O CAPITALSMO TARDIO E O CONFLITO INTERGERACIONAL NO MERCADO DE TRABALHO
O capitalismo tardio não se anuncia como catástrofe; ele se apresenta como normalidade exausta. Não cai - arrasta-se.
Funciona, produz, exige, cobra, mas já não promete. O antes era horizonte tornou-se manutenção: manter empregos que não libertam, manter empresas que não acreditam no que fazem, manter pessoas ocupadas para que não tenham tempo de perguntar por quê.
É um sistema que sobrevive não por vitalidade, mas por inércia, como um organismo que esqueceu a razão de existir e passou a viver apenas para evitar a própria morte.
O trabalho, que já foi imaginado como via de emancipação, hoje opera como mecanismo de contenção social Trabalha-se não para construir um futuro, mas para adiar o abismo.
O salário não compra projeto; compra tempo. Tempo curto, instável, sempre ameaçado. A ideia de carreira - esse romance longo entre o indivíduo e o mundo - dissolveu-se numa sucessão de contratos emocionais frágeis, onde tudo é provisório, exceto a exigência de desempenho.
Gerações mais velhas carregam no corpo a memória de um pacto que, embora duro, ainda parecia inteligível: esforço em troca de alguma previsibilidade. Sacrifício em troca de pertencimento. Mesmo quando falhou, o pacto tinha forma. Havia uma narrativa possível. Defender hoje esse modelo não é apenas conservadorismo, é autopreservação simbólica.
Admitir a falência do sistema significaria admitir que vidas inteiras foram gastas sustentando uma promessa que nunca se cumpriu por completo
Poucos suportam esse tipo de luto retrospectivo.
As novas gerações, por sua vez, não chegam para romper o pacto. Chegam quando ele já foi rompido. São acusadas de cinismo, mas apenas cresceram num mundo onde a fé no progresso virou ingenuidade. São cobradas por não se entregarem a um sistema que nunca se entregou a elas. Não recusam o trabalho; recusam a mentira.
Intuem, talvez com mais clareza que seus gestores, que não há dignidade intrínseca em se sacrificar por uma engrenagem que trata pessoas como recursos descartáveis e chama isso de eficiência.
O capitalismo tardio exige envolvimento total com resultados parciais. Quer corpos disponíveis, mentes flexíveis, emoções administráveis.
A subjetividade torna-se território de extração. Não basta trabalhar; é preciso parecer motivado. Não basta produzir; é preciso acreditar - ou fingir acreditar.
Quando a crença falha, entra o moralismo. Disciplina, resiliência, meritocracia: palavras que funcionam como tampões simbólicos para um vazio estrutural.
A aceleração permanente cumpre aqui uma função precisa. Quanto mais rápido tudo se move, menos espaço há para reflexão. A urgência substitui o sentido. O cansaço vira norma. O esgotamento deixa de ser falha e passa a ser evidência de comprometimento.
A saúde mental, quando colapsa, é tratada como problema individual, jamais como sintoma de uma sistema que só opera à custa de desgaste contínuo. O sofrimento precisa ser privatizado para que a estrutura permaneça intacta.
Nesse cenário, o conflito geracional no trabalho aparece menos como choque de valores e mais como choque de níveis de lucidez.
De um lado, quem ainda precisa acreditar para não desmoronar. Do outro, que já não consegue sustentar uma ficção, que exige a entrega da própria vida, em troca de nada que dure.
O jovem que impõe limites não ameaça a empresa; ameaça a lógica sacrificial que a sustenta. Por isso incomoda tanto.
O capitalismo tardio não entra em crise, porque produz desigualdade ou sofrimento - sempre produziu. Ele entra em crise porque já não consegue transformar sofrimento em promessa. Já não sabe dizer para quê.
Continua exigindo tudo, enquanto oferece apenas sobrevivência. E quando alguém pergunta pelo sentido, responde com metas. Quando alguém questiona o modelo, responde com indicadores. Quando alguém adoece, responde com coaching.
No fundo, não é o trabalho que está em crise, mas a imaginação social que o sustentava. O futuro encolheu. O presente tornou-se absoluto. E o sistema, incapaz de se reinventar moralmente, reage criminalizando a recusa, patologizando o cansaço e romantizando um passado que não volta.
Talvez o capitalismo tardio não termine com uma revolução, mas com um silêncio prolongado - o silêncio de pessoas que continuam trabalhando sem acreditar, entregando sem desejar, vivendo sem projeto.
Um mundo onde o maior gesto de insubordinação não é a revolvta, mas a recusa em oferecer a própria vida como combustível para uma máquina que já não sabe aonde vai.
04 de janeiro de 2026
prof. mario moura
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