"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

terça-feira, 12 de maio de 2015

OBAMA, CUBA E O FIM DO BLOQUEIO COMERCIAL



Barack Obama e Raúl Castro mostram que a convivência é viável



















Em encontro histórico no Panamá, o Presidente dos EUA, Barack Obama e o de Cuba, Raul Castro, colocaram fim a um confronto de décadas, concluindo movimento de reaproximação que começou com aperto de mãos entre os dois dirigentes, a poucos metros da Presidente Dilma Roussef, na tribuna de honra do funeral de Nelson Mandela, no dia 10 de dezembro de 2013.
Antes mesmo do início das negociações diplomáticas com os EUA, Cuba já estava plenamente integrada ao resto do mundo e à América Latina. Os investimentos estrangeiros na ilha somam bilhões de dólares. Há poucas semanas, foi realizada a trigésima-segunda edição da feira Internacional de Havana, com a presença de 2.000 empresas de 60 países, entre eles a Alemanha, que esteve representada por 37 empresas, entre elas a Bosh, a MAN e a ThyssenKrupp.
A iniciativa de Barack Obama de se reaproximar com Cuba foi corajosa, mas necessária. Ao insistir em manter o bloqueio econômico sobre a ilha, os EUA estavam cada vez mais isolados, nessa questão, com relação ao resto do mundo.
CONDENAÇÃO NA ONU
Em outubro do ano passado, a Organização das Nações Unidas condenou , pela vigésima-terceira vez desde 1992, o embargo norte-americano contra Cuba. Cento e oitenta e oito países votaram contra os Estados Unidos, e a favor de Cuba. Três (as Ilhas Marshall, a Micronésia, e Palau), se abstiveram. E os únicos votos a favor de Washington foram o de Israel e o dos próprios EUA.
Em 2014, 3 milhões de turistas visitaram Cuba, que está mais para um paraíso tropical, do que para o sombrio campo de concentração pintado por publicações como o “Reader´s Digest” durante a Guerra Fria – cujo fim foi anunciado agora por Obama.
O mais famigerado campo de prisioneiros em Cuba não é cubano, mas norte-americano, Obama já se comprometeu a fechá-lo, e funciona em uma base militar dos EUA no enclave de Guantánamo.
PASSAPORTES
Há quase dois anos, qualquer cubano está liberado para montar o seu próprio negócio, tirar passaporte e viajar para o exterior, desde que tenha visto para o país de destino, incluídos dissidentes como a blogueira Yoani Sanchez, que já esteve no Brasil, e que vive em confortabilíssimo – para os padrões cubanos – apartamento em Havana, sem ser incomodada, presa ou torturada, como ocorreria caso tivesse vivido, em passado historicamente recente, em muitos países latino-americanos.
Enquanto isso, na contramão da história, assiste-se, no Brasil, ao ressurgimento de um anticomunismo tosco, anacrônico, rancoroso e desequilibrado. Malucos veem perigosos agentes comunistas por trás dos médicos cubanos que estão aqui trabalhando – em tudo iguais aos médicos cubanos que trabalham em cooperação com os Estados Unidos no combate ao Ebola na África – ao mesmo tempo em que usam e exibem aparelhos eletrônicos montados por empresas estatais chinesas, com participação acionária do Partido Comunista, na República Popular da China.

12 de maio de 2015

PDT DESPREZOU AS AMEAÇAS DO DEPUTADO DOS DÓLARES NA CUECA


Guimarães, líder do governo, ameaçou várias vezes o PDT



A votação da Medida Provisória 665 — que altera regras para o pagamento do seguro-desemprego e do abono salarial — na Câmara provocou reações contraditórias do governo em relação a dois aliados históricos que andam estremecidos no contato com o Palácio do Planalto. O PDT, que tem o Ministério do Trabalho e não deu voto sequer a favor da MP, deve perder a pasta tão logo as demais propostas do ajuste sejam apreciadas pelo Congresso. Já o PSB, rompido com o PT desde que o ex-governador Eduardo Campos, morto em agosto do ano passado, lançou-se candidato a presidente, voltou a ser cortejado pelos palacianos, animados com os sete votos favoráveis recebidos dos socialistas na análise da MP 665.
Curiosamente, o mesmo interlocutor tem atuado nas duas frentes: o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). Na noite de terça-feira, quando o texto começou a ser debatido no plenário — a votação só foi iniciada, de fato, na quarta —, Guimarães vinha se estranhando com os pedetistas, que criticavam o arrocho proposto pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
No dia da votação do texto-base, ao ver que nenhum dos 19 deputados pedetistas apoiaram o Planalto, Guimarães anunciou que a “votação poderia provocar mudanças, inclusive, no primeiro escalão do governo”. Na quinta, novo ataque. “O que vai ocorrer com o PDT eu não sei. Só sei que base tem que ser base de manhã, de tarde e de noite”, cobrou.
LÍDER REAGE
No mesmo momento, o líder do PDT na Casa, André Figueiredo (CE), reagiu. “Se quiserem que sejam entregues quaisquer funções que nós ocupamos na Esplanada dos Ministérios, entregaremos de bom grado. Mas, trair nossos princípios, nunca”, ameaçou. Há duas semanas, em um evento interno, o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, acusou o PT de “roubar demais” e anunciou que a legenda entregaria os cargos.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – É difícil alguém aceitar ser liderado por um parlamentar como José Guimarães, nacionalmente conhecido como “o deputado dos dólares na cueca”. Para ser líder do governo do PT, ele até pode ser o homem certo, na hora certa, mas ninguém o leva a sério no Congresso. (C.N.)

12 de maio de 2015
Paulo de Tarso Lyra
Correio Braziliense

META DE EDUARDO CUNHA É SE ELEGER PRESIDENTE EM 2018

Cunha já dominou a Câmara, agora só falta atravessar a Praça







Nas últimas semanas, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), empreendeu uma corrida aos estados, levando temas em debate na Casa para serem tratados pela sociedade. No projeto, chamado de Câmara Itinerante, o deputado circulou por capitais das cinco regiões do país e, embora tenha sido alvo de protesto em diversas ocasiões, a publicidade o ajudou a se tornar conhecido em outras praças além do Rio de Janeiro e de Brasília. Mas, na avaliação de cientistas políticos e até de parlamentares que conhecem bem o peemedebista, o roteiro tem uma espécie de “agenda secreta”, cujo destino final seria o desembarque no Planalto.
O próprio Cunha já anunciou o sonho de disputar a Presidência da República, apesar de uma série de fatores que pesam contra ele, como a citação na Operação Lava Jato. Além disso, o deputado não é unanimidade dentro do próprio partido e, por ter forte ligação com a igreja evangélica, encontra resistência de setores menos conservadores da sociedade.
DEVER DE CASA
“Ele quer criar condições para que, havendo uma janela de oportunidade, já tenha feito o dever de casa”, acredita o doutor em ciências políticas pela Universidade de Brasília (UnB) Leonardo Barreto. “A grande oportunidade que se coloca para ele é ocupar um espaço em que o país vive um vácuo de poder. As pessoas até toleram um mau governo, mas não toleram ausência de governo”, pontuou o especialista.
Barreto avalia ainda que Cunha impôs uma agenda forte diante de um “momento de fragilização do Planalto e de debilidade da autoridade presidencial”, que tem assegurado repercussão às decisões do peemedebista. “Essa caminhada pelos estados não só tem a questão de divulgação do nome dele, mas o fato de fazer alianças. Ele não vai divulgar esse objetivo agora, porque ainda não é o momento, mas, se a janela abrir lá na frente, vai ter feito o dever de casa.”
Cunha anunciou que apoiará o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), em uma possível candidatura do partido à Presidência em 2018. Porém, nunca descartou o interesse em disputar a principal cadeira do país. Questionado se desejava a Presidência, na primeira visita itinerante, respondeu com uma passagem bíblica: “Para cada dia, sua agonia. Eu vivo uma agonia de cada vez”, esquivou-se.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – A meta de Cunha é se eleger presidente da República em 2018. Trabalha nisso de manhã, à tarde e à noite. Seu suposto apoio a Eduardo Paes é só para despistar. Cunha acha que, se unir os evangélicos pode chegar ao segundo turno com facilidade. Realmente, não é um sonho impossível, diante da derrocada do PT e da fraqueza de Aécio, Alckmin etc. (C.N)

12 de maio de 2015
Naira Trindade
Correio Braziliense

FUNDOS DE PENSÃO E BANCOS PERDEM R$ 2,5 BILHÕES NA SETE BRASIL





Os bancos e fundos de pensão sócios da Sete Brasil vão ter de registrar perdas de cerca de R$ 2,5 bilhões com a empresa, criada para gerenciar a compra de sondas do pré-sal e que passa por grave crise financeira. O valor equivale a uma desvalorização de 30% nas cotas do fundo Sondas, que é o instrumento usado pelos acionistas para controlar a empresa.
A conta que mostrou as perdas desde o ano passado até 31 de março deste ano foi feita pela Caixa Econômica Federal (CEF), que é a administradora do Fundo Sondas. O extrato com a informação foi enviado ontem aos acionistas da Sete. Oficialmente, a Caixa informa apenas que o valor das cotas será apresentado somente na semana que vem.
Mas os acionistas já estão contabilizando as perdas. O BTG Pactual já tinha anunciado nesta semana que fez uma provisão para perdas de 25% do que investiu na Sete. Entre os principais acionistas da empresa, por meio do fundo Sondas, estão os fundos de pensão da Petrobrás (Petros), da Caixa (Funcef) e o próprio BTG Pactual, além do Santander. Ainda fazem parte da lista o banco Bradesco, os fundos de pensão da Vale e do Banco do Brasil, o FI-FGTS e as empresas Lakeshore, Luce Venture Capital e EIG Global Energy Partners.

IMPACTO EXPRESSIVO

Para Funcef e Petros, mesmo que seja apenas um registro contábil, o impacto tende a ser expressivo. Isso porque precisam contabilizar as perdas em meio a um cenário de déficits recorrentes, que têm levado aposentados e funcionários a terem de aumentar suas contribuições para cobrir os rombos nos fundos. Cada uma das fundações terá de registrar desvalorização da ordem de R$ 500 milhões.

O diretor de um dos fundos de pensão diz que as perdas deveriam ser registradas em porcentuais maiores, se levada em conta a base de provisões feita pelo BTG nesta semana. Isso porque o banco registrava em seu balanço apenas o valor que efetivamente aportou na Sete. Já as fundações e outros cotistas contabilizaram valorização de 25% registrada pela Caixa no fundo Sondas em 2013.

A Funcef confirmou que vai registrar nas demonstrações contábeis do mês de abril essa desvalorização, mas alegou que não havia sido informada ainda oficialmente sobre a desvalorização das cotas. Já o Petros disse que contratou um laudo de avaliação independente que informava ao fundo a necessidade de reduzir em 29% o valor que tinha aplicado na Sete. Mas essa desvalorização não afetará o balanço de 2014, que ainda não foi divulgado pela fundação.

SANTANDER SE ESCONDE

Entre os maiores cotistas do fundo, somente o banco Santander não quis prestar informação, nem mesmo de que porcentual possui do investimento. O Bradesco informou que tem uma participação de apenas 3% por meio de um fundo de private equity e está fazendo os ajustes necessários. Já o FI-FGTS, que tem cerca de R$ 640 milhões como acionista, disse que deve fazer correções na próxima publicação. A Previ tem uma participação pequena, que representa menos de 1% do patrimônio da fundação.

A situação da Sete Brasil é bastante delicada e pode levar a uma perda total dos R$ 8,3 bilhões aportados pelos acionistas da companhia. A empresa tem até junho para apresentar um plano de reestruturação que contemple a forma como vai se financiar no longo prazo. Desde novembro do ano passado, a Sete deixou de pagar os estaleiros que estão construindo as 28 sondas que contratou por US$ 25 bilhões. Neste ano, atrasou o pagamento de um empréstimo de R$ 12 bilhões feito por seis bancos.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Vejam a que ponto chegamos. Trata-se de uma empresa “criada para gerenciar a compra de sonda do pré-sal”. Ora, por que a Petrobras não quis gerenciar ela própria a compra de sondas junto aos estaleiros, como sempre fez? A Bomba ia estourar no BNDES, que ia bancar quase tudo, mas o escândalo da Petrobras implodiu a mamata. A Sete Brasil é uma negociata maluca e irresponsável, feita para tirar dinheiro da estatal, mas a fonte secou e agora a empresa está tecnicamente falida. (C.N.)


12 de maio de 2015

BNDES TEM DE EXPLICAR EMPRESTIMO DE R$ 1 BILHÃO À VENEZUELA


Lula pediu e Chávez pagou o que devia à Odebrecht


Duas semanas após ter prestado depoimento no Senado, o economista Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, tem outras explicações a dar. No dia 7 de maio, quinta-feira da semana passada, o núcleo de combate à corrupção da Procuradoria da República em Brasília – a mesma turma que investiga Lula em outro processo – enviou um ofício a Coutinho.

No documento, o procurador Cláudio Drewes José de Siqueira pede explicações sobre o empréstimo concedido pelo banco, no valor de US$ 747 milhões, para a construção de duas linhas do metrô de Caracas e Los Teques, na Venezuela, obra tocada pela construtora Odebrecht.

Após a publicação de reportagem de Época sobre o caso, no mês passado, em que se revelou que o financiamento do metrô venezuelano era alvo de questionamentos de auditores do TCU num processo sigiloso, o MPF resolveu iniciar uma investigação própria.

“FATO CRIMINOSO”

No jargão do MPF, ela começou a partir de um procedimento conhecido como “notícia de fato criminoso”, em que se apurarão as suspeitas de irregularidades em torno da operação de crédito do banco estatal. Coutinho terá de informar quais foram as taxas de juros cobradas nesse financiamento e as garantias apresentadas para a liberação do dinheiro dos cofres do BNDES para o governo venezuelano. 

Além de Coutinho, também serão notificados o TCU e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o MDIC – o banco é oficialmente subordinado à Pasta. Todos deverão apresentar nas próximas semanas documentos, inclusive os sigilosos, referentes ao empréstimo concedido para a construção das linhas do metrô venezuelano.
Uma das linhas desse metrô foi financiada pelo BNDES ainda no governo do tucano Fernando Henrique Cardoso.

O empréstimo de US$ 747 milhões sob investigação foi negociado em maio de 2009, quando o então presidente Lula se encontrou em Salvador, na Bahia, com o líder venezuelano Hugo Chávez, morto em 2013. Naquela ocasião, Chávez, que passava um sufoco financeiro devido à queda do preço do petróleo internacional, pediu ajuda do Brasil para expandir as obras do metrô de seu país. Mesmo diante do risco da operação, o BNDES liberou o dinheiro em parcela adiantada, segundo documentos de diligências feitas pelo TCU, obtidos por Época.

LULA ENTRE EM AÇÃO

Dois anos depois, em junho de 2011, já fora do governo, Lula viajou para a Venezuela, num voo bancado pela Odebrecht. O petista, na condição de palestrante contratado pela construtora brasileira, reuniu-se com empresários e também com Chávez, que estava em dívida com a Odebrecht. Após o encontro entre os dois colegas, a conta foi acertada.

Em 2014, auditores do TCU observaram que o BNDES antecipou em 2010 cerca de US$ 201 milhões “sem justificativa na regular evolução da obra” da linha Los Teques. De janeiro a abril de 2010, a Odebrecht só havia gastado 8,15% do valor total da obra. 
Mesmo assim, recebeu adiantados os recursos do BNDES. Atualmente, o banco estatal é credor da Venezuela em US$ 1 bilhão. Esse valor será pago ao longo dos próximos dez anos. 
Em 2010, no último ano do governo Lula e quando a Venezuela recebeu o dinheiro para a construção do metrô de Caracas e Los Teques, o volume total de repasses do banco de fomento a Hugo Chávez aumentou seis vezes, para US$ 315 milhões, o segundo maior destino internacional dos financiamentos do BNDES, atrás apenas da Argentina.

11 de maio de 2015
Thiago Bronzatto E Filipe Coutinho
Época

A LEITURA POÉTICA DO COTIDIANO DESPERCEBIDO

A MODESTA GENIALIDADE DO COTIDIANO DE CORA CORALINA
















Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1880-1985), nasceu em Goiás Velho, antiga capital goiana. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos cotidianos do interior brasileiro, conforme este poema “Oração do Milho”.


ORAÇÃO DO MILHO   

Cora Coralina
Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.

Meu grão, perdido por acaso,
nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste, e se me ajudardes, Senhor,
mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos
o grão perdido inicial, salvo por milagre,
que a terra fecundou.

Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo
e de mim não se faz o pão alvo universal.
O Justo não me consagrou Pão de Vida, nem lugar me foi dado nos altares.

Sou apenas o alimento forte e substancial dos que
trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre,
alimento de rústicos e animais do jugo.

Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
coroados de rosas e de espigas,
quando os hebreus iam em longas caravanas
buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,
quando Rute respigava cantando nas searas de Booz
e Jesus abençoava os trigais maduros,
eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.
Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito.

Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e amiga do que começam a vida em terra estranha.

Alimento de porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta de seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor,
que me fizeste necessário e humilde.
Sou o milho

(Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

12 de maio de 2015

EUA ATRAVESSAM O SINAL AMARELO NA UCRÂNIA





O irresponsável aventureirismo dos EUA na Ucrânia deu um novo passo no sentido da escalada de confrontação com a Rússia, ao insistir no envio de militares para treinar o exército ucraniano. 
A aliança do imperialismo com os fascistas ucranianos e o regime instalado em Kiev consolida-se, num quadro de reorganização das forças armadas daquele país, manifestamente incapazes de conseguir uma vitória militar no leste russófono. Apesar das bárbaras acções punitivas que continuam a empreender, fazendo tábua-rasa dos acordos de Minsk.

O posicionamento de pára-quedistas dos EUA na Ucrânia , juntamente com contingentes do Reino Unido e Canadá, só pode ser visto como o princípio de uma expansão gradual para além dos objectivos (“Mission Creep”). 
A missão afirma o objectivo de treinar guardas nacionais ucranianos, mas por outro lado tais missões levam invariavelmente a compromissos militares mais profundos. Neste caso, o começo de fornecimentos de armas americanas à Ucrânia agora parece inevitável uma vez que os soldados ucranianos foram treinados para usá-las.

A União Europeia e a OTAN estão em estado de alerta a observar, mas estariam a compreender que os EUA e dois dos seus mais estreitos aliados no espaço euro-atlântico tivessem mais uma vez de intervir directamente num conflito militar na Europa após o intervalo de mais de uma década e meia desde o término da Guerra do Kosovo em 1999. Em suma, o conflito na Ucrânia está a entrar numa nova fase.

ALERTA DA ALEMANHA

Assim, a observação do ministro alemão dos Estrangeiros, Walter Steinmeier, acautelando a Rússia contra qualquer movimento no sentido de reconhecer as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk na região oriental ucraniana do Donbass poderia ser entendido como uma olhadela ao futuro de um homem de estado experiente.

Um lobby hard-line nos EUA encabeçado por figuras eminentes no circuito estratégico argumentou desde o princípio que armar a Ucrânia elevará o custo da guerra para Moscou e obrigará o presidente russo Vladimir Putin a armar os rebeldes. Na verdade, a decisão de Putin na semana passada de fornecer mísseis S-300 ao Irã teria mais uma vez fortalecido este lobby em Washington.

MÍSSEIS S-300

A opinião especializada de um analista militar no influente Council of Foreign Relations é a seguinte:

“O S-300 não é uma parede no céu. Se nós [EUA] quisermos, podemos atacá-lo e derrotá-lo. Fazer isto, contudo, exige um esforço que é muito maior, muito mais arriscado e muito mais custoso. Recentemente assistimos um debate sobre a escala de um ataque potencial a instalações nucleares iranianas, com alguns a argumentarem que seria relativamente limitado e outros a adoptarem uma visão oposta. 

Com o S-300 instalado, já não há debate. Ultrapassar este tipo de sistema exigirá um grande posicionamento de ativos de ar, mar e terra, incluindo os nossos mais capazes – e caros – aviões e mísseis. O nosso pessoal e equipamento estará em maior risco e cumprir a missão será mais difícil e mais demorado.”

RÚSSIA E IRÃ

Sem dúvida, Moscou aplicou um duro golpe à capacidade dos EUA para negociar com o Iran a partir de uma posição de força. Embora a Ucrânia e a questão nuclear do Irã não possam ser comparadas, dificilmente será uma surpresa se os hardliners em Washington vierem a argumentar que a administração Obama deve pagar na mesma moeda na Ucrânia.

Então, porque Obama minimizou a questão do S-300 , deixando os israelenses de “queixo caído”? É a qualidade de Obama, estúpido! Ele está a jogar o jogo longo e espera virar a mesa sobre o governo russo no futuro próximo na Ucrânia.

Na minha opinião, portanto, Washington não estará com pressa para explorar a mais recente oferta do presidente Putin de “trabalhar juntamente” com os EUA . Moscou provavelmente considera que embora o equilíbrio de poder na ordem bipolar mundial característica da era da Guerra Fria já não exista hoje, ainda há um “contrapeso” aos EUA, graças a uma ampla secção da comunidade internacional, especialmente as potências emergentes, as quais não estão alinhadas com Washington, que por sua vez trabalha a favor da Rússia na sua confrontação com o Ocidente.

SEM RECUO

Nem a Rússia nem os EUA estão numa disposição de recuo face à confrontação. E, por falar em Obama, ele não pode permitir-se ser visto como a vacilar uma vez iniciada a campanha para a eleição presidencial. Para todas as finalidades práticas, portanto, as duas grandes potências estão a tropeçar para a guerra. 

Leiam um excelente tour d’horizon feito por dois eminentes pensadores estratégicos na América que radica em estudos da Rússia sobre a dinâmica EUA-Rússia na Ucrânia não se deter diante do sinal amarelo num cruzamento que é altamente propenso a acidentes.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

12 de maio de 2015
M. K. Bhadrakumar
Moscow Times

segunda-feira, 11 de maio de 2015

É PRECISO PUNIR OS GENERAIS DO EXÉRCITO EM RETIRADA






Uma das manobras mais difíceis de se executar, por parte de um grande exército, é a retirada. Ceder território é desmoralizante e passa o sentimento psicológico de que a derrota se aproxima. Mas, independentemente dessa situação ser constrangedora, um bom general
precisa garantir que seus exércitos consigam se reagrupar, ganhando condições operacionais para enfrentar as próximas batalhas.
Ao realizar a manobra de retirada, é costumeiro que o exército em recuo deixe, no caminho, uma parcela de suas tropas com a função de obrigar o inimigo a perder algum tempo enfrentando-as. Assim, quem se retira troca espaço por tempo, conseguindo as condições para se reorganizar e melhor poder defender suas posições, a seguir.
Observe-se o que aconteceu com Graça Foster, presidente da Petrobras: ela foi submetida a um desgaste desumano, nesse último ano. Enquanto ficava evidente que a Petrobras teve seus recursos dilapidados e foi literalmente implodida em nome dos interesses do partido que se apoderou da máquina de governo, Graça Foster atraiu o fogo da bateria do exército
da oposição, enquanto o ex-presidente da empresa, o ex-presidente da República e a liderança partidária do PT ganharam um tempo precioso que lhes permitiu vencer a eleição presidencial e se organizarem para o grande embate judicial que se aproxima.
DEU O MELHOR DE SI
Como “tropa retardadora”, Graça Foster (além de um grupo de diretores da Petrobras), deu o melhor de si, sacrificando-se com ardor missionário – sabe-se lá por quê– em benefício de Lula da Silva e de Dilma Rousseff.
Diante desses fatos, observa-se que o exército da oposição não pode esquecer que é necessário levar à rendição quem assinou o contrato que levou a Petrobras a perder mais de um bilhão de reais com a Refinaria de Pasadena. E quem assinou esse contrato foi o Conselho da empresa, dirigido – na época – por Dilma Rousseff.
Deve ser levado ao tribunal de crimes de guerra o camarada que fez o acordo com a Venezuela para se construir a Refinaria Abreu e Lima, o que levou a um prejuízo de aproximadamente 20 bilhões de dólares. E quem realizou esse acordo foi Lula da Silva.
Deve ser levado à rendição quem doou petróleo para a Venezuela (no período da crise que quase derrubou Hugo Chávez. E quem fez isso foi Lula da Silva.
Precisa ser derrotado quem alterou o contrato de exploração das jazidas de petróleo, criando o sistema de partilha que exaure os recursos da Petrobras. É necessário levar à rendição quem resolveu combater a inflação mantendo congelado os preços dos combustíveis fósseis,
destruindo o equilíbrio financeiro da Petrobras.
BARRAS DOS TRIBUNAIS
E, para não perder a viagem, a oposição deve levar às barras dos tribunais, quem destruiu o equilíbrio das empresas que produzem energia elétrica. E também quem entregou os recursos do BNDES – com juros subsidiados – para algumas empresas que, posteriormente, faliram.
A oposição também precisa punir (sempre dentro da lei) quem doou dinheiro para se construir um porto, em Cuba, e uma linha de metrô, na Venezuela, com os recursos do contribuinte brasileiro, enquanto há tantas deficiências de infraestrutura em nosso próprio país.
Graça Foster é desimportante: o que interessa é penalizar os mandantes. Trata-se de capturar os generais desse exército em retirada.

(artigo enviado por Mário Assis)

11 de maio de 2015
Ney Vilela