"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

SIM, A INFLAÇÃO É MUNDIAL, MAS NÃO DECORRE SÓ DE GARGALOS - E PODE ABORTAR A RETOMA ECONÔMICA

E os causadores, é claro, já estão culpando os empreendedores




Na semana passada, a Ned Davis Research (empresa global fornecedora de dados para análises de investimentos) publicou um relatório em que, fazendo ironia com a recorrente afirmação dos Bancos Centrais de que "a inflação é transitória", afirmou o seguinte: "No final, parece que o crescimento é que era transitório — já a inflação será mais permanente".

E, com efeito, há vários fatores comprovando que, ao redor do mundo, consumidores e salários estão sendo devorados pela carestia, levando a uma abrupta interrupção na recuperação econômica pós-Covid19.

Ao redor do mundo, as vendas de automóveis e de imóveis novos desabaram. Só nos EUA, as vendas da Ford desabaram 33%; não há chips a serem utilizados nos novos veículos. Na zona do euro, as vendas estão no menor valor da série histórica (que começou no fim da década de 1980). A renda real disponível da população mundial está em forte queda, e o crescimento da mediana dos salários está menor que a inflação.

Para piorar, a Europa também está em vias de enfrentar um inverno do descontentamento. Há uma crise de abastecimento de gás natural. Ao mesmo tempo em que há previsões de que a oferta de gás da Rússia será menor, há também o fato de que a própria produção de gás na Europa foi restringida por políticas ambientalistas. Isso significa que, em alguns países europeus, os consumidores não só enfrentarão um aumento explosivo em suas contas de energia, como ainda terão racionamento. Na prática, os ambientalistas europeus deixaram o continente à mercê de Vladimir Putin.

O gás natural, que custava US$ 1,50 por milhões de BTUs há um ano, agora custa US$ 6,00 (aumento de 300%).




Gráfico 1: evolução do preço, em dólares, do gás natural

Nos EUA, os preços aos produtores — ou seja, os preços que os produtores pagam em suas matérias-primas para fabricar bens — subiram 20% nos últimos 12 meses. É a maior taxa desde 1974, quando ocorreu o choque do petróleo.




Gráfico 2: Variação anual dos preços ao produtor nos EUA (commodities)

Na Europa, a inflação ao produtor acumulada em 12 meses está em 13%, o maior valor desde o início da década de 1980.




Gráfico 3: Preços ao produtor na zona do euro (geral)

Sempre um fenômeno monetário

Desde a pandemia de Covid-19, os banqueiros centrais ao redor do mundo inflacionaram a oferta monetária a um ritmo sem precedentes, recorrendo à mais agressiva política monetária de que se tem notícia desde o fim do padrão-ouro.

Apenas nos EUA, a oferta monetária chegou a subir mais de 25% nos últimos 12 meses.




Gráfico 4: taxa de crescimento acumulada em 12 meses do M2 nos EUA

Os países em desenvolvimento que tentaram fazer o mesmo com suas moedas se saíram ainda piores (e por motivos explicados em detalhes aqui).

Bastou uma recuperação econômica normal após a reabertura econômica para demonstrar, mais uma vez, por que a inflação generalizada de preços sempre é um fenômeno monetário: os Bancos Centrais aumentaram a oferta monetária para muito além da demanda por moeda. A inflação de preços, no fim, sempre é um fenômeno monetário, e decorre do fato de haver mais dinheiro a ser trocado por ativos escassos.

Isso levou a maciças elevações de preços para bens essenciais e serviços.

A retórica de que a carestia é "transitória" e que tudo é culpa de "interrupções na cadeia de oferta" foi rapidamente desmistificada. Os chamados "efeitos de base" (quando se parte de números baixos para a inflação, o que faz com que seus aumentos sejam matematicamente grandes) já terminaram, mas os preços continuam subindo fortemente.

Ademais, os preços das commodities nos setores em que há ociosidade aumentaram tanto quanto nos setores em que quase não há ociosidade. De novo: a inflação de preços, no final, decorre do fato de haver mais dinheiro perseguindo ativos escassos. E é por esse motivo que vemos os preços do alumínio e dos fretes marítimos alcançando os maiores valores de sua história, ao mesmo tempo em que há ampla capacidade nestes seguimentos, até mesmo excesso de capacidade (nos EUA, há até congestionamento de navios cargueiros nos portos; e o número de cargueiros em operação bateu recorde, bem como sua capacidade volumétrica).

Mesmo os alimentos, cujos preços também dispararam para níveis historicamente recordes, não estão enfrentando nenhum grave problema de oferta. Os lockdowns não fecharam o agronegócio. Há problemas de secas pontuais, como com o milho, e colheitas atrasadas, mas estes sempre existiram. E são sazonais.

Pela terceira vez: no fim, o que empurra os preços gerais — bens e serviços — para cima é a inflação monetária.

Os culpados de sempre

A história monetária mostra que políticos sempre recorrem às mesmas desculpas quando a inflação de preços surge em decorrência da inflação monetária: primeiro, eles dizem que não há nenhuma inflação; depois, reconhecem que até há alguma inflação de preços, mas afirmam que ela é transitória; depois, tão logo fica claro que não há nada de transitório na carestia, dizem que os culpados são os empresários gananciosos; depois, passam também a culpar os consumidores, que estão gastando demais. Por último, os próprios políticos se apresentam como a "solução": impor controle de preços, o que termina por destruir a economia.

Nos EUA, o crescimento da mediana dos salários já foi mais do que contrabalançado pela inflação de preços. Na zona do euro, o crescimento salarial desabou em julho. Com efeito, o risco na zona do euro é maior, dado que os salários caíram no segundo trimestre de 2021 em relação ao mesmo trimestre de 2020.

Ao redor do mundo, os consumidores veem que os preços daqueles bens e serviços que compram diariamente aumentam bem mais rapidamente do que o relatado pelos números oficiais da inflação. Nos EUA, como consequência, o índice de confiança do consumidor caiu para níveis vistos apenas na esteira da crise financeira de 2008.

E isso, por sua vez, está descarrilhando a suposta recuperação econômica que deveria advir de um boom no consumo (algo cada vez menos provável) e de uma explosão no setor de serviços. Nenhum destes milagres keynesianos se consumou.

Considerando que os governos se beneficiam fiscalmente da inflação monetária (a qual aumenta sua arrecadação, pelo simples fato de haver mais dinheiro na economia), é difícil imaginar que haverá medidas drásticas contra essa inflação.

Estamos agora adentrando na fase em que os governos culpam os empresários pela inflação. O presidente americano Joe Biden atribuiu o aumento da gasolina à ganância dos donos dos postos, e mandou o governo investigar. Nenhuma palavra sobre o fato de o barril de petróleo estar perto dos US$ 80 dólares, graças à política inflacionista do Federal Reserve.




Gráfico 5: evolução do preço do barril de petróleo do tipo Brent, em dólares

Ainda mais estridente é o seu silêncio sobre o fato de o seu próprio governo ter revogado a licença para a construção do Gasoduto Keystone, que seria construído entre Alberta, no Canadá, e as refinarias do estado americano de Nebraska, de onde ele seria conectado à rede já existente de oleodutos nos EUA, chegando às refinarias do sul do Texas. Adicionalmente, o governo Biden também vetou novos projetos de fracking no Alasca e em todas as terras federais do país.

Já um de seus principais conselheiros econômicos veio a público dizer que as carnes de porco, boi e frango aumentaram fortemente de preço porque apenas quatro empresas controlam a oferta. É de se perguntar por que, já que há esse oligopólio, elas não aumentaram os preços antes.

Na Europa, a coisa não é melhor.

Em meu país natal, a Espanha, as tarifas de eletricidades dispararam. O governo, obviamente, culpou as geradoras. Nenhuma palavra a respeito do imposto sobre CO2 criado pelo governo em 2020, o qual elevou enormemente os custos operacionais — e com o qual os governos europeus esperam arrecadar 20 bilhões de euros em 2021.

Ou seja, o governo espanhol estava efetivamente lucrando com o aumento dos preços ao mesmo tempo em que culpava empresas por isso.

O mesmo ocorreu na Alemanha: os preços da energia dispararam devido ao forte aumento do gás natural e dos preços do CO2, e os partidos políticos culparam a especulação e as empresas. Já os ambientalistas passaram incólumes.

E a tendência é que isso se intensifique no último trimestre, com a chegada do inverno. Governos irão culpar empresas pela inflação que os próprios governos causaram. E, em seguida, irão se apresentar como a solução e impor controle de preços, o que irá destruir o tecido empreendedorial, especialmente as pequenas empresas.

Para concluir


Políticas keynesianas sempre destroem aquilo que pretendem ajudar e proteger.

No atual caso, as classes médias, os salários reais e as pequenas empresas estão sendo esmagadas pelo imposto inflacionário (a inflação é um imposto) e pelo aumento de outros impostos, à medida que os governos colhem o benefício das políticas inflacionistas e vão aumentando o tamanho do setor público como consequência.

Apenas uma drástica reação dos Bancos Centrais podem mudar o atual cenário inflacionista. A questão é: irão os BCs contrair a política monetária em um momento em que os déficits do governo estão altos e, pior ainda, qualquer pequeno aumento nos juros pode gerar uma crise da dívida (uma vez que estes países possuem uma relação dívida/PIB muito maior que 100%)?

Irão os BCs reagir àquilo que claramente é — como sempre foi — um processo de inflação monetária?
quinta-feira, 30 set 2021

04 de outubro de 2021
Daniel Lacalle




A INFLAÇÃO PERMANECE INSISTENTE

Ao final de cada trimestre, o BC (Banco Central) torna público o RTI (Relatório Trimestral da Inflação). 
Seguramente, este é um trabalho muito bem elaborado tecnicamente, abordando o cenário sobre a inflação e os juros. Nele, a autoridade monetária analisa os riscos apresentados na variação de preços para cima ou para baixo, quando estes saem dos parâmetros estabelecidos nas metas de inflação. 
Inclusive, monitora as expectativas inflacionárias, mostrando atualizações de previsões mais amplas e estudos sobre a economia do País. 
O último relatório que foi divulgado na semana passada sinaliza uma preocupação muito grande com dois fatores impactantes nos índices, que relacionam a crise hídrica com a elevação dos preços da energia e dos alimentos. Ele comenta também que a elevada inflação ao consumidor permanece insistente e sempre surpreendendo. 
Para se ter uma noção, a inflação acumulada em doze meses está muito próxima ao patamar de dois dígitos, saindo de 8,06% em maio para 9,68% em agosto, ultrapassando com desenvoltura a meta de inflação fixada para este ano em 3,75%, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais (5,25%) e para menos (2,25%). 
Existem duas justificativas sobre essa questão: os preços dos alimentos e dos bens industriais. 
No decorrer do trimestre, os alimentos aumentaram 2,76%, tendo como protagonistas os preços da carne, das aves, do leite e dos ovos, em virtude dos elevados custos da ração animal e, principalmente, da escassez de pastagens com essa terrível estiagem que estamos atravessando há algum tempo. 
Quanto aos bens industriais, eles subiram pelo quinto trimestre consecutivo num patamar superior a 1,50%, somente neste último período trimestral. 
Isso se deve a uma alteração na formação dos gastos da família, a dificuldades apresentadas pelo lado da oferta, à transferência de custos dentre os quais, o de commodities, à alta do dólar e das tarifas de energia. 
Segundo o BC, com esse cenário, existem três iminentes riscos: a piora da crise hídrica com a possibilidade de um racionamento de energia; o fortalecimento da pandemia e ações que venham a agravar as expectativas quanto à trajetória fiscal do Brasil. 
Esses elementos, certamente, pressionarão os prêmios de risco, levando uma acentuada insegurança aos agentes econômicos, com efeitos extremamente negativos, provavelmente defasados sobre a atividade econômica e, sobretudo, os investimentos, desestimulando pessoas e empresas a investirem. 
Embora o BC tenha admitido um insignificante crescimento no PIB (Produto Interno Bruto) de 4,6% para 4,7%, ele procurou ser cauteloso, independente da avaliação mais agregada do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do BC, considerado uma "prévia" informal do PIB), com dados muitos semelhantes aos divulgados em agosto, cujas variações não demonstram uma direção unânime e não sugerem expansão generalizada. Até então, o horizonte que se descortina para o próximo ano não é dos mais tranquilos para nossa economia. 
De acordo com o BC, no decorrer de 2022, é provável que o ritmo de crescimento seja inferior ao segundo semestre desse ano, resultando num crescimento anual de aproximadamente 2,10%. 
Também destaca que há menos espaço para uma recuperação cíclica em função da redução do “hiato do produto” (indicador que mensura as oscilações cíclicas da economia). Aliás, a consequência prevista na incidência da alta dos juros sobre a atividade econômica, não se dará jamais no curto prazo e, certamente, acontecerá num prazo mais longo. 
Entretanto, não podemos contar com este cenário como garantido. Acontece que ele apresenta um elevado grau de incerteza, pois se encontra apoiado nas seguintes premissas: continuidade no enfraquecimento da crise sanitária; redução progressiva dos níveis de incerteza na economia; manutenção do regime fiscal e ausência de restrições diretas ao consumo de eletricidade. 
Com isso, o BC demonstra nas entrelinhas do relatório não estar contando muito com o racionamento de energia que, na realidade, não pode ser totalmente desprezado. 
Em suma, o RTI aponta um cenário mais adverso para inflação à frente e, diante disso, os empresários e investidores procuram refazer seu planejamento para 2022. 
Só nos falta mais um trimestre para encerrarmos este exercício e o cenário de 2021 está praticamente cristalizado, a não ser que apareça uma grande surpresa. 
Portanto, é sensato refazer as contas e se organizar para enfrentar o próximo ano que transparece ser de grandes desafios para a economia brasileira.

04 de outubro de 2021
Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador, com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador)

CIRO GOMES: O CORONEL QUE QUER SER PRESIDENTE - DOCUMENTÁRIO

 

CIRO GOMES FOGE ESCOLTADO, DEPOIS DE DISCURSO EM MANIFESTAÇÃO CONTRA BOLSONARO

 

A ESTRATÉGIA DA ESQUERDA PARA DERRUBAR PAULO GUEDES

 

LIBERDADE DE PRESOS POLÍTICOS É PEDIDA. ESSA NOTÍCIA PEGOU TODOS DE SURPRESA

 

ELON MUSK DIZ QUE ACIONOU O APOCALIPSE

 

O NOVO GOLPE DE CIRO GOMES E DO PT PARA VOLTAR AO PODER

 

A URGÊNCIA DA MODERAÇÃO NA GUERRA POLÍTICA DO BRASIL

 




Semana passada Fernando Schuller, uma das poucas assinaturas que aproveita ler no meio da mesmice que são hoje os diferentes títulos da imprensa tradicional brasileira escreveu, com a densidade e o brilho costumeiros, um “Elogio aos moderados” na sua coluna na Veja.

Falava do ódio político num tempo em que “ponderar se tornou um ato algo subversivo e os moderados andam fora de moda” de um tanto que o levavam a “confortar-se à sombra de Montaigne” que viveu numa época de extremos infinitamente mais violenta que a nossa (1533 a 1592) e, aos 38 anos, em meio às guerras religiosas que ensanguentavam a França, abandonou a vida publica para dedicar-se a escrever seus “Ensaios" na torre de seu castelo.

Da sua leitura em plena “guerra do Brasil” (sim, fria e apenas quase religiosa, mas guerra) ficou para um de seus leitores mais qualificados, que se define como “moderado por natureza”, o sabor de “uma elegia poética, triste e melancólica aos moderados diante de um mundo cada vez mais tribalizado em grupos radicais”.


Sim, porque o próprio Schuller, professor na matéria, não conseguiu lembrar-se de mais de dois moderados de carne e osso em condições de fazer valer a sua moderação no horizonte de seu tempo: Vaclav Havel com a sua “revolução de veludo” para trazer a Checoslováquia de volta das profundezas do socialismo real e Barak Obama com a sua “América nem branca, nem negra” em seu horror a todos os extremos, inclusive os do seu próprio lado, como é obrigatório para quem de fato tem horror a extremos.

“Qual seria, afinal, o caminho a seguir”, perguntava-se Schuller. E concluía: “o que precisamos são líderes pautados por ideias e um senso de responsabilidade republicana, não por uma eterna guerra de posições” pois “o mundo politico não se resume a uma luta do bem contra o mal, é feito de yin e yang” e “ha gente boa em ambos os lados que tem algo importante a dizer”.

“O caminho de Montaigne, de volta à sua torre, pode nos ensinar alguma coisa individual e coletivamente (…) Não tanto um novo caminho, mas um novo jeito de caminhar”.



A proposta do “novo jeito de caminhar” de Montaigne baseava-se na sua constatação de que "não ha verdades absolutas, só verdades por aproximação” e que precisamente por isso nós humanos “flutuamos entre diversas opiniões … segundo o desejo do momento”, fazemos sempre perguntas muito mais interessantes que as respostas que damos e que, portanto, era imprescindível “manter a espontaneidade que depende da falta de controle”.

Mas aquilo que, no estilo bem francês e personalista do filósofo em sua torre pensando pela arte de pensar, viria a resultar na elevação da tolerância a fundamento inegociável das relações humanas, pedra fundamental da montagem do mecanismo institucional da democracia moderna, depois que, jogado no terreno da prática pela volúpia de Henrique VIII que deu na legalização da convivência de todos os credos (menos o católico), foi retrabalhado pelos filósofos ingleses com seu foco utilitário.


A necessidade da moderação é, portanto, um ponto universalmente estabelecido desde o século 16. Como a questão evoluiu a partir daí até materializar-se no “território livre” da América é uma história que já tem ecos de familiaridade para mais gente que a que leu Montaigne. Desde que reuniram-se os autores dos Federalist Papers a questão passou a ser ainda mais objetiva. Como perpetuar a moderação de que precisamos para não nos matarmos uns aos outros? Mediante que tipo de mecanismo institucional é possível torná-la, senão compulsória, so menos auto-reprodutiva?

E de lá vimos vindo, por ensaio e erro, dando materialidade ao pensamento dos montaignes: os direitos fundamentais “imexíveis” do homem, os espaços vedados ao Estado e à coletividade, os limites para a ação do indivíduo, o controle necessário mas mutante de modo a não matar a espontaneidade nem tolher a nossa característica de seres flutuantes entre opiniões diversas…

“No taxation without representation”, “a lei só é justa quando vale para todos e só é legitima quando é fruto do consenso”, “o único consenso aferível é o que é dado pela expressão do voto da maioria”, “a verdade da maioria é mutante”, “só ha representação quando o representado manda no representante”, "nenhum 'direito humano' resiste sob um regime de monopólios" … por aí caminhou-se, de cada conceito a cada ferramenta institucional concreta, pela picada da democracia em que cada correção de rumo é marcada por uma poça de sangue.


A antidemocracia brasileira é minuciosa. Cuida de todos os detalhes. Expressa-se, antes de mais nada pela falta de moderação semântica. Obriga o cidadão a tratar com hiperlativos a canalha que fabrica porque “é de pequenino que se torce o pepino”. Só mesmo “com um novo jeito de caminhar”…

Recall para que haja representação e não empulhação, iniciativa e referendo de leis para que elas sejam justas, para que haja consenso sobre essa “justiça” e para que possamos seguir flutuando e podendo considerar injusta amanhã a justiça de hoje se assim exigirem as verdades de cada momento, limites antitruste para impedir a criação de poderes inenfrentáveis...

...é a vida imitando a arte.

O pensamento só pelo pensamento pertence à desesperança do século 16. Os primeiros ensaios práticos do pensamento moderado feito ação, ao século 18. A grande correção de rumo dessa primeira tradução prática, à virada do 19 para o 20. O Brasil do século 21 não tem mais tempo. Precisa saltar da torre de Montaigne diretamente para as reformas da Progressive Era americana em que se converteu o que começou a ser pensado nela, e por o povo no poder, se quiser mesmo evitar o caos.


04 de outubro de 2021
vespeiro

ELOGIO AOS MODERADOS

 O que precisamos são líderes pautados por ideias e um senso de responsabilidade republicana, não por uma eterna guerra de posições


ESTILO DE VIDA - O francês Montaigne: a impossível ideia de liberdade de consciência – S. Bianchetti/Corbis/Getty Images

Dias atrás tivemos o caso da Tabata Amaral. “Se encontro na rua, soco até ser preso”, diz um desses fanáticos digitais. Em seguida ela publicou um artigo listando frases de ódio de que tem sido vítima nos últimos tempos. Madeleine Lacsko fez isso também, e mais gente devia fazer, de preferência dando nome aos agressores. 
Há quem diga que tudo isso é um lixo irrelevante. O.k., é verdade. Mas é também um sintoma do mal-estar da cultura política atual. A ponta de um imenso iceberg que joga sombra sobre nossas democracias.

O ódio político vem de longe. Robert Darnton escreveu um livro sedutor, O Diabo da Água Benta, mostrando como funcionava a indústria dos libelos de difamação na Europa do século XVIII. 
Eles vinham da Grub Street, em Londres, e seguiam para atormentar a vida de padres e marqueses na França absolutista. 
O fenômeno é muito mais antigo. No século XVI, o sátiro Pietro Aretino fazia uso da estátua de Pasquino, que ainda se pode ver, em Roma, “difamando a cada dia um dos cardeais candidatos a papa”. Nosso “Pasquino”, hoje, é a internet inteira, para ver a enrascada em que nos encontramos.

Ódio político não tem ideologia. Ninguém até agora inventou um “odiômetro” para medir de que lado vem o maior volume de lixo retórico. Ele também não atende a essa ou aquela categoria, sejam grupos de raça, gênero ou religião. Seu foco frequente são os “poderosos”, e sua maior motivação é política. Seu alvo em essência é um só: o divergente. De todos, o pior é o “ódio do bem”. 
O ódio de O’Brien, do 1984, que torturava Winston Smith para lhe abrir os olhos. 
O mal que se faz por razões estranhamente virtuosas, dessas que o inferno está cheio.

Gosto de ver tudo isso como um subproduto da tribalização da vida atual. Os algoritmos da internet podem ter alguma coisa a ver com isso, mas a verdade é que nós mesmos nos “algoritizamos”. 
Fazemos isso criando um mundo fechado de referências, em uma lógica de combate que alguém já definiu como “modo twitter de ser”. 
Jonathan Haidt identificou esse fenômeno dizendo que é enorme a chance de qualquer um de nós ser tragado por uma “tribo moral”. “Nos agrupamos em torno de valores sagrados (…) achamos que o outro lado é cego à verdade, à ciência e ao bom senso. Mas a verdade é que todos ficam cegos quando se trata de seus objetos sagrados.”

Vivemos uma época em que “ponderar” se tornou um ato algo subversivo, e os moderados andam fora de moda. O que é uma pena. 
O moderado é um tipo que faz bem à democracia. Ele é alguém que pode mudar de ideia, diante de um bom argumento. É também o tipo capaz de fazer as perguntas inconvenientes. 
O presidente não tinha sido eleito para combater o “sistema”, e agora anda abraçado ao Centrão? 
Não havíamos banido a censura prévia, no Brasil, mas agora aplaudimos quando ela atinge os “outros”? 
Perguntas incômodas, mas necessárias. Sem elas, e sem que as pessoas pudessem refletir, reconhecer erros próprios e acertos alheios, e uma vez ou outra mudar de ideia, para que serviria mesmo o debate público?

“A mistura de fanfarrice e ódio político pode levar a impasses perigosos”

Quando penso nessas coisas me conforto à sombra de Montaigne. Ele viveu em uma época de extremos, infinitamente mais violenta do que a nossa, em especial nos anos que se seguiram aos massacres da noite de São Bartolomeu, em 1572. 
Aos 38 anos abandonou a vida pública de Bordeaux e foi viver cercado de livros e camponeses, e escrever seus Ensaios, na torre de seu castelo. 
Numa época em que as bruxas ardiam e protestantes tinham as cabeças cortadas, sem cerimônia, na França, Montaigne se pôs calmamente contra a tortura, manifestou seu “intenso horror à crueldade” (inclusive contra os animais), defendeu que os problemas civis nada tinham a ver com a religião e pregou a ideia quase impossível, à época, da liberdade de consciência.

Em meio ao caos, preservou sua humanidade. E muito além disso, sugeriu uma maneira de viver, cujo elemento definidor era a ideia da moderação. 
“As vidas mais belas”, disse, “são aquelas capazes de observar o padrão humano comum e a ordem, sem milagre ou excentricidade”. Seu ponto de partida era o reconhecimento da fragilidade da razão humana. 
Somos movidos pelos influxos das paixões e coisas do mundo, em sua infinita variedade. Daí toda nossa inconstância e o sentido de preservar um saudável ceticismo em relação a si mesmo. Mais do que uma posição teórica, um estilo de vida. 
O viver com os outros, o diálogo ameno, a “disposição amistosa” com os diferentes, o riso solto, a curiosidade permanente e um certo gosto pelo agora. 
Um “ensaiar-se” na vida, como um dançarino dado a improvisações. 
Alguém capaz de dizer, diante de todo horror de sua época, que não havia encontrado “mais evidente monstruosidade e milagre nesse mundo do que eu mesmo”. E que parecia dispor, como disse Sarah Bakewell, de um “termostato interno que o desligava automaticamente quanto a temperatura ultrapassava certo ponto”.

Na política atual tivemos casos notórios de gente moderada que deixou sua marca. Vem a minha mente Václav Havel, comandando a transição checa do palco do Lanterna Mágica, no centro de Praga. 
Com sua fala tranquila e o inseparável cigarro na boca, liderou a Revolução de Veludo, que levou o país pacificamente à democracia. 
Houve Barack Obama e sua insistência em que “não havia a América negra ou a América branca”, contra os radicais de seu próprio lado.

Alguém poderia perguntar se esse é mesmo o caminho a seguir, se o moderado não tende, no fundo, à complacência, e se não precisamos mesmo é de alguém capaz de dar um pontapé na porta e esmagar as “forças do atraso”. Não acho. 
O que precisamos são líderes pautados por ideias e um senso de responsabilidade republicana, não por uma eterna guerra de posições. 
O mundo político não se resume a uma luta do bem contra o mal. É feito de yin e yang, provoca Haidt. Há gente boa em ambos os lados e que “tem algo importante a dizer”.

Há por fim um tema de ordem prática. A fúria política pode dar vazão a nossos demônios, e por vezes funciona, nas eleições. Mas não vale grande coisa quando há consensos a construir e reformas difíceis a aprovar no Congresso. 
Nossa história recente mostra como a mistura de fanfarrice e ódio político pode levar a impasses perigosos e perda de credibilidade nas instituições. Além de ser muito, mas muito cansativa.

De forma que precisamos fazer melhor. 
O caminho de Montaigne, de volta a sua torre, pode nos ensinar alguma coisa, individual e coletivamente. 
A moderação pode voltar a ocupar algum lugar na nossa vida pública. Não tanto um novo caminho, mas um novo jeito de caminhar.

04 de outubro de 2021
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

BULGÁRIA RESTAURA ESOTÉRICO ÍCONE DO COMUNISMO



No teto arruinado ainda reinam os símbolos marxistas

Nos Balcãs se conservam as ruínas de um misterioso “santuário” do comunismo feito pouco antes ao desfazimento da União Soviética (URSS).

No salão principal se reuniam os membros do partido comunista dominados por um grande mural de Engels, Marx e Lênin, segundo descreve reportagem de “La Nación”.

O prédio é mais conhecido pelo nome da localidade: Buzludzha, no centro dos montes Bálcãs, coração do país.

É estranho, mas tem forma de disco voador e é conhecido como “o OVNI comunista”.

Dir-se-ia que o comunismo só se interessava pelas forças da matéria em evolução. Mas, um pouco por toda parte se encontram restos de um esforço por entrar em contato com seres poderosos que outros chamariam de infernais.


No 'OVNI comunista' prevalece uma arquitetura místico esotérica

A estética esotérica cósmica foi amplamente utilizada não só no mundo marxista, nas décadas de 1970 e 1980, mas este local blindado se destaca de outros edifícios comunistas na Europa Oriental.


Está constituído por um imenso bloco de concreto e foi inaugurado em 1981, após sete anos de construção.

Nele trabalharam quase 6.000 operários, incluídos os 20 melhores artistas búlgaros da época que decoraram os interiores.

Sua localização não foi escolhida ao acaso, mas exatamente no local da vitória final dos rebeldes búlgaros sobre os invasores otomanos em 1868.

O fato não tem relação alguma com o comunismo. Foi uma vitória épica em que apenas 6.000 soldados búlgaros e russos, então czaristas, lutaram contra o Islã.


Enfrentaram mais de 40.000 turcos obtendo um triunfo que permaneceu na história do país e que o comunismo não conseguiu apagar e então tentou explorar em seu favor.



O prédio tem dimensões monstruosas

A localização exata é na montanha Buzludzha, a uma altitude de 1.441 metros, a 10 km da cidade de Shipka e a 250 km de Sofia (capital da Bulgária).

Os dirigentes comunistas veneravam aquele lugar por outra razão: em 1891 ali se reuniram os fundadores do socialismo organizado na Bulgária.

A construção consumiu o que hoje daria cerca de sete milhões de euros, não pouco para um país miserabilisado pelo socialismo.

O prédio tem 107 metros de altura e sua área total chega a 550 metros quadrados. Mais de 930 metros quadrados e 35 toneladas de murais traçam a história do Partido Comunista da Bulgária.

O símbolo do comunismo, a foice e o martelo, continua dominador junto com o brado da revolta do Manifesto Comunista de 1848: “Proletários de todos os países, unidos”, de autoria de Marx e Engels.

No topo da torre fica uma grande estrela soviética que tem três vezes o tamanho da do Kremlin, e que teria sido feita de rubis hoje pilhados.


O prédio de Buzludzha, símbolo do PC búlgaro
está sendo restaurado por saudosistas do comunismo


O símbolo da horrível ditadura ficou propriedade do governo até que em 1989 o Partido Comunista foi dissolvido e o prédio acabou arruinado pela intempérie.

Mas o mundo pós-comunismo não trouxe o indispensável saneamento ideológico, cultural e moral.

Resultado: nas cavernas da degradação ficou se cultuando o apego aos símbolos da época de morte, terror, igualdade e miséria.

No momento atual, essa fermentação oculta ganhou visibilidade e o local virou o símbolo daqueles que querem restaurá-lo.

Pretendem recuperar mais de 2 milhões de pequenos pedaços de pedra, terracota ou vidro colorido que sobraram espalhados em volta do esqueleto do “OVNI comunista” arruinado.

Todo um símbolo do retorno do comunismo promovido desde Moscou.


04 de outubro de 2021
Luis Difair
Escritor, jornalista, conferencista de política internacional,sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs
in flagelo russo

BOM DIA! GRATIDÃO PELA VIDA!!

 


04 de outubro de 2021

"PANDORA PAPER'S" REVELA QUE MEMBROS DO GOVERNO BOLSONARO TÊM DINHEIRO EM PARAÍSOS FISCAIS



© AFP'Pandora Papers' revela que membros do governo Bolsonaro têm dinheiro em paraísos fiscais

Vários governantes internacionais, além de membros do governo brasileiro, como o ministro da Economia e o presidente do Banco Central, são acusados de terem ocultado ativos em empresas offshore, inclusive com fins de evasão fiscal. 
A informação faz parte das denúncias feitas pelo "Pandora Papers", investigação jornalística que envolveu centenas de repórteres pelo mundo.

O resultado do trabalho do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ na sigla em inglês) sobre os chamados "Pandora Papers" começou a ser revelado neste domingo (3). Os quase 600 repórteres de dezenas de meios de comunicação, incluindo os jornais The Washington Post, The Guardian, El Pais ou ainda a revista Piauí, se basearam no vazamento de 11,9 milhões de documentos de 14 empresas de serviços financeiros de todo o mundo.

Segundo o consórcio, vários dirigentes de peso, como o primeiro-ministro da República Tcheca, Andrej Babis, o rei da Jordânia, Abdallah II, ou ainda os presidentes do Equador, Guillermo Lasso, e do Quênia, Uhuru Kenyatta, aparecem na lista dos que teriam ocultado milhões em paraísos fiscais. 
No total, o ICIJ identificou transações de 336 dirigentes, que criaram mais de 1.000 empresas, das quais dois terços tinham sede nas Ilhas Virgens Britânicas. 
Celebridades, como a cantora colombiana Shakira e a modelo alemã Claudia Schiffer também aparecem na investigação.

Do lado brasileiro, dois nomes de peso foram apontados: o do ministro da Economia, Paulo Guedes, e o do presidente do Banco do Brasil, Roberto Campos Neto. 
Segundo a investigação, Guedes tinha pelo menos US$ 8 milhões investidos na empresa Dreadnoughts International Group, sociedade registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, da qual era acionista. 
O seu nome, assim como o de sua mulher e filha eram usados nas transações.

Conflito de interesses

A revista Piauí, que encabeçou a investigação no Brasil, lembra que “a abertura de uma offshore ou de contas no exterior não é ilegal, desde que o saldo mantido lá fora seja declarado à Receita Federal e ao Banco Central”. 
Guedes afirma que declarou suas empresas offshore. Porém, os funcionários públicos de alto escalão têm uma série de restrições para fazer esse tipo de transação, principalmente quando sua função pode ter impacto em investimentos feitos no exterior, como é o caso de um ministro da Economia.

Já o presidente do Banco Central aparece no "Pandora Papers" como dono de quatro empresas, duas delas registradas no Panamá. Campos Neto afirma ter declarado as somas que tinha no exterior tanto à Receita Federal como ao BC. 
Porém, como Guedes, ele participou de decisões ligadas ao seu cargo que podem ter influenciado positivamente seus próprios investimentos no exterior, o que caracteriza conflito de interesses.

Na esteira do Panamá Papers

Criado em 1997 pelo Centro de Integridade Pública, o ICIJ se tornou uma entidade independente em 2017. Sua rede inclui 280 jornalistas investigativos em mais de 100 países e territórios, assim como cerca de 100 veículos de comunicação parceiros.

O consórcio ficou famoso em 2016, quando tornou público o escândalo que ficou conhecido como "Panamá Papers". Na época, o ICIJ revelou transações e investimentos secretos de milhares de clientes do escritório de advocacia panamenho Mossack Fonseca, após um vazamento de mais de 11 milhões de documentos.

As revelações sacudiram o mundo dos negócios e da política. A tal ponto que chefes de governo, como o primeiro-ministro islandês, Sigmundur David Gunnlaugsson, e paquistanês, Nawaz Sharif, tiveram que deixar seus cargos.

No ano seguinte, o consórcio publicou o “Paradise Papers”, uma nova série de documentos que revelou manobras fiscais ilegais envolvendo nomes como o campeão de Fórmula 1, Lewis Hamilton, e até o Príncipe Charles.


04 de outubro de 2021
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