatura que dê conta da experiência, por mais rala política e intelectualmente que seja, vivida pela classe média urbana nos anos posteriores ao golpe de 1964 (e o protagonista vive sua educação sentimental justamente nestes anos, adolescente nos anos 80 e parte da geração perdida), Sérgio Rodrigues soma ao panorama do Rio promissor dos anos dourados e da primeira metade dos anos 60 uma incursão convincente ao cotidiano brasileiro nos grandes centros nos anos da ditadura e da redemocratização, desaguando em um misto de euforia e vazio regado a cultura pop, sepultura das grandes ambições.

15 de maio de 2014
Piauí, 90

NOVELA "MEU PEDACINHO DE CHÃO" FRACASSA. CANSAÇO COM A DOUTRINAÇÃO?

 Media Watch - Outros 

mpdc‘Meu Pedacinho de Chão’ com os dias contados pode revelar cansaço dos espectadores com novelas que pretendem ser “educativas”.

Li hoje que a Rede Globo já está gravando uma novela, ‘Boggie Woggie’ para substituir ‘Meu pedacinho de chão’, que, ao que parece, terá sua vida abreviada.


Pelo jeito, a população realmente não gostou. A minha pergunta é: será que a reprovação se deu em face da estética adotada nas filmagens ou do enredo? Terá sido por ambos?

Não posso dizer que assisti à novela, mas acompanhei uns dois capítulos em um hotel sem tevê paga, e tive uma impressão muito ruim, mesmo antes do primeiro capítulo ter ido ao ar, ao ter visto as cenas de chamada.
Digo mais: meu coração se apertou sob uma intuição de que eu estava de frente a uma obra macabra! Lembrei-me de outra obra, “Hoje é dia de Maria”. Percebem o parentesco?

Uma música hipnotizante, cenários abusivamente coloridos e as atitudes e falas dos personagens extremamente caricaturais possivelmente pretenderam remeter a história a uma distopia em um lugar de outra dimensão, mas é impossível deixar de reconhecer que se trata de um conflito em um lugarejo no interior do Nordeste.

Consultando a Internet, dei-me conta que a novela é uma reedição da obra de Benedito Ruy Barbosa entre 1971 e 1972, tendo sido “a primeira novela educativa da televisão brasileira”.
Educativa, sei! Aquele estilo mambembe, essencialmente pobrista e mendicante da pena dos outros já tinha disparado meu comunistômetro lá no vermelho e não foi à toa!

Segundo a Wikipédia, “a trama conta a história da professora Juliana, que chega à fictícia Vila de Santa Fé para ensinar às crianças e se depara com um povo humilde e acuado com os desmandos do coronel Epaminondas, um homem arrogante que resolve tudo no grito e nas armas, e que dita as regras na região”. 

No site da Veja, a blogueira Patrícia Villalba, que se derrete de amores pela obra, festeja ter sido a novela orientada para o público infantil, ao passo que elogia a trilha sonora que usa referências de Villa-Lobos a Nino Rota em ‘O Poderoso Chefão’.
Quanta sutileza!
Percebam o caráter subliminar da coisa: uma professorinha linda e meiga vem para “educar” a população e se depara com um coronel nordestino que não quer saber de crianças alfabetizadas na localidade em que manda com mão de ferro.

Os esquerdistas jamais usam argumentos verdadeiros, mas espantalhos por eles mesmos forrados e vestidos: o coronel Epaminondas, na verdade um símbolo de excesso de estado, encarna aqui o representante da sociedade ocidental para servir de Judas para o mito marxista da alienação. Cumpre, pois, à professorinha “conscientizar” as crianças da opressão do sistema capitalista em que vivem, segundo o melhor da pedagogia de Paulo Freire.

Como vêem, a novela, que é na verdade um programa de doutrinação ideológica, parece ter tido seus dias de sucesso arquivados no passado. Aqui torna-se oportuno salientar o caráter malfazejo do termo “educativo”, tal como tem sido utilizado, segundo a esclarecedora lição do filósofo Armindo Moreira, autor do livro ‘Professor não é educador’: “Educar é criar hábitos e sentimentos que permitam ao educando adaptar-se ao meio social em que há de viver”.

No caso concreto, o sentido que o governo tem dado à educação tem a ver com a doutrinação ideológica para preparar os jovens para viverem em um futuro país socialista, de acordo com a estratégia do filósofo Antonio Gramsci, de fazer a revolução focando primeiramente na ocupação dos espaços e na formação cultural dos cidadãos.

Para uma melhor compreensão deste assunto, recomendo o vídeo preparado pelos professores Ana Campagnolo e Edésio Reichert.

Enfim, ouso especular que a população, de saco cheio, percebeu isto, ao menos intuitivamente, e rejeitou a novela. Digo isto porque parece não haver coincidência, desde que a Rede Globo tem perdido audiência sistematicamente, conforme também tem sido divulgado nos noticiários.

A emissora carioca, por sua vez, tem alegado que sua estratégia foca-se prioritariamente na qualidade dos seus programas do que com a audiência. Parece-me que quis dizer que importa-se mais com o patrocínio fornecido pelo governo e por suas empresas estatais do que com a opinião pública. Faz sentido.

15 de maio de 2014
Klauber Cristofen Pires

IDEOLOGIA vs. VERDADE

 Artigos - Globalismo
Um grande protesto está sendo planejado para ocorrer na Rússia dia 18 de maio onde um número incontável de pessoas exigirá que o Presidente Putin renuncie.

O verdadeiro problema entre a Ucrânia e a Rússia é a concentração de poder no Kremlin
e a corrupção que flui de lá
.

Há uma tendência, especialmente nos dias de hoje, em reduzir toda a análise política a uma fórmula ideológica e julgar tudo de acordo com essa mesma fórmula. Tal reducionismo é usualmente errôneo – e até mesmo perigoso – quando aplicado em um mundo complicado como este. Evidentemente é muito mais fácil simplificar tudo em nome da compreensibilidade, mas o mundo não se tornará mais simples se recorrermos ao reducionismo ideológico. Quem se tornará mais simples seremos nós – ao ponto de tornarmo-nos estúpidos.


Muitos recorrem ao reducionismo ideológico por estarem distraídos ou por não terem tempo para estudos políticos ou históricos, e então eles adotam um modelo ideológico pronto. Isso possibilita a eles categorizar imediatamente todos os fenômenos políticos em duas categorias:
(1) aqueles que concordam com aquele modelo ideológico pronto que se adotou;
(2) aqueles que discordam daquele modelo ideológico pronto que se adotou. Essa nefasta prática serve para dizer se um fenômeno discordante à ideologia adotada é errado ou mau; Se o fenômeno for concordante, ele é justo e apropriado. Em outras palavras, sob o manto da simplificação ideológica não podemos julgar nada honestamente, pois quando julgamos pela régua ideológica nós nos esquecemos que a ideologia não é a realidade.

Hoje em dia é incontestável que todos têm uma ideologia. Até mesmo a negação da ideologia é tomada como uma ideologia. As pessoas se concebem como pertencentes à Direita ou à Esquerda. A divisão em cada um dos lados é também fragmentada em facções ou grupos. Alguém recentemente me perguntou quais as minhas crenças políticas. A resposta será dada em alguns dos próximos parágrafos.

James Burnham disse que a política trata-se de três coisas: (1) poder; (2) poder; (3) poder. Em outras palavras, a política trata de quem possui o poder político e se esse poder é concentrado ou separado, legítimo ou ilegítimo. Evidentemente pode-se perguntar o que significa a palavra “poder”. O grande historiador cultural, Jacob Burckhardt, disse que “o poder é o mal”. Ao meu ver, essa verdade é a fundação de toda a sabedoria política. Já o lorde Acton é famoso pelo dito “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Ele também disse: “Grandes homens são quase sempre homens maus”.

Essa sombria verdade é engolida com grande dificuldade pelos entusiastas da política, pois os homens querem acreditar em heróis políticos e também querem acreditar em salvação política. Contudo, não há salvação como comumente se acredita, salvo no caso da limitação do poder.
Burckhardt estava certo em dizer que o poder é mau, e o lorde Acton estava certo em dizer que o poder tende a corromper. A lição que fica, portanto, é aquela dos Pais Fundadores da América (Founding Fathers): limitar o poder do Estado e a corrupção que flui no poder estatal.

Esse princípio de poder que foi aplicado ao Estado também se aplica ao indivíduo. Olhar para si e dizer “farei tudo aquilo que quiser” é entrar no caminho da autodestruição e da desmoralização. Esse dito, entretanto, é o que anima nossa era (tanto o governo quando o indivíduo). Imagina-se, de alguma forma, que a propriedade é uma forma de opressão a qual o indivíduo deve ser libertado; e assim, por todos os lados, deu-se início a um processo de libertação. Mas no final das contas isso é apenas um processo corruptor em que o indivíduo dito libertado se torna cada vez mais degradado – às vezes até mais brutalizado e decadente.

Governos que desfrutam de poder ilimitado sobre seu povo também se tornam degradados e brutais. Considere o exemplo de Hitler, cuja brutalidade pode ser vista quando ele culpa o povo alemão pelo fracasso das suas políticas militares agressivas; ou considere Mao Tsé-Tung, o ditador da China comunista, que dormiu com diferentes garotas em diferentes noites, desejando dar a elas quaisquer doenças venéreas que ele possuía à época.

Se a política trata-se de poder, como disse Burnham, e o poder é mau, como disse Burckhardt, então um sistema político relativamente bom deve ser baseado em freios e contrapesos. Já um sistema político pernicioso provavelmente idealizará a concentração de poder (i.e., como se dá na ideia comunista do “centralismo democrático” ou no “Führerprinzip” de Hitler).
Projetos utópicos também são perigosos: o socialismo igualitário porque seus partidários precisam de poder ilimitado para trazer a igualdade universal; o comunismo porque para se ter um controle absoluto sobre a economia é necessário um poderoso estado policial; o nacional-Socialismo porque todo poder está concentrado na mão de um homem, Adolf Hitler.
A concentração de poder no século XX nos trouxe guerras catastróficas, escravização generalizada em campos de concentração e perdas econômicas. 

Aqueles que pedem poder total em nome de uma causa (seja ela qual for), ou são tolos perigosos ou criminosos. Não se deve confiar o poder a eles porque eles irão usá-lo para obter mais poder, e assim continuarão a acumulá-lo sem levar em conta os danos que possam causar ou as pessoas que possam vir a machucar. As únicas pessoas que se deve confiar o poder são aquelas que não o querem por saber que o poder é mau e aqueles que sentem que o poder é um fardo e não uma vantagem.

Há, todavia, uma ressalva nisso tudo que não pode ser facilmente conciliada. Quando uma comunidade é ameaçada pela guerra, o poder deve ser concentrado nas mãos do comandante-em-chefe. Isso não pode ser evitado, pois é necessário aplicar o princípio da unidade de comando.
Guerras não podem ser vencidas sem estratégia, e estratégia requer um comandante que dá a última palavra em todas as coisas. Aqui podemos vislumbrar porque um sistema bélico coincide com as aspirações totalitárias. A guerra ajuda a justificar o ditador, enquanto a paz o faz parecer supérfluo. Assim temos a base para duas formas de sociedade: sociedade livre e sociedade totalitária.

Aplicar esses preceitos delineados acima em uma dada situação política não é sempre tarefa fácil. Tomando o caso da Ucrânia como exemplo, podemos ver logo de cara que a Rússia já invadiu, infiltrou e rompeu partes da Ucrânia com o fim de anexá-las (e assim adicionar terra e poder para si). O Kremlin obviamente espera subjugar toda a Ucrânia por meio do processo de “dividir e governar”. A maioria do povo ucraniano quer de verdade que seu Estado seja inviolável e soberano.

Eles estão cansados de serem governados por criminosos de tipo soviético. A causa pela liberdade trouxe ganhos significantes, mesmo considerando que alguns dos novos líderes “democráticos” lá enxertados sejam criaturas secretas de Moscou. No momento, esses agentes não podem cumprir ordens de Moscou sem se traírem. A liberdade, portanto, tem uma chance, apesar de minúscula.

Além do mais, um grande protesto está sendo planejado para ocorrer na Rússia dia 18 de maio onde um número incontável de pessoas exigirá que o Presidente Putin renuncie. Vemos nisso um movimento espontâneo de cidadãos preocupados entrando em ação para limitar o poder de um governo que não reconhece qualquer freio à sua autoridade. O Kremlin revidará? Centenas morrerão? Milhares serão presos?

Para dar um exemplo à Rússia, a Ucrânia deve estabelecer um modelo de governo limitado. Além disso, a resposta de Kiev às provocações paramilitares russas deve ser cuidadosamente medida. O derramar de sangue deve ser reduzido a um mínimo e os infiltrados russos devem ser expulsos (e isso é melhor feito por meio de pequenas ações sequenciais em vez de tudo de uma vez).

Também seria imprudente nesse confronto fazer ameaças militares ou econômicas, pois a coisa certa seria o oferecimento de uma amizade com o povo russo em todas oportunidades que parecer apropriado. Deve-se sempre ser dito que os povos ucranianos e russos são irmãos.
Qualquer um que começar uma guerra entre esses dois povos, ou espalhar ódio entre eles, é um inimigo a ser combatido por ambos, pois o verdadeiro problema entre a Ucrânia e a Rússia é a concentração de poder no Kremlin e a corrupção que flui de lá. É esse poder e essa corrupção que agora ameaça a paz na Europa.
 
15 de maio de 2014
Jeffrey Nyquist

Tradução: Leonildo Trombela Junior

SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO: TUDO, MENOS TEIMOSIAS DE UM VELHO


 Artigos - Cultura
A bomba de que falava Bechara explodiu e os resultados são aterradores.
Estamos não só a escrever pior e com inadmissíveis erros, como corremos o risco de deformar a nossa fala por via do “monstro” que nasceu da ambição de um imbecil.

A morte de Vasco Graça Moura reacendeu, por breves momentos, a chama do desacordo ortográfico. Sabia-se como ele era, inteligentemente, fundadamente, contra o chamado AO e como essa oposição foi constante na sua vida e na sua obra.

Em segredo, alguns dos que o bajularam pelas suas qualidades de ensaísta, poeta ou tradutor, terão talvez pensado que se tratava de teimosias de um velho. Não eram, como alguém medianamente informado saberá.
No dia 21 de Abril desde ano, o brasileiro Sidney Silveira resolveu entrevistar o também brasileiro Sérgio de Carvalho Pachá, Lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras (ABL) à época da promoção do acordo. A entrevista, publicada a 25 de Abril (mágica data) no YouTube (https://www.youtube.com/watch?)

v=-_wIluG3yRs) dá-nos conta de como foi engendrado o golpe e da forma, simples e rápida, como ele se concretizou. O entrevistado assistiu a tudo, incrédulo. Certo dia, a ABL elegeu para presidente um homem que gostava de andar “na mídia”, nas manchetes dos jornais, na televisão, etc. Esse presidente, Marcos Vinicios Vilaça, arranjou um assessor, de nome Antônio Carlos Athayde, para se encarregar de tal promoção. “Um belo dia, ele ouviu dizer que dormia nas gavetas, há mais de dez anos, um novo projecto de ‘unificação’ ortográfica.

É claro que esse homem não era professor de português, não era linguista, nem filólogo, era um jornalista. Ele correu para o presidente e disse: ‘Meu presidente, eu tive uma ideia que não vai tirar mais a ABL da mídia. Nós vamos promover a unificação ortográfica.’ E o presidente, que não entendia absolutamente nada de ortografia ou de sistemas ortográficos, imediatamente comprou aquela ideia ‘genial’ e a academia mais que depressa começou a promover a ‘unificação’ ortográfica.” Simples e eficaz, não acham? Mas faltava uma peça, um académico que desse cobertura ao acto. Não foi preciso procurar muito, porque já o tinham, como explica Sérgio Pachá: “Evanildo Bechara, professor de língua portuguesa, um gramaticógrafo respeitado, eu estudei pelos livros dele, fui aluno dele na pós-graduação.”

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=-_wIluG3yRs

Ele era contra, claramente, mas depois mudou. “Evanildo Bechara, antes de surgir o plano de ‘vamos unificar’ sob a liderança da ABL, tinha ideias radicalmente adversas àquele projecto, certa feita ele me disse: ‘Deus nos livre daquilo, aquilo é uma bomba.’ Literalmente. Um ano e meio a dois anos depois, ele se transformou no grande propagandista da ‘unificação’ que não unifica coisa nenhuma, ele sabia tão bem quanto eu.”

Claro que, rapidamente, Pachá foi afastado. E a “coisa” triunfou, como sabemos.
O que diz, hoje, o antigo Lexicógrafo-chefe da ABL? Isto: “Havia pequenas diferenças que não atrapalhavam a mínima, a mútua, intelecção, comunicação, de quem falava e escrevia português. Tentaram, uma vez mais, promover esta quase utopia da unificação gráfica de realidades fónicas distintas e deram com os burros n’água. Não só deram com os burros n’água como pioraram uma coisa que tinha defeitos mas que não era tão má assim. Isso foi mau para nós, brasileiros, e foi muito mau para os nossos irmãos portugueses.” 

Claro que muitos dirão, por cá, “isso são águas passadas” e suspirarão de alívio, não pela morte mas pela “neutralização” da nobre resistência intelectual de Vasco Graça Moura. Paciência. A bomba de que falava Bechara explodiu e os resultados são aterradores. Há pouco tempo, uma leitora atenta relatou-nos o caso de uma menina cuja mãe repreendeu por ter chegado a casa a dizer que tinha de fazer um trabalho sobre a biss’triz. Assim mesmo, anulando o “e”. A menina defendeu-se, afirmando que a professora também pronunciava assim... 

Pois bem: os idiotas que diziam, com um sorriso alvar, que as mudanças na escrita não iriam interferir de modo algum na fala, que isto era só uma convenção, etc., atentem no estrondo real da bomba: estamos não só a escrever pior e com inadmissíveis erros, como corremos o risco de deformar a nossa fala por via do “monstro” que nasceu da ambição de um imbecil e se propagou como fogo na palha a uma legião de pobres crédulos.

Isto tem nome? Tem, mas dói escrevê-lo. E contrariá-lo será tudo menos teimosias de um velho. É um dever!

Do jornal Público, de Portugal.


15 de maio de 2013
Nuno Pacheco

VERDADE E FALSIFICAÇÃO DA MEMÓRIA. DE COMO NÃO EXISTE POLÍTICA SEM REFLEXÃO

Artigos - Cultura 
A única forma de preservar a democracia é compreender o seu oposto e o perigo latente que sempre ameaça as fundações da polis. É esta a tarefa mais urgente e decisiva.

"Não temos compaixão e não lhe pedimos compaixão alguma. Quando chegar a nossa vez, não inventaremos pretextos para o terror.”

Karl Marx
 
“Nenhum homem pode esquivar-se às perguntas fundamentais: Que devo fazer? Como discernir o bem do mal? A resposta somente é possível graças ao esplendor da verdade que brilha no íntimo do espírito humano, como atesta o salmista: ‘Muitos dizem: ‘Quem nos fará ver o bem?’ Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz da vossa face’ (Sal 4, 7).”
João Paulo II

Nada me move pessoalmente contra o sr. Pedro Pires (ex-Primeiro mimistro de Cabo Verde 1975-1991), ancião foguense e nome forte da “luta de libertação” empreendida pelo PAIGC (N.doE.: sigla do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, filiado à Internacional Socialista). É óbvio.
Mas, num meio mesquinho e muito dado à bisbilhotice, vale sempre a pena ressaltar o óbvio.
Adiante!
 
O problema é quando o velho guerrilheiro, sabe-se lá com que intenções, perde a noção das coisas e entra pelo terreno da pura propaganda, com riscos evidentes para o Estado de direito e para a sociedade civil que se quer construir hoje. Assim não pode ser.
 
A consolidação das instituições democráticas requer uma cultura de gentlemanship e sinceridade. Que se baseia no governo pelo consentimento e no respeito pela igual dignidade humana. (Um Estado só é forte quando se guia por estes preceitos para PP é, todavia, o contrário, o Estado “forte” exige polícia política, economia estatizada, perseguição dos opositores e controlo do pensamento!).
A história não é uma esfera neutra, bem o sabemos.
Richard Rorty, um filósofo relativista, explicava que a batalha histórica é afinal a luta pela liderança política. Quando o compreenderemos?
 
Mas, sob pena de grave incompreensão, a história não deve ser capturada por interesses ideológicos e cultos de personalidade, ou abandonada, inerme, aos apetites político-partidários de circunstância.
É inaceitável tratar esta questão à maneira de um Andrei Jdanov, rendido ao evangelho comunista e aos seus santos, tabus, chavões e slogans. É necessário mais do que isso. Muito mais do que isso.
A história autêntica exige, parece-me, três elementos fundamentais: factos, interpretação sincera, rigor analítico. Muito cuidado.
 
Na ausência de um pensamento crítico e da pesquisa honesta, vender-nos-ão sempre, ontem como hoje, apenas gato por lebre.
Não se pode permitir, sem mais, o triunfo do “pensamento troglodita” (J. Castañeda) e a manipulação interesseira. Nunca.
É o olvido e a ignorância que engendram, em última instância, a má política e preparam o terreno para os piores infernos, de Treblinka ou, em menor escala, Tarrafal.
 
Pedro Pires, ao dizer que “não se arrepende” do seu passado ou ao explicar, numa recente entrevista radiofónica (http://www.rtc.cv/index.php?paginas=9&id_cod=2315), que o 31 de Agosto de 1981 foi um mero “acidente” (sic) está, precisamente, a legitimar a ditadura do partido único e a enfraquecer as instituições do Estado de direito, que não toleram afirmações do género.
 
Ora, se a ditadura é útil e boa, o governo constitucional pode, então, ser inútil e dispensável. Carl Schmitt regressa em força, com o seu halo decisionista.
Pedro Pires está, com tudo isso, a dizer-nos que afinal o passado não passou e que continua, pelo contrário, bem actual e pleno de sentido neste transitivo presente!
É muito grave.
 
Não senhor. A ditadura totalitária não foi um acidente, nem foi fruto do acaso.
Foi sim, e do princípio ao fim, obra madura da engenharia social, do blueprint de uma geração embriagada pelo mito revolucionário e pela perversa cantilena marxista-leninista.
Perante isto, o que fazem os partidos da “oposição”?
 
Calam-se ou então, no ápice da lisonja, confirmando a lei do menor esforço, vão ao Facebook (é o caso do sr. Abraão Vicente, da comissão política do MpD) elogiar o velho “comandante”!
Quando assim é, temos de pensar duas vezes, e estar cientes desta verdade indiscutível, insofismável: uma parte importante da nossa classe política é inimiga da Sociedade Aberta e defende, por sadismo ou ignorância, os pilares ideológicos do totalitarismo, que tanto sofrimento humano tem causado por este mundo fora.
 
É nestas ocasiões que se deve rastrear, como dever de cidadania e condição de um futuro próspero que merece, julgo, ser preservado e garantido às futuras gerações, a origem da mentalidade revolucionária e, concomitantemente, o seu complexo mecanismo de sedução e funcionamento.
 
Pode começar-se pela leitura do já clássico As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt, mas é preciso ir mais além.
Sem isso, tudo se resume a um jogo perpétuo de auto-enganos, oscilando, na ausência de uma filosofia exigente e reflexivamente assumida, entre o burlesco e o grotesco.
 
Os amigos da Liberdade devem pois, sem tardança, encarar este desafio civilizacional.
É aqui que começa a autêntica pedagogia e a própria “política da liberdade”, lembrando Ralf Dahrendorf.
Aqui reside aliás, límpida e desafiante, a chave do problema colectivo.
A única forma de preservar a democracia é compreender o seu oposto e o perigo latente que sempre ameaça as fundações da polis. É esta a tarefa mais urgente e decisiva.
A política é uma longa reflexão. Ou nada é.
 
Recordemos os Federalist Papers e os pais da revolução norte-americana, donde saiu a nação mais rica e livre da história até hoje.
Talvez fosse útil, nesta era das novas tecnologias e da Internet, dar um click rapidinho nestes links preciosos.
O saber liberta (“Sapientiam autem non vincit malitia”), hão-de descobrir maravilhados:
 
 
Post-scriptum: Há um mito de que as autocracias são por definição “elitistas” e só as democracias, o reino celestial secularizado, promovem o bem-estar e os direitos sociais de todos. É falso. Em Portugal, foi o ministro Veiga Simão quem promoveu, a partir de 1970, no governo Marcello Caetano, a democratização do ensino e alargou a escolaridade obrigatória para 8 anos também lançou, recriando de alguma forma o ideal educativo pombalino, o projecto de novas universidades

Publicado no jornal Expresso das Ilhas, de Cabo Verde.
15 de maio de 2014
Casimiro de Pina é jurista e autor do livro 'Ensaios Jurídicos: Entre a Validade-Fundamento e os Desafios Metodológicos'.

LOBÃO ENTREVISTA THOMAS GIULLIANO, DO A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL ROCK E HISTÓRIA NA VEIA!

UM GUIA ÚTIL PARA OS TURISTAS QUE PRETENDEREM ASSISTIR AOS JOGOS DA "COPA DAS COPAS"

CLIQUE PARA AUMENTAR

15 de maio de 2014
Piauí, 92

A ESCOLA DE FRANKFURT, A DOUTRINA GRAMSCISTA E O FORO DE SÃO PAULO: A EXPANSÃO DO COMUNISMO NAS AMÉRICAS