"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

O GOVERNO CHINÊS DETÉM 1,1 TRILHÃO DE DÓLARES EM TÍTULOS DO GOVERNO AMERICANO. O QUE ISSO IMPLICA?

Que o mercantilismo chinês é péssimo para seus cidadãos, e um bom negócio para os americanos


Nota do Editor
O artigo abaixo foi originalmente publicado em janeiro de 2017. Com os acontecimentos recentes, ele ficou ainda mais atual.


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Entra ano, sai ano, e a comoção é sempre a mesma: os americanos estão nas mãos dos chineses.

Os alarmistas dizem: se o governo chinês quiser, ele pode destruir a economia americana: basta ele colocar à venda todos os títulos da dívida americana que possui (atualmente, US$ 1,1 trilhão). Uma venda maciça faria os preços desses títulos desabarem e, consequentemente, suas taxas de juros dispararem. Isso jogaria a economia americana em uma profunda recessão.

A questão é: por que a China faria isso?

Um leitor me enviou o seguinte trecho de um blog:

Em terceiro lugar, relembro o leitor do velho ditado: "Se você deve ao banco dez mil dólares e não tem como pagar, você está encrencado. Mas se você deve ao banco dez milhões de dólares e não tem como pagar, o banco está encrencado".

Bem, meus amigos, nós americanos somos os devedores, e a China é o banco. Eles são os maiores detentores estrangeiros de títulos da dívida do governo americano, estando expostos a uma quantia total de US$ 1,2 trilhão. Dado que o seu PIB é de 10 trilhões de dólares, essa quantia de títulos da dívida representa uma fatia nada trivial de seu PIB. Em outras palavras, os chineses estão encrencados.

A pessoa que escreveu isso não entende de Banco Central.

O velho ditado pode ser aplicado a um banco comercial. Um banco comercial empresta dinheiro para um indivíduo. Se o indivíduo não puder quitar o empréstimo, o banco irá se apropriar dos ativos que esse indivíduo deu como garantia a esse empréstimo (alienação fiduciária). O banco poderá estar encrencado se esses ativos dados como garantia não tiverem um valor de mercado fácil de ser determinado. Porém, se o ativo for de fácil negociação e comercialização, então a única despesa será com os gastos legais para se transferir este ativo ao banco. O banco não estará ameaçado por esse calote.

Mas com um Banco Central é diferente.

O governo da China não se importa

Comecemos pelo básico.

O Banco Central da China já comprou em torno de US$ 1,1 trilhão de títulos do Tesouro americano. Para se manter atualizado dos números, clique aqui.

Os títulos do Tesouro americano são ativos extremamente líquidos e comercializáveis. O BC chinês pode vendê-los no mercado aberto a qualquer momento e em qualquer quantidade. Mas é provável que ele não queira fazer isso, não em grandes quantidades. Tal medida, como dito acima, tenderia a elevar as taxas de juros dos títulos do Tesouro americano. Em algum ponto, juros mais altos nos títulos do Tesouro americano poderiam levar os EUA a uma recessão. E uma recessão irá reduzir a quantidade de produtos chineses comprados pelos americanos.

O importante, no entanto, é o fato de que o BC chinês detém ativos que são extremamente líquidos. Se ele não quiser mais manter esses ativos, ele pode se livrar deles a qualquer momento. Logo, o BC chinês, ao contrário do que diz o blogueiro acima, não está encrencado por estar em posse de títulos do Tesouro dos EUA.

Adicionalmente, dado que as taxas de juros nos EUA estão em suas mínimas históricas, esses títulos não pagam praticamente nada de juros. E os diretores do BC chinês não estão nem aí. Por que eles se importariam com isso? Não é o dinheiro deles. O BC chinês simplesmente cria renminbis eletrônicos, utiliza esses dígitos eletrônicos criados do nada para comprar os dólares em posse dos exportadores chineses, e então aplica esses dólares em títulos do Tesouro americano. Não custa absolutamente nada ao BC chinês criar esse dinheiro eletrônico para fazer tudo isso. Portanto, é basicamente irrelevante para o BC chinês se os títulos do Tesouro americano pagam juros ou não.

E agora vem o mais importante de tudo: o BC chinês não comprou títulos do Tesouro americano visando a auferir juros. Ele comprou dólares apenas para manter o valor do dólar apreciado em relação ao renminbi, para que os americanos pudessem comprar mais produtos dos exportadores chineses. E então utilizou esses dólares para comprar títulos do Tesouro americano.

O BC chinês comprou títulos da dívida americana simplesmente porque ele é um seguidor da doutrina keynesiana. Ele está comprometido com uma forma específica de keynesianismo: o mercantilismo. Os burocratas chineses que controlam o governo querem subsidiar as exportações chinesas. E eles fazem isso ordenando o BC chinês a criar renminbis digitais para comprar os dólares que os exportadores chineses ganharam por suas exportações. Isso mantém o dólar apreciado em relação à moeda chinesa. E isso, por sua vez, funciona como um subsídio para o setor exportador da economia chinesa.

Ao final, o BC chinês simplesmente utiliza esses dólares para comprar títulos do tesouro americano.

É por isso que o BC chinês não tem nenhum problema em manter US$ 1,1 trilhão em títulos do Tesouro americano. Ele cria dinheiro eletrônico (renminbis) a custo zero, compra dólares e com isso subsidia seu setor exportador, que é o mais poderoso de sua economia.

Já o Tesouro americano também considera ótimo esse arranjo. Por que não consideraria? O Tesouro americano não paga praticamente nada de juros nesses títulos, e mesmo assim já recebeu US$ 1,1 trilhão em empréstimos. Isso significa que o governo chinês está subsidiando os déficits orçamentários do governo americano. Trata-se de um arranjo em que ambos os governos saem ganhando.

Os burocratas que gerenciam o governo chinês determinaram que é bom para a China vender para os estrangeiros todos os bens de valor que produzem, desta forma reduzindo a oferta destes bens para os próprios chineses e, com isso, privando sua população de usufruir um maior padrão de vida. Obviamente, isso é um péssimo negócio para a maioria dos cidadãos chineses, mas um ótimo negócio para os protegidos magnatas do setor exportador.

É também um ótimo negócio para os cidadãos americanos que compram produtos chineses bons e baratos. O governo chinês está subsidiando o estilo de vida dos americanos.

Enquanto isso, os cidadãos chineses, que estariam felizes em poder consumir os bens produzidos pela indústria chinesa, acabam sendo privados destes mesmos bens, pois a preferência é que eles sejam exportados para os estrangeiros.

Isso é o básico do mercantilismo. Tudo de bom que um país produz deve ser mandado para fora com subsídios do governo, deixando sua população apenas com as sobras. Ganha o setor exportador e ganham os burocratas do governo (que recebem "gratificações" deste setor exportador).

Tal arranjo não incomoda nem um pouco os burocratas que comandam o BC chinês. Não é o dinheiro deles. Eles recebem salários acima da média para criar renminbis eletrônicos a pedido do governo chinês e colocar em movimento todo este ciclo acima descrito. Não há por que reverterem isso.

Conclusão

Mercantilistas sempre estiveram convencidos de que ter um Banco Central subsidiando o setor exportador é algo extremamente benéfico para uma nação, e que a reduzida quantidade de bens e serviços que estarão disponíveis para os consumidores domésticos (tanto em decorrência de mais produtos domésticos estarem sendo exportados quanto em decorrência de menores importações por causa da moeda mais desvalorizada) é algo sem nenhuma importância.

Enquanto este subsídio coercivamente extraído de uma maioria para uma minoria não for visto como um programa de transferência de riqueza dos mais pobres (consumidores comuns) para os mais ricos (barões do setor exportador), todo o arranjo irá se manter.

Quando o governo de um país adota o mercantilismo, ele o faz sabendo que praticamente ninguém compreende que aquela política prejudica a vasta maioria dos cidadãos e beneficia apenas uma minoria que está no setor exportador da economia.

Portanto, por que exatamente alguém acredita que o governo chinês e seu Banco Central teriam algum problema em manter uma montanha de títulos do Tesouro americano é algo que nunca foi explicado. O governo dos EUA não irá dar um calote em sua dívida que está em posse de estrangeiros. Por que ele faria isso? Ele quer exatamente que esses estrangeiros continuem comprando cada vez mais títulos, desta forma empurrando para baixo os juros desses títulos. Por que matar a galinha que bota os ovos (eletrônicos) de ouro?

Aplicar a lógica do setor bancário comercial a um Banco Central é um grande erro conceitual. Um Banco Central não está restrito aos mesmos tipos de limitações impostas aos bancos comerciais, que visam ao lucro. Bancos Centrais criam dinheiro do nada, e então utilizam esse dinheiro para comprar títulos emitidos por governos.

Os governos jamais tiveram a intenção de quitar esses títulos ("rolar a dívida" é a palavra de ordem), e os Bancos Centrais jamais tiveram a intenção de se desfazer desses ativos, o que elevaria as taxas de juros.

Trata-se de um gigantesco truque contábil entre um setor do governo e outro setor do governo. A preocupação com lucros e prejuízos nunca entrou na jogada.


09 de agosto de 2019
Gary North

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