"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A TRADIÇÃO TEUTÔNICA E AS RAÍZES OCULTISTAS DO NAZISMO - PARTE 5


 Artigos - Movimento Revolucionário
Crenças místicas na Vaterland, educação da juventude e antissemitismo.

A reação germânica ao positivismo estava intimamente conectada com a crença numa força vital cósmica existente na Natureza, uma força obscura cujos mistérios não poderiam ser entendidos pela ciência, mas através do oculto, o “enxergar com a própria alma” (H. Blavatsky). Este ponto de vista estava ligado à crença da oposição entre esta força cósmica e tudo o que é artificial e construído pelo homem (...)A maioria dos historiadores ignorou esta linha de pesquisa porque é muito exagerada (e irracional) para ser levada à sério. No entanto, essas ideias deixaram uma profunda impressão numa nação inteira.
George L. Mosse (1)

O pensamento völkisch é fundamentalmente místico, guardando, se tanto, uma forma de racionalismo altamente abstrato que exclui qualquer pensamento analítico. Ontologicamente estava enraizado num conceito de natureza fluindo da “realidade superior” do cosmos para o homem, tornando-se cristalizada no horizonte, na paisagem, no meio ambiente e no estilo de vida do Volk. Esta atitude rejeita o cristianismo – e o judaísmo – em favor de uma cosmovisão panteísta da natureza como fonte das condições especiais e no potencial exclusivamente humano. A própria paisagem alemã supostamente despertava características culturais superiores. Os alemães, embora tivessem chegado ao futuro, deveriam retornar ao passado – um passado desprovido de tudo, menos da voz primeva da Natureza. Só aquelas pessoas que estavam próximas à Natureza poderiam compreender através de suas almas, a força de vida cósmica interior que constitui o eterno.


A supremacia germânica baseava-se no passado distante, quando os Cavaleiros Teutônicos viviam perto da natureza e longe do artificialismo moderno. Imaginação, sentimentalismo e vontade, atributos do “Homem Natural”, eram colocados acima da razão, responsável pelas desordens mentais do homem civilizado. A irracionalidade era vista como a fonte da iluminação. Acreditava-se que os teutônicos (2) possuíam uma “ciência secreta” com a qual podiam intuir o passado e adivinhar seu significado.

O Volk era, portanto, o intermediário e a expressão de uma essência transcendental e constituía a base de tudo o que era bom na Alemanha ou qualquer outro bem que viesse a se desenvolver, porque os alemães eram a realização da verdadeira capacidade superior de liberdade. A vida e o pensamento devem estar profundamente enraizados no Volk, depurado de todas as influências estrangeiras corruptoras – judeus, eslavos, negros, ciganos, etc. – dos quais provinham os efeitos da modernização, da urbanização, industrialização, materialismo, mero cientismo, diferenças de classe e individualismo hedonista.

A Alemanha só poderia ser libertada e capaz de realizar sua maior missão superando seus efeitos perniciosos e retornar, tanto quanto possível, ao Blut und Boden (Sangue e Solo). A cultura völkisch pregava uma espécie de refúgio na natureza, na purificação cultural e na unidade social. O objetivo völkisch tornou-se a criação de uma sociedade “orgânica”, tão harmonicamente inter-relacionada como se supunha ser a natureza pura.
Os verdadeiros produtores da classe média alemã, entre os quais estas ideias penetraram com maior sucesso, e todos os camponeses fortemente enraizados no solo, eram idealizados, com a mesma força que a urbanização e o cosmopolitismo eram abominados (3). A ciência médica era universalmente rejeitada em favor das curas espirituais e comer carne impedia não apenas o progresso espiritual, mas também o entendimento da natureza e da força vital. Os teosofistas ligavam a carne dos animais à sua inteligência subdesenvolvida e comer a sua carne introduziria a sua ignorância nos humanos

Paralelamente surgia a primeira expressão do ambientalismo moderno. No final do século XIX, com a crescente urbanização e vida sedentária, surgia na Alemanha uma ênfase no ar fresco e na vida no campo. Crescia a importância do físico, na preocupação com o corpo, da restauração do contato com a natureza que, além de levar a um estilo de vida puramente hedonista, desenvolvia simultaneamente uma nova expressão política (4). Payne afirma que “Hitler era muito avançado para o seu tempo nas preocupações com a ecologia, reformas ambientais e poluição”.

Os movimentos juvenis (5)
“Não precisamos de líderes intelectuais que criem novas ideias porque o supremo líder de todos os desejos da juventude é Adolf Hitler”.

Baldur von Schirach, Líder da Hitlerjugend

Desde o século XIX existiam os movimentos juvenis masculinos, sociedades de estudo da natureza, excursões de fim de semana, o despertar do novo culto da masculinidade e a ênfase na expressão masculina e de virilidade, desenvolvendo os antigos valores helênicos e pagãos, o culto aos guerreiros. Sua sociedade ideal, a Männerbund, era constituída exclusivamente por homens, uma “camaradagem-de-armas”, constituída de homens e rapazes rudes. Nela podem ser encontradas as raízes do moderno movimento gay (6).
Os turnverein (clubes de ginástica) foram criados por Friedrich Ludwig Jahn. Fervoroso patriota, ultranacionalista, racista e antissemita, acreditava que a pedra fundamental da saúde nacional era a educação física como formadora do caráter e identidade nacional.

O principal movimento juvenil surgido no final do século XIX (1890) foi o Wandervogel (Juventude Errante, literalmente: pássaros migratórios), sociedade que promovia caminhadas e camping restritos a rapazes, fundada por Hans Blücher, Karl Fischer e Wilhelm Jansen. Baseava-se nos ideais neo-helênicos, uma subcultura de rapazes e jovens que tentavam escapar da cultura “burguesa” da sociedade alemã, uma Jugendkultur, uma cultura de jovens comandada por jovens, na qual eles seriam verdadeiramente valorizados como indivíduos. Os membros da Wandervogel, que se distinguiam por usar shorts e botas de caminhada, tinham uma noção idealista e romântica do passado, ansiavam por dias mais simples em que o povo vivia da terra.

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Rejeitavam a era moderna das grandes cidades, desaprovavam a visão dessa época, baseada na revolução industrial iniciada por seus pais e avós e seus valores. Desprezavam a ambição e a avareza materialista e a nova mentalidade empresarial. Rejeitavam a educação rígida alemã e a autoridade dos pais, “as camisas engomadas e as calças frisadas da classe média”. Viam apenas hipocrisia na política e no rígido sistema de classes sociais da Alemanha Guilhermina, baseada inteiramente em direitos de nascimento e riqueza.
Cresceram rapidamente entre 1900 e 1914, atraindo a atenção e a admiração invejosa do establishment político e religioso da Alemanha, que criou seus próprios movimentos juvenis: a Organização de Jovens Católicos, os Escoteiros e uma enorme variedade de grupos esportivos e paramilitares.
Entusiasmados e apaixonados pela guerra, sucumbiram às pencas na I Guerra Mundial.
Depois desta devastação novos grupos apareceram: os Jovens Socialistas, os Jovens Democratas e os Jovens Conservadores. A maioria adotou uniformes em estilo militar e estabeleceram uma rígida hierarquia de postos. Nisto diferiam das organizações pré-guerra, com as quais comungavam alguns dos mesmos temas como a criação de uma nova era, uma Alemanha e um mundo melhores.
Hitler habilmente usou e transformou estes movimentos os expandindo e explorando seu romantismo para construir uma das bases do partido nazista, a Hitlerjugend:

“Meu programa para educar a juventude é duro. Fraquezas devem ser exterminadas através de um trabalho duro. Nos meus castelos da Ordem Teutônica será criada uma juventude perante a qual o mundo tremerá. Eu quero uma juventude brutal, cruel, dominadora e que não tema nada. Deverá ser tudo isto. Ela saberá suportar a dor. Não deverá haver nenhuma fraqueza ou gentileza. O olhar fulgurante dos animais de caça deverá ressurgir em seus olhos. É assim que erradicarei milhares de anos de domesticação humana. É assim que eu criarei a Nova Ordem” (...). “Quando um oponente declara ‘não ficarei do seu lado’, eu digo calmamente ‘seus filhos já nos pertencem’. Quem são vocês? Vocês morrerão logo. Seus descendentes, no entanto, já estão do nosso lado. Em pouco tempo eles não conhecerão nada mais do que esta nova comunidade. Enquanto a velha geração ainda hesita, as gerações mais jovens estão definitivamente comprometidas conosco e nos pertencem de corpo e alma. O conhecimento corromperia meus jovens. Prefiro que eles aprendam somente o que brote de seus instintos.


HITLERJUGEND

 
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Os fracos devem ser expulsos. Eu quero jovens que aguentem a dor. Um jovem alemão deve ser tão rápido quanto um cão de caça, tão rijo quanto couro, tão duro quanto aço da Krupp.


Adolf Hitler
 
Diante dessa bandeira de sangue, que representa nosso Führer, juro devotar todas as minhas energias e forças ao salvador da nossa pátria, Adolf Hitler. Estou disposto e pronto a dar a minha vida por ele, com a ajuda de Deus.

Juramento da Hitlerjugend

Instituição obrigatória para jovens da Alemanha nazista, que visava treinar crianças e adolescentes alemães de 6 a 18 anos de ambos os sexos para os interesses nazistas. Os jovens se organizavam em grupos e milícias paramilitares.
 
Inicialmente a liga atraiu poucos membros, competindo com numerosos outros grupos. Em maio de 1922 foi realizada uma reunião na Bürgerbräukeller em Munich, onde foi proclamada oficialmente a fundação da organização, com a presença de 17 jovens. A direção foi confiada a Gustav Lenk, que estabeleceu pequenas unidades em Nuremberg e outras cidades menores. No ano seguinte Lenk publicou a primeira revista da juventude nazista, a Nationale Jungsturm, que, quase falida, foi reduzida a um suplemento do Völkischer Beobachter, jornal oficial do Partido Nazista.
 
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Embora inicialmente pequena, foi crescendo junto com o partido: em 1932 eram 107.956 enquanto do Comitê do Reich das Associações da Juventude Alemã chegavam a 10 milhões de jovens, o maior movimento juvenil do mundo. Com a tomada do poder em 1933, Hitler nomeou Baldur von Schirach (foto abaixo), que desde 1925 já era líder da Juventude Hitlerista, “líder da Juventude do Reich Alemão” (Reichsjugendführer) em junho de 1933, posteriormente em vez de subordinar-se ao Ministério da Educação, Schirach passou à ser responsável diretamente perante Hitler.

 
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Em 1º de dezembro de 1936, já com 4 milhões de membros, Hitler decretou uma lei que extinguia todas as demais organizações de jovens tornado compulsória a integração de todos os jovens alemães:
“Toda a juventude alemã do Reich está organizada nos quadros da Juventude Hitlerista. A juventude alemã, além de ser educada na família e nas escolas, será forjada física, intelectual e moralmente no espírito do nacional-socialismo (...) por intermédio da Juventude Hitlerista”.
 
Em 1938 já eram 7.728.259. Estavam incluídos todos entre 10 e 18 anos. Aos 10 os meninos entravam para a Deutsches Jungvolk, aos 13 para a Hitlerjugend. As meninas aos 10 entravam para a Jungmadelbund e aos 14 para a Bund Deutscher Madel onde eram preparadas para a maternidade.
 
A regeneração da Alemanha deveria ser conseguida pela Männerbund, os grupos masculinos unidos pela camaradagem e treinados nas virtudes de “dureza, agressividade e crueldade”, qualidades descritas por Hitler como masculinas, em contraste com as femininas que se apresentavam “nas massas populares que tudo absorviam”. A dicotomia entre as qualidades masculinas/femininas como sinônimos de força/fraqueza eram consideradas por Otto Weininger como princípios cósmicos (7). Hans Blüher, historiador dos movimentos juvenis, assegurava que os valores masculinos eram os únicos que podiam regenerar a nova Alemanha e só eram encontrados nas associações exclusivamente masculinas. A sociedade nazista não era baseada na representatividade ou no constitucionalismo, mas no princípio da liderança (Führerprinzip), uma qualidade considerada exclusivamente masculina. As mulheres não eram admitidas em posições de responsabilidade.

 
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A origem das ideias antifeministas vinha de antes da I Guerra, para enfrentar a Liga das Mulheres Alemãs (Bundes Deutscher Frauenvereine): a Liga Germânica para a Prevenção da Emancipação das Mulheres (Deutscher Bund zur Bekämpfung Frauenemanzipation), fundada em 1912 tendo como aliada a União Nacional Germânica dos Empregados Comerciais Assalariados (Deutschnationaler Handlungsgehilfenverband), uma organização antissemita baseada na crença de que os movimentos feministas faziam parte de uma conspiração judaica para subverter a família alemã e destruir a raça germânica através da disseminação das doutrinas de pacifismo, democracia e materialismo. As mulheres independentes negligenciariam sua tarefa de produzir e criar filhos. Se as mulheres conseguissem o direito de voto a raça judia teria a Alemanha à sua mercê (8). No Mein Kampf Hitler escreveu:
 
“A mensagem da emancipação das mulheres foi inventada exclusivamente pela intelectualidade judaica e seu conteúdo tem o carimbo do mesmo espírito. A propalada garantia dos direitos da mulheres, exigência marxista, na realidade não garante direitos iguais, mas constitui uma privação de direitos já que conduz as mulheres a áreas nas quais elas são necessariamente inferiores”.
 
Não obstante, o voto feminino foi fundamental para a eleição de Hitler, principalmente nas duas eleições de 1932 e na última em 1933 (9), embora isto exija profundas reflexões que não cabem no presente artigo.
Para verem o triste fim da Hitlerjugend assistam ao vídeo do último aniversário do Führer em 20 de abril de 1945.

https://www.youtube.com/watch?v=XYxjnHvnIPM&feature=player_embedded

(A seguir: Teosofia, ariosofia, racismo e os principais místicos que influenciaram o nazismo.)
Notas:
1 - G. L. Mosse, The Mystical Origins of National Socialism, Journal of the History of Ideas, Vol. 22, No. 1 (Jan. - Mar., 1961), pp. 81-96, University of Pennsylvania Press

 
2 - A familia real da Prússia, posteriormente Imperial Alemã, é originária de Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, tendo sido fundada pelo Grão-Mestre Albrecht von Hohenzollern, Duque de Brandenburg, depois de sua conversão ao Luteranismo.
 
3 - Stanley G. Payne, A History of Fascism 1914-1945, University of Wisconsin Press, 1995: London
 
4 - Note-se aqui a origem dos movimentos ambientalistas atuais derivados da noção pagã de Mãe-Terra, (Gaia), no caso a Vaterland, as ideias sobre comida “natural” e do movimento vegan (vegetariano), da proibição do fumo e da oposição ao progresso material capitalista e ao “consumismo” e da proliferação das academia de ginástica, templos de culto hedonista. Partidos de Esquerda, fundações internacionais e a ala esquerdista da Igreja Católica fazem exatamente o mesmo quando defendem a agricultura familiar e se opõem ao agronegócio. É de ressaltar que Hitler era vegetariano, antitabagista, não bebia bebidas alcoólicas e era adepto de grandes caminhadas pela bela paisagem germânica. Não é sem razão que estes movimentos são genericamente chamados de ecofascistas, embora seja melhor econazista, pois os fascistas italianos e franceses (da Action Française) nada tinham a ver com essas idiossincrasias tipicamente germânicas. (Payne loc. cit., 204).
 
5 - Recomendo ler também meus artigos: Os exterminadores do futuro IV - 2ª Parte: A doutrinação ideológica da juventude e a modificação do senso comum,

Os exterminadores do futuro IV - 3ª Parte: La Nuova Scuola Fascista e


Os exterminadores do futuro IV – 4ª Parte: Das organizações infanto-juvenis totalitárias.

 
6 - Scott Lively & Kevin Abrams, The Pink Swatika: homosexuality in the Nazy Party, Founders Publishing Corporation, 1995: Keiser, Oregon e Harry Oosterhuis & Hubert Kennedy, Homosexuality and Male Bonding in Pre-Nazi Germany, Routledge, NY: 2010
 
7- G. L. Mosse, The Crisis of German Ideology. Intellectual Origins of the Third Reich, London:1966
 
8 - Vários autores citados em Richard J. Evans, German Women and the Triumph of Hitler, Journal of Modern History, vol. 48, Nº 1, Univiversity of Chicago Press:1976. Também P. J. G. Pulzer, The Rise of Political Anti-Semitism in Germany and Austria, NY/London: 1964
 
9 - Richard J. Evans, loc. cit. Também Renate Bridenthal, Beyond Kinder, Kücher, Kirche: Weimar Women at Work, Central European History, Junho, 1973
 
Ouça a última edição do programa O Outro Lado da Notícia, de Heitor de Paola, transmitido pela Rádio Vox:

09 de abril de 2014
H
eitor de Paola

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