"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A AUTOMAÇÃO E OS ROBÔS NÃO CAUSAM DESEMPREGO, QUEM CAUSA SÃO OS POLÍTICOS

Países com os maiores níveis de automação e robotização possuem as menores taxas de desemprego




A inteligência artificial não me preocupa; é a estupidez humana o que me aterroriza.

O debate sobre a tecnologia e seu papel na sociedade está sendo manipulado para enganar os cidadãos e amedrontá-los quanto ao futuro. O intuito é, por meio do medo, fazê-los aceitar a se submeter a políticos e suas leis, as quais simplesmente não podem proteger o indivíduo dos desafios da robotização.

Entretanto, sempre há aquela enxurrada de estudos nos alertando que, daqui a 50 anos, a vasta maioria do trabalho será feita por robôs, e não haverá empregos para ninguém. O que podemos fazer?

Já faz décadas que vivemos essa falácia das estimativas distópicas. Se fossemos acreditar em todos os estudos que "prevêem o que acontecerá daqui a 50 anos", já era para estarmos sem água, petróleo e empregos há pelo menos dezessete anos.

Estimativas de "50 anos" sempre sofrem dos mesmos erros. 
Primeiro, o "presentismo". As pessoas pegam a atual situação do presente e a exageram para o futuro. 
Segundo, elas romantizam o passado. Não, o passado não era melhor. Terceiro, elas sempre estimam um futuro impossível e negativo ignorando todas as evidências da engenhosidade humana e sua capacidade de inovar.

A realidade é que, hoje, a população mundial chegou a 7,5 bilhões de pessoas e, não obstante toda a revolução tecnológica, nunca tivemos tanto trabalho a ser feito. Não só a necessidade de nenhum trabalho foi abolida, como novos trabalhos até então inimaginados surgiram.

(O aparente paradoxo entre haver muito trabalho a ser feito e, ao mesmo tempo, haver uma alta taxa de desemprego tem um culpado claramente definido).

Ademais, ao menos nos países mais avançados, o desemprego está nas mínimas históricas (5,3%). Já a pobreza global caiu para níveis sem precedentes: era de 80% em 1820 e está em 10% hoje. E a mortalidade infantil caiu para menos da metade do que era há pouco mais de duas décadas: em 1990, era de 64,8 mortes em 1.000 nascimentos; em 2016, 30,5 mortes para cada 1.000 partos.

Temos fartos recursos naturais, as reservas de petróleo comprovadas cresceram e temos mais diversas fontes de oferta. Por exemplo, desde 1980, as reservas de petróleo comprovadas já aumentaram 151%. Para o gás, esse aumento foi de 163%. Em 2015, nós humanos utilizamos 34 bilhões de barris de petróleo; ao mesmo tempo, descobrimos outros 53,2 bilhões de barris a cada ano entre 2010 e 2015. E, em vez de se tornarem mais escassos, os recursos naturais estão, na realidade, ficando mais baratos em termos reais.

Tudo isso foi possível graças à maior e mais magnífica revolução tecnológica jamais vivenciada.

O que é criado

Como mencionado, mais da metade dos empregos que existem hoje não eram nem sequer imaginados há vinte anos. Dados de mais de 140 anos que comprovam empiricamente que a tecnologia cria muito mais empregos do que destrói, e que é uma fragorosa mentira dizer que empregos de baixa qualificação irão desaparecer para sempre; outros empregos sempre são criados. Um estudo da empresa de consultoria Deloitte, feito por Ian Stewart, Debapratim De e Alex Cole, mostra claramente que a tecnologia acaba com trabalhos mais perigosos, maçantes e extenuantes — ou seja, aqueles que ninguém realmente quer fazer — e cria muito mais empregos nos setores de serviço, de conhecimento humano e de interação.

A lógica da criação de empregos pela tecnologia é direta: de um lado, o setor que produz as inovações tecnológicas está permanentemente demandando trabalhadores que ajudem nesta tarefa; de outro, a redução dos preços reais de vários bens e serviços — um efeito derivado do avanço tecnológico — afeta positivamente todo o emprego, pois aumenta a renda disponível da população e estimula a demanda de novos setores, e de novos bens e serviços.

Portanto, se, de um lado, a tecnologia cria empregos em serviços altamente especializados (como contadores, profissionais de marketing, médicos e educadores), ela também cria empregos naqueles setores que não estão voltados a atender às necessidades básicas da população, como bares, barbearias e academias de ginástica.

Ou seja, com a tecnologia, a divisão do trabalho se aprofunda, cresce a especialização e o padrão de vida aumenta. E tudo isso com maiores níveis de emprego.

Com efeito, outros estudos da Deloitte, da Ernst/Young e de outras empresas de consultoria também prevêem que necessitaremos de muito mais empregos no futuro em tarefas de suporte e de serviços adjacentes às novas atividades tecnológicas. Sendo assim, o que os profetas do apocalipse sempre se esquecem de considerar é que, enquanto o consumidor for humano, a interação e a experiência com outros humanos não serão reduzidas. Ao contrário, aumentarão.

No mundo atual

As sociedades mais robotizadas do mundo não apenas não vivenciam maiores taxas de desemprego como, ao contrário, suas taxas estão entre as menores. De acordo com dados da International Federation of Robotics (Federação Internacional de Robótica), em 2016, Coreia do Sul, Cingapura, Alemanha e Japão tinham as maiores taxas de automação e robotização das funções do trabalho (631, 488, 309 e 303 robôs por 10.000 empregados, respectivamente) e o desemprego era menor que 3,9%.

Enquanto isso, países que subsidiam setores de baixa produtividade e que colocam o estado como o agente "protetor" possuem taxas de desemprego mais altas. A França, que possui bem menos da metade de robôs que Coreia do Sul e Cingapura (132 por dez mil empregados), tem uma taxa de desemprego três vezes maior que a de países altamente robotizados. O mesmo ocorre com a Espanha, cuja taxa de desemprego chega a ser mais de cinco vezes maior.

A McKinsey estima que praticamente metade dos ganhos de competitividade dos próximos 50 anos será explicada pela digitalização e pela automação. Isso significa salários mais altos em todos os setores, mesmo para aqueles que utilizam mão-de-obra menos qualificada.

Pode ter certeza de que, assim como já ocorreu no passado, essas estimativas irão se revelar moderadas, tanto nos quesitos aumento da produtividade e melhora no padrão de vida quanto no quesito avanço da robotização criativa. Toda essa futura automação irá criar mais e melhores empregos, mesmo para setores de baixa qualificação, pois estes se moverão para os serviços e suporte técnico.

As empresas mais representativas deste fenômeno do avanço tecnológico são Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google. O espetacular progresso destas empresas incrivelmente tecnológicas não reduziu o emprego. O desemprego nos EUA está em seu menor patamar desde 1968, sendo que as empresas que supostamente deveriam se dar mal com todo esse progresso tecnológico se aperfeiçoaram e se fortaleceram, pois agora estão tendo de concorrer com este novo setor.

Na prática, estas empresas tecnológicas — que, sozinhas, representam 27% do valor da S&P 500 — fomentaram a criação de empregos ao redor do mundo (de novo: a taxa de desemprego mundial está nas mínimas históricas), pois seu modelo de negócios criou serviços e empregos que nem sequer existiam há poucas décadas. Elas criaram muito mais empregos indiretos do que "destruíram".

Logo, a desculpa de "o que irá acontecer com os empregos menos qualificados?" esconde a falácia do intervencionismo.

Protecionismo, subsídios, assistencialismo não protegem e nem muito menos podem criar empregos em setores obsoletos. A maneira de adaptar trabalhadores menos qualificados à tecnologia é com muito treinamento — mas com treinamento real, in loco. Como demonstrado na Califórnia, no Texas, em Illinois e nos países asiáticos, a tecnologia criou 40% a mais de empregos que exigem pouca qualificação em relação aos empregos que ela destruiu.

Um primeiro impacto positivo do uso da digitalização foi causado diretamente por estas empresas, as quais, conjuntamente, empregam mais de 800 mil pessoas ao redor do mundo, com níveis de produtividade claramente superiores aos de empresas de setores tradicionais. E também pagando melhores salários.

Empresas como Facebook e Google empregam, respectivamente, mais de 27.000 e 88.000 pessoas, e pagam mais de 50% a mais que o salário médio dos setores industriais. Seu modelo de negócios aufere receitas majoritariamente de publicidade nas mídias digitais, um mercado que simplesmente não existia há poucos anos. Outros 115.000 empregos líquidos foram criados em setores relacionados às novas tecnologias inventadas nos EUA.

Já a Amazon, que detém 44% do mercado de comércio eletrônico, é um dos grupos responsáveis pela criação de mais de 400.000 empregos gerados por empresas do setor de comércio eletrônico nos EUA. No caso desta empresa, o impacto se estendeu para setores ligados ao comércio eletrônico, como logística, embalagens, pagamentos eletrônicos, transportes etc.

Na Ásia, um continente em que a robotização é um elemento comum às empresas e aos métodos de produção, eles já conhecem os efeitos positivos deste fenômeno. De acordo com o Asian Development Bank, o maior dinamismo econômico gerado pela robotização em 12 economias asiáticas ainda em desenvolvimento entre 2005 e 2015 compensou a destruição de empregos causada pela implantação dos processos de automação e criou mais empregos adicionais. Essa transformação levou à criação de 134 milhões de empregos por ano, um número claramente maior do que os 101 milhões de empregos ao ano substituídos pela automação. Entre 43% e 57% dos novos empregos criados na Índia, na Malásia e nas Filipinas durante os últimos 10 anos vieram do setor tecnológico. Mas o mais importante é que o emprego nos setores de serviço, turismo, hoteleiro e adjacentes dobrou.

A grande migração

A automação não destrói empregos. Ela empurra as economias a uma aceleração da migração de trabalhadores do setor manufatureiro para o setor de serviços. Ao mesmo tempo, a digitalização cria novas, grandiosas e avançadas oportunidades de mercado, sendo que este setor que já está sendo chamado de o petróleo do século XXI. Ou seja, ele fortalece as economias, melhora os salários e reduz os empregos arriscados e insalubres.

O que já está ocorrendo, e irá se acentuar nos anos vindouros, é um processo de migração dos setores de baixa produtividade e intensivos em mão-de-obra pouco qualificada — que efetuam trabalhos perigosos, extenuantes e maçantes — para setores voltados para serviços e interações pessoais, com diferentes níveis de qualificação (mas não necessariamente apenas de alta qualificação), em que o treinamento será um elemento essencial.

Não, um operário da construção civil, um vendedor ou um encanador não estão condenados a desaparecer. Eles irão se transformar. Mas, desnecessário dizer, só conseguirão se realocar se o governo permitir essa mobilidade e, acima de tudo, não criar obstáculos ao mercado de trabalho.

O fator humano continuará sendo essencial na era da inteligência artificial, mas a única coisa para a qual ele não será necessário é para fazer tarefas de alta precisão.

O que não podemos permitir que ocorra

As pessoas adoram o progresso, mas temem as mudanças. Queremos que tudo melhore, mas somos extremamente conservadores quanto ao que já existe.

Não é nenhuma surpresa que aqueles que se consideram "progressistas" sejam os mais regressistas. Eles querem voltar ao início da década de1970, são contra a concorrência, a inovação, as tecnologias disruptivas, o comércio internacional etc. Acima de tudo, querem tributar pesadamente a tecnologia. Esses regressistas querem que políticos subsidiem e protejam setores de baixa produtividade, e penalizem os setores de alta produtividade com mais impostos. 
Acima de tudo, afirmam que precisamos mudar o modelo de produção.

E, dado que criar medo nas pessoas sempre foi politicamente proveitoso, não faltarão políticos para se aproveitar deste terrorismo. Políticos irão dizer que estamos lidando com uma ameaça irreversível e que "desta vez é diferente". Para combater isso, dirão que teremos de dar a eles ainda mais dinheiro e abrir mão de mais liberdades em troca de uma segurança que eles não podem e não irão fornecer.

No final, é claro, eles irão fracassar, mas, até lá, eles já terão restringido ainda mais nossas liberdades. Subsídios, protecionismo, reserva de mercado e intervencionismo serão sempre as desculpas da elite política para manter os cidadãos obsoletos e criar clientes reféns.

Eis a função dos defensores da liberdade e do progresso: não deixar que isso ocorra.

Conclusão

Eu me lembro vivamente de quando previram, em 1991, que em 2011 ninguém mais iria viajar, que os encontros entre as pessoas seriam por videoconferência, que todos viveríamos isolados e que estaríamos trabalhando sem qualquer contato humano. 
Não tinha como estarem mais errados. O "presentismo", ou seja, a tendência de exagerar aquilo que consideramos uma ameaça hoje, sempre nos leva a cometer erros.

A inteligência artificial, a robotização e a digitalização tornarão o mundo melhor, e irão criar mais e melhores empregos para todos. 
E, se conseguirmos prevalecer sobre os regressistas, esses fenômenos também serão a chave que irá nos libertar de intervencionistas populistas.

No final, nunca aposte contra a engenhosidade humana. O maior inimigo dos profetas do apocalipse é um engenheiro.


18 de janeiro de 2021
Daniel Lacalle

A AUTOMAÇÃO DE EMPREGOS: É ASSIM QUE UMA SOCIEDADE PROGRIDE

Uma sociedade rica e avançada não é aquela que “protege empregos”



Analistas gostam de discutir a automação de empregos recorrendo a cenários apocalípticos. Da maneira como eles falam, parece que os robôs e as máquinas se erguerão dos oceanos como um Godzilla, causando destruição em massa em uma Tóquio formada por empregos estáveis, deixando apenas caos e destruição em seu rastro.

De acordo com dados da consultoria PWC, até 2030, 38% dos empregos nos EUA serão automatizados. Mas há estudos universitários garantindo que simplesmente a metade de todos os empregos americanos será substituída pela automação.

Em comum, todas essas profecias apresentam a mesma falha: ignoram que a automação e o aumento de produtividade gerado por ela não têm nada de novo. Desde as máquinas que retiravam os caroços do algodão até o computador, a automação vem ocorrendo há séculos.

Considere a maneira como a automação aperfeiçoou a indústria extrativa ao longo dos últimos 100 anos. Quando não havia máquinas, os homens eram obrigados a se rastejar ao longo de passagens instáveis abertas nas minas e escavar as rochas utilizando ferramentas primitivas. Simultaneamente, tinham de estar continuamente alertas ao sempre presente perigo da intoxicação por gases e, principalmente, do risco de desmoronamentos.

Não apenas essa maneira de trabalhar era péssima para a saúde dos trabalhadores, como também representava um uso extremamente ineficiente da habilidosa mão-de-obra humana.

Já quando as máquinas passaram a fazer todo o serviço pesado, a sociedade se mostrou capaz de direcionar recursos escassos para a construção, o serviço e a manutenção deste maquinário.

Hoje, são poucas as pessoas que ainda fazem esse trabalho físico intenso e extenuante. E esse avanço é celebrado, e não lamentado. Ao permitir que as máquinas lidem com as tarefas mais maçantes e tediosas — e, em muitos casos, mais perigosas —, as pessoas foram liberadas para usar sua mão-de-obra em atividades mais eficientes, efetivas e, acima de tudo, mais gratificantes.

Os críticos da automação sempre ignoram esse ponto. Ninguém trabalha apenas por trabalhar. O trabalho não é um fim em si mesmo. As pessoas trabalham para criar valor, o que em troca lhes garante um salário que os ajuda a sustentar suas famílias. Houve uma época em que praticamente todos os seres humanos tinham de trabalhar no campo — querendo ou não — apenas para sobreviver. A tecnologia acabou com a necessidade de utilizar seres humanos para fazer trabalhos agrícolas pesados, e os liberou para ir buscar outras vocações fora do campo. Foi assim que começou nosso processo de enriquecimento e de melhora no padrão de vida.

A automação, ao libertar o ser humano da necessidade de fazer trabalho físico extenuante e monótono, efetivamente o libera para se aventurar em novos empreendimentos mais prazerosos e produtivos, abrindo as portas para novos esforços e atividades que irão elevar nossa espécie a façanhas mais altas. Apenas pense: se, ao final do dia, todos estivessem exaustos por causa de seu trabalho físico no campo, ninguém teria tido o tempo necessário para inventar o trator. Felizmente, já tinha havido alguma mecanização à época, o que liberou alguns indivíduos do fardo do trabalho pesado, permitindo que eles então pudessem se dedicar à invenção do trator.

E como o mundo melhorou por causa disso.

Mas é claro que haverá dor

Se há algo que a história mostra é que a inovação, em si mesma, é a grande criadora de novas formas de trabalho. Apenas pense na internet. Vinte e três anos atrás, a maioria de nós praticamente desconsiderava essa invenção; hoje, em 2018, milhões de pessoas ao redor do globo têm um emprego que está diretamente relacionado a isso que era irrelevante em 1995. E milhões mais têm um emprego relacionado ao crescimento da internet.

Assim como as gerações passadas abandonaram as minas em troca de profissões e carreiras melhores e mais satisfatórias, os trabalhadores modernos cujos empregos serão afetados pela automação verão seu papel na sociedade evoluir em vez de desaparecer.

Mas essa transição, obviamente, não será indolor.


Durante qualquer período de transição, as pessoas perdem seus empregos, sofrem e lutam para conseguir novos trabalhos. Essa é a história da humanidade.

Há aqueles que se recusam a aprender novas habilidades, que não querem se mudar para uma nova área, ou que não possuem as habilidades necessárias para prosperar neste novo ambiente. No entanto, de uma perspectiva geral, esses problemas — embora significativos para aqueles afetados por eles — são apenas temporários.

Querer que a automação seja bloqueada e que toda a economia seja engessada e impedida de progredir simplesmente porque "as pessoas perderão seus empregos" é um recurso meramente emocional, sem qualquer base na lógica. Nenhuma economia rica se desenvolveu "protegendo empregos", pois a destruição de empregos obsoletos representa o próprio sinal do progresso.

Se a ideia de "proteger empregos" houvesse prosperado lá atrás, não haveria nem carros (que acabaram com empregos na indústria de carroças), nem tratores (que acabaram com empregos manuais na agricultura), nem computadores (que não só acabaram com empregos na indústria de máquinas de escrever, como provavelmente destruíram mais empregos do que qualquer outra inovação tecnológica na história da humanidade), nem luz elétrica (que acabou com empregos na indústria de velas), nem smartphones (que a acabou com a indústria de telefones fixos e de celulares obsoletos) nem praticamente nada de moderno que existe hoje.

À medida que a automação foi seguidamente mudando o mundo, a sociedade sempre foi descobrindo novas aplicações para a mão-de-obra que foi demitida. A invenção da roda certamente desempregou vários homens especializados em carregar cargas, bem como homens especializados em cuidar dos cavalos que faziam o transporte de carga. E o que eles fizeram? Provavelmente se tornaram condutores de carroças repletas de produtos para as cidades, as quais se tornaram pujantes por causa da profunda melhoria ocorrida na cadeia de suprimentos em decorrência da criação da roda.

Hoje, apenas 2% da população vive no campo. No século XVIII, ninguém acreditava que isso seria possível. E não apenas esses 98% não estão morrendo de fome, como estão prosperando — levando vidas melhores, trabalhando em empregos mais confortáveis e, em alguns casos, até mesmo lutando contra a obesidade por causa do excesso de comida disponível.

As pessoas demonstravam a mesma preocupação em relação à máquina a vapor que demonstram hoje em relação aos computadores e à inteligência artificial: "Desta vez é diferente! É verdade que já fizemos outras transições antes, mas nunca algo desse tipo!".

Mas a única coisa que é diferente na automação moderna é o uso de software para realizar a mudança. No passado, apenas o hardware nos libertou das tarefas pesadas. 
Repentinamente, o software se tornou capaz de impulsionar o hardware e produzir resultados exponencialmente maiores. Esse novo componente não acrescenta nada de fundamentalmente diferente à equação — todos os avanços são criados por humanos e servirão às necessidades dos humanos.

Uma questão de economia básica

Se passamos a utilizar menos mão-de-obra e menos recursos em um determinado processo produtivo, essa mão-de-obra liberada e esses recursos poupados estarão livres para ser utilizados em outros processos de produção, em novas idéias e em novos empreendimentos.

Investidores — cujo capital cria empresas e empregos — são atraídos por lucros. Se os processos produtivos atuais forem automatizados, e com isso pouparem mão-de-obra e reduzirem custos operacionais, essa automação irá gerar lucros maciços, os quais poderão ser direcionados e investidos nas empresas e nas ideias do futuro.

Essa realidade é frequentemente ignorada por economistas, políticas e comentaristas. A robótica gera eficiências que aumentam os lucros, e isso permitirá um enorme surto de investimentos, os quais nos brindarão com todos os tipos de novas empresas e de avanços tecnológicos que criarão novos tipos de empregos hoje inimagináveis.

Há vários empregos que existem hoje e que nem sequer eram imaginados há 10 anos. E vários empregos que existiam há 10 anos não mais existem hoje. E a maioria dos empregos que existirá no futuro ainda não existe hoje. Querer frear esse progresso em nome da proteção de alguns empregos é uma atitude que, caso tivesse sido seguida lá atrás, faria com que ainda hoje estivéssemos vivendo no campo e com uma enxada na mão.

O recurso mais valioso de todos

A engenhosidade humana é algo que sempre foi de baixa oferta e alta demanda. Acrescente a isso o fato de que os desejos e necessidades da humanidade são insaciáveis, e você verá que sempre serão necessários trabalhadores para realizar esses serviços e saciar essa demanda.

Empreendedores não podem inovar em um vácuo. Eles necessitam de recursos (inclusive um time formado por outros humanos) para criar coisas novas. Seja um comércio online ou um restaurante, cada novo empreendimento exige instalações, insumos e empregados. Se esses empregados estiverem ocupados trabalhando em outras profissões, novos empreendimentos não poderão ser efetivados.

Aquele recurso mais valioso de todos, a engenhosidade humana (trabalho), tem de ser distribuído de maneira eficiente, sendo direcionado às causas que forneçam o melhor retorno para o investimento. À medida que a automação aumenta a produtividade, o padrão de vida da sociedade aumenta, pois agora há mais bens e serviços disponíveis (quanto maior a quantidade e a diversidade de bens e serviços ofertados, maior será o padrão de vida da população). Com um maior padrão de vida permitido pela automação, as pessoas poderão se dedicar a novas idéias. Assim, maiores serão as oportunidades de empreendedores criarem coisas novas. E, consequentemente, maiores serão as oportunidades de os trabalhadores assumirem funções mais produtivas.

Conclusão

Como é da natureza de todas as mudanças revolucionárias, é praticamente impossível prever os empregos que a nova tecnologia irá criar. Várias pessoas perderão seus empregos à medida que a automação irá tornar alguns postos de trabalho desnecessários. Mas essas mesmas pessoas estarão agora disponíveis para ajudar a criar os empregos do futuro. 
Os operadores de carroças, ao verem passar uma locomotiva impulsionada por um motor a vapor, podem ter pensado que estavam destinados à mendicância, mas jamais imaginariam que eles se tornariam os maquinistas, os engenheiros das estações e os planejadores de rotas.

As necessidades do futuro só se tornam aparentes quando a mudança já está completa; e, quando isso ocorre, elas parecem bastante óbvias.

O fato é que empreendedores sempre estarão ávidos para iniciar novos empreendimentos. Se eles terão o capital humano necessário para buscar seus sonhos é algo que irá depender de como a automação irá liberar trabalhadores de empregos maçantes e sem perspectivas.

Não, a transição não será nem rápida, nem confortável e nem fácil para os trabalhadores. Entretanto, os resultados serão extremamente benéficos — como foram até hoje.


18 de janeiro de 2021
Per Bylund

KATA TJUTA (TERRITÓRIO DO NORTE, AUSTRÁLIA)

 

Kata Tjuta, Território do Norte, Austrália

Kata Tjuta, Território do Norte, Austrália


Segundo os cientistas, as formações rochosas conhecidas como Kata Tjuta têm, pelo menos, 500 milhões de anos. Esse nome, que significa "muitas cabeças", é a descrição dada aos 36 domos rochosos pelos nativos da região, o povo anangu, uma das mais antigas sociedades humanas existentes no planeta. 
As enormes rochas compõem-se essencialmente de basalto, arenito e granito, e sua tonalidade semelhante à da ferrugem se deve a uma camada de óxido de ferro. A cor coincide com a do seu vizinho, o emblemático Uluru, que se ergue das áridas planícies do Outback australiano 25 quilômetros a leste daqui. 
Ambas as formações rochosas integram o Parque Nacional Uluru-Kata Tjuta, situado numa região da Austrália conhecida como Território do Norte. 
As terras do parque são consideradas sagradas pelo povo anangu, e tanto o Uluru quanto o Kata Tjuta são locais importantes do ponto de vista religioso e cultural.
18 de janeiro de 2021

A TECNOLOGIA E SUA "DESTRUIÇÃO CRIATIVA" SÃO PRÓ-TRABALHADOR

A inovação geralmente destrói empregos, mas cria vários outros. E melhores



Os temores em relação à inteligência artificial, à automação e aos robôs estão por todos os lados.

Um dos redutos favoritos é a Amazon.com, onde vários livros — como Os robôs e o futuro do emprego, de Martin Ford — preveem o fim do trabalho. Tais livros seguem um caminho já bem conhecido. Vinte e dois anos atrás, Jeremy Rifkin escreveu The End of Work. Por ironia, quase que imediatamente, o mundo entrou em um dos maiores períodos de criação de emprego na história.

O fim do trabalho é algo que jamais temos de temer. E por uma questão de lógica: a necessidade de trabalhar e produzir bens e serviços só se esgotará quando não houver absolutamente mais nada que queremos e desejamos.

Trabalhos são apenas coisas que fazemos

Trabalhos são apenas tarefas que realizamos com o objetivo de produzir e obter as coisas que desejamos.

Nós nunca acabaremos com nossos desejos de consumidor, não importa quantos robôs ou outras tecnologias criemos.

Quando as tecnologias se encarregam de saciar algumas de nossas necessidades, isso significa que elas estão nos liberando do ônus de ter de trabalhar para produzir aquilo. Consequentemente, elas estão nos dando a oportunidade de irmos buscar outras atividades que nos dão mais prazer e satisfação — uma oportunidade que deveríamos agarrar com avidez.

Grande parte da angústia em relação à tecnologia parece ser em relação à expectativa de vida dos empregos que existem atualmente. Mas eis o fato: o objetivo jamais deve ser o de preservar os empregos que existem hoje. Não foi assim que a humanidade evoluiu, prosperou e enriqueceu. Nós não evoluímos protegendo empregos obsoletos e maçantes, mas sim acabando com eles e, em seu lugar, criando novos empregos mais modernos, em linha com as demandas dos consumidores.

Assim, o objetivo de uma sociedade que quer prosperar e enriquecer tem de ser o de criar os trabalhos que serão realmente necessários no futuro.

São inúmeras as pessoas que parecem querer, de alguma forma, combinar empregos dos anos 1950 com um estilo de vida do século XXI. Mas a razão pela qual desfrutamos do padrão de vida que usufruímos hoje é porque efetuamos os trabalhos de hoje, e não aqueles da década de 1950. Para ser mais preciso, realizamos os trabalhos que fazemos hoje para produzir os bens e serviços que queremos e desejamos hoje, e não aqueles que desejávamos no passado.

Eis uma realidade que muitos se recusam a aceitar: a maneira como as pessoas ganham dinheiro depende diretamente da maneira como elas gastam dinheiro. Não adianta você querer ganhar dinheiro fabricando máquinas de escrever se as pessoas querem gastar dinheiro comprando computadores.

Por isso, à medida que progredimos, iremos continuar renunciando a alguns empregos e criando outros, adaptando nosso trabalho (a maneira como ganhamos a vida) a como queremos viver e ao que as tecnologias podem fazer por nós.

Na década de 1860, mais da metade das pessoas ainda trabalhava no campo. Desde então, a mecanização da colheita, a criação do milho híbrido, a automação do processo de produção de ovos e outras tecnologias para reforçar a produtividade agrícola eliminaram os empregos de muitas pessoas. Mas essa mecanização da agricultura não eliminou a lista — em constante expansão — de tudo aquilo que as pessoas desejem além de alimentos. Nem de longe.

Hoje, apenas 2% da população vive no campo. No século XVIII, ninguém acreditava que isso seria possível. E não apenas esses 98% não estão morrendo de fome, como estão prosperando — levando vidas melhores, trabalhando em empregos mais confortáveis e, em alguns casos, até mesmo lutando contra a obesidade por causa do excesso de comida disponível.

Ao liberar mão-de-obra, as tecnologias agrícolas nos deram a oportunidade de nos concentrarmos em satisfazer outras necessidades. Ao mesmo tempo em que ainda existiam dezenas de milhões de agricultores, havia apenas dezenas de milhares de médicos. Hoje, há mais de 10 vezes mais; centenas de milhares de médicos. Não seria possível haver esse tanto de médicos se as pessoas ainda estivessem amarradas ao trabalho no campo, tendo de trabalhar manualmente para produzir a comida de que necessitam para viver.

Abolindo trabalho e criando empregos

Quando as tecnologias eliminam alguns trabalhos, é como se estivéssemos riscando alguns itens da nossa lista de tarefas. Quando fazemos isso, não nos acomodamos e ficamos ociosos, sem fazer nada; partirmos em busca de outras atividades que irão produzir outros bens e serviços que ainda estamos demandando.



Quando as tecnologias eliminam algumas tarefas, isso nos dá a oportunidade de ampliarmos nossos horizontes. Por exemplo, em 1900, nos EUA, cerca de uma em cada vinte pessoas na força de trabalho era empregada por uma ferrovia. A invenção do automóvel e do avião liberou muita dessa mão-de-obra – e, consequentemente, liberou o mundo para ir buscar novos desejos e necessidades. Hoje, quase um em cada vinte americanos é um engenheiro ou cientista, de acordo com o Congressional Research Service.

Se 5% da força de trabalho — cerca de oito milhões de pessoas hoje — ainda fossem empregadas pelas ferrovias (como eram em 1900), talvez não houvesse pessoas suficientes para produzir todos os avanços tecnológicos que a engenharia e a ciência geram.

Quando as tecnologias eliminam empregos, elas geralmente criam outros novos. Nos tempos mais recentes, vimos novas tecnologias visível e rapidamente remodelando o mercado de trabalho. 
Por causa da internet, não precisamos mais de tantos agentes de viagens, funcionários de livrarias e de lojas. Em vez disso, precisamos de desenvolvedores de aplicativos e de sites online.


Devido ao streaming de vídeo e aos canais de filmes digitais, não precisamos mais de dezenas de milhares de funcionários de locadoras. Consequentemente, temos mais pessoas disponíveis para realizar serviços de cuidados pessoais, fornecer suporte técnico por telefone e trabalhar em centros de atendimento a clientes de empresas online.

Quando as tecnologias eliminam empregos em um lugar, elas geralmente os geram em outros lugares. 
Os caixas eletrônicos diminuíram a necessidade de caixas bancários nas agências. E aí, dado que menos pessoas são necessárias na equipe de uma agência, os bancos podem abrir mais agências em áreas menos populosas.

Regozije-se

Desde o início do capitalismo moderno, estamos constantemente envolvidos em um processo de substituição de uma tecnologia por outra. Mas não olhamos para o passado com tristeza e saudade dos empregos que perdemos — tais como limpadores de chaminés, entregadores de leite e cortadores (e entregadores) de gelo.

Em vez disso, já aceitamos como naturais as conveniências de que desfrutamos. E é por causa delas que temos hoje os nossos empregos.

Querer que a mecanização, a automação e a robótica sejam bloqueadas e que toda a economia seja engessada e impedida de progredir simplesmente porque "as pessoas perderão seus empregos" é um recurso meramente emocional, sem qualquer base na lógica. Nenhuma economia rica se desenvolveu "protegendo empregos", pois a destruição de empregos obsoletos representa o próprio sinal do progresso.

Há vários empregos que existem hoje e que nem sequer eram imaginados há 10 anos. E vários empregos que existiam há 10 anos não mais existem hoje. E a maioria dos empregos que existirá no futuro ainda não existe hoje. Querer frear esse progresso em nome da proteção de alguns empregos é uma atitude que, caso tivesse sido seguida lá atrás, faria com que ainda hoje estivéssemos vivendo no campo e com uma enxada na mão.


18 de janeiro de 2021
Allan Golombek

AUTOMAÇÃO VERSUS EMPREGOS - COMO TER UMA CARREIRA PARA A VIDA INTEIRA

E o segredo para se ter uma alta renda




Em 1800, o setor industrial dos EUA e da Grã-Bretanha era formado por técnicos altamente capacitados. Estas pessoas ganharam muito dinheiro. E então as máquinas começaram a substituí-los, profissão por profissão. Esta tendência continua até hoje.

Pense nos homens que faziam trabalhos de precisão metal-mecânica em 1960, utilizando sofisticados tornos mecânicos. Eles tinham de trabalhar com tolerâncias de um milésimo de polegada, ou menos. Eles eram incríveis. Mas não havia muitos deles.

Gradualmente, este tipo de processo de produção foi sendo substituído por máquinas perfeitamente capazes de trabalhar dentro destas ínfimas tolerâncias. As máquinas de hoje são capazes de apresentar a mesma produção de trabalhadores que, uma geração atrás, eram indispensáveis à indústria. Máquina por máquina, estamos assistindo a uma inexorável substituição da mão-de-obra qualificada.

A tendência é irreversível

O gráfico abaixo mostra a participação da indústria no PIB dos países mais ricos do mundo.




Fonte: https://transportgeography.org/?page_id=549

Como se pode ver, o percentual de contribuição da indústria à produção econômica total vem declinando continuamente ao longo dos últimos 40 anos. Em alguns países mais rapidamente que em outros. Mas a tenência é a mesma para todos. Se o gráfico mostrasse mais 40 anos anteriores, o mesmo tipo de declínio seria perceptível.

Trata-se de um fenômeno mundial. Trata-se de um fenômeno irreversível.

Há pessoas, majoritariamente economistas de cunho intervencionista e desenvolvimentista, que reclamam desta tendência em seus respectivos países. Seja nos EUA, seja na Europa, seja num país latino-americano, eles acreditam que uma economia robusta e rica só é possível se houver uma indústria cada vez maior.

Isso apenas mostra o quão ignorante eles são em relação a essa tendência mundial. Eles não entendem que o crescimento econômico sempre gera um declínio na porcentagem da participação da indústria na economia nacional.

O cerne da riqueza moderna

O cerne da riqueza não é o setor industrial; o cerne da riqueza é o conhecimento. Mais especificamente, o conhecimento que é aplicado com o intuito de reduzir o percentual total da indústria na economia e de aumentar a riqueza das massas por meio dos serviços.

Esses serviços podem ser digitais ou podem ser pessoais. Mas não são baseados na manufatura.

Um amigo sempre utilizava essa frase: "Venda elétrons, e não átomos". É uma excelente frase. Não venda pedaços de coisas; venda ideias, venda eficiência, venda entretenimento e, acima de tudo, venda qualquer coisa que permita reduzir os custos das matérias-primas, o custo do capital, e o custo da produção. Corte custos, corte preços, enriqueça.

É por isso que a indústria será, cada vez mais, equipada por máquinas totalmente controladas por programas computacionais. Utilizar mão-de-obra humana para fazer esforços repetitivos e puramente mecânicos é um completo desperdício de recurso e de dinheiro. O uso de máquinas e de inteligência artificial permite que a humanidade seja libertada do fardo do trabalho maçante e exaustivo. É incrível que economistas, em pleno século XXI, ainda condenem as máquinas e desejem que seres humanos façam um serviço totalmente mecânico, tedioso e, em relação às máquinas, bem menos produtivo.

Ao longo dos últimos 200 anos, em todos os estágios em que as máquinas substituíram a mão-de-obra humana, houve um extraordinário aumento na produção e na produtividade, bem como um igualmente extraordinário aumento na riqueza per capita. Nosso mundo é completamente diferente do mundo de 1800, e o motivo para isso está no fato de que, antes, os trabalhadores eram munidos de poucos e ineficazes bens de capital, ao passo que hoje eles estão munidos de uma quantidade crescente de bens de capital de qualidade.

Os trabalhadores de hoje têm a sua disposição uma maquinário de muito melhor qualidade. Os maquinários estão cada vez mais eficazes e eficientes, o que faz com sejam necessários cada vez menos pessoa para executar uma determinada função com a mesma qualidade. Esses trabalhadores substituídos por máquinas de maior qualidade vão buscar emprego em novas áreas do setor de serviços.

Essa tem sido a história da transformação do mundo em um lugar melhor ao longo dos últimos 200 anos. Por que, após tudo isso, as pessoas repentinamente passaram a ficar preocupadas com o fato de que máquinas e programas computacionais irão continuar substituindo trabalhadores em várias áreas? Isso é exatamente o que já vem acontecendo há dois séculos.

Por que repentinamente querem parar com tudo isso?

O trabalho humano é versátil

Sempre estamos à procura de alguém que faça algo por nós. Se uma máquina é capaz de substituir o trabalho humano, então ela deve substituir o trabalho humano. O trabalho humano não deve ser desperdiçado em tarefas repetitivas que podem ser feitas por uma máquina de maneira igualmente eficaz e menos dispendiosa.

Se algo pode ser feito por uma máquina, por que imobilizar algo tão versátil quanto o trabalho humano? O trabalho humano é o mais versátil de todos. Há inúmeras coisas que as pessoas podem aprender a fazer.

Já uma máquina pode fazer bem apenas uma coisa; ela não pode fazer outra coisa fora daquilo para a qual projetada. Seres humanos não são como máquinas. Eles podem fazer muitas coisas.

Se um indivíduo se especializou em um determinado processo de produção e tal processo é substituído por uma máquina, ele de fato pode vivenciar uma crise de desemprego. Mas alguém com seu nível de qualificação tem capacidade para trabalhar com outros instrumentos de precisão. Ele é versátil, mas somente a um nível de produtividade muito alto. Ele pode até ser momentaneamente reduzido de cargo por causa das máquinas, mas é possível se recuperar. A maioria das pessoas se recupera. Elas encontram outras coisas para fazer.

Se você trabalha no setor industrial, então você deve aspirar a uma posição que esteja entre uma máquina especializada e a resolução de um problema imediato. Existem todos os tipos de problemas imagináveis e inimagináveis nos processos de produção, o que significa que uma máquina não irá solucioná-los. Qualquer tipo de problema tem de ser resolvido pela mente humana, e por um ser humano equipado com uma ferramenta capaz de resolver o problema.

É a criatividade humana, em conjunto com o uso de ferramentas, que é essencial para garantir a produção de uma máquina. Aspire a uma posição em que você tenha constantemente de utilizar sua mente.

Se você tem uma profissão manual que se resume a fazer processos repetitivos, é bom ir adquirindo outras habilidades. Se você pensa que poderá concorrer com uma máquina para fazer processos repetitivos, é bom repensar seu futuro. Em processos repetitivos, a máquina sempre irá vencer. Em algum momento surgirá uma máquina que fará o trabalho melhor do que você. E isso é ótimo para toda a humanidade.

Adam Smith já havia observado que as habilidades mecânicas e repetitivas que são necessárias em uma divisão do trabalho não são boas para os homens.


No progresso da divisão do trabalho, o emprego da maior parte daqueles que vivem do trabalho manual, ou seja, da grande maioria das pessoas, acaba sendo limitado a umas poucas e muito simples operações — quase sempre uma ou duas. . . .

O homem que passa a vida inteira executando operações simples e cujos efeitos talvez sejam sempre os mesmos ou bastante parecidos não tem nenhuma oportunidade de utilizar sua mente ou de aproveitar sua capacidade inventiva para descobrir expedientes para vencer dificuldades que nunca ocorrem. Portanto, ele perde, naturalmente, o hábito deste esforço e, geralmente, se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível uma criatura humana se tornar.

O torpor de sua mente o torna não só incapaz de apreciar ou de manter qualquer conversa racional, como também de conceber qualquer sentimento generoso, nobre ou terno, e consequentemente de ter qualquer opinião até mesmo sobre os mais rotineiros aspectos da vida cotidiana. . . .

Corrompe até mesmo a atividade de seu corpo, tornando-o incapaz de empregar sua força com vigor e perseverança a qualquer outro emprego que não aquele ao qual se habituou.

Sua destreza em seu ofício particular parece, deste modo, ter sido adquirida à custa de suas virtudes intelectuais e sociais. Mas, em toda sociedade avançada e civilizada, este é o estado ao qual os trabalhadores pobres, ou seja, a grande parte das pessoas, irão necessariamente cair, a menos que o governo faça algo para evitar isso.

Adam Smith, A Riqueza das Nações (1776), livro 5, capítulo 1.

O governo não tem de fazer nada para evitar isso. Tudo o que o governo tem de fazer é sair do caminho. Alguém irá inventar uma máquina que substitua o indivíduo nesta atividade tediosa e repetitiva. Máquinas não se entediam. Elas não cometem erros desleixados. Elas não divagam durante seu trabalho.

Alexis de Tocqueville, em seu livro Democracia na América, dizia que a solução era se tornar um líder, e não um operário.


Quando um operário se dedica sem cessar e unicamente à fabricação de um só objeto, acaba realizando esse trabalho com uma destreza singular. Mas perde, ao mesmo tempo, a faculdade geral de aplicar sua mente à direção do trabalho. Ele se torna a cada dia mais hábil e menos industrioso; pode-se dizer que o homem se degrada à medida que o operário se aperfeiçoa.

O que se pode esperar de um homem que passou vinte anos da sua vida fazendo cabeças de alfinetes? A que pode se aplicar, agora, essa poderosa inteligência humana que existe nele e que tantas vezes revolveu o mundo, a não ser para procurar o melhor meio de fazer cabeças de alfinete?

Quando um operário consumou dessa maneira uma porção considerável de sua existência, seu pensamento deteve-se para sempre perto do objeto cotidiano de seus labores; seu corpo contraiu certos hábitos fixos de que não lhe é mais permitido desfazer-se. Numa palavra, ele não pertence mais a si mesmo, mas sim à profissão que escolheu.

Em uma sociedade em que a divisão do trabalho é altamente desenvolvida, ele pode sair deste emprego e encontrar algo mais de acordo com seus gostos e talentos.


À medida que o princípio da divisão do trabalho recebe uma aplicação mais completa, o operário se torna mais fraco, mais bitolado e mais dependente. A arte faz progressos, o artesão retrocede.

Por outro lado, à medida que fica mais manifesto que os produtos de uma indústria são tão mais perfeitos e tão mais baratos quanto mais vasta a manufatura e maior o capital, homens muito ricos e muito esclarecidos se apresentam para explorar indústrias que, até então, tinham sido entregues a artesãos ignorantes ou inábeis. A grandeza dos esforços necessários e a imensidão dos resultados os atraem.

Assim, portanto, ao mesmo tempo que rebaixa sem cessar a classe dos operários, a ciência industrial eleva a dos patrões.

Enquanto o operário concentra sua inteligência cada vez mais no estudo de um só detalhe, o patrão analisa o todo, e sua mente se expande na mesma proporção que a do outro se estreita. Em breve, o primeiro não precisará de mais do que sua força física sem inteligência; já o segundo necessita da ciência, e quase do gênio, para ser bem-sucedido. Um se parece cada vez mais com o administrador de um vasto império, o outro, com um bruto.

Felizmente, o livre mercado substitui esse tipo de processo de produção rapidamente. Henry Ford adotava esse processo mecanizado em suas linhas de produção, mas a General Motors tomou o lugar de Ford em uma década. Os processos de produção sempre se movem em direção à cooperação no chão de fábrica, onde as pessoas contribuem com suas ideias e trabalham em equipe para implantá-las.

Este foi um dos grandes segredos da indústria japonesa após a Segunda Guerra Mundial. Equipes de homens lidando com problemas conjuntos.

A coisa mais valiosa que as pessoas podem fazer é resolver problemas. Elas não são máquinas. Da mesma maneira, clientes e consumidores têm vários problemas. Não há um só tipo de problema. Há vários padrões de problemas. Mas cada problema possui aspectos singulares. É por isso que máquinas não podem lidar com eles.

As máquinas sempre estarão limitadas por sua programação, e elas sempre estarão limitadas por sua incapacidade de inventar soluções criativas para problemas altamente específicos.

Ferramentas são máquinas; elas não são criativas. Pessoas são usuárias de ferramentas; elas não são máquinas e, por isso, são criativas.

Se um determinado processo de produção substitui pessoas por máquinas, então o destino daquela indústria já está selado. Se um determinado processo de produção ainda utiliza indivíduos para efetuar tarefas repetitivas, então ele está criando um mercado para que uma máquina substitua a força de trabalho. Isso é bom para a força de trabalho e é bom para os consumidores.

O segredo para se ter uma alta renda não é possuir uma capacidade de efetuar tarefas repetitivas. O segredo é ter uma mente criativa. O segredo está na mente criativa que é capaz de aplicar princípios gerais a casos específicos, e então encontrar ferramentas especializadas com as quais implantar seu plano.

Se a sua ocupação requer que você apenas efetue coisas repetitivas, coisas que não requerem muito raciocínio, então seria bom você ficar esperto e começar a procurar algum setor que possua algum conjunto de problemas que alguém com suas habilidades possa resolver. É a capacidade de saber resolver problemas, e não a implantação de soluções mecânicas, que gera uma renda alta. É assim que trabalhadores se tornam líderes e patrões.

Se um sistema educacional de um país treina seu povo para solucionar problemas, então o país tem futuro. Se, por outro lado, o sistema educacional treina seu povo para coisas rotineiras, então ele está ludibriando a população. Em termos de renda, ela não sairá do lugar.


18 de janeiro de 2021
Gary North



ESTA CRUCIAL PROFISSÃO ESTÁ PARA DESAPARECER NA PRÓXIMA DÉCADA

Inicialmente, um milhão de homens já estão marcados para serem substituídos




Existem 3,5 milhões de caminhoneiros nos EUA. Aproximadamente 2 milhões são caminhoneiros dedicados a viagens longas. [No Brasil, são dois milhões de caminhões em atividade].

Agora veja o comercial abaixo. São apenas 80 segundos (um minuto e vinte). Vale muito a pena.

Uma empresa chamada Plus.ai, voltada para inteligência artificial, criou um caminhão que literalmente "dirige sozinho". Trata-se do primeiro caminhão deste tipo já produzido. Ele cruzou os EUA de costa a costa (da Califórnia até a Pensilvânia), com uma carroceria refrigerada carregada de manteiga. Ele fez paradas apenas para cumprir as regulações federais, que exigem paradas temporárias e um número mínimo de "descanso". O caminhão passou por todos os tipos de estradas e de ruas, e por todos os tipos de clima. Completou a jornada em 3 dias, um recorde.

Por lei federal, é necessário haver um motorista dentro do caminhão. Isso limitou o tempo em que o caminhão podia rodar na estrada: apenas 11 horas para cada período de 24 horas.

Se não fosse exigida por lei a presença de um motorista no caminhão, o veículo poderia ter cruzado o país em aproximadamente um dia e meio.

Isso não é faz-de-conta. Este caminhão está, figurativamente, descendo uma estrada na qual dois milhões de caminhoneiros voltados para jornadas de longa distância serão atropelados. Minha estimativa é que 50% deles já terão sumido até 2025. O ritmo de mudanças tecnológicas nesta área da economia está acelerando incrivelmente.

A empresa que realizou esta façanha foi criada por um pequeno grupo jovens extremamente talentosos com Ph.D. na Universidade de Stanford. Ela surgiu em 2016. Isso mostra quão rapidamente as tecnologias estão avançando. Elas estão surgindo do nada. O site Popular Mechanics relata outras iniciativas semelhantes.


Xos Trucks, em Los Angeles, está trabalhando com a UPS no teste de caminhões inteiramente elétricos. A Pronto.ai, fundada pelo engenheiro Anthony Levandowski, que passou por dificuldades na Uber, desenvolveu um sistema de segurança que oferece um controle de cruzeiro completamente adaptável, frenagem de emergência automática, centralização de faixa pró-ativa. A TuSimple, sediada em San Diego, se aliou aos Correios para transportar trailers entre Phoenix e Dallas. Aurora Innovation, Ike, Einride, Kodiak Robotics e Embark [todas elas startups voltas para caminhões autônomos] também querem um pedaço do bolo.

As tecnologias voltadas para veículos autônomos estão avançando a um ritmo estonteante. A indústria de transporte irá adotar estas tecnologias tão logo o governo federal autorize seu uso. Não creio que irá demorar mais do que três anos. Pode até demorar um pouco mais, mas a tendência é irreversível.

Em algum ponto, o governo federal não mais irá exigir que haja um caminhoneiro na boleia nas autoestradas. Isso irá eliminar a restrição de 11 horas jornada para cada período de 24 horas. [No Brasil são 8 horas, podendo chegar a 12.] Neste ponto, os custos trabalhistas para longas jornadas irão cair dramaticamente.

Para essas jornadas, haverá um caminhoneiro designados para ficar de prontidão perto de um posto de combustíveis. Os caminhões autônomos estarão programadas para se dirigirem para o acostamento quando se aproximarem de um posto. Um caminhoneiro local e um assistente irão se dirigir até este caminhão. O motorista irá descer do carro e entrar no caminhão. Ele então irá dirigir o caminhão até o posto, onde reabastecerá com diesel. E então o motorista irá voltar com o caminhão para a estrada, a partir de onde o computador reassumirá a direção.

Não será necessário haver muitos destes motoristas, que estarão trabalhando próximos das paradas. Quando os carros autônomos também já estiverem massificados, nem sequer será necessário um assistente para dirigir o caminhão até a rodovia.

A concorrência entre caminhões autônomos irá derrubar os custos do frete cobrados não só pelas transportadoras, como também pelas ferrovias. A velocidade de entrega é a chave. Trens não conseguirão concorrer, em termos de tempo de entrega, com caminhões que podem cruzar o país em menos de dois dias quando não mais for necessário haver um motorista na boleia, o que significa que os caminhões poderão estar na estrada 24 horas por dia, sete dias por semana. Isso irá forçar as operadoras de ferrovias a cobrar menos por distância, pois sua entrega será mais lenta. Empresas aéreas (que também transportam encomendas) não passaram incólumes por esta queda de preço. Se caminhões e trens estão reduzindo tarifas, aéreas também terão de fazê-lo para manter sua fatia de mercado.

Conclusão

Os beneficiários de tudo isso seremos nós, os consumidores. A concorrência irá derrubar os custos de entrega, com efeitos nos preços de toda a economia. Mas nossos benefícios virão a um preço: a destruição de toda uma profissão. É isso que você e eu faremos.

Em um mercado livre, são os consumidores que determinam os preços por meio da concorrência. Nós iremos demandar preços menores, não obstante o fato de que toda uma profissão irá desaparecer. Pense em caminhoneiros de longas jornadas como agricultores familiares. A profissão está fadada ao sumiço.

Todos aqueles que estão hoje em uma profissão que lida com a ameaça dos algoritmos e dos robôs manterão a tendência de acreditar que a ameaça não é real. É assim que caminhoneiros pensam hoje. Eles estão errados.


18 de janeiro de 2018
Gary North

TRUMP E A CENSURA DAS REDES SOCIAIS, UMA PÉSSIMA NOTÍCIA PARA A CIVILIZAÇÃO - E PARA A ESQUERDA

A medida irá apenas fragmentar as ideologias das redes sociais




Permita-me começar com uma proposição controversa: o Twitter possui o direito de suspender permanentemente a conta de Donald Trump.

Quem mantém uma conta nesta rede social não emite opiniões no vazio, mas sim dentro de uma plataforma que é propriedade privada. Tal propriedade é fornecida ao público, mas é gerenciada internamente pelo Twitter. Na sua casa, suas regras.

Ninguém tem o "direito" de ter uma conta no Twitter à margem das condições e dos critérios fixados pela empresa que é proprietária, fornecedora e gestora da rede social.

A propriedade privada e a livre iniciativa, em suma, amparam a auto-regulação que visa a bloquear aqueles perfis que, por diversas razões subjetivas, são considerados incompatíveis com a missão da plataforma.

Tendo tudo isso em mente, afirmo: foi uma péssima notícia — para o mundo e principalmente para a própria esquerda — que o Twitter tenha optado por suspender a conta de Trump.

E foi uma péssima notícia não porque Trump seja o presidente dos Estados Unidos (algo que é absolutamente irrelevante para se julgar a decisão do Twitter). E não porque creio que as ideias políticas, sociais ou econômicas de Trump merecem ser ouvidas por todos os confins do mundo. E não porque creio que a atitude do Twitter nos aproxime de uma espécie de comunismo censor chinês administrado por uma Big Tech privada.

Foi uma péssima notícia porque a medida inaugura uma tendência muito perigosa nas redes sociais: a compartimentalização ideológica.

Câmara de ressonância

Uma das maiores críticas feitas até o momento contra as redes sociais é que elas criam um efeito do tipo "câmara de eco": as pessoas somente seguem, leem e escutam aquelas outras pessoas que seguem sua mesma linha ideológica, e, consequentemente, não se expõem a ideias distintas que contrariem seus conceitos.

Ou seja, as pessoas apenas buscam reforçar aquilo que já pensam, mesmo que seja por meio de "fake news", as quais raramente são desmentidas dentro dessa câmara de ressonância de pensamentos homogêneos e acríticos.

Este sectarismo explicaria, segundo a própria esquerda, a ascensão da chamada "extrema-direita", ao permitir que os cidadãos predispostos à sua mensagem somente recebam informações de seus congêneres ideológicos e midiáticos.

No entanto, embora esta seja uma crítica corriqueira às redes sociais, isso não significa que seja uma crítica correta. As evidências mostram que o efeito "câmara de ressonância" é sensivelmente menor nas redes sociais do que em outros formatos de trocas de informações políticas, como a mídia tradicional ou mesmo as meras conversas entre amigos ideologicamente próximos. Nestas, o efeito ressonância é muito maior, pois as dissidências permitidas são muito menores.

Com efeito, as redes sociais podem acabar por expor os usuários a opiniões contrárias às suas, e de maneira involuntária: os retuítes, as publicações sugeridas, os compartilhamentos ou os debates abertos constituem uma janela que conecta pessoas de ideologias muito diversas.

No entanto, para que isso ocorra, todos os usuários têm de integrar uma mesma rede social.

Quanto mais isolamento, menor a difusão

A expulsão de Trump pelo Twitter ameaça fragmentar as redes sociais de acordo com as ideologias.

Muitos seguidores de Trump anunciaram que deixarão de utilizar o Twitter e passarão a usar o Parler ou o Gab — uma reação perfeitamente lícita perante a decisão igualmente lícita do Twitter de fechar a conta de Trump.

(Parêntese: Amazon, Apple e Google suspenderam o acesso ao Parler, o que mostra que realmente estão desesperados. Mas isso é reversível judicialmente, pois houve uma explícita quebra de contrato. Na "pior" das hipóteses, novas plataformas podem ser criadas por empreendedores. Se uma pessoa como Elon Musk anunciar uma nova plataforma, certamente metade do mundo migraria para ela).

O fato é que o efeito desta possível migração em massa será o de que, no Twitter, haverá cada vez menos pessoas "de direita", ao passo que Parler, Gab e futuras outras redes estarão repletas de direitistas. Ou seja, o Twitter irá se tornar cada vez menos interessante para pessoas de direita, e Parler, Gab e outras plataformas não serão nada atrativos para pessoas de esquerda.

Consequentemente, se cada tribo ideológica se isolar em sua própria rede social, a comunicação (e o debate) entre tribos irá se extinguir. O debate estará terminado.

Neste arranjo, aí sim todos de fato estariam em câmaras de eco perfeitas, as quais apenas reforçariam a ideologia própria sem contestação por parte de outros ideologias (uma espécie de "espaço seguro" virtual).

Logo, se a intenção da esquerda era evitar que as pessoas se convertessem a ideologias que ela considera "radicais", o banimento de perfis do Twitter irá gerar o efeito exatamente oposto: ao irem para outras plataformas, e ao não mais estarem expostas a ideias contraditórias, as pessoas poderão ainda mais facilmente ser "doutrinadas" por essas ideologias "radicais".

Se o Twitter estivesse realmente preocupado com as "implicações violentas" que os tuítes de Trump supostamente estavam estimulando, bastava apenas submetê-los a um sistema de supervisão e aprovação prévia em vez de abolir uma conta com mais de 80 milhões de seguidores. Havendo outras opções, a suspensão deveria ser algo totalmente de última instância.

No final, a atitude do Twitter — cujo CEO declarou abertamente se tratar de uma plataforma de esquerda — foi simplesmente uma admissão de derrota no debate ideológico. "Se não podemos vencer com argumentos, venceremos pela remoção física."

Ainda que a suspensão de Trump acabe não gerando uma migração maciça de usuários de direita para outras plataformas, o fato é que o Twitter se institucionaliza como uma "plataforma esquerdista" (o que, vale repetir, vai ao encontro das ideias de seus proprietários e funcionários) e censuradora, que suspende cada vez mais contas direitistas por temer o debate aberto.

Consequentemente, e por necessidade, acabaremos por presenciar o divórcio, e cada vez mais pessoas migrarão para redes alternativas. E então o debate franco e aberto, tão defendido pela esquerda em nome da "liberdade de expressão", terá sido exterminado exatamente por ela.

É o debate que faz a civilização

Para que uma sociedade progrida intelectualmente, o choque de ideias é fundamental em todos os níveis, principalmente entre as massas. Expressar-se livremente é o mecanismo por meio do qual o ser humano mantém a sociedade funcionando.

É em decorrência da liberdade de expressão e da capacidade de articular idéias que as pessoas conseguem apontar problemas, explicá-los, solucioná-los e tentar chegar a um consenso.

O debate aberto e sem censura é exatamente o que evita a predominância do "pensamento de manada", garantindo uma voz para os grupos mais marginalizados e excluídos — os quais, em tese, são o alvo da preocupação da esquerda.

Assim, a batalha e a competição intelectual nos proporcionam ao menos a opção de que as boas ideias derrotem as más. A esquerda, no entanto, parece ter admitido derrota neste aspecto.

Já a compartimentalização ideológica serve apenas para consolidar as ideias ruins em amplos setores da população (ainda que certamente também possa proteger terceiros de serem intoxicados por más ideias).

E para que essa batalha de ideias e essa competição intelectual possam ocorrer, é necessário diminuir (e não aumentar) os custos de comunicação entre ideias heterogêneas. Expulsar Trump — e outros possíveis "direitistas" do Twitter não só não facilita, como, na realidade, dificulta o diálogo entre ideologias.

Isso é uma péssima notícia para a civilização.

E o fato de a esquerda ter em peso comemorado essa decisão significa apenas uma admissão explícita de derrota na seara do debate público.


18 de janeiro de 2021
Juan Ramón Rallo

O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO - CRIMES, TERROR E REPRESSÃO

  O Livro Negro Do Comunismo - Crimes Terror E Repressao

rothbardbrasil.com/wp-content/uploads/arquivos/livro.pdf · Arquivo PDF

O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO não quer justificar nem encontrar causas para tais atrocidades. Tampouco pretende ser mais um capítulo na polêmica entre esquerda e direita, discutindo fundamentos ou teorias marxistas. Trata-se, sobretudo, de dar nome e voz às vítimas e a seus algozes.


18 de janeiro de 2021

UMA "NAÇÃO CHINESA" NA AMAZÔNIA?

 



Nossos governos mudam, mas a cobiça chinesa perdura e cresce




Para Dilma o ditador Xi-Jinping prometeu tudo.
O mais importante que mandou foi o coronavírus.


As incomensuráveis riquezas contidas na região amazônica causam inveja em todo o mundo.

Não faltam e cada vez menos faltarão países, multinacionais ou grupos ideológicos querendo fincar pé nas regiões menos povoadas da Amazônia, a brasileira em especial.

É questão de soberania nacional que o País ocupe efetivamente esse território.

E quem melhor do que os próprios cidadãos brasileiros para se instalarem lá para produzir, povoar, civilizar e garantir o controle nacional?

Porém, o ativismo ambientalista, de mãos dadas com o indigenismo e outros pretextos de fundo ideológico que se manifestaram muito ativos a propósito do Sínodo da Amazônia, vêm sabotando a larga ocupação dessa imensa parcela estratégica do país.

Restrições legais de toda espécie, como demonstrou o Dr. Evaristo de Miranda no post O BRASIL ACABOU?, tornam extremamente árdua senão impossível a expansão natural da atividade produtiva e da população brasileira nessa prometedora região.

E até vem expulsando-os da região como já aconteceu na reserva Raposa/Serra do Sol. 



Índio macuxi Adalto da Silva num lixão sem emprego,
teve que deixar Raposa/Serra do Sol



Também países que outrora foram e em alguma medida ainda são aliados do Brasil não podem promover a instalação de empresas, como dos EUA e da Europa, sob vigilante controle nacional é claro.

Com a ascensão de Joseph Biden poderemos ter péssimas notícias de uma Washington dominada pelas esquerdas.

Porém amigos ideológicos das esquerdas nacionais representadas em partidos de diversas tendências vêm promovendo campanhas para debilitar a soberania nacional e a exploração das riquezas da região amazônica.

Dessas manobras a mídia não informa bem ao brasileiro que afinal de contas sabe muito pouco.

Só se sabe que se fala de abrir à venda extensões de dimensão tal vez gigantescas a estrangeiros que obviamente devem ter muito dinheiro para investir.

E quem seria um país rico nesta crise mundial da pandemia para comprar em peso no Brasil?

Na África, o desembarco de empresas, engenheiros e mão de obra chinesa é um fato em continuada expansão. O que viria fazer a China na Amazônia, suas empresas ou suas ONGs? Nesse sentido causa preocupação noticias como a que comentamos a seguir.

Enquanto o cientista político James To comenta em livro que 64% dos chineses que conseguiram reunir algum pecúlio desejam ou já planejam abandonar seu país, o “The Wall Street Journal” informa que o governo chinês iniciou campanhas de propaganda para garantir a “lealdade” desses chineses no exterior.

Os principais líderes da revolução comunista chinesa foram intelectuais formados na Europa. Mas hoje os estudantes mais dotados, que estudam no Ocidente, não querem ficar integrados ao superpoder tirânico e procuram se instalar longe dele.




Atuais rotas de emigração chinesa no sul-este asiático.
E se amanhã vierem para a Amazônia
para onde os brasileiros não podem ir?


Os imensos problemas que afligem o sistema socialista em matéria de insegurança política, social e delitiva, a poluição que bate os recordes planetários, a intoxicação alimentar, e incapacidade de produzir alimentos para suas imensas populações, o desastroso e ideologizado sistema escolar são alguns dos argumentos que impulsionam esta espécie de fuga.

Porém, o sistema maoista pretende tirar proveito dessa migração.

Para isso montou um monstro burocrático — a Agência dos Assuntos Chineses no Além-mar do Conselho do Estado — para garantir o “controle remoto” sobre esses auto-exilados. A finalidade máxima, diz o jornal americano, é garantir que fiquem fiéis ao Partido Comunista.

O povo chinês é laborioso e hábil no comércio. Na Indonésia, país muçulmano, os imigrantes chineses conquistaram uma posição hegemônica nas pequenas lojas.

A instalação de grandes colônias de cidadãos chineses em outros países pode facilitar a entrada de agentes treinados pelo governo de Pequim, que obedecerão às instruções do regime.

Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de segurança nacional do presidente do americano Jimmy Carter, lembrou que numa reunião entre esse presidente e o chefe da China, Deng Xiaoping, Carter começou a falar de Direitos Humanos. Deng saiu-se então com uma proposta inesperada:

“Bem, nós os deixaremos partir. Você está preparado para aceitar 10 milhões?"



China possui imensa população que poderia ser encaminhada
para qualquer canto do planeta



O problema, conclui “The Wall Street Journal”, é que a torrente humana que hoje poderia vir para o Ocidente seria de 100 milhões ou mais.

Suficiente para criar países dentro de países.


O leitor já pensou o que seria a entrada de uma massa dessas em algum estado despovoado do Brasil?


Nessa hora, os amigos ideológicos da China – ambientalistas, ONGs, tentáculos da CNBB e esquerdistas – que opõem obstáculos à instalação dos brasileiros no território nacional, provavelmente não irão protestar, mas com certeza comemorar.


18 de janeiro de 2021
Luis Dufaur, escritor, jornalksta, conferencista de política internacional

RUSSOS FOGEM DA VACINA SPUTNIK V

 



Cientísta do Centro Nikolai Gamaleya procura vacina contra o Covid em Moscou


No Policlínico nº 5 de Moscou os funcionários médicos aguardavam com as seringas prontas, testemunhou “La Nación”.

Aguardavam a enxurrada de pessoas que viria se vacinar contra o coronavírus na primeira fase de aplicação em massa.

E continuaram aguardando...

Aguardaram ainda mais e as fileiras de assentos da sala de espera continuavam desesperadoramente vazias.

Na falta do que fazer, os membros da equipe médica começaram a discutir onde colocariam um vasinho com rosas secas.

As autoridades russas davam por descontado que abrindo a vacinação com a Sputnik V o público concorreria em massa, mesmo quando nem a fase de testes III está concluída.

No primeiro momento seriam vacinados os profissionais da saúde e o pessoal que a diversos títulos está engajado no tratamento da pandemia.

Mas até entre eles havia mais céticos em relação à Sputnik V do que pessoas dispostas a tomar. A Rússia é o quarto país mais afetado do mundo: mais de 2,5 milhões de casos positivos.




Dúvidas e costumes soviéticos
espantam aos russos, inclusive médicos


As razões são até compreensíveis: os russos conservam gravado no subconsciente as lembranças dos horrores da medicina estatal soviética e desconfiam de tudo o que vem do governo.

Mas também, a máquina de guerra da informação de Putin se encarregou de espalhar pela internet toda espécie de fake news com teorias conspiratórias.

Essas visavam desacreditar as instituições de saúde ocidentais para debilitar a estabilidade dos governos.

Histórias assustadoras emanavam de São Petersburgo das próprias centrais de notícias falsas e especialmente concebidas para pegar nas redes sociais.

Os ‘trolls’ espalharam que o Covid, como muitas outras doenças, não existia: eram invenções de um misterioso complô de um não menos misterioso Governo Mundial montado por riquíssimos capitalistas para escravizar os homens com a cumplicidade dos governos dos EUA, da Alemanha, da monarquia inglesa, bancos, etc. etc.

Na hora de serem vacinados os homens enganados receberiam um microchip ou algo do estilo que os tornaria escravos do tal Governo Mundial.

Brochuras antivacinação circulam em Moscou chamado a Sputnik V de “renascimento do fascismo” e sugerem que seria uma arma de destruição de massa.

Mas a própria máquina de guerra da informação putinista se está encarregando de espalhar que a Rússia não corre risco de ser escravizada pelo Governo Mundial, porque Vladimir Putin está ali a postos em feroz luta para impedir que os russos sejam tiranizados.

É claro que os boatos conspiratórios que circularam no Ocidente reverteram na própria Rússia. Com a diferencia que os russos sabem o que é um governo despótico do qual se pode esperar as piores coisas.



Putin diz que vacinou a filha mas ele nem para teste


Complicou o caso que as autoridades russas informaram de que os vacinados não poderiam beber vodca por semanas.

Nada de mais razoável se os médicos dizem isso, sobretudo com vacinas do tipo antibiótico. 

Mas, após séculos de vício, o conselho não podia ser pior recebido.

“Não confio nisso, porque eles sempre mentem. Se o governo diz para você fazer algo, você deve fazer o oposto”, dizia Lia Shulman, estudante de engenharia mecânica de 21 anos.
Acresce que a vacina russa está sendo aplicada sem testes prudentes que são de praxe, generalizando maiores temores populares.

O ceticismo profundo remonta aos tempos soviéticos que Putin não fez nada para apagar.

“Não quero ser vacinado ou que meus pais o façam. A maioria dos meus amigos pensa o mesmo”, acrescentou Lia. No Policlínico nº 3 de Moscou, os sofás para 20 pessoas da sala de espera continuavam exasperantemente vazios um dia de semana, contou “La Nación”.

O ministro da Defesa, Sergei Shoigu, o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, e membros do Conselho de Segurança da Rússia anunciaram que a receberam. Mas ninguém acredita no que eles dizem.

Segundo o porta-voz Dimitri Peskov, o presidente Putin não poderia recebe-la nem como voluntário de teste, piorando as desconfianças. Posteriormente, o governo informou que não foi vacinado porque a Sputnik V não é recomendada para maiores de 60 anos. Deus acuda!

Os líderes do Kremlin querem que a vacina Sputnik V seja um triunfo do poder científico russo sobre as vacinas dos EUA e da China, e empilha ditos e fatos triunfais sem confirmação.




O sistema de saúde russo é lastimável e não pode ser visto por estrangeiros, sobretudo nos setores para o Covid

O Fundo Russo de Investimento Direto diz que mais de 40 países demonstraram interesse e que recebeu pedidos globais de 1,2 bilhão de doses.

O primeiro-ministro Mikhail Mishustin previu um processo “explosivo” global da Sputnik V.

A mídia estatal russa lançou uma ofensiva de propaganda pela vacina, mas os russos ainda não se convenceram.

Oficiais russos garantem que a eficácia da Sputnik V excede 95%, mas, como podem saber se não completaram os testes?

O procedimento dos gigantes farmacêuticos ocidentais é muito mais prudente.

Em 4 de dezembro, a vice-prefeita de Moscou, Anastasia Rakova, trombeteou que 20.000 pessoas haviam recebido as duas doses da Sputnik V mas logo depois 272 dessas contraíram o vírus.

Uma pesquisa de outubro do instituto independente Levada Center descobriu que 59 por cento dos russos não estavam dispostos a ser vacinados.




Maduro garante que seu filho, já envolvido com drogas, se oferecerá para teste

Também uma pesquisa de outubro encomendada pelo partido de Putin, Rússia Unida, descobriu que 73% das pessoas não planejavam se vacinar e 11% não acreditavam na existência do coronavírus, informou a agência de notícias estatal russa RIA Novosti.

Com o baixo comparecimento, as clínicas estão vacinando a quem apareça.

O físico Sergei Dolya, 47, se cadastrou num local oficial de vacinação, achando que seria convocado para ir em alguns meses. A enfermeira foi logo o preparando sem se interessar se estava na categoria autorizada.

O único problema era que a vacina devia ser descongelada. E vinha em grupos de cinco. Faltavam mais quatro querendo se vacinar e esses não apareciam.

Afinal apareceram e Sergei foi vacinado. Na longa espera, a enfermeira pediu que por favor convocassem os amigos de qualquer condição para vacinar a alguém.

O caso da abstinência de álcool é sério. Alexander Gintsburg, diretor do centro de pesquisas do estado de Gamaleya que desenvolveu o Sputnik V, acabou relativizando a interdição para atrair gente e saiu a público dizendo que “uma única taça de champanhe nunca faz mal a ninguém”.




O presidente argentino prometeu que se faria vacinar o primeiro
com a Sputnik V, mas até agora não fez nada disso.


Na Policlínica nº 5, o pessoal de segurança tentou impedir que jornalistas do The Washington Post visitassem a seção de vacinação. “Não os deixe entrar!” urrava um oficial de segurança temendo que descobrissem a verdade.

Na Argentina, o governo de esquerda de Alberto Fernández engoliu as mentiras russas, não por ignorância ou incapacidade, mas por ideologia.

Voltou a mandar uma delegação oficial para avaliar de novo a Sputnik V e se exibiu dizendo que ele seria o primeiro a ser vacinado com ela, informou “Clarín”.

Mais. Prometeu a vacinação popular com dezenas de milhões de doses que viriam da Rússia e que começaria em dezembro.

Soou a bravata, nem ele foi vacinado, nem a vacina chegou, nem a vacina foi aprovada, nem se sabe se a Rússia poderá fabricar quantidades milionárias para consumo interno, menos ainda para exportar.

O ex-Ministro da Saúde Adolfo Rubinstein declarou a vacinação ser improvável, com a Sputnik V perigosamente não testada, e que só há incerteza por carência de documentação científica.




As informações científicas sobre a Sputnik V
são insuficientes e preocupantes


Para a deputada Graciela Ocaña, também ex Ministra de Saúde a fala combinada da Rússia e do presidente populista é “impossível” de se efetivar.

O organismo argentino encarregado de aprova-la, o Anmat, não vai autoriza-la e se permitir será em regime de “emergência por pandemia”, com riscos de efeitos adversos sérios e não previstos diz o infectologo Eduardo López, assessor do governo contra o coronavírus.

A Anmat aprova novos medicamentos após o pronunciamento dos entes reguladores dos EUA (FDA) e da Comunidade Europeia (EMA), mas isso não existe.

A Argentina se joga num abismo desconhecido aplicando uma vacina na qual nem os russos confiam. Vacina essa que nem apareceu no país platino.

Mas faz isso só por adesão ideológica à estratégia de predomínio mundial visada pelo Kremlin.

18 de janeiro de 2021
Luis Dufaur, escritor, jornalista, conferencista de política internacional

KOLYMA

  


Documentário desvenda horrores ocultos dos “gulags” de Stalin

Os massacres dos ditadores soviéticos foram abados oficialmente pelo que os jovens russos não ouviram falar das mortes perpetradas no Grande Terror.

O youtuber russo Yury Dud quis corrigir essa ignorância e lançou o filme Kolyma: Birthplace of our fear (Kolyma: berço do nosso medo) sobre a repressão stalinista, segundo relatou a rádio oficial alemã Deutsche Welle.

“Toda a minha vida eu tenho ouvido meus pais dizerem: 'tenha cuidado e não atraia atenção desnecessária, pois é perigoso”, conta Yury. “Mas eu queria entender: de onde vem o medo da geração mais velha?”, prossegue.

Yuri vê as raízes deste medo no terror do stalinismo, o capítulo mais negro da história russa do século 20. Mais de 16 milhões de pessoas inocentes foram forçadas a trabalhar em condições desumanas em campos de trabalho, privadas de liberdade e saúde.

Pelo menos 2 milhões de pessoas morreram como prisioneiros políticos ou por pertencerem a minorias étnicas. Mas esses números são incompletos e pouco confiáveis, por que muitos arquivos secretos ainda hoje se encontram indisponíveis para estudos.


Desenhos dos Gulag, By Danzig Baldaev

Durante a ditadura de Stalin, de meados da década 1920 até sua morte, em 1953, grande parte do país ficou paralisado – especialmente após as mortes em massa associadas ao Grande Terror no final da década de 1930.

Yury visa informar os russos mais jovens. Seu projeto Kolyma começou com uma pesquisa que descobriu que mais da metade dos russos entre 18 e 24 anos nunca ouviu falar da repressão feita por Stalin, o modelo de governante preferido por Vladimir Putin.

Yury entrevistou Natalia, a filha de Sergei Korolev, cientista e pioneiro espacial que foi torturado e preso durante o Grande Terror. A agora idosa recorda no filme como ela sofreu sendo considerada a filha de um “traidor”.

Yury e sua equipe viajaram dois mil quilômetros por locais associados ao terror stalinista, da cidade de Magadan, no Oceano Pacífico, passando pela gelada Yakutsk, ao longo do rio Kolyma e pela rodovia conhecida como Estrada dos Ossos, pois os restos mortais de milhares de pessoas que morreram durante sua construção e foram enterrados sob a própria estrada.



Ainda restam ruínas dos campos de concentração

O nome Kolyma tornou-se, portanto, sinônimo do sistema de campos de concentração de Stalin.

“É muito difícil livrar-se do medo”, conta Efim Shifrin, em Kolyma. Ele é um renomado ator e comediante, mas filho de uma vítima do terror na cidade portuária de Magadan.

“Kolyma não é o nosso passado, mas nosso presente”, diz Yury Dud no final do seu filme.

“O medo é o principal inimigo da liberdade. A libertação só pode ser alcançada reconhecendo o passado e respeitando uns aos outros. Esta é a única forma de tornar o nosso país apto para o futuro”, frisa ele.

Esse medo herdado é um dos sustentáculos do regime de Putin, por isso é perigoso mexer com ele:

“Yury, esqueça, encha a internet com obras históricas”, comenta um espectador, uma voz representativa do medo que ainda lavra entre às mais de 23 milhões de pessoas que visualizaram “Kolyma” até janeiro de 2021.

18 de janeiro de 2021
Luis Dufaur, escritor, jornalista, conferencista de política internacional.