"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

DEPOIMENTO DA FILHA COMPLICA O ALMIRANTE DA ELETRONUCLEAR



Ana Cristina, em foto que circula na web
Pagamentos adiantados para estudos “pouco profundos” e contratos que já chegavam elaborados fazem parte da versão apresentada pela engenheira Ana Cristina da Silva Toniolo para justificar a maior parte dos pagamentos recebidos pela Aratec, suspeita de receber a propina da obra de Angra 3. Ana Cristina é filha do almirante reformado Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear entre 2007 e 2014.
Ele está preso desde julho por suspeita de ter recebido R$ 4,7 milhões em propina das empreiteiras por meio de empresas intermediárias que realizavam depósitos na conta da Aratec –empresa da família.
No depoimento à Polícia Federal, Ana Cristina, que constava como administradora da Aratec, disse que recebeu os contratos prontos da CG Consultoria – empresa suspeita de intermediar suborno de R$ 2,7 milhões à Aratec.
Segundo ela, os pagamentos referiam-se a serviços efetivamente prestados – a elaboração de estudos para a CG Consultoria. Ana Cristina diz que Carlos Gallo, da CG, era amigo de seu pai.
“COMPILAÇÃO DE INFORMAÇÕES”
“Não se tratavam de estudos profundos de autoria da declarante e nem de consultorias, apenas de uma compilação de informações sobre um tema; a declarante apenas obedeceu àquilo que lhe foi pedido”, diz trecho da transcrição do depoimento. “Não questionou Carlos a razão dos pedidos dos tais estudos, apenas atendeu a uma solicitação de seu pai”.
Segundo ela, Gallo entregava os contratos prontos, contendo a descrição do estudo a ser feito. Só depois da emissão da nota fiscal e do pagamento, o dono da CG pedia a Ana Cristina que “montasse um paper, um estudo referente ao tema”.
Ana Cristina também atribuiu ao pagamento de dívidas antigas e ao investimento de um sócio os repasses feitos por empresas suspeitas de escoar a propina de grandes empreiteiras ao almirante Othon.
TURBINA
A engenheira afirma que entrou na Aratec após iniciar a carreira como tradutora e usou a empresa do pai para emitir notas para receber pelas traduções feitas. Quando Othon foi para a Eletronuclear, ela passou à condição de sócia e administradora da firma.
Ana Cristina disse à polícia que o pai desenvolveu na Aratec uma turbina, já patenteada no Brasil e no exterior, e que parte do dinheiro que entrou na empresa veio de investidores do projeto.
Os auxiliares do almirante no projeto da turbina, disse, eram ex-colegas da época em que ele estava na Marinha. Segundo Ana Cristina, os pagamentos aos desenvolvedores da turbina não foram documentados em contrato nem emitidos recibos. Muitas vezes, o dinheiro era sacado das contas da Aratec e depositado nas contas dos prestadores de serviço. Segundo Ana Cristina, o método visava evitar a caracterização de relação trabalhista.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Primeiro, pagava. Depois pedia para emitir um “paper” que justificasse o pagamento. Que moleza, hein? (C.N.)

14 de agosto de 2015
Graciliano Rocha
Folha

TSE ANALISA QUATRO PROCESSOS PARA IMPEACHMENT DE DILMA



Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve julgar na próxima quinta-feira (13/8) uma ação de impugnação do mandato da presidente Dilma Rousseff. O tema está previsto na pauta do Plenário da Corte eleitoral, marcada para a manhã. O caso foi proposto pela Coligação Muda Brasil, pela qual o senador Aécio Neves (PSDB-MG) concorreu às eleições presidenciais no ano passado.
A relatora do caso, a ministra Maria Thereza de Assis, rejeitou monocraticamente o pedido em fevereiro deste ano, mas o tema foi levado ao Plenário em março, após recurso apresentado pelo PSDB. O julgamento foi interrompido por pedido de vista (mais prazo para analisar) do ministro Gilmar Mendes, vice-presidente do TSE.
Ao negar o pedido feito pelo PSDB para cassar o diploma da presidente Dilma Rousseff e do vice-presidente Michel Temer para o mandato iniciado neste ano, Maria Thereza argumentou que os tucanos apresentaram “de forma genérica supostos fatos ensejadores de abuso de poder econômico e fraude” e não apresentam “indício de prova que pudesse justificar o prosseguimento de ação tão cara à manutenção da harmonia do sistema democrático”.
UMA SÉRIE DE ILAÇÕES
Ela negou o prosseguimento da ação de impugnação de mandato, apresentada pelo PSDB no dia 2 de janeiro. “Como justificado no início desta decisão, entendo que a inicial apresenta uma série de ilações sobre diversos fatos pinçados de campanha eleitoral realizada num país de dimensões continentais, sobre os quais não é possível vislumbrar a objetividade necessária a atender o referido dispositivo constitucional”, apontou a ministra.
O partido argumenta na ação que houve abuso de poder político na campanha de Dilma, com convocação de rede nacional de rádio e televisão, manipulação na divulgação de indicadores sociais, uso indevido de prédios e equipamentos públicos para atos próprios de campanha e veiculação de propaganda institucional em período proibido.
Além disso, o PSDB aponta a existência de suposto abuso de poder econômico com realização de gastos de campanha acima do valor limite, financiamento de campanha com doações oficiais “contratadas pela Petrobras como parte da distribuição de propinas”, entre outros.
OUTRAS AÇÕES
Além da ação que será julgada na quinta-feira, o TSE tem hoje outras três ações apresentadas pelo PSDB com pedidos semelhantes, que poderiam levar à cassação do diploma da presidente.
Em uma dessas ações, de relatoria do ministro João Otávio de Noronha, que ocupa o cargo de corregedor-geral da Justiça eleitoral, já foram ouvidos dois delatores da Operação Lava Jato o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Na última semana, Noronha disse que pedirá ao Supremo Tribunal Federal (STF) o compartilhamento de outra delação, do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC. O PSDB já pediu que Pessoa preste depoimento na condição de testemunha, mas, como o acordo que o empreiteiro firmou com o Ministério Público está sob sigilo, é preciso ainda outra autorização do STF.

14 de agosto de 2015
Deu no Estadão

MANOBRA NO TCU PODE VALIDAR PEDALADAS DE DILMA



Vital do Rego, relator dos recursos, quer salvar Dilma
Dois ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) — Vital do Rêgo, ex-senador do PMDB, e José Múcio Monteiro, ex-ministro do governo Lula — planejam uma estratégia que pode ajudar a presidente Dilma Rousseff a se livrar de parte das acusações de irregularidades nas contas de 2014. Em meio à pressão do governo sobre o TCU, e à atuação do vice-presidente, Michel Temer (PMDB), e do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a manobra permitirá retomar o julgamento do processo original que, em abril, condenou as “pedaladas fiscais” do governo.
Vital do Rêgo é o relator de recursos protocolados pela Advocacia-Geral da União (AGU) e pelo Banco Central que contestam as determinações aprovadas em abril pelo TCU contra as “pedaladas”. As manifestações feitas pelo ministro nos recursos, até agora, são indicativos de que as principais críticas feitas pelo TCU no processo das “pedaladas fiscais” poderão ser anuladas nesta retomada do julgamento.
O tribunal deve recolocar em pauta o processo das “pedaladas fiscais” antes do julgamento das contas de Dilma, segundo três ministros ouvidos pelo GLOBO. As “pedaladas” consistiram em represar o repasse de recursos do Tesouro Nacional a bancos oficiais, que se viram obrigados a arcar com pagamentos de benefícios sociais como o Bolsa Família, o seguro-desemprego e o abono salarial, além de bancar os subsídios em linhas de crédito oficiais.
RESPONSABILIZAÇÃO DE ARNO
Em abril deste ano, o plenário do TCU considerou que as manobras feitas pelo governo nas contas do ano passado infringiram a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), e chamou 17 autoridades e ex-autoridades do governo Dilma para se explicar sobre a suposta irregularidade.
Em seguida, a rejeição das “pedaladas” pelo TCU ajudou a embasar o relatório do ministro Augusto Nardes, que pode levar à reprovação das contas de 2014 da presidente — e essa rejeição poderia servir de argumento para dar início a um processo de impeachment contra a petista. Assim, uma eventual mudança no entendimento do TCU de que as “pedaladas” foram irregulares aliviaria a situação da presidente no julgamento de suas contas.
Com a estratégia adotada por Vital do Rêgo e José Múcio Monteiro, o melhor dos mundos para o governo, segundo fontes do tribunal, seria a responsabilização apenas de Arno Augustin, ex-secretário do Tesouro Nacional, e não Dilma ou outra autoridade do governo. Augustin é apontado como artífice das “pedaladas”, e é uma das 17 autoridades acionadas pelo TCU para se explicar.
30 DETERMINAÇÕES
No processo sobre as “pedaladas”, o TCU havia determinado que o governo seguisse 30 determinações para corrigir as irregularidades apontadas no julgamento de abril. A decisão teria efeito imediato. Após o recurso do governo, Vital do Rêgo concordou em reanalisar oito das recomendações, praticamente as mais importantes para tentar frear a manobra das “pedaladas”.
Vital seguiu recomendação da área técnica do TCU para admitir a contestação desses oito pontos, que agora serão analisados no mérito. A área técnica entendia, no entanto, que apesar de os temas poderem ser reanalisados, o TCU não deveria conceder o chamado efeito suspensivo, ou seja, as determinações de seus ministros deveriam continuar valendo. Mas Vital do Rêgo teve entendimento diferente, e suspendeu os efeitos da decisão em relação a estes oito pontos, desobrigando o governo de cumprir a determinação do TCU até que o caso vá a novo julgamento no plenário.
RECURSOS SOB MEDIDA
Ele admitiu os recursos justamente nos pontos que estão no centro das irregularidades que podem levar à rejeição das contas de 2014. Na lista de determinações impostas pelo TCU em abril está a obrigação de o governo quitar débitos com a Caixa Econômica Federal por conta de pagamento que a instituição financeira arcou para garantir que os beneficiários do Bolsa Família recebessem seu dinheiro. O TCU também determinou que o Tesouro repasse recursos para o Ministério do Trabalho pagar a Caixa, que adiantou recursos para pagamentos de seguro-desemprego e abono salarial.
Vital do Rego vem agindo em conjunto com José Múcio, relator do processo original. A ideia é pautar o julgamento do recurso antes do julgamento do parecer sobre as contas de Dilma.

14 de agosto de 2015
Vinicius Sassine
O Globo

O VOTO DE GILMAR MENDES PODE SER A DERROCADA DE DILMA NO TSE



Primeiramente vou comentar decisão da ministra Maria Thereza de Assis Moura, do Tribunal Superior Eleitoral, que decidiu pelo arquivamento de processo movido contra a eleição da Chapa Dilma Rousseff/Michel Temer pelo PSDB. Das duas, uma: ou ela é muito incompetente, ou agiu de má-fé.
O ministro Gilmar Mendes foi claríssimo ao condenar por mal feita a decisão de Maria Thereza. Mendes deu início à análise do caso fazendo um duro voto pela aceitação do recurso do parido. O ministro aproveitou o julgamento para dirigir críticas à relatora do caso, ministra Maria Thereza de Assis Moura, que havia decidido pelo arquivamento do processo. Em seu voto, Gilmar disse que a ministra rejeitou o recurso apresentado pelo PSDB “sem instruir o processo, sem, portanto, sequer citar os investigados”.
Em ambas as hipóteses, a relatora Maria Thereza de Assis Moura deveria ser demitida a bem do serviço público, não importa se foi por incompetência que decidiu pelo arquivamento sem instruir o processo, o que era sua obrigação, ou se foi por má fé, para colocar a ação debaixo do tapete e obstruir a justiça numa questão interessa a todos os brasileiros.
DOAÇÕES ILEGAIS
O ministro Gilmar Mendes foi mais longe em sua advertência ao trabalho mal feito da ministra Maria Thereza de Assis Moura, ao dizer que “não é difícil adivinhar que parte desses recursos pode ter vindo para a campanha. As triangulações têm sido reveladas e isso precisa ser no mínimo investigado”. Disse que, portanto, não poderia a ministra rejeitar o processo, já que “dados que vieram a público e pertinentes ao processo precisam ser, no mínimo investigados”.
Avança mais a crítica do ministro do TSE à atuação da relatora: “O ministro disse ainda que a Justiça Eleitoral “não pode ficar indiferente a esse tipo de exame ou liminarmente indeferir um pedido de busca esclarecer. Não se trata de cassar mandato aqui, mas de ver o que ocorreu”.
Mais ainda o ministro Gilmar Mendes condena a ministra Maria Thereza quando assinala: ”Busca-se tão somente verificar se, de fato, recursos provenientes de corrupção na Petrobrás foram ou não repassados para a campanha presidencial”.
Em sua censura à relatora, continua Mendes: “Imagine que se possa demonstrar a partir desse depoimento que esse senhor Ricardo Pessoa, que os R$ 7 milhões que sua empresa doou foram claramente fruto de propina?” Em tom irônico, ele disse que a ministra “daria uma brilhante contribuição ao Brasil esclarecendo esse fenômeno. Corrupção na Petrobrás resulta em lavagem de dinheiro nas doações eleitorais, veja, isso precisa ser esclarecido. Se não com efeito prático, para a história desse país”, disse.
ABUSO DE PODER
Com isso, Gilmar afirma que o argumento apresentado pelo PSDB, acompanhado de “mínimo suporte probatório pode, sim, qualificar-se como abuso de poder econômico, o que, a meu ver, justifica a necessária instrução do feito, em busca da verdade dos fatos, respeitando as garantias do contraditório e da ampla defesa”.
Se, por acaso, a ministra Maria Thereza foi só incompetente, a esta hora ela deve estar morrendo de vergonha. É coisa para ficar escondida em casa e pedir licença sem vencimentos. O problema é que nós, brasileiros, descobrimos que estamos pagando caro uma ministra que não merece a honrosa função.
O que sobra de positivo nisso tudo é que parece que a vez de dona Dilma acertar contas com a Justiça está chegando. O brasileiro agradece.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – É importante lembrar  que o ministro Luiz Fux fez questão de apoiar integralmente o voto de Gilmar Mendes, mostrando que as coisas estão mudando também no luxuoso tapetão do Judiciário. (C.N.)
14 de agosto de 2015
Ednei Freitas

PERDA TOTAL, O NOVO NOME DO PT




Ditos só se tornam ditados porque contêm lições preciosas de correntes de situações já testadas. De onde convém levá-los em consideração na vida e também na prática da política.
“Quem tudo quer tudo perde” reza sobre o mau posicionamento da ganância desmedida como conselheira. “Não se pode enganar a todos o tempo todo” fala a respeito dos malefícios da prepotência e da cegueira soberba ante o discernimento alheio.
O menosprezo a tais preceitos é uma receita fadada ao desastre mais dia menos dia, conforme agora pode comprovar o Partido dos Trabalhadores nesse momento em que o partido se vê diante da cobrança dos equívocos cometidos ao longo de sua trajetória no governo e na oposiç&atil de;o.

A conta salgada hoje impõe ao PT a condição de ente em situação de inevitável falência. Perda Total parece ser a tradução atual para a legenda.

Nunca antes na história do Brasil se assistiu a uma derrocada dessas proporções, notadamente em se tratando de um partido na posse do poder formal. Os partidos ditos aliados se posicionam dizendo com todos os efes e os erres que nada querem com o governo.

Cansados de serem tratados como vendidos – o que alguns efetivamente são, mas que não gostam de ser tratados como tais –, agora dão o troco, como a dizer: tantas vocês fizeram que agora é a nossa vez de dizer chega.

Sentimento semelhante toma conta da sociedade, evidenciado na crescente rejeição ao governo e ao partido. Implicância? Nem de longe. O PT recebeu do eleitorado brasileiro tudo o qu e queria e muito mais. Foi conduzido à Presidência da República quatro vezes, mas não soube honrar essa delegação.

Entre outros motivos, por um pecado de origem: o partido jamais compreendeu as normas nem a ele se deu ao trabalho de seguir as normas da República e da democracia. Uma vez no poder o PT tomou como verdade a instituição da bandalheira e da impunidade como regra geral. Não viu que não era assim e sob a direção petista passou a ser. O partido mergulhou fundo no modelo da podridão, desprezando todas as chances de se engajar num programa de melhoria institucional.

Ao contrário. Optou por se manter alheio ao movimento pelo fim do regime militar escolhido pelas demais forças políticas – a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral de 1985 –, bombardeou o plano de estabilidade econômica à r evelia da sociedade e depois, quando no poder, escolheu o populismo aliado ao fisiologismo de Estado para governar.

O partido, seus representantes e governantes mentiram de maneira afrontosa, estabeleceram um padrão de divisão entre brasileiros governistas e oposicionistas, entrou de cabeça no “modo gastança” em detrimento da poupança e agora está paralisado no beco sem saída aparente que ele mesmo construiu.

Os anteriormente aliados hoje deixam bem claro que querem os petistas fora do jogo. Razão? O exagero nos gestos e falas de outrora. Tivesse sido mais cordial com os aliados, talvez o PT não vivesse situação tão adversa. Na pior das hipóteses, teria ao menos alguém com motivação para defendê-lo.

Eduardo Cunha – disse algumas vezes e vou repetir – não é causa, é consequência. Foi eleito porque a maioria dos deputados queria que fizesse o que está fazendo. Um instrumento para expressar desagrados e urdir a vingança por anos de imposição da soberba sustentada em altos índices de popularidade.

Depois da virada a canoa, o cenário é o de um final melancólico, cuja escrita retrata um final melancólico. Não há mais a opção de mudar como preconizam os otimistas, pois o sonho transmudado em pesadelo já se acabou.



14 de agosto de 2015
Dora Kramer

O DESRESPEITO AO BRASIL

Dona Dilma não precisa nem falar, basta olhar seu semblante e as olheiras dignas de um filhote de panda, para concluirmos que anda insone com a perspectiva de um impeachment. Que está pouco visível no horizonte, mas que ela sabe que pode estar ali numa curva do Destino.

A presidente, além de se gabar de sua coragem e força para aguentar venha o tranco que vier, agora deu para frisar o que nós sabemos muito bem: ela está instalada no Planalto graças aos votos que recebeu e a vitória pelo voto não se discute, cumpre-se.

Curioso que quem mais fala em golpe é o Governo. Lembra aquela mulher que de tanto azucrinar o marido com seus ciúmes acabou despertando nele a certeza de que trair seria uma barbada. E foi!

Apavorada com a perspectiva de um impeachment, frase sim, frase não, ela repete que o voto tem que ser respeitado. E que não vai tolerar nem a mais remota tentativa de golpe!

Sugiro que pare de falar em golpe antes que algum aventureiro lance mão da coroa. Lembre-se, dona Dilma, o Brasil não tem um Plano B...

Creio que também seria de bom alvitre parar de falar no respeito ao voto. Não é por aí. A senhora foi eleita por uma apertadíssima margem de votos. Afinal, o que é o voto, objeto desse sacrossanto respeito? É a vontade do eleitor. É essa a vontade que tem que ser respeitada. Mas respeitada por quem recebeu o voto ou exigida por quem o depositou na urna?

Aí é que está o busílis, dona Dilma. Um voto obtido de forma enganosa não merece respeito e os votos que a senhora recebeu, todos eles, vieram em resposta àquela campanha que mostrava um Brasil paradisíaco, fato que a senhora conhece muito bem.

Mal as urnas foram fechadas, a campanha se esvaiu em fumaça, não é mesmo? E a senhora ainda pede respeito ao voto recebido? Pois eu lhe peço respeito ao eleitor que acreditou nas suas palavras e foi votar. É esse o voto que merece respeito e que não vem sendo respeitado desde janeiro de 2015.

Esse desrespeito agora começa a ser cobrado. Aqui e ali, ouve-se um “Fora Dilma!”. Isso não é pregação de golpe, mas revolta pela vida difícil do povo diante da vida luxuosa na Capital Federal.

Será que alguém sabe com exatidão quanto custa a máquina que move os Três Poderes?

Ou, por exemplo, quanto custa o encontro dos Movimentos Sociais como os realizados na capital nos últimos dias?

O mais chamativo foi o das Margaridas gritando ‘Não vai ter golpe’, "No meu país, eu boto fé, porque ele é governado por mulher", ‘Fora já. Fora daqui, o Eduardo Cunha junto com Levy". Além de uma faixa gigantesca onde se via o rosto da presidente com a frase ‘Fica Dilma’.

O mais desrespeitoso foi sob a bandeira Diálogos, num salão no Palácio do Planalto. Diante de uma parede onde se lia Brasil – Pátria Educadora, o presidente da CUT bradou: “Vamos para as ruas entrincheirados com arma na mão se tentarem derrubar a presidente Dilma Rousseff. A qualquer tentativa de golpe, nós teremos o exército que enfrentará a burguesia nas ruas”.

Mas de que tentativa de golpe fala esse senhor? De onde ele tirou essa ameaça?

Isso é mais do que desrespeitar o voto, isso é um acinte, uma violência contra o Brasil. Dentro da sede do Governo Federal, na presença da presidente da República que acabara de dizer “Temos que zelar pelo respeito que as pessoas que pensam diferente da gente têm que receber de nós”, vem um sindicalista desvairado e ameaça com armas aquelas pessoas que pensam diferente dele?

Dona Dilma, respeitar o voto é respeitar o Brasil, sim. Mas mais do que isso, respeitar o Brasil como o país merece teria sido a senhora chamar à ordem esse senhor e lhe fazer ver onde ele estava. Respeito é muito bom e o Brasil merece todo o nosso respeito.

Ameaçar sair com armas na mão diante de diferenças de opinião é o que? Além de uma tremenda falta de amor ao Brasil?



14 de agosto de 2015
Maria Helena R R de Sousa

MÁ FÉ CÍNICA

Como o Palhares de Nelson Rodrigues, Lula é o homem da má fé cínica que faz praça da obtusidade córnea. (Se o leitor não sabe, Palhares, o Canalha, certa feita, quando se viu sozinho num corredor de hospital, atracou a cunhada com chupões de língua e apalpadelas, enquanto a esposa, no leito da enfermaria, exalava os últimos suspiros de uma doença terminal – o câncer).


Já Leonel Brizola, o fogoso centauro dos pampas (metade homem, metade cavalo), enfrentando Lula em eleições presidências ordenadas pelos métodos de foice e martelo habitualmente empregados pelo PT, não pestanejou em definir o oponente como um reles “sapo barbudo”, o sujeito que, para chegar ao poder, seria capaz de pisar (sem remorso) o pescoço da própria mãe. E olha que em matéria de eleições cavadas e baixa politicalha, o cultor do “socialismo moreno” tinha atingido um grau de excelência.


De fato, o Dr. Lula abusa. Agora mesmo, quando se vê acossado por acusações de que o seu Instituto Lula e a empresa de Eventos e Palestras Lils (iniciais de Luiz Inácio Lula da Silva) apanharam dinheiro grosso de empreiteiras que espoliaram a Petrobras em mais de R$ 7 bilhões – o que faz o vosso “líder carismático”?


Ele faz o seguinte: armado no ABC paulista evento de puro circo, contando com a plateia cativa de sindicalistas bem remunerados, o velho mandrião da política vocifera, de forma histriônica, que a encalacrada facção do PT comunista “está sendo perseguida como os judeus pelos nazistas”.


Nesta afirmação obscena, de pura mistificação, a obtusidade córnea atinge seu ponto mais rasteiro. De fato, mesmo levando em conta que Lula não passa de um analfabeto contumaz, incapacitado para enfrentar qualquer compêndio de História, nunca será demais lembrar que a inversão burlesca dos fatos tem seus limites.


Como se sabe, a violência nazista, levada adiante pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, tem suas raízes fincadas nas práticas revolucionárias encetadas pelo Partido Comunista soviético, para tomar e manter o poder a partir de 1917. Em essência, Adolf Hitler copiou literalmente os métodos criminosos aplicados contra o povo russo por Lenin e sua camarilha vermelha.


(Paul Johnson, no enciclopédico “Tempos Modernos”, considera que, em matéria de perseguição, as diferenças entre nazismo e comunismo são basicamente as trocas do burguês pelo judeu e a substituição do símbolo da foice e martelo pela cruz suástica).


Os nazistas perseguiram, saquearam, isolaram os judeus em campos de concentração e, pela adoção da “Solução Final”, asfixiaram em câmaras de gás mais de seis milhões de prisioneiros. Ora, no Brasil, com os comunistas do PT, dá-se justamente o contrário. Aqui, basta olhar em redor para constatar que a vasta nomenclatura petista vive atrelada aos empregos públicos das estatais, ongs e boquinhas ministeriais, abusando do uso de cartões corporativos, das mordomias palacianas e, o que é pior, impondo sua sanha revolucionária, impunemente, nos campos e nas cidades. O próprio Lula, de operário relâmpago ascendeu à condição de burguês fidalgo, com casas, sítios e apartamento (triplex) em balneário de luxo, sempre nutrido em boas refeições, vinhos caros e ternos da moda, deitando o seu falatório debochado contra a realidade dos fatos, a partir de bunkers situados estrategicamente no ABC paulista.


No momento, temeroso das possíveis consequências, o Dr. Lula recorreu ao Ministério Público pedindo a suspensão do procedimento investigativo criminal aberto para apurar sua conduta no questionado caso de tráfico de influência, no exterior, em favor da Odebrecht. (Como é público e notório, a poderosa empreiteira fez do líder petista um obediente garoto-propaganda, financiado para facilitar negócios em Cuba, Venezuela, República Dominicana e países da África). A Corregedoria negou.


E enquanto o país desanda numa inflação beirando os dois dígitos e o governo tido como perdulário fala muito em “ajuste fiscal”, um novo escândalo estoura na praça: a Polícia Federal e o Ministério Público estão investigando as obras do “Museu Lula”, orçadas em R$ 14.5 milhões, mas cuja licitação o Tribunal de Contas do Estado julgou irregular. O museu tem por objetivo incensar a figura do “Príncipe Moderno”, mas a construção está navegando em banho-maria, pois seus mentores querem mais R$ milhões da viúva.


14 de agosto de 2015
Ipojuca Pontes

CULPA DA DEMOCRACIA?


É difícil que o país consiga sair do atoleiro fiscal em que foi metido sem entender com clareza como foi mesmo que acabou nessa situação. Parece inacreditável que, a esta altura dos acontecimentos, ainda haja quem queira reescrever a história e relevar o papel central que teve a presidente Dilma na condução da economia a tal desastre.

Há mais de duas décadas, o dispêndio primário do governo vem crescendo muito mais rapidamente que o PIB. E exigindo elevação persistente da carga tributária. Esse descontrole estrutural do gasto público tem sido associado às dificuldades de conter as pressões políticas que ganharam força a partir da redemocratização.

É com base nisso que agora ganharam destaque na mídia narrativas sobre o atual quadro de devastação fiscal em que se alega que, para azar de Dilma, o desequilíbrio fiscal estrutural acabou explodindo no seu colo. E que não se pode culpar a presidente pelo descontrole do gasto público. Porque a verdadeira culpada seria — pasmem — a democracia brasileira.

Pressões por expansão de gasto público são intrínsecas a qualquer democracia. Não se trata de peculiaridade brasileira. Cabe ao governo acomodar essas pressões sem deixar que redundem em descontrole fiscal. Basta olhar em volta para perceber que outras democracias vêm administrando tais pressões com muito mais sucesso que o Brasil.

Que a expansão de gasto público era insustentável já estava claro há dez anos. E, na época, a democracia brasileira, revigorada pela alternância de poder, parecia pronta a equacionar o problema de forma consequente. Preocupado com a insustentabilidade fiscal, Antonio Palocci, então ministro da Fazenda do primeiro governo Lula, propôs, em 2005, a adoção de um programa de ajuste de longo prazo, para impedir que o dispêndio público continuasse a crescer mais rapidamente que o PIB.

Infelizmente, a proposta foi torpedeada. Em embate dentro do governo, Dilma Rousseff, então ministra-chefe da Casa Civil, acabou levando a melhor. E o país perdeu excelente oportunidade de levar adiante uma reforma fiscal de grande alcance, que lhe teria assegurado trajetória bem mais promissora.

Anos mais tarde, em artigo em tom triunfalista, escrito em meio à euforia de 2010, Nelson Barbosa comemoraria o embate de 2005 como a derrota decisiva da “visão neoliberal” no governo Lula, que havia aberto caminho para os grandes feitos que vinham sendo logrados pela “opção desenvolvimentista”. Ver http://migre.me/hEprG

O afastamento de Palocci e sua substituição por um ministro dócil e afinado com Dilma Rousseff, em abril de 2006, abriram espaço para crescente e inédita preponderância da Casa Civil na condução da política econômica no segundo mandato de Lula.

A preocupação com as contas da Previdência logo cedeu lugar à negação peremptória da necessidade de reformas na área previdenciária. E, quando Lula mal havia cumprido nove meses do segundo mandato, a ministra Dilma Rousseff se permitiu anunciar que todas as preocupações com contenção de gastos haviam sido deixadas para o mandato seguinte.

A perspectiva de uma crise mundial, em 2008, foi o ensejo que faltava para que o governo partisse de vez para o expansionismo fiscal ostensivo, com a criação de um gigantesco orçamento paralelo no BNDES com ligação direta ao Tesouro. Acreditando que, num passe de mágica, se livrara da restrição orçamentária, o governo passou a se comportar como se não houvesse limites para o que poderia ser bancado com dinheiro público.

O resto da história é bem conhecido. Eleição de Dilma Rousseff, na esteira de apoteótica farra fiscal, em 2010. Insistência na aventura charlatanesca da “nova matriz macroeconômica” no seu primeiro mandato. E novo vale-tudo fiscal, em 2014. Os resultados aí estão. Uma economia sem perspectiva de crescimento, inflação a mais do dobro da meta e um quadro de devastação fiscal como há muito não se via.

O país agora se angustia com quanto lhe custará a penosa reparação dos danos, mas tem certeza de que a culpada pelo desastre não é a democracia.


14 de agosto de 2015
Rogério Furquim Werneck

RENAN É VIDA LOKA, MANO!


Ulalá! Brasília, nesta semana, às vésperas do protesto do dia 16, viveu mesmo em ritmo de "vida loka". O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que chegou a devolver uma Medida Provisória ao Executivo porque Rodrigo Janot o incluíra, lá atrás, na lista de alvos de inquérito da Lava-Jato, descobriu as virtudes superiormente interessantes da governabilidade. E passou a falar com a inflexão dos estadistas que vislumbram o futuro, além de toda terra devastada.

Se, até anteontem, estudava uma maneira de retardar a recondução de Janot à PGR, mostra-se, de súbito, interessado em acelerar os trâmites. Mais do que isso: entregou ao governo uma pauta para fazer o país entrar nos eixos, o que é pura conversa mole. Ainda outro dia, o presidente do Senado achava que o peso do ajuste estava caindo todo sobre as costas dos pobres, e seu discurso fazia a CUT ficar vermelha de inveja. Agora, ele descobriu aqueles nobres sentimentos que costumam assaltar alguns políticos brasileiros quando pensam acima das paixões.

Renan passou a intuir que ou não será denunciado por Janot ou que, de tão inepta, não há chance de a peça ser acatada pelo Supremo, e isso parece lhe ter aberto os horizontes. 
Diz-se em Brasília que ele pode "influenciar" pelo menos três ministros do TCU. Estariam na sua cota Raimundo Carreiro, Bruno Dantas e Vital do Rêgo. 
Dois outros, fora desse grupo, já seriam favas contadas. Bastam quatro dos nove. Em caso de empate, Aroldo Cedraz, o presidente, votará pela aprovação das contas de Dilma.

É a versão farsesca de que Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, é um incendiário que torna verossímil, mas nunca verdadeiro, o papel de Renan como bombeiro. Muita coisa andou nesta semana. Querem ver?

No dia 30 de abril, referindo-se a Michel Temer, Renan afirmou que a coordenação política do governo não podia ser "uma articulação de RH para distribuir cargos e boquinhas". O vice até saiu um pouco do seu tom habitual. Lembrou que "respeito institucional é a essência da atividade política, assim como a ética, a moral e a lisura". Essas três últimas palavras devem ter mexido com os brios de Renan.

Do outro lado da linha, como se sabe, a ordem é não deixar o homem respirar. Todos os jornalistas isentos do governismo passaram a cobrar a execução sumária de Cunha. A coisa não se limitou às "Margaridas das Redações". A marcha das flores do mal do MST serviu, de modo escancarado, ao proselitismo do PT e do governo. Entre o discurso de Lula e o de Dilma, aquelas valentes senhoras resolveram pedir... a cabeça de Cunha! Com patrocínio da CEF, do BNDES e de Itaipu. Imaginem se a iniciativa privada promovesse um ato público em favor do impeachment da presidente... As Margaridas petaladas dos teclados gritariam "Golpe! Abaixo Pinochet!".

Desafio a margem, válido também para colunistas desta Folha: apontar uma só dificuldade presente que Dilma esteja enfrentando que tenha sido criada por Cunha. Sem o seu bárbaro de estimação, o que seria da nossa governanta? Os Amigos da Amiga falariam mal de quem, já que não dá para falar bem da Dilmãe?

O grande acordão já está costurado. Falta agora combinar com os russos das ruas, sempre considerando que os muitos milhares deste domingo serão apenas a face minimamente visível da indignação dos pacíficos, que não deve ser desafiada.


14 de agosto de 2015
Reinaldo Azevedo

O QUE ESPERAR DO DOMINGO

Que efeito esperar das manifestações do domingo (16)? Quase nenhum. Quando muito, a imagem do esperneio difundirá pelo mundo mais uma confirmação de como é extensa e intensa a repulsa de milhões brasileiros ao zumbi exausto e putrefato de seu próprio governo.

Essas manifestações já demonstraram sua futilidade na improvisação de junho de 2013 e na desperdiçada oportunidade de, na eleição do ano passado, levar a nocaute o adversário cambaleante.

Verdade que foi eleição surripiada por mentiras, promessas solertes e a mais eficiente máquina de propaganda que o governo já conseguiu engraxar com dinheiro roubado. Mas o Partido dos Trabalhadores pode escarnecer que, como ensinou Margaret Thatcher, na etiqueta da política vencedores não dão pêsames aos vencidos.

Desistir, então? Conformar-se com a perpetuação bolivariana do PT no poder? Não necessariamente. Com sua esquálida imagem de Partido dos Trapaceiros (ou dos Traidores), o PT ruma para extensa derrota nas eleições municipais de 2016. Exponencial nesse declínio é a prevista defenestração do prefeito Fernando Haddad em São Paulo.

Muito pouco, muito devagar. Os manifestantes deveriam concentrar foco e fogo em renovada campanha de Diretas-Já: ação direta em favor duma democracia direta.

Democracia direta é o direito de legislar exercido diretamente pelo eleitorado. O processo precisaria começar pela exigência duma Assembleia Constituinte com mandato para substituir a espúria Constituição vigente. Esta foi debatida e votada não por Constituinte, mas pelo Congresso que o regime militar consentiu suceder ao biônico. O eleitorado nunca legitimou essa Carta nem seus remendos oportunistas e escusos.

Mais uma Constituição? Os EUA mantêm em vigor (com emendas subsequentes) a mesma Carta de sete artigos vigente desde 1788. No Reino Unido, embora nenhum documento as consolide, leis de natureza constitucional têm garantido aos cidadãos, há séculos, invejáveis liberdades civis. Mas são exceções. Na França, a Constituição que vigora desde 1958 é a última de uma sucessão que remonta a 1791.

A Constituição que vige na Suíça desde 1999 preserva muitos princípios da primeira, que em 1848 agregou substancial teor do ideário humanista da Revolução Americana e da Francesa. Já na Constituição de 1891 os suíços incorporaram inovação que outras democracias começam a imitar: a iniciativa popular.

Hoje, na Suíça, abaixo-assinado com 100 mil assinaturas ou mais, coletadas em prazo não superior a 18 meses, pode converter-se em lei, se aprovada por maioria simples; ou até em emenda constitucional, se aprovada por "maioria dupla" (dos eleitores e da maioria dos cantões, como são chamadas as unidades federativas suíças).

Promover referendos no Brasil é desafio que supera o do consenso dos 26 cantões suíços –apesar da acrimônia endêmica que vocifera lá em quatro línguas e dezenas de dialetos. Mas com internet mais difusa, aperfeiçoamento crescente de urnas e documentação eletrônicas, o entulho mais obstrutivo oposto ao estabelecimento da democracia direta no Brasil é a relutância subversiva da classe política em renunciar a seus extorquidos privilégios.

Resta saber como obter de governo petista a convocação duma Constituinte que certamente extinguiria a atual hegemonia do partido. Entra aí, então, a ação direta, assunto para outro texto, noutro contexto.



14 de agosto de 2015
Aldo Pereira

TRISTES TRÓPICOS

“Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto?", canta Gabriel o Pensador na melhor música de protesto dos últimos tempos. “Chega! Quero sorrir, mudar de assunto!” Quem não quer? Os dias estão lindos, o tempo está uma glória, as ruas estão enfeitadas pelas orquídeas que mais uma vez florescem nas árvores a que foram amarradas, as capivaras têm aparecido com regularidade. Mas a pobre da Lagoa fede e envenena os remadores que vêm de fora, a baía é um desastre ambiental, as praias estão imundas, os taxistas estão atacando os passageiros e motoristas do Uber, as universidades estão em greve, a violência está por toda a parte, os preços estão em alta, os salários e aposentadorias em baixa, há desemprego, há lojas fechadas, negócios falidos, planos cancelados.

A crise arreganha os dentes em cada esquina, e nós ainda somos obrigados a ouvir o Pezão, lamentando a chance perdida de despoluir as águas da cidade, que ele havia prometido entregar limpinhas para as Olimpíadas, e a “presidenta”, lamentado o aumento das contas de luz, que às vésperas das eleições ela reduziu com o ar triunfante de quem fez um ótimo serviço. Lamentam, pois é, como se não tivessem nada a ver com isso; lamentam como se a culpa de nos encontrarmos nessa situação caótica e deprimente em que tudo está ruim ao mesmo tempo não lhes coubesse em boa parte, como se fossem duas inocentes vítimas do destino e da conjuntura internacional. Para piorar o que já estava péssimo, agora ainda temos o Renan Calheiros — o Renan Calheiros! — como fiador da República.

Chega!

Quero mudar de assunto, mas a crise sequestra a pauta e não há outra conversa: no trabalho, em família, entre amigos, na fila do banco (sobretudo na fila do banco), na condução, na fila do supermercado (sobretudo na fila do supermercado), no salão, na porta da escola.

Chega!

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Sou só eu, ou vocês também ficam bestas com as quantias que estão vindo à tona na Lava-Jato? Cada rato que faz acordo de delação premiada se compromete a devolver cinquenta milhões, setenta milhões, cem milhões. Vai dizer que ninguém viu isso, que ninguém sabia disso? A quem eles pensam que enganam? Casas reformadas por empreiteiras, apartamentos pagos por amigos, viagens em jatinhos para suítes de luxo nos grandes hotéis internacionais... Essa era a gente que queria mudar o mundo?

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Um conhecido meu, americano, professor universitário, postou isso:

“Panelaço: amig@s brasileir@s: podem me explicar o panelaço ontem? Sem entrar no debate sobre o grau de culpabilidade da Dilma e/ou o PT pela crise atual, ela é a Presidenta eleita. Para mim uma fundação de qualquer democracia é a discussão, de ouvir e ser ouvido. Pode odiar, pode sentir náusea pelas palavras do seu adversário (até escutar para criticar depois) mas realmente não entendo um esforço coordenado para silenciar. Para mim, isso não alimentaria um país (estou dizendo um país e não ‘um governo’ de propósito) em crise. Alguém pode me explicar e/ou defender o panelaço? Fico assustado e confuso.”

Achei o desafio interessante, sobretudo porque vários petistas já haviam oferecido a sua (previsível) interpretação. E respondi:

Já vi que sou uma voz dissonante entre os seus amigos; então o meu ponto de vista talvez contribua para a sua compreensão. Os governistas estão muito empenhados em fazer crer que o panelaço é obra de reacionários neo fascistas da classe média alta que estão descontentes porque não podem mais viajar para Miami, instigados pela mídia golpista. Preciso dizer como essa leitura é ofensiva a qualquer pessoa de bem? Um dos motivos de vivermos hoje num país tão polarizado e cheio de ódio é, justamente, essa recusa em aceitar o fato de que boa parte — se não a maior parte — da população está profundamente descontente com o governo: com a sua incompetência, a sua roubalheira e, last but not least, a sua arrogância. Nem todo mundo que bateu panela quer o impeachment da Dilma; muita gente apenas protesta, porque é o que lhe restou fazer. Ouvir o programa do PT é, para quem está até aqui com o governo, um insulto adicional: uma sucessão de mentiras que culminou com a ridicularização de panelaços anteriores. O panelaço é a recusa dessas mentiras, a forma de se dizer “Enchi disso!”. O panelaço, por incrível que pareça, é uma forma de se fazer ouvir, uma forma de diálogo com um governo que tem, sistematicamente, ignorado o descontentamento da população.

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O panelaço é, em última instância, uma tremenda vaia.

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Tenho pena dos funcionários das empreiteiras atingidas pela Lava Jato, gente boa e capaz que não tem nada a ver com as maracutaias tramadas pelos seus dirigentes. Há poucos meses estive no Galeão vendo as obras de expansão do aeroporto, e fiquei muito impressionada com o cuidado e o entusiasmo de todos. Também tenho acompanhado as obras do metrô que estão sendo feitas em frente à minha casa, e apesar de sofrer com o barulho e com a poeira constantes, só tenho elogios à organização dos trabalhos.

Força aí, moçada! Não está fácil para ninguém.



14 de agosto de 2015
Cora Ronai

DILMA NÃO SABE GOVERNAR E VAI LEVAR O BRASIL A UM IMPASSE


Já houve tempo em que a Economia podia ser considerada apenas uma Ciência Social, nem sonhar em se tornar uma Ciência Exata, tipo Matemática, Física ou Química, porque havia mais teorias econômicas do que psicanalíticas, ficava difícil chegar a uma conclusão, os governos atuavam mais no sistema diferencial do erro e acerto.
Mas a evolução do conhecimento e das práticas administrativas está praticamente colocando a Economia como Ciência Exata, porque já existem medidas cautelares capazes de fazer com que os administradores públicos evitem bizarrices, crendices e até burrices que possam provocar graves crises econômicas.
Não foi por mera coincidência que se criaram legislações como a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei Anticorrupção, que não foram nenhuma invenção brasileira. Pelo contrário, nossos economistas só poderiam concorrer ao Nobel se existisse o Prêmio da Irresponsabilidade Econômica, que o professor Guido Mantega logo embolsaria com as pedaladas fiscais e as maquiagens contábeis.
NÃO ESCUTAM OS ESCONOMISTAS
Seria injustiça dizer que não há economistas preparados no país. Pelo contrário, existem aos borbotões. O problema é que os governantes não os escutam. Vejam o caso da Sra. Dilma Rousseff, que falsamente se dizia doutorada em Economia. Ela não sabe nada, é uma ignorante completa, mas pensa que sabe. Por isso seu governo é este desastre. Dilma não obedece a regras de controle de gastos, nem sabe o que é isso.
O plano de ajuste fiscal brasileiro é ridículo, patético, nenhum economista competente pode levá-lo a sério, porque não funciona, jamais funcionará. Joaquim Levy não é nenhum luminar, qualquer um que o conheça sabe disso. Foi colocado no cargo para defender os banqueiros, ou alguém acha que foi o contrário?
Nelson Barbosa, ministro do Planejamento, é diferente. Conhece bastante a moderna teoria econômica e não tem interesse em agradar banqueiro. Se presidente Dilma Rousseff o ouvisse, estaríamos em outra situação, mas ela prefere desenvolver teorias próprias, que Deus nos proteja.
CORTAR GASTOS PÚBLICOS
Barbosa sabe que é preciso cortar gastos públicos, em relação à dívida. Isso é o básico, está em qualquer livro de Economia. É preciso haver um controle preventivo que se exerce através de cortes assim que a dívida atinge determinado patamar. Isso é uma teoria rudimentar, primária, que Dilma Rousseff, Lula e o PT fazem questão de desconhecer.
Os governos do PT instituíram um festival de contratação de pessoal, de uso de cartões corporativos e de gastança que parece não ter fim. O Planalto não aceita nem mesmo discutir o enxugamento da máquina, mas admite cortar direitos do trabalhador brasileiro, como o seguro-desemprego e a pensão das viúvas. Isso é desumano e irracional.
É por isso que as agências de risco estão rebaixando as notas do Brasil. É por isso que já estamos sendo comparados à Grécia e à Venezuela, duas nações tecnicamente falidas e sem perspectivas. Ninguém pode acreditar nesse tipo de governante.
O APELO SOA FALSO
Na segunda-feira, Dilma fez um apelo: “O Brasil precisa muito, mais do que nunca, que as pessoas pensem primeiro nele, Brasil, pensem no que serve à nação, à população brasileira e, só depois, pensem em seus partidos e em seus projetos pessoais”, disse a presidente a uma plateia formada majoritariamente por integrantes de movimentos sociais.”
Pois na vida real ela faz justamente o contrário. Só pensa em atender ao partido e às dezenas de milhares de petistas que viraram servidores públicos e nada fazem em prol do país. Essa senhora deveria voltar para casa e ir cuidar dos netos, deixando a política e a economia para quem realmente entende do assunto. Este é o maior sonho dos brasileiros, nos dias de hoje. E sonhar ainda não é proibido.

14 de agosto de 2015
Carlos Newton

MAIS NOVE ENVOLVIDOS AVALIAM FAZER DELAÇÃO PREMIADA


O avanço da Operação Lava-Jato e a avaliação de que há dificuldades para conseguir anulá-la na Justiça têm levado investigados que até então rejeitavam a possibilidade de fazer delação premiada a avaliar a hipótese. Essa lista inclui executivos das empreiteiras OAS, Mendes Júnior e Galvão Engenharia, o que pode elevar em mais nove a lista de delatores. Dos 112 presos na Operação Lava-Jato desde que foi deflagrada em março de 2014, pelo menos 23 fizeram delação premiada.
A mudança de estratégia também tem sido influenciada pela decisão do ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque de iniciar um acordo nesta direção. A expectativa de envolvidos nas investigações e de advogados de empreiteiras é de que ele fará uma das mais duras delações da Lava-Jato e tornará mais difícil qualquer tentativa de reverter as acusações contra as empreiteiras.
Nas palavras de um advogado criminalista, “está todo mundo pensando na delação” porque o Judiciário não está anulando nenhuma das ações tomadas até agora pela força-tarefa. Para esse defensor, mesmo que a Justiça venha a anular provas “vai demorar uma década”. “Isso gera uma instabilidade no acusado.”
AGUARDANDO A SENTENÇA
O advogado Marcelo Leonardo, que defende Sérgio Cunha Mendes, da Mendes Júnior, não descarta a colaboração do seu cliente. “Por enquanto não houve conversa sobre isso, mas tudo pode acontecer. No caso da Mendes Junior, deve ter sentença na semana que vem do primeiro processo. Estamos aguardando para fazer uma análise.”
Em relação a José Aldemário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, da OAS, conforme interlocutores, ele aguarda uma definição de Marcelo Odebrecht, presidente da empreiteira que leva seu nome, sobre a delação para tomar sua decisão. Pinheiro e outros ex-dirigentes da OAS foram condenados na Lava-Jato por corrupção lavagem de dinheiro e organização criminosa. Erton Medeiros, da Galvão Engenharia, também avalia partir para a delação devido ao cenário desfavorável aos réus. Advogados das OAS e da Galvão negam, formalmente, porém, que seus executivos farão delação.
Gerson Almada, da Engevix, tenta outra estratégia. Até agora ele admitiu fatos, mas não reconheceu crimes, um dos princípios da delação, e espera que isso seja suficiente para amenizar uma eventual pena. A delação seria um plano B. Almada contou como funcionava o “clube” de empreiteiras na Petrobrás. Negou acerto de preços, mas admitiu que as empresas combinavam as “preferências” em cada obra de licitações da estatal.
Outro que avalia o acordo é o ex-diretor de Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró, que aceitou participar de uma conversa sobre delação. “Não descarto que possa acontecer um desespero e partir para a delação, mas sou contra”, disse seu advogado, Edson Ribeiro. 
OPERADORES
Investigados que atuaram como braço operacional do esquema também consideram ou já decidiram colaborar com as investigações. O advogado Roberto Trombeta teria contado aos investigadores detalhes do suposto esquema da OAS fora do País, segundo pessoas próximas a ele. Trombeta é considerado “homem-bomba”, o que abrirá uma nova frente de apuração. Procurado, ele não foi localizado pelo Estado. O lobista Fernando “Baiano” Soares, que fazia a ponte com o PMDB, segundo a força-tarefa, também está em processo de delação.
Auxiliar do doleiro Alberto Youssef, o agente da Polícia Federal Jayme Alves, apontado como “carregador de malas” do doleiro, “recentemente iniciou negociações com o MPF (Ministério Público Federal) para celebração de acordo de colaboração”, disse sua defesa. O advogado Carlos Alberto Pereira da Costa, que administrava empresa de fachada de Youssef, também está fazendo delação premiada.

14 de agosto de 2015
Deu no Estadão