"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

terça-feira, 27 de abril de 2021

"PARASITA" É IMPLAUSÍVEL E SUPERESTIMADO, COM UMA ABORDAGEM TOSCA SOBRE "CONFLITO DE CLASSES"

Do início ao fim, o filme insulta inteligência dos mais preparados




Nos anos imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial, a economia da Coreia do Sul estava em trágica situação. Em 1948, a renda per capita do país era de irrisórios US$ 86, o que colocava o país no mesmo nível do Sudão. Em 1960, já tinha caído para US$ 79.

Políticas desastrosas levaram à hiperinflação (o que elevou o valor nominal das cédulas do won; hoje, um dólar custa 1.192 wons) e a uma escassez generalizada de comida. O lento crescimento econômico forçou as mães a fazerem escolhas em relação aos seus filhos na mesma linha de uma escolha de Sophia, e as taxas de alfabetização estavam entre as menores do planeta.

Analisando a situação, um oficial americano concluiu que "a Coreia jamais poderá alcançar um alto padrão de vida". O motivo, observou ele, é que "praticamente não há no país nenhum coreano com a qualificação técnica e com a experiência necessária para se aproveitar dos recursos do país e implantar alguma melhoria na economia, a qual é toda baseada em arroz".

Felizmente, no entanto, previsões são feitas para serem ridicularizadas. A especulação sobre o futuro da Coreia do Sul se comprovou incorreta. E amplamente. A partir da década de 1960, sob uma ditadura militar comandada pelo General Park, o país adotou uma política extremamente favorável ao investimento estrangeiro (o que era um imperativo, pois a Coréia não tinha capital próprio), principalmente de japoneses (com quem ele reatou relações diplomáticas) e americanos. Graças a esses investimentos estrangeiros o país começou a prosperar.

Os japoneses investiram pesadamente em infraestrutura, em indústrias de transformação e em tecnologia, o que fez com que a economia coreana se tornasse uma economia altamente intensiva em capital e voltada para a exportação de produtos de alta qualidade. Esse fator, aliado à alta educação, disciplina e alta disposição para trabalhar (características inerentemente asiáticas), permitiu o rápido desenvolvimento da Coréia.

Tudo isso está relatado em detalhes no excelente livro The New Koreans, de Michael Breen, jornalista britânico que mora em Seoul. O livro é importante porque ele explode vários mitos desenvolvimentistas que são extremamente utilizados quando se fala da história econômica da Coreia. Limito-me a citar dois: os país, longe de ser uma economia protecionista, é o nono maior importador do mundo (consequência óbvia de ser um grande exportador). E praticamente quase todas as empresas que foram inicialmente protegidas pelo governo quebraram (o que também é uma obviedade, pois empresas que nascem protegidas não se tornam eficientes e, logo, não duram tão logo são expostas ao mercado mundial).

Atualmente, a Coreia do Sul é um país impressionantemente próspero. Embora o PIB esteja longe de ser a mais acurada das métricas, aquele que já foi um país completamente devastado pela guerra (dentre outros fenômenos) é hoje um dos dois únicos países do mundo (junto com Taiwan) a ter "conseguido apresentar uma taxa de crescimento de 5% ao longo de cinco décadas", como bem disse Breen em seu livro. Hoje, sua economia é a 13ª maior do mundo.

A Coreia do Sul é uma das maiores parceiras comerciais tanto da China quanto dos EUA, e é sede de algumas das mais proeminentes marcas globais, como LG e Samsung. Acrescente a tudo isso o fato de que os sul-coreanos usufruem, como demonstrou Breen, "a mais rápida e a mais crescente rede de banda larga do mundo, em conjunto com a mais alta taxa de penetração de smartphones do planeta".

Muita coisa mudou neste outrora desesperadoramente pobre país, e com certeza foi para melhor.

Parasita

Tudo o que foi dito acima, e muito mais, merece ser levado em conta como pano de fundo para um comentário que tem o objetivo de oferecer um contra-argumento para toda a exaltação da crítica mundial em relação ao filme sul-coreano Parasita, que acaba de vencer o Oscar de melhor filme de 2019 (o que foi uma façanha, pois foi o primeiro filme não-falado em inglês a obter esta honraria).

Dirigido em co-escrito por Bong Joon-ho, o fato de este filme ter sido nomeado é uma demonstração explícita de como hoje tudo se tornou politizado, inclusive a crítica de filmes. Nada escapa.

E dado que o diretor já deu seguidas entrevistas nas quais deixa claro que o seu objetivo de fato é fazer uma "crítica social pesada" e enfatizar uma narrativa anti-capitalista, então nada mais justo do que criticar a sua obra tendo esta perspectiva.

Para contextualizar: Parasita conta a estória de uma família sul-coreana pobre e sem sorte, que embrulha caixas de pizza para uma rede local, sendo esta sua fonte básica de renda. A família Kim vive em um apartamento que é uma espécie de porão sujo e escuro (na verdade, trata-se de um "andar intermediário" de um prédio), cuja vista dá para uma lixeira onde um morador de rua costuma urinar. Entretanto, fotos antigas do pai Kim indicam que a família já teve um passado um tanto mais nobre. Desnecessário dizer, porém, que a família é pobre no presente.

E então a sorte lhes bate à porta. Muito embora nenhum membro da família consegue encontrar emprego, o filho Ki-woo é amigo de um estudante universitário que está indo viajar de intercâmbio. Em troca de um dinheiro extra, este universitário amigo de Ki-woo dá aulas de inglês para a extremamente rica família Park, mas já está de viagem marcada. Os Parks têm uma filha que deseja aprender inglês, de modo que este universitário sugere a Ki-woo fingir-se de universitário para conseguir o emprego.

Aqui você já consegue ter uma ideia de quão implausível esse filme é.

Falando mais abertamente, fluência em inglês é uma habilidade extremamente lucrativa para se possuir. Ki-woo possui essa habilidade e, consequentemente, consegue obter o emprego de tutor de inglês da filha da família rica. Mas, ora, se ele sempre teve essa habilidade, por que diabos ele vivia apenas de dobrar caixas de pizza? Não faz sentido nenhum.

O diretor quer que os espectadores acreditem que a família Kim é pobre por causa de uma escassez de opções de trabalho. Mas sejamos sérios: se Ki-woo é fluente em inglês, de modo que ele imediatamente consegue impressionar a rica família Park, então por que ele já não está lucrativamente empregado por alguém, em algum lugar de Seul, dado que a fluência em inglês é crucial em uma economia global? Certamente ele conseguiria emprego fácil em qualquer multinacional instalada em Seul. Mais sobre isso mais abaixo.

Após ter conseguido o emprego de tutor de inglês para a rica menina Da-hye, Ki-woo fica sabendo que o irmão de Da-hye, Da-song, é obcecado por artes. Pressentindo uma oportunidade para sua belíssima irmã, Ki-woo mente para a senhora Park e diz que sua irmã, Ki-jung, é uma "especialista" em artes. Consequentemente, ela é contratada para ser a tutora do menino Da-song.

Uma vez empregada pela família Park, Ki-jung arma uma cilada para o experiente motorista do senhor Park: ela intencionalmente deixa uma calcinha no banco de trás do carro e, com isso, o motorista é acusado de ter feito sexo no carro da família Park. Ele é demitido e, ato contínuo, o pai Kim se torna o motorista da família Park. Os três Kims (pai, filha e filho) passam então a explorar a alergia da família Park a pêssegos, e com isso conseguem fazer com que a mãe Kim seja contratada como a cozinheira da família.

Para sermos justos, é verdade que filmes não precisam ter um grande compromisso com a realidade, pois são apenas divertimentos escapistas. E as estórias, para serem boas, têm de ser um tanto implausíveis. No entanto, com Parasita, o diretor Bong Joon-ho insulta por completo a inteligência de seus espectadores.

Logo de cara, somos obrigados a acreditar que um filho fluente em inglês, uma filha capaz de apresentar razoáveis conhecimentos de arte, um pai com um bom conhecimento sobre automóveis (e que rapidamente consegue se tornar apresentável ao ponto de aparentar ser um elegante chofer), e uma mãe capaz de cozinhar para pessoas de exigente paladar só conseguem encontrar algum emprego minimamente decente se ludibriarem terceiros a lhes contratar.

Pior: o diretor quer que acreditemos que indivíduos tão engenhosos ao ponto de conseguirem empregos ao simplesmente exagerarem seu currículo perante uma família rica não podem fazer algo semelhante com as inúmeras corporações multimilionárias com sede em Seul. Isso está além da nossa capacidade de suspender a descrença.

Obviamente, o ponto acima nunca é abordado. E não porque o diretor de Parasita não está interessado em ser plausível ou acurado, mas sim porque seu único objetivo é fazer com que os ricos, pelo simples fato de serem ricos, sejam retratados como pessoas odiosas. Vemos isso logo de primeira ao constatarmos a facilidade com que os Kims conseguem ser contratados pelos Parks. Os Parks são facilmente enganados, e é óbvio que você sabe por quê: porque, é claro, os ricos são estúpidos e imbecis. Tão concentrados eles estão nas coisas superficiais, e tão absortos estão em coisas secundárias e desimportantes, que eles se mantêm completamente ignorantes em relação a tudo o que os economicamente desesperados Kims estão fazendo com eles.

Já os pobres e desempregados são, obviamente, retratados como pessoas dotadas de uma grande sagacidade e "esperteza urbana". Sua difícil situação econômica nada mais é do que uma infeliz consequência do fato de terem nascido.

Os problemas com este cenário são vários.

Só há este filme porque havia riqueza para produzi-lo

Para começar, o diretor Bong deveria considerar por que e como há um mercado na Coreia do Sul para o seu filme.

Falando o que é óbvio, obras de arte com narrativas socialistas e que retratam lutas de classe só ganham vida porque há uma riqueza que as possibilita e financia, a mesma riqueza que o diretor e co-roteirista desdenha. Traduzindo: cinquenta ou sessenta anos atrás, quando a Coreia do Sul era desesperadoramente pobre (e, logo, a desigualdade era bem menor), não havia nenhuma razão de ser para um filme como Parasita. Os ricos eram tão microscopicamente poucos no país, que eles certamente não gastariam dinheiro para financiar as "obras de arte" de pessoas como Bong. Por que o fariam? O país era tão pobre, que não havia mercado consumidor (e nem produtor) para filmes, muito menos para filmes sobre alguns auto-proclamados sofisticados que recorrem ao charlatanismo para enganar outros sofisticados que estão repletos de dinheiro, mas escassos de bom senso. A história não teria relevância nenhuma àquela época, pois não teria o mais mínimo apelo realista. Todo mundo era pobre na Coreia há não muito tempo.

É apenas hoje, com o país sendo incrivelmente mais rico, que tais narrativas ganham alguma verossimilhança. Fosse o país ainda miserável, não só não haveria como o filme ser feito (pois não haveria ricos para financiar sua produção), como também a história não teria qualquer ressonância.

Este é o paradoxo da riqueza: ela só é criticada por cineastas porque ela existe e possibilita a criação de suas obras de arte.

Alguns irão dizer que Parasita se comprovou um grande sucesso de bilheteria, e tem tido um desempenho particularmente bom nos EUA. Mas isso apenas comprova o fenômeno acima, que é bastante proeminente nos países ricos. Alguém seriamente acredita que políticos abertamente socialistas como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez e Elizabeth Warren teriam seguidores e notoriedade não fossem os EUA um país intensamente rico, povoado pelas pessoas mais ricas do planeta? Coloque estes mesmos no Sudão (ou mesmo na Coreia da década de 1950), e eles não teriam apelo nenhum (até porque não haveria riqueza para eles quererem saquear). A mesma riqueza que estes autoproclamados socialistas alegam desdenhar é a fonte de sua própria proeminência.

Naturalmente, o ódio explícito que Parasita expressa pelos ricos tem o seu mercado cativo exatamente nos países prósperos, em que há uma ampla riqueza para ser invejada (a mesma riqueza que possibilitou a produção do filme).

Nas últimas décadas, a economia da Coreia do Sul, e de Seul em particular, vivenciou uma incrível expansão. Todas as classes sociais ascenderam. À luz deste boom, faz algum sentido acreditar, como faz o diretor Bong, que aqueles moradores de Seul (que são fisicamente bonitos, dotados de grande "esperteza urbana", e fluentes em inglês e com bons conhecimentos de culinária, de artes e de automóveis) só conseguem emprego como dobradores de caixa de pizza? A pergunta é meramente retórica.

E, caso o leitor ainda não esteja satisfeito, a realidade de que a Coreia do Sul é um dos maiores importadores do mundo (#9 entre os países) deveria ser levada em conta. Indivíduos só conseguem importar coisas se produzirem o bastante para o resto do mundo. E, dado que a Coreia é o nono maior importador do mundo, então temos que, por definição, sua população não apenas está empregada, como também está empregada em indústrias extremamente bem-remuneradas (eis a evolução das exportações da Coreia do Sul).

No final, tudo piora

Após tudo isso, a narrativa de Parasita assume um formato bizarro e o filme passa a retratar os pobres como possuidores de um odor atípico; um odor que ofende as mais refinadas sensibilidades dos ricos (com os Parks sendo expostos ao mau-cheiroso Pai Kim). Isso leva a uma guinada bizarra neste extremamente superestimado filme, culminando em uma sequência sanguinolenta, típica de um filme slasher — algo que irá certamente ofender aqueles que vão em busca de filmes menos comerciais exatamente para evitar sanguinolência.

É claro que, no final, a principal contradição de Parasita é a narrativa geral do filme, que se concentra em insuflar o ódio dos pobres pelos maldosos, arrogantes e incrivelmente estúpidos ricos. Mas essa é também uma postura que não resiste à mais mínima checagem da realidade. Por exemplo, por que a super-rica e densa Seul é um ímã para tantas pessoas que não são ricas? Igualmente, por que as cidades repletas de bilionários, como Nova York, Los Angeles, São Paulo, Paris, Frankfurt etc. atraem muito mais pessoas em busca de melhora de vida do que cidades mais pobres?

Os mais pobres, em suma, vão aonde os ricos estão. Eles sabem que é onde os ricos estão que há mais oportunidades de prosperidade. Embora cineastas fartamente financiados com o dinheiro dos ricos gostariam de nos fazer acreditar que os não-ricos desprezam os ricos, o padrão migratório mundial indica uma realidade oposta e muito mais acurada: onde os ricos estão é onde há as maiores oportunidades para aqueles que não são ricos prosperarem.

Para concluir, o que é realmente crucial é que a mensagem de Parasita não é a única coisa horrenda sobre o filme. O filme também é aborrecidamente longo, com pelo menos 30 minutos a mais do que deveria ter, e com um um final que é ainda mais implausível do que toda a estória de luta de classes que precede o banho de sangue final.

Parasita não merece nem sequer a estatueta de melhor filme estrangeiro, quanto mais de melhor filme. Ou mesmo qualquer tipo de premiação. Que ele tenha vencido várias categorias apenas mostra como a politicagem, a ideologia e as mensagens políticas dentro de filmes passaram a substituir a genuína qualidade cinematográfica como critério definitivo para críticos e membros da Academia de Hollywood.


27 de abril de 2021
John Tamny


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