"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O BRASIL NÃO É O PAIS MARAVILHA DA ALICE

Economia oscila entre a estagnação e a retração, mas Dilma acredita que o Brasil é o país de Alice

crise_22À beira do penhasco – Quando o ucho.info afirma que a economia brasileira foi implodida na última década pelos desgovernos do Partido dos Trabalhadores, a esquerda verde-loura entra em polvorosa, não sem antes defender o indefensável.

Temida por toda a população, a inflação oficial se aproxima do teto da meta (6,5%) fixada pelo governo federal, enquanto a real já começa a deixar para trás a casa de 20% ao ano. O que corrói o salário do trabalhador.

O estrago promovido pelos palacianos é tão grande, que a conta não fecha. Para provar que o Brasil passa por um grave processo de desindustrialização e ostenta uma carga tributária criminosa, pois é pífia a contrapartida dos impostos pagos pelos contribuintes, as importações têm superado as exportações.
O déficit da balança comercial saltou para US$ 6,7 bilhões em 2014, alta de 46% ante os (-) US$ 4,6 bilhões do mesmo período de 2013. O saldo atual é resultado de exportações de US$ 26,9 bilhões e importações de US$ 33,6 bilhões.

Na terceira semana de fevereiro, a balança registrou déficit de US$ 646 milhões, elevando o saldo negativo do mês para US$ 2,7 bilhões. O fraco resultado da balança comercial brasileira neste início de ano é explicado pela queda da média diária das exportações e o aumento das importações.
Com 37 dias úteis até agora – 6 dias a mais que no mesmo período de 2013 – as vendas externas registram uma média diária de US$ 727,2 milhões, retração de 3,7% em relação ao mesmo período do ano passado.

O cenário de preocupação torna-se ainda pior com a informação de que a receita do governo federal começou 2014 com resultados abaixo do necessário para o cumprimento das metas oficiais. Ou seja, o anunciado corte nos gastos públicos para o cumprimento do superávit primário pode ficar na promessa.

Em janeiro, a arrecadação de impostos e outros tributos somou R$ 123,7 bilhões, expansão de 0,9% acima da inflação sobre janeiro de 2013. O montante é um recorde histórico, mas a taxa de crescimento é ficou aquém das expectativas da área econômica do governo, que depende de receita ainda maior para compensar a elevação das despesas em ano eleitoral.

Na última semana, quando anunciou as metas fiscais para 2014, o governo petista de Dilma Vana Rousseff projetou aumento de 3,5% acima da inflação para a arrecadação tributária. Um devaneio dos integrantes de um governo de incompetentes, pois trata-se de taxa elevada para uma economia cambaleante que oscila entre a estagnação e a retração. Uma radiografia da arrecadação mostra que o País está doente, pois tributos importantes têm registrado queda da arrecadação.

26 de fevereiro de 2014
ucho.info

MENSALEIROS COMEÇAM A ESCAPAR DA CONDENAÇÃO POR FORMAÇÃO DE QUADRILHA

 

 
Brasília – Após intenso bate-boca entre ministros, o Supremo Tribunal Federal (STF) encerrou a sessão de julgamento dos recursos do mensalão e, até o momento, quatro ministros votaram a favor para absolver oito condenados pelo crime de formação de quadrilha. Apenas o ministro Luiz Fux, relator dos recursos, votou por manter as condenações determinadas pela Corte.

O julgamento será retomado amanhã às 10 horas. Votou pela derrubada da condenação de formação de quadrilha o ministro Luís Roberto Barroso, mas já anteciparam seus votos Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli e Cármen Lúcia.

Com mais dois votos, provavelmente de Teori Zavascki e Rosa Weber, essa punição será derrubada para oito condenados e, como consequência, o ex-ministro José Dirceu e o ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares, ganharão direito a cumprir pena em regime semiaberto, o que na prática permite-lhes trabalhar fora da cadeia em Brasília.

A sessão transcorria tranquilamente durante o longo voto do ministro Luiz Fux. O relator votou por manter a punição por formação de quadrilha dos oito condenados.

DIVERGÊNCIA

Contudo, o ministro Luís Roberto Barroso abriu a divergência e votou pela rejeição da condenação. Segundo ele, não houve crime de formação de quadrilha, mas sim coautoria dos envolvidos no escândalo do mensalão. Durante seu voto, numa posição radical, ele chegou a defender a extinção das punições porque o crime contra os oito condenados prescreveu.

Barroso afirmou ainda que houve “desproporção” e “irrazoabilidade” na aplicação das penas no julgamento realizado em 2012. “Não se justifica o emprego do tipo penal de quadrilha como um adicional punitivo, quase uma correção monetária dos outros crimes, cujas penas não seriam da intensidade desejada pelo aplicador”, criticou.

O ministro disse que, se no caso de Dirceu e dos demais condenados a pena de formação de quadrilha tivesse o mesmo padrão das outras punições, os crimes estariam prescritos. No caso do crime de formação de quadrilha, a pretensão de se punir seria extinta em dois anos no julgamento do processo do mensalão.

BATE-BOCAS

Foi aí que começaram os bate-bocas. O presidente do Supremo e relator original da ação, Joaquim Barbosa, interveio no meio do voto de Barroso. “Em que dispositivo do Código Penal está esses dispositivos tarifários?”, questionou. “Eu pergunto à Vossa Excelência onde está no Código Penal que um determinado pena tem que aplicar um aumento de 20%, 40% e 50%”, criticou.

Barroso continuou o voto e citou exemplos de outros julgamentos semelhantes em que o Supremo não teria, segundo ele, aplicado penas tão discrepantes para condenações de políticos. Mesmo assim, ele destacou que o julgamento do mensalão quebrava a tradição de não se punir políticos no pais. Barbosa mais uma vez interferiu.

“O que não está ocorrendo com a contribuição de Vossa Excelência”, criticou. “É muito simples dizer que o sistema brasileiro é corrupto, que está na base do funcionamento das instituições e, quando se tem a oportunidade de usar o sistema política para coibir essas nódoas, se parte para consolidação daquilo que se aponta (como) destoante”, criticou.

Ao fim do voto de Barroso, Barbosa mais uma vez atacou e disse que o voto do colega era “político” e insinuou que ele chegou à Corte com o voto “pronto”. O bate-boca se instalou no plenário e Lewandowski, Toffoli e Cármen Lúcia afirmaram que iriam acompanhar a posição de Barroso. Logo em seguida, o presidente do Supremo encerrou abruptamente a sessão.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – É incrível! Não houve formação de quadrilha no mensalão. O golpe foi armado por osmose ou gestação espontânea. E ainda chamam isso de Justiça. (C.N.)

PEDIDO DE EXTRADIÇÃO DE PIZZOLATO É ENVIADO À ITÁLIA

 

 

 
O Ministério das Relações Exteriores enviou hoje (26) à Itália o pedido de extradição do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, condenado na Ação Penal 470, o processo do mensalão, que está preso naquele país.
A documentação necessária ao pedido de extradição foi entregue ontem (25) pelo Ministério da Justiça ao Itamaraty, que é responsável pelo transporte do pedido.

O pedido para que Pizzolato retorne ao Brasil para cumprir a pena a que foi condenado do processo do mensalão foi encaminhado inicialmente à embaixada brasileira na Itália. De lá, será repassada ao Ministério das Relações Exteriores italiano, cumprindo os protocolos diplomáticos. Só quando chegar à Justiça italiana é que o pedido será analisado.

As 153 páginas do documento foram preparadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que pagou R$ 8 mil a empresa para fazer a versão em italiano. Em seu pedido, a PGR reconhece que, como o ex-diretor do Banco do Brasil tem dupla nacionalidade, o governo da Itália não tem obrigação de extraditá-lo. A procuradoria diz, porém, que a possibilidade de extradição é juridicamente viável.

Os documentos chegaram segunda-feira (24) ao Ministério da Justiça, onde tramitaram por apenas um dia. Condenado a 12 anos e sete meses de prisão por lavagem de dinheiro e peculato na Ação Penal 470, Henrique Pizzolato estava foragido desde novembro de 2013 e foi preso no início deste mês em Maranello, na Itália.

REFLEXÕES SOBRE A CRIMINALIDADE E O PODER JUDICIÁRIO

 

 



Aproveito o espaço para discordar de alguns “pensadores” e “intelectuais” que acreditam que, ao se libertar (ou não se prender) um bandido pobre, se estará fazendo justiça social pelo fato de o bandido rico não ficar preso no Brasil. Quanta alienação!

O que esse pessoal tem que fazer é lutar pelo fim da impunidade em todos os níveis, lutar pela prisão do bandido rico e para que ele fique preso ao lado do bandido pobre, já preso, e não querer libertar este! Afinal, bandido é bandido, independente da classe social: enquanto uns assaltam nas paradas de ônibus, outros furtam a Previdência e o BNDES.

No entanto, o fato do bandido pobre “roubar” menos não significa que ele seja mais honesto do que o outro. Apenas não teve oportunidade, pois, se tivesse, fraudaria a Previdência da mesma forma. Ser fosse eleito deputado, com certeza seria um deputado ladrão. Da mesma forma, se o bandido rico perder a sua fortuna, provavelmente agirá tal qual o seu semelhante de caráter, parasita do andar de baixo!

Como insetos em uma árvore, cada um atua no seu extrato social; enquanto uns cortam as folhas, outros perfuram o caule e outros sugam a raiz, mas todos são pragas que devem ser combatidas com o mesmo rigor, com a mesma seriedade.

ESTEREÓTIPOS

É preciso acabar com essa imagem que todo homem nasce santo, que todo pobre é bonzinho e que todo o rico é mau e, de preferência, coronel, latifundiário e escravagista.

 É preciso saber que o bandido pobre furtou apenas o toca-CDs e não levou o carro inteiro para o desmanche porque não coube no bolso e porque era mais difícil, e não por piedade do proprietário!

É preciso saber que o assaltante que roubou apenas o colar de ouro da turista não pegou todos os seus pertences por falta de oportunidade e não por ter ficado com a “consciência pesada”. Talvez, se lhe fossem dados meios de arrombar o cofre da Caixa Econômica, com certeza não sairia de lá só com um anel de ouro!

Soltar o bandido pobre porque o Estado não consegue prender o bandido rico é trilhar o caminho inverso da civilidade e caminhar rumo à barbárie. Ainda mais em um país sem justiça e onde o Poder Judiciário não passa de um cabide de empregos para uma linhagem de faraós.

26 de fevereiro de 2014
Francisco Vieira

O "ESCÂNDALO" DAS CAMISETAS

 

Nosso governo acaba de escorregar numa imensa casca de banana. Talvez tenha sido o «politicamente correto» aplicado com exagerado rigor.
 
No entanto, pensando mais a fundo, pode-se até imaginar que tenha sido manobra de marketing para redirecionar holofotes. Quanto mais eles estiverem voltados para assuntos sem importância, menos risco haverá de focalizarem descalabros governamentais.
 
Falo das camisetas postas à venda por uma grande firma internacional de artigos esportivos, camisetas essas que o Planalto, num surto de pudicícia, considerou ofensivas.
 
O presente caso, como tantos outros, é daqueles que, quanto mais se mexe, mais fedem. Se nosso governo tivesse mantido seu sangue frio, as camisetas ― de estampa mais idiota que ofensiva ― teriam passado despercebidas.
 
No entanto, os peritos em comunicação que assessoram o governo viram lá uma excelente oportunidade para desviar, durante o tempo que for possível, o foco das atenções.
 
Camiseta da discórdia
Camiseta da discórdia – clique para ler artigo
 
A fórmula é simples. Dá-se ao mundo conhecimento do assunto. O casto governo brasileiro e sua pudibunda presidente mostram-se escandalizados e profundamente ofendidos.
Em seguida, os comentários planetários vão-se dividir entre os que apoiam a indignação do Brasil e os que não lhe dão importância.
Enquanto se engalfinham os prós e os contras, o Planalto goza de uns dois ou três dias de alívio. Os problemas maiores continuam existindo, mas a vergonha da vez é atirada sobre terceiros. A pressão se arrefece.
 
O estratagema deu certo. Os jornais falados da rádio francesa de informação 24 horas por dia abriram o noticiário desta quinta-feira com a notícia da indignação de dona Dilma. Mencionaram até um vago ministério de defesa dos desprotegidos, algo assim. De dar dó no coração.
 
Essa manobra põe o Planalto na situação de vítima. Convenhamos, é sempre posição simpática. Melhor ser mártir que ser apontado como autoritário, repressor, intervencionista.
 
Só tem uma coisa: esqueceram de combinar com os russos. Adidas, a multinacional de origem alemã que fabrica as maliciosas camisetas, ganhou publicidade planetária sem desembolsar um centavo.
 
Os dirigentes da portentosa empresa bem que podiam usar o fruto dessa alavancada em suas vendas para mostrar agradecimento ao governo brasileiro.
 
Vaquinhas para prisioneiros e doações a partidos estão na moda. Custam pouco e podem trazer bom retorno.
 
26 de fevereiro de 2014
José Horta Manzano

BAHIA: OBRAS DO PAC ANUNCIADAS HÁ 9 ANOS NÃO SAÍRAM DO PAPEL

 


O deputado estadual João Carlos Bacelar (PTN) denunciou hoje como eleitoreiras as obras do PAC I na Baixa da Soronha, assinadas há nove anos. Até agora as obras não saíram do papel e a licitação ainda está em fase de conclusão.

“Tínhamos denunciado as obras do PAC como eleitoreiras e estamos comprovando isso dia após dia. Falamos do PAC da Nova Esperança, o PAC da transposição do São Francisco, o PAC da mobilidade e agora temos esse novo caso da Baixa da Soronha em Itapuã, assinado há nove anos, para obras de macrodrenagem e urbanização integrada, nunca saiu do papel”, protestou Bacelar.

Segundo Bacelar, o projeto foi lançado em 2005 como parte das obras do PAC I, de acordo com contrato 129/09, sob a responsabilidade da Conder. “A própria Conder anuncia que a licitação de um contrato assinado em 2005, foi realizada em novembro de 2013, num R$ 14 milhões.
E o pior, mesmo com todo esse atraso, a licitação sequer foi concluída e ainda vai ser encaminhada para aprovação da Caixa Econômica Federal, financiador do empreendimento.
Só após avaliação da CEF é que os trabalhos serão iniciados, o que deve ocorrer às vésperas das eleições gerais”, provocou Bacelar.

“O povo está cansado de ser enganado. Esses projetos são anunciados às vésperas das eleições e não saem do papel. O povo está morando no lixo, no esgoto, com crianças sofrendo todo tipo de doenças. As casas não contam com acesso dos carros de entrega, não podem realizar coleta de lixo e nem tem esgotamento sanitário.
Mas o PT entra nessas áreas carentes e promete tudo, de esgoto a uma casa nova. Promete mas não entrega o que é um absurdo. Mais uma vez vou denunciar o caso ao Ministério Público, Cortes de Contas e demais órgãos fiscalizadores a fim de investigar o que está acontecendo. O trabalhador é que não pode pagar por mais esse desperdício e desrespeito”, concluiu Bacelar.

26 de fevereiro de 2014
 

E ASSIM SE PASSARAM 20 ANOS

O pré-candidato a presidente pelo maior partido de oposição, o tucano Aécio Neves, participou ontem de uma cerimônia pelos 20 anos do Plano Real, dentro do Senado, ao lado de Fernando Henrique Cardoso e sob o comando de Renan Calheiros.
 
Hoje, a presidente e pré-candidata à reeleição, Dilma Rousseff, deve estar em Minas Gerais. Entregará máquinas a prefeitos de 209 municípios.
 
Comparados os eventos, quem ganha mais votos? Dilma ou Aécio? A resposta pode ser encontrada numa frase do ponderado discurso de FHC: "Minha geração já passou".
 
País sem muita memória, o Brasil certamente deve celebrar um feito tão relevante como foi a estabilização da sua moeda. Ainda assim, é fascinante como o PSDB sempre tenha escolhido uma narrativa truncada para enaltecer o Plano Real.
 
Entre os políticos tucanos presentes à cerimônia de ontem, coube a FHC, aos 82 anos, dar o tom mais moderno: "O Brasil é um país novo, precisa sentir ventos novos".
 
O ex-presidente fez um relato detalhado de como foram aqueles dias turbulentos no final de 1993 e início de 1994. Não só por causa do Plano Real em gestação, mas porque a dívida externa brasileira estava em renegociação, outra história épica e que poucos hoje conhecem.
 
Quis a política, a arrogância do PSDB e sua incapacidade de articulação que tudo ficasse num escaninho da história, sem uso eleitoral. FHC foi rebarbado nas campanhas de 2002, 2006 e 2010. Está sendo resgatado agora. Mas já se passaram 20 anos do lançamento do Plano Real.
 
Quando o ex-presidente saía do Senado, falamos brevemente. Quis saber se ele estava assistindo ao seriado "House of Cards", uma aula intensiva de política. Sim, e está gostando. "A trama é muito boa", disse. Mais tucanos talvez devessem gastar um tempo para assistir a esse programa. Até porque o PT já aprendeu muito bem como chegar ao poder.

26 de fevereiro de 2014
Fernando Rodrigues, Folha de S. Paulo

BRASIL, UE E MERCOSUL ATOLADO

A reunião de cúpula entre Brasil e União Europeia (UE) resultou em muita retórica, muita promessa de cooperação e nenhum avanço concreto no assunto econômico mais importante para os dois lados, um acordo de livre-comércio. A presidente Dilma Rousseff reafirmou o interesse brasileiro nesse projeto. O assunto foi mencionado como tema de especial importância no comunicado conjunto, mas, em todos os momentos, o diálogo foi mantido apenas no plano das boas intenções. O governo brasileiro continua amarrado ao Mercosul e forçado a seguir o ritmo do bloco, integrado também por Argentina, Paraguai, Uruguai e, desde o ano passado, pela conturbada e semifalida Venezuela. O ritmo do Mercosul continua ditado, como tem sido há muitos anos, pelos desarranjos políticos e econômicos do segundo maior sócio. Além de impedir compromissos importantes de integração comercial, com troca de concessões, o governo argentino tem dificultado, com barreiras protecionistas e restrições cambiais, as trocas no interior do bloco.
 
Do lado do Mercosul, as negociações com a União Europeia têm sido emperradas pela resistência da Argentina à apresentação de uma lista de concessões, item essencial de qualquer acordo comercial. Segundo autoridades brasileiras, essa lista será finalmente conhecida no dia 7 de março. Se os argentinos tiverem observado os critérios mínimos, haverá condições para a elaboração de um pacote conjunto. Se os dois lados atenderem ao mínimo desejado, os negociadores poderão iniciar a negociação para valer, comparando as ofertas, cobrando maiores vantagens e pechinchando. Quando isso ocorrer, a negociação terá sido finalmente destravada.
 
Mas seria precipitado qualquer otimismo antes da reunião do Mercosul prevista para o começo de março. Se os argentinos deixarem de apresentar sua lista de ofertas, o melhor será deixá-los para trás e avançar nas negociações sem a Argentina, disse em Bruxelas a presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, senadora Katia Abreu. De toda forma, será preciso incluir a Argentina, mais tarde, no acordo em elaboração.
 
Por enquanto, o governo brasileiro tem de se preocupar até mesmo com as perspectivas do comércio no interior do bloco. A crise argentina e a política de restrições cambiais imposta pela presidente Cristina Kirchner devem resultar em novas perdas para o Brasil, segundo projeções da Confederação Nacional da Indústria e da Associação de Comércio Exterior do Brasil. As estimativas indicam redução de US$ 3 bilhões das exportações brasileiras para a Argentina. A crise e as limitações cambiais da Venezuela podem custar mais US$ 1 bilhão.
 
Não há, neste momento, perspectiva de solução dos problemas de nenhum desses dois parceiros. Os dois governos - o argentino e o venezuelano - conservam as desastrosas políticas econômicas escolhidas há vários anos. Mais que isso: tendem a enfrentar os problemas com mais intervencionismo e mais medidas autoritárias, em vez de iniciar os ajustes indicados pelo bom senso.
 
"Num momento em que a Europa está avançando em tantos acordos comerciais, seria uma pena não termos um com nossos amigos do Mercosul", disse em Bruxelas o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Os políticos e empresários do Mercosul deveriam ver nas entrelinhas dessa declaração mais um sinal de perigo. Enquanto as grandes potências negociam acordos, o Mercosul continua fora do grande jogo comercial.
 
Mas a presidente Dilma Rousseff mostra otimismo. Segundo ela, na Europa e no Mercosul há hoje consciência da importância do acordo entre os blocos. E antes? A resposta, em puro dilmês, é um desafio aos decifradores. "Então, essa consciência, ela permite que nós tenhamos nesse horizonte a possibilidade real e concreta de fazer o acordo, que não havia de uma forma tão clara nos períodos anteriores, seja porque eram períodos de expansão do ciclo, seja porque nós não tínhamos estado tão diante do fato e dessa consciência que o desencontro não é bom para nenhuma das partes."

26 de fevereiro de 2014
O Estado de S.Paulo

O CORDÃO DOS CHANTAGISTAS

As notórias dificuldades da presidente Dilma Rousseff com o que se supunha que fosse a base parlamentar do governo acabam de subir uma oitava com a decisão dos líderes partidários nominalmente alinhados com o Planalto de criar um "blocão" de oito legendas. Conduzido pelo PMDB e nele incluído o oposicionista Solidariedade, o cordão dos chantagistas - e é disso que se trata - poderá reunir mais de 250 deputados, quase a metade da Casa de 513 membros.
 
É um contingente respeitável - se é que cabe o adjetivo, tendo em vista o enredo e os protagonistas - para fazer a presidente levar a sério os malignos planos de vingança dos seus irados criadores. Eles bufam porque a presidente não os trata com o respeito e a consideração de que se acham merecedores, o que se traduziria sobretudo em agraciá-los com os cargos e as verbas a que entendem ter direito natural - e abarcando, nestes tempos de reforma pré-eleitoral do Gabinete, mais e melhores vagas na Esplanada dos Ministérios.
 
A se firmar, o bloco dos frustrados poderá alardear força suficiente para romper o bloqueio imposto pelo governo à apreciação, na Câmara, de propostas perdulárias que, por isso mesmo, têm a vantagem de agradar às mais diversas clientelas do Congresso, até no setor público. Mesmo quando não são de sua própria lavra, mas em má hora confeccionadas no Executivo, os políticos cuidam pavlovianamente de piorá-las. É o caso do projeto que muda do IGP-DI para a taxa Selic o indexador das dívidas de Estados e municípios com a União.
 
A iniciativa foi uma manobra descarada para facilitar a vida do prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, que alega ter pouco dinheiro para fazer da cidade a Xangai do lado de cá do mundo, como apregoa, napoleonicamente. Com as contas federais cada vez mais turvas, a ameaça de rebaixamento do Brasil no ranking das agências internacionais de avaliação de crédito e a maré montante de descontentamento do empresariado, Dilma caiu em si e mandou segurar a tramitação da descabida bondade.
 
Mas a tigrada, para a qual tanto faz como tanto fez o novo programa fiscal com que o governo pretende desinchar a face que assusta os investidores quando a veem no retrato do Brasil, foi além da barbeiragem inicial. Enfiou no texto a aplicação retroativa do novo indexador. Já não bastasse o projeto planaltino transgredir a Lei de Responsabilidade Fiscal, a esbórnia estaria à altura de desfilar no sambódromo. O governo fez saber que, diante do risco, retirará de vez a proposta - o que devia fazer de todo modo.
 
Já diante da falange da gastança, o Planalto gastou as suas reservas de panos quentes para acalmar os zangados. Anunciou o envio de uma força-tarefa de 12 ministros - naturalmente, das pastas mais bem dotadas em matéria de recursos para custear emendas parlamentares. Eles darão plantão no gabinete da liderança do governo na Câmara, revezando-se diante de um confessionário sui generis. Os desgarrados do dilmismo aparecerão não para confessar pecados, mas para cobrar benesses da autoridade, na expectativa de voltar para os seus redutos muito melhor do que perdoados: premiados.
 
Numa reunião com o pessoal de cenho franzido, os ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, e o líder governista Arlindo Chinaglia, aspergiram outra dose de boa vontade ao dar aos interlocutores a oportunidade de apresentar uma lista de projetos prioritários a serem votados neste semestre - o único período legislativo útil do ano. Mas haverá prioridades e prioridades: as que não aumentem as despesas do governo serão privilegiadas. "Não podemos esquecer que todos os partidos assinaram o pacto de responsabilidade fiscal", lembrou Ideli. A ver.
 
Resta a ganância do PMDB e de outros menos votados pelos Ministérios a vagar - sempre aquém das suas ambições. Com a agravante da resistência da presidente a levar à Esplanada candidatos de quem não gosta - mesmo em nome da reeleição. Quem sabe na conversa marcada para amanhã, Lula lhe mostre o caminho das pedras.

26 de fevereiro de 2014
Editorial O Estado de S. Paulo

JOAQUIM BARBOSA CRITICA PRESENÇA DE ADVOGADOS NA JUSTIÇA ELEITORAL



O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Joaquim Barbosa, criticou nesta terça-feira a composição e funcionamento da Justiça eleitoral brasileira. Em sessão do CNJ, ele lembrou que parte das vagas dos tribunais eleitorais são preenchidas por advogados.

- Há coisa mais absurda que o advogado ter seu escritório durante o dia e à noite se transformar em ministro? Ele cuida de seus clientes durante o dia, tem seus honorários, e à noite ele se transforma em juiz. Ele julga às vezes causas que têm interesses entrecortados e de partes sobre cujos interesses ele vai tomar decisões à noite. Estou falando da Justiça eleitoral, que nada mais é do que isso. E ela conta com quase um terço dos seus membros que são advogados - disse Barbosa, cujas críticas à Justiça eleitoral são recorrentes. 
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem sete ministros, dos quais três são oriundos do STF, dois do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e dois da advocacia.Já os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs), que funcionam nas 27 unidades da federação, são compostos por dois desembargadores do Tribunal de Justiça, dois juízes estaduais, um juiz federal e dois advogados. 


As críticas de Barbosa foram feitas durante a análise de procedimento requerido pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) contra um ato do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), que abrange os estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.

O ato formalizou a cessão de uma procuradora da fazenda nacional para o gabinete de um juiz federal. Para a OAB, a procuradora não teria isenção suficiente para tocar o trabalho no gabinete.


Barbosa discordou:
- É no mínimo um menoscabo (menosprezo) da inteligência da magistratura, no mínimo. O juiz é um débil mental, ele não toma decisões. Ele é comandado pelo seu assessor, não é? - ironizou Barbosa, para em seguida falar do que entende ser um absurdo maior: - Agora, se fôssemos levar a sério essa prerrogativa de acabar com essas incongruências que existem no Judiciário brasileiro, as primeiras que deveríamos extinguir são as que beneficiam advogados. Por maioria, o CNJ rejeitou o pedido da OAB.
 

O Globo
ANDRÉ DE SOUZA
(EMAIL)

FAKE OU FAKE DO FAKE? *

1

Infelizmente, talvez tenhamos caído no conto do vigário. Nada que não possa ser corrigido com uma errata, o que fazemos agora. A matéria sobre a copa, que dissemos que saiu na revista France Football, mesmo que todos os pontos levantados sejam reais, é um HOAX, um fake.
                
Como nosso parceiro JBF publicou um texto mais alentado, remeto nossos leitores para lá:

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

(*) Falso ou Falso sobre Falso

Em guerras, a primeira vítima é sempre a verdade. Analisei com cuidado  a denúncia de ser fake a notícia que reproduzimos.
Dentro do desmentido, encontrei algumas afirmações tendenciosas, e já não sei se está certo quem diz que a primeira notícia mentia ou se é a segunda que mente, ou se ambas são falsas. 
Quer dizer: pode ser contrainformação ou contracontrainformação… fique registrado que eu não afirmo mais merda nenhuma.
Daqui para a frente noticiarei assim: o jornal X ESCREVEU QUE… ou: AFIRMA O COMENTARISTA Y QUE… ou ainda: o site W afirma que o jornal M escreveu…. e o leitor acredite no que quiser.
O que sei é que EU ACHO que vai haver vexame de dar nó na tromba do elefante. Na copa e na cozinha da Má Dama…
26 de fevereiro de 2014
Anhanguera

ARQUIVO VIVO

Não gosto do Alberto Goldman. Nunca teria meu voto. Um comunista de adesão, daqueles que vogam ao sabor das ondas do governo no poder. Se é esquerda, tudo bem. Se não é, não custa aderir. Tipo Sir Ney. O que interessa é o pudê. Mas o artigo sobre o PizzaLato, apesar disso, é interessante, e acabou sendo publicado no site do PSDB.

Vamos ver o que ele fala. Meu único pitaco seria que o Pizza correria riscos por ser um arquivo vivo. Mas como ele não é tolo nem nada, ninguém sabe onde está o din din que foi levado para fora. Só ele. Então não vão se arriscar a livrar-se da baleia, com risco certo de perder o espermacete(*) acumulado. E a contrainformação petralha na internet é pesada. Vejam a ilustração…

A PROPAGANDA PETRALHA NA INTERNET
A PROPAGANDA PETRALHA NA INTERNET

“Henrique Pizzolato não é um bagrinho. É peixe pra mais de metro, um verdadeiro arquivo vivo. Começou a carreira como funcionário do Banco do Brasil (BB), foi presidente do Sindicato dos Bancários de Toledo (Paraná) e depois presidente da Central Única do Trabalho (CUT) no Paraná.

Foi candidato a governador do Paraná, pelo PT.  Elegeu-se em 1992 como representante dos funcionários do BB no Conselho de Administração do Banco.  Dali foi para a Previ e, com a vitória de Lula em 2002, tornou-se diretor de marketing e comunicação do Banco do Brasil. Durante o período eleitoral trabalhou com Delúbio Soares, tesoureiro do PT, dando suporte à campanha de Lula.

 Pizzolato foi condenado pelo STF no processo do mensalão por ter sido responsável por contratar o publicitário Marcos Valério com o dinheiro repassado pelo Fundo VisaNet, administrado pelo BB,  para promover a compra de lealdade dos partidos políticos que sustentavam o presidente Lula no Congresso Nacional.

Até então Pizzolato parecia ser apenas um alto funcionário do BB, petista de carteirinha, desprovido de escrúpulos, a serviço da manutenção do PT no poder, se possível, ad aeternum.  
Mas parece que é muito mais que isso.  Hoje tem se conhecimento de que desde que a CPI sobre o caso foi se desenrolando no Congresso, descobrindo os detalhes do maior escândalo de corrupção política de que se teve notícia no Brasil, Pizzolato já vinha se preparando para o que desse e viesse. Assumiu, há vários anos, uma dupla personalidade. 

Além de Henrique, também era Celso, um irmão falecido, votando e apresentando declaração de imposto de renda pelos dois, ele e o morto.   Sua fuga para o exterior – recém capturado na Itália – se deu usando o nome do irmão.
Começam a aparecer, agora, novos elementos: Pizzolato abriu, em nome do irmão, várias contas  e comprou imóveis no exterior. 
Vocês podem imaginar o que ainda vem por aí. De onde vem tanto dinheiro?  É só dele ou ele é o guarda de recursos de outros?  Se existem outros, quem são? É só o começo.  Muita água ainda vai passar debaixo da ponte.
Pesquisas again


 Fica claro para quem quer ver.  Um governo que um ano e pouco antes tinha uma avaliação positiva acima de 60%, que perdeu mais da metade do índice positivo durante as manifestações de junho do ano passado e só conseguiu recuperar 20 a 25% do que havia perdido, não pode estar tranquilo quanto ao seu futuro eleitoral.
Nas pesquisas de “intenção de voto”, expressão absolutamente inadequada quando se trata de antecedência de 8 meses Dilma,  confrontada com candidatos ainda desconhecidos, com uma brutal exposição à mídia e distribuindo pão, circo e máquinas de terraplenagem, “ganha” no primeiro turno. 

Quando confrontada com outros nomes conhecidos, que não são candidatos, seu resultado é outro. Garanto-lhes, ela não está tranquila. 
Muito menos o PT que já não esconde: pensa seriamente na volta, imediata, do seu chefe maior, o Lula. Sejamos justos, é natural: ele é o responsável maior – o enrolador maior da República -  pelas dificuldades econômicas pelas quais passa o país.  Que responda por elas”.

http://www.psdb.org.br/henrique-pizzolato-um-arquivo-vivo-pesquisas-por-alberto-goldman/

(*) Espermacete é produto que era retirado da baleia para fazer velas, etc.
26 de fevereiro de 2014
Magu
in Giulio Sanmartini

CORONELATO

Vejo notícia que o MPF – Ministério Público Federal triplicou a investigação dos empréstimos do Banco do Nordeste sob suspeita de terem sido feitos com falta de garantias.
O volume passou de R$ 1.2 bilhão para R$ 3.4 bilhões. É dinheiro para cesto da gávea.
Os procuradores apuram o favorecimento político na concessão desses financiamentos.

 Ora, direis! Isso não é novidade. Se apurarem a fundo, vão descobrir (mas já sabem), que a estrutura do coronelato do Norte e Nordeste não mudou porra nenhuma desde os tempos de Lampião. Os empréstimos antigos favorecidos, por exemplo, a Jucá e Barbalho, sem garantias, nem devem ter sido devolvidos. Alguém aí já ouviu falar?

coronel

 Vi também que os filhos de Romero Jucá e Helder Barbalho estão sendo preparados para sucedê-los, como já ocorreu com o Lobinho filho do Lobão, por meio do império de concessões de mídia com que o governo os favorece. Pois é. Enquanto a estrutura política continuar dando a maioria no Congresso aos políticos dessa região, onde um voto comum de nortista e nordestino vale mais do que o dos outros brasileiros, essa situação não mudará.
Na última vez que li um estudo sobre o valor do voto, por causa da estrutura de equivalência de representação no Congresso, um voto de paraense valia 8 vezes mais que o voto de um paulista.

26 de fevereiro de 2014
Magu
in Giulio Sanmartini

A DEMANDA REPRIMIDA DO CRIME

Nós sempre pensamos que as pessoas vão para o crime porque não conseguem um trabalho legal. Mas a chance maior em um país como o Brasil é que as pessoas vão para mercado de trabalho legal porque não conseguem uma vaga no crime. 


Crime 1

Sim, o que eu disse é chocante. Mas se você acompanhar meu raciocínio verá que todos os indícios apontam nesta direção. 
Caso 1
Vamos supor que você seja, sei lá, padeiro e confeiteiro há dez anos. Hoje de manhã cedo você chegou em seu local de trabalho e recebeu a notícia de que a padaria faliu. Você voltou para casa preocupado, porque o dinheiro que tem de reserva numa gaveta não é suficiente nem para cobrir o próximo aluguel. E tratou de já no primeiro dias procurar outra padaria onde trabalhar. 

Dois meses depois, trinta e poucos currículos distribuídos depois, você está sem um centavo no bolso, já vendeu a sua bicicleta para um amigo que prometeu revendê-la de volta pelo mesmo preço se você quiser e o seu celular já está pai-de-santo, só recebe. 

Você vai pegar uma arma, sair caminhando por algum bairro pouco movimentado, abordar um desconhecido e “perdeu, perdeu, cala a boca, me passa a carteira, o celular e o relógio e sai fora, vamos, vamos, vamos!”? 
Acho que não, né? 
Mas vamos supor que fosse o caso. 

Quanto tempo você acha que conseguiria repetir o mesmo golpe antes de encontrar pela frente uma vítima que reaja, um policial à paisana, uma viatura que ia passando por perto e foi informada ou os criminosos que já dominam a região? 

Crime 2

As cidades já estão completamente loteadas pelo crime organizado. Existem mapas de posse de território e pontos de crime estabelecidos. Ladrões, receptadores, traficantes e trambiqueiros controlam e defendem pelas armas estes territórios. Nem mesmo a prostituição de rua trabalha sem pagar proteção ao dono da quadra, sejam prostitutas, michês ou travestis. Muito menos o crime organizado haveria de permitir a presença de “empreendedores independentes” explorando a mesma clientela. 
Você teria sorte se fosse mandado sumir do mapa ao invés de ser sumido do mapa.

Isso acontece porque o mercado do crime já está saturado. Não é que não vá aumentar – vai – mas todo aumento nas vagas do crime pressupõe uma pressão de demanda por território e por defesa de território – uma competição que no caso do crime só pode ser resolvida pela violência, uma vez que o sistema judiciário nacional é legalmente incompetente para dirimir conflitos de natureza ilegal (você não pode ir ao PROCON reclamar que o traficante lhe vendeu chá de macela ao invés de maconha e exigir a substituição da mercadoria ou a devolução do dinheiro). 

Se você insistir em tentar sobreviver do crime, ou você será morto, ou terá que se embrutecer muito para defender o seu espaço, ou terá que se contentar com um “mercado” extremamente marginal e paupérrimo, como um descuidista-ambulante-quase-mendigo. E digo “quase” porque até entre mendigos existe competição violenta pelos territórios e pontos de esmola. 

Crime 3

Chega uma hora que só resta mesmo procurar um biscate ou um (argh!) emprego, que em geral é a opção mais trabalhosa, mais exigente, mais subserviente, mais limitante de horários, menos rentável financeiramente e menos realizadora de todas, tanto que do ponto de vista de muitos é pior até que ser mendigo, porque mendigo não leva broncas humilhantes nem punições disciplinares por chegar tarde ao trabalho ou por cometer algum erro. 

Você sabe quem são estes indivíduos.
É o auxiliar de pedreiro que rouba o celular do dono da casa em que o pedreiro está trabalhando.
É o funcionário da lancheria que leva um bife para casa enrolado dentro de um saco plástico transportado dentro da cueca.

É a doméstica que furta uma lata de leite condensado da despensa da patroa e a leva para casa na bolsa.

É aquele trabalhador que nunca está contente em serviço nenhum, não faz nada com boa vontade, não cumpre determinações direito e acaba sendo dispensado ou está permanentemente de licença-saúde no bar da esquina, sem camisa, de bermudas frouxas e havaianas, jogando sinuca com um cigarro na mão e um copo de cerveja na borda da mesa. 

É gente que não presta nem para o crime, então vai entulhar o mercado legal com sua mão-de-obra sem qualidade, sem vontade e sem confiabilidade. 

Crime 4
Caso 2
Agora vamos percorrer o caminho inverso. 
Vamos supor que você seja, sei lá, traficante há dez anos. Já puxou uma cana de dois anos e meio, voltou com moral pra boca porque nunca abriu o bico pra falar nada de ninguém e sempre foi camarada com os manos enquanto estava “guardado”. 

Mas um dia sumiu um pacote de pedra e dois de pó, preju pra mais de duzentos contos de réis, e a responsabilidade era sua. Alguém te sacaneou legal, normalmente você seria morto, mas você teve sorte porque sempre foi de confiança e foi apenas mandado desaparecer pra sempre. Hoje. 

Aí você foge com a roupa do corpo para a casa de uma tia que mora numa vila-satélite de um bairro industrial lá na casa do capeta, na Conchinchina do Mato Adentro. 

Como a única padaria da vila não faz confeitos e você por acaso foi criado por uma falecida tia que fazia salgadinhos e confeitos para festas, você começa a fazer alguns salgadinhos e confeitos e vendê-los como ambulante, próximo à parada de ônibus da vila industrial. 

Crime 5

E, puxa!, o padeiro não vem meter bala na sua cara. 
Você pede um alvará e recebe uma visita do fiscal da prefeitura, não da polícia para lhe dar uns safanões e tomar toda a sua mercadoria. 
Você trabalha à luz do dia, sóbrio, lúcido, tem sua carteira de identidade no bolso, fica anos e anos com o mesmo número de celular, tem residência fixa, conta no banco e crédito para comprar um carrinho popular. 

Mas principalmente você tem uma perspectiva de vida. Você provavelmente estará vivo daqui a vinte anos, e seus filhos também. 
O que tem de errado nessa história?
Não sei se você percebeu, mas nos dois casos hipotéticos acima você se daria muito mal no mundo do crime e muito melhor – ainda que não ficasse completamente satisfeito – no mundo civilizado. E a tendência realmente é sempre essa. 

Então, por que na realidade é fácil verificar que a demanda reprimida do crime é muito maior que a demanda reprimida do trabalho honesto? 
Repetindo: é fácil verificar que a demanda reprimida do crime é muito maior que a demanda reprimida do trabalho honesto. 
Basta você se perguntar o seguinte: se os padeiros se matassem entre si e fossem mortos pela polícia na mesma proporção com que os criminosos se matam entre si e são mortos pela polícia, você acha que ainda existiriam padeiros no Brasil? 

Quem seria auxiliar de pedreiro se os auxiliares de pedreiro se matassem entre si ou fossem mortos pela polícia nas mesmas proporções que os traficantes se matam entre si ou são mortos pela polícia? 
Quem seria entregador de pizza se os entregadores de pizza se matassem entre si ou fossem mortos pela polícia nas mesmas proporções que os assaltantes se matam entre si ou são mortos pela polícia? 
Ninguém, né? 

Mas traficantes e assaltantes são mortos em taxas estratosfericamente superiores em relação a qualquer outra atividade e mesmo assim a demanda por vagas no tráfico e no roubo é tanta que ninguém jamais ouviu falar de uma boca de tráfico que tenha fechado por falta de funcionários ou de um bairro em que que ninguém nunca tenha sofrido um assalto por falta de ladrões. 

Crime 6
Já no setor legal da economia… 
Falta de mão de obra especializada se agrava e atinge 91% das empresas
“Uma pesquisa da Fundação Dom Cabral mostra que 91% das companhias pesquisadas têm dificuldade na contratação de profissionais, especialmente para vagas de compradores, técnicos, administradores, gerente de projetos e trabalhador manual.” 
Texto completo: Estadão.
Falta mão de obra qualificada no mercado
“Ainda segundo os dados da pesquisa do CNI, as empresas têm enfrentado o problema de diversas formas, por exemplo; 78% das empresas pesquisadas capacitam o profissional dentro da própria companhia, 40% delas fortaleceram suas políticas de retenção de talentos, 33% delas buscam a capacitação de seus profissionais fora da empresa, através de empresas de Educação e Treinamento Profissional.” 
Texto completo: TecHoje.
Falta de mão de obra qualificada afeta 65% das empresas, diz CNI
“De acordo com a pesquisa, 68% das empresas afirmaram ter dificuldade para encontrar profissionais preparados na área administrativa, 67% informaram déficit de contratação de engenheiros, 61% de profissionais de venda e marketing, 60% para postos gerenciais e 59% para trabalhadores na área de pesquisa e desenvolvimento.
Para superar a escassez de mão de obra qualificada, segundo a CNI, as empresas têm investido na capacitação dos próprios funcionários. De acordo com o levantamento, 81% das empresas informaram que desenvolvem programas de treinamento, 43% investem na política de retenção do trabalhador, com oferta de bons salários e benefícios, e 38% promovem capacitações fora das empresas.
Algumas empresas (24%) adotam a estratégia de substituir a mão de obra humana por máquinas. Essa solução é usada por 26% entre as de pequeno porte, 24% entre as médias e 21% entre as grandes.”

Texto completo: Brasil Econômico (iG).
Escancarando o absurdo
Você percebeu? 
Existe uma imensa demanda por vagas no crime, a ponto de o setor se permitir o luxo de matar dezenas de milhares de funcionários por ano.

O crime não têm contrato de trabalho escrito, não têm férias remuneradas, não têm décimo-terceiro, não têm plano de saúde, não tem vale-alimentação, não tem vale-transporte, não tem seguro-desemprego, não tem nem garantia de vida – pelo contrário, o crime mata seus próprios funcionários o tempo todo – e mesmo assim é procurado por dezenas de milhares de novos interessados em suas vagas todos os dias. 

Já as empresas oferecem todas estas vantagens e estão desesperadas à cata de funcionários, com dezenas de milhares de vagas abertas e não preenchidas. 
O crime tem muito mais demanda que o trabalho honesto.  
Por quê?
Porque o Brasil é uma imensa fábrica de criminosos.  

Crime 8
A Fábrica de Criminosos Brasil S. A.
O moleque pobre nasce em um ambiente degradado moral, física e economicamente. Ele não recebe nutrição adequada, bebe leite materno com álcool e cocaína; não recebe estímulos intelectuais adequados, só ouve funk e outros lixos pornográficos e apologéticos da violência; não cresce em uma família estruturada, normalmente é criado só pela mãe ou pela avó, com alguma ajuda das tias e irmãos mais velhos; não recebe assistência alguma do Estado, tudo que ele tem de serviço estatal é a polícia lhe dando uma dura sempre que o vê. E isso tudo é apenas a ponta do iceberg. 

O moleque pobre tem esfregadas no nariz desde criança sua completa miséria e falta de valor. Sua cidadania não é apenas negada, ela não é sequer lembrada. Nunca existiu, a não ser na forma de pequenos lampejos de oportunidade devidos ao interesses da cambada de canalhas e ladrões que infectam e dominam os Três Poderes da União, o Quarto Poder e boa parte do Terceiro Setor. Vale-Gás. Bolsa-Família. Desarmamento. Cotas. Copa do Mundo. 

Crime 9

Enquanto isso o moleque pobre cresce sem valores e sem valor. Não é só a falta de recursos materiais. É a falta de respeito em cada minuto de seu cotidiano e a falta de perspectiva em cada minuto de sua vida. 

É a comparação entre como ele é tratado e como outros estratos da sociedade são tratados. É o pé na porta e a invasão de sua casa, enquanto em outras casas a polícia só entra com mandato. É o Estado mentir e matar o seu cachorrinho para o BOPE poder subir o morro à noite sem que ninguém diga que isso é errado, enquanto qualquer vira-latas de rua é defendido ardorosamente na internet. É o bar da favela ser fechado aos pontapés à meia-noite enquanto o bar da avenida não é incomodado.

É a escola não ter giz na sala de aula, não ter água no banheiro, não ter calçamento no pátio e não ter utilidade nenhuma para a vida. É a rua não ter saneamento básico. É viver no meio do lixo. É ter que acordar às três da madrugada para disputar uma ficha de atendimento num posto de saúde. 

Crime 11

É ir para o trabalho em pé e apertado em um ônibus lotado até o teto e quente como o inferno. É só poder comprar smartphone marca Diabo, de camelô. É ver todos os dias na TV dezenas de objetos de desejo que ele sabe que nunca poderá comprar com o que chamam de “salário honesto”, mas que ele poderá comprar com o dinheiro do crime.

É ter necessidades e desejos e não conseguir satisfazê-los por mais que se esforce. É não ter perspectivas nem esperanças. É ter a frustração cíclica de ver os políticos prometerem que vai começar a viver melhor antes de cada eleição e ver sua vida permanecer a mesmíssima porcaria depois de cada eleição. 

É não ter um bom exemplo em casa, nem na comunidade em que vive, nem uma orientação decente na escola. É ser exposto a todo tipo de pornografia, de violência e de desregramento desde a mais tenra infância. É não ter a menor oportunidade de imaginar um mundo decente porque os valores a seu redor ou são corrompidos ou são inexistentes. 
É a completa falta de cidadania desde o berço. 

Crime 10

Um indivíduo que é mal nutrido, mal orientado, mal educado, mal amado, mal tratado e desrespeitado assim desde criança, cuja visão de mundo se forma em um ambiente degradado, sob os piores exemplos da família, das amizades, da vizinhança, da escola, do mercado e do Estado, sem ver nenhuma recompensa pela honestidade a não ser um salário miserável, submissão, humilhação e frustração, enquanto o crime lhe dá muito maior acesso econômico, liberdade e autonomia, vai se tornar um cidadão honesto e produtivo como e por quê? 

Dadas as informações que ele tem sobre o mundo, ir para o crime é tanto a tendência natural quanto a decisão mais racional. Ele não tem como tirar do nada a idéia inimaginável de fazer um curso de mecatrônica para disputar uma vaga técnica. (Meca-o-quê?)

Se tivesse a idéia, não teria nem o desenvolvimento cognitivo nem a disciplina necessária para se dedicar a um projeto de tão longo prazo. Se tivesse estas características, não teria tempo para fazer o curso, pois não teria como estudar e se sustentar durante o curso.

Se tivesse condições para tudo isso e conseguisse se formar, não teria jamais o acesso econômico, a liberdade e a autonomia que o crime proporciona, nem qualquer motivação para sacrificar sua melhor oportunidade para garantir a segurança e o conforto de quem nunca lhe garantiu nada. 
É óbvio que ele vai para o crime. 

Crime 12

E você achava que a tendência era que os mais capazes e competentes fossem para o mercado de trabalho legal e os menos capazes e competentes fossem para o crime. Nada disso. Quem é fabricado sem cidadania tem o crime como primeira ou única opção. 

26 de fevereiro de 2014
Arthur Golgo Lucas