"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

TUDO COMBINADO

PMDB vai ao rádio e à televisão para aplicar mais um “passa-moleque” nos brasileiros

michel_temer_31Há dias, no Palácio do Jaburu, residência oficial da Vice-Presidência da República, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que teve como anfitrião o peemedebista Michel Temer, tentou convencer os políticos do PMDB sobre a necessidade de se aprovar no Congresso Nacional o projeto que contempla a reforma fiscal. A ministra Kátia Abreu, da Agricultura, que já passeou por várias agremiações políticas, que participou do regabofe na residência de Temer, disse que “se o pacote fiscal é bom para o Brasil, é bom para o PMDB”.

Como sempre acontece quando os grandes veículos midiáticos nacionais querem esconder a verdade para proteger o governo, as falas e as imagens do encontro não foram devidamente analisadas e criticadas. Em primeiro lugar é preciso destacar que o PMDB não se preocupa com o que é bom para o Brasil, mas com o que é ótimo para o partido e seus dirigentes. Haja vista o naipe dos que participaram do encontro com Joaquim Levy, que saiu do Jaburu sem ter a certeza de que o pacote de maldades será aprovado com facilidade no Parlamento.

Do seleto e concorrido jantar na residência oficial de Michel Temer, que fez inveja aos encontros cinematográficos de Al Capone, participaram velhas raposas da política brasileira, que deram palpites de todos os naipes. Considerando que o PMDB há muito faz o papel de noiva interesseira e sempre ameaça abandonar o altar se a bolsa não estiver recheada, essa complacência peemedebista com o projeto de ajuste fiscal do governo não saiu de graça.
Diante de câmeras e microfones, em dado momento, os ilustres (sic) peemedebistas fizeram cara de bravo e cobraram algum tipo de ação positiva do governo petista de Dilma Rousseff, mas nos bastidores o recado foi dado com todas as letras e cifras.

No momento em que um respeitado executivo do mercado financeiro como Joaquim Levy, que aceitou a espinhosa missão de recolocar a economia verde-loura nos trilhos, reúne-se com políticos bisonhos como Renan Calheiros, a única saída é imaginar que há em curso, nos bastidores do poder, alguma negociata escabrosa. Essa interpretação ganhou força com a presença, no encontro, de José Sarney, a velha raposa maranhense, e Henrique Eduardo Alves, ex-presidente da Câmara dos Deputados e candidato derrotado ao governo potiguar, em 2014.

O PMDB tem dado mostras de que dissociar sua imagem da do Partido dos Trabalhadores é seu desejo maior, mas aceitar essa manobra típica de alarifes é passar recibo de inocência. No próximo programa político-partidário, que será levado ao ar nesta quinta-feira (26), o PMDB tenta vender aos brasileiros incautos a ideia de que o partido é um ninho de pureza e candura que abriga somente os mais competentes e ilibados políticos do país. Nessa queda de braços que marco o relacionamento com o PT, o programa peemedebista não faz qualquer menção à presidente Dilma Rousseff.

Que os brasileiros não caiam nessa esparrela peemedebista, pois quem conhece as entranhas da política verde-loura sabe como funciona o balcão de negócios em que se transformou a Esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional. Por lá, nada acontece por acaso ou com boas intenções sem o correspondente dividendo político e o tilintar do vil metal.

O PMDB foi um dos sócios majoritários do PT na roubalheira que derreteu os cofres da Petrobras, mas agora tenta emplacar a tese da inocência plena e da luta por um país melhor e mais justo. Tendo Michel Temer como galã (sic) do programa, o PMDB, sem nominações, defende o trabalho da Polícia Federal e da Justiça no caso da Operação Lava-Jato, mas não convence os que sabem identificar a peçonha que inunda o serpentário político do Brasil.

Vale lembrar que Temer foi alvo da Operação Castelo de Areia, da Polícia Federal, apenas porque seu nome apareceu em contabilidade paralela da construtora Camargo Corrêa, agora encalacrada no escândalo do Petrolão. A Operação Castelo de Areia foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça, mas por conta da Operação Lava-Jato corre o risco de ser ressuscitada.

Em mais um deboche com a marca do PMDB, que chegará aos lares de milhões de pessoas, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, ex-governador do Amazonas, fala em “energia com sinergia”. Braga sabe que a grave situação da Petrobras e o colapso que ronda o parque energético brasileiro não permitem falar em sinergia, vernáculo que no mais reles dicionário da língua portuguesa tem como definição “esforço coordenado para a realização de determinada”. De tal modo, o PMDB só pode considerar sinergia a atuação dos políticos do partido quando estão a cobrar o governo nos bastidores.

O pior nesse espetáculo digno de hospício é ver Edinho Araújo falando sobre portos e Helder Barbalho, sobre pesca. Para quem não se recorda, o ministro Helder Barbalho é filho de outro lobo da política nacional, Jader Barbalho, e de Elcione Barbalho. A família Barbalho esteve envolvida em muitos escândalos, dentre os quais o do ranário criado no Pará por Elcione, devidamente e financiado com dinheiro do contribuinte. De acordo com o Ministério Público Federal, Jader recebia uma parcela dos recursos públicos destinados ao empreendimento, que, como sempre acontece nessa república bananeira chamada Brasil, deu em nada. Para finalizar o fiasco, o cidadão terá de ouvir Eliseu Padilha falando de aviação, situação que pro certo fará Alberto Santos Dumont revirar no túmulo. Padilha afirma no programa que o governo investirá a reforma e ampliação de 270 aeroportos em todo o País, mas esquece que Dilma prometeu, ainda no primeiro governo, construir 800 novos aeroportos.

Para finalizar, Renan Calheiros fala sobre sua recondução à presidência do Senado Federal, cargo que, segundo o próprio senador, exige “reflexão, equilíbrio, humildade e também perseverança”. Mas Calheiros não é a pessoa mais indicada para falar sobre os quesitos mencionados, até porque o senador alagoano não refletiu e muito menos apelou ao equilíbrio quando apresentou ao Senado notas frias de venda de vacas sagradas para justificar o dinheiro usado no custeio da ex-amante e de um filho fora do casamento.
Resumindo, não se pode negar a competência do publicitário que redigiu o texto lido de forma obediente pelos caciques peemedebistas diante das câmeras, mas de igual modo é preciso reconhecer que a política brasileira é um intricado caso de polícia. Mesmo assim, com tantos currículos nefastos à disposição, o PMDB continua acreditando que é a suculenta cereja do bolo.
28 de fevereiro de 2015in ucho.info

FORA DE CONTROLE

“Líbia pode virar novo epicentro do terror”, afirma especialista alemão

guido_steinberg_01A execução de 21 cristãos egípcios (cristãos coptas) pelo “Estado Islâmico”, divulgada no último domingo (15), chamou a atenção para a Líbia, que desde a Primavera Árabe é marcada pela instabilidade e considerada terreno fértil para a atuação de extremistas.

Para Guido Steinberg, especialista em terrorismo do Instituto Alemão de Relações Internacionais e Segurança (SWP), a Líbia pode vir a se tornar o novo epicentro do radicalismo jihadista no norte da África.

Ele defende uma intervenção militar terrestre para combater o EI. Mas admite que nem os políticos europeus nem os americanos têm a menor ideia de como lidar com a situação na Líbia.

“A luta contra essa organização será longa. E o EI continuará a se expandir no mundo árabe”, prevê o especialista, que trabalhou como conselheiro do governo alemão para assuntos de terrorismo entre 2002 e 2005. Steinberg concedeu a entrevista abaixo ao jornalista Peter Kapern, da rádio pública alemã Deutschlandfunk.
O chamado “Estado Islâmico” opera agora também na Líbia. Como o grupo terrorista chegou até lá?
Até agora, eu tinha a impressão de que havia grupos radicais menores no país que, devido ao grande êxito do EI no Iraque e na Síria, se declararam membros do movimento terrorista. Atualmente, três grupos na Líbia aderiram ao EI. E se trata de mais do que declarações de intenção. Parece que têm contatos, que estão recebendo apoio.
Isso não vale apenas para a Líbia, também há um braço do EI no Egito, e outro menor no Iêmen, na Argélia e no Afeganistão. Existe o temor de que a organização terrorista construa uma rede internacional como a Al Qaeda em 2001.
Parece que os jihadistas lutam por diferentes organizações terroristas. Qual a lógica por trás disso?
Em primeiro lugar, o êxito é um critério importante. Depois de 2001, observamos a expansão de ramificações da Al Qaeda. Aparentemente, quando grupos extremistas usavam o rótulo de Al Qaeda, eles recebiam recrutas não só da região do Golfo, mas também do resto do mundo, obtendo também apoio financeiro.
O EI também parece funcionar da mesma forma. No entanto, sabe-se que a ramificação egípcia do EI enviou combatentes para o Iraque e a Síria, em troca de apoio financeiro. E desde que esta unidade egípcia, que opera no Sinai sob o nome de Província do Sinai, passou a pertencer ao EI, ela se tornou muito mais eficaz.
No caso da Líbia, ao analisarmos o vídeo onde se mostra a decapitação de 21 reféns coptas, pode-se ver que, em nível técnico, ele tem a mesma qualidade que os demais vídeos do EI. Isso significa que as organizações estão realmente trabalhando em conjunto.

(M. Hannon - AP Photo)
(M. Hannon – AP Photo)
Pelo que parece, a Líbia se converteu num Estado falido, semelhante às zonas no Iraque e na Síria controladas pelo EI. Deve-se ampliar a luta contra o grupo terrorista na Líbia?
Sim, isso seria o melhor. Pois a Líbia pode vir a se tornar o novo epicentro do terrorismo jihadista no norte da África. A grande pergunta é como intervir na Líbia, onde, como é o caso na Síria, o Ocidente não é considerado um verdadeiro aliado. Há grupos islâmicos, milícias e um ex-militar, Khalifa Haftar, que quer edificar uma nova ditadura secular com o apoio do Egito, dos Emirados Árabes e da Arábia Saudita.
Nem os políticos europeus nem os americanos têm a menor ideia de como intervir no país. Em minha opinião, em primeiro lugar, os europeus deveriam estabilizar os países vizinhos, sobretudo a Tunísia. Os tunisianos estão muito preocupados com o que está acontecendo na Líbia e pedem armas à Europa. Temo que, na Líbia, a guerra civil vá se intensificar e que isso seja algo que os europeus não possam evitar.
O que alcançou, até agora, a coalizão internacional contra o chamado “Estado Islâmico”?
Ao menos ela diminuiu o avanço do EI, obrigando-o a retroceder um pouco. Este é um êxito que se pode atribuir aos ataques aéreos dos EUA e seus aliados, mas também ao apoio que as tropas curdas iraquianas têm recebido dos alemães. O grande problema no Iraque e na Síria é que os ataques aéreos estão perdendo a efetividade, já que todos os grandes alvos foram destruídos.
O próximo passo deve ser a criação de alianças com grupos locais. Na Síria, isso não será fácil, mas no Iraque pode ser que isso venha a funcionar. No entanto, o governo iraquiano, de maioria xiita, deve convencer os sunitas no país de que é a melhor alternativa ao EI. Enquanto isso não acontecer no Iraque ou na Líbia, a organização terrorista continuará ganhando força na região.
Tropas terrestres são necessárias para combater o EI?
Claro que sim. Tropas terrestres são necessárias, porque os ataques aéreos já não são mais eficazes. No Iraque e na Síria, são necessários árabes sunitas para combater efetivamente o EI. Com nossos aliados atuais, ou seja, os curdos e as milícias xiitas, não é possível combater com sucesso o EI nos territórios sunitas. Portanto, a luta contra essa organização será longa. E o EI continuará a se expandir no mundo árabe.

28 de fevereiro de 2015
in ucho.info

 

QUEDA DE BRAÇO

Discurso de Benjamin Netanyahu ameaça azedar relação com Barack Obama

(Kevin Lamarque - Reuters)
 
(Kevin Lamarque – Reuters)

A convite do Partido Republicano americano, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem programado para a próxima terça-feira (3) um discurso no Congresso em Washington.

Sua intenção é atacar uma iniciativa central do governo Barack Obama na política externa: o acordo nuclear entre Irã e Estados Unidos, atualmente nas últimas fases de negociação. O pacto prevê uma retração das atividades nucleares iranianas por um período de pelo menos dez anos, seguido, então, por uma gradual retirada das restrições.

Para o chefe de governo israelense, tal equivale a uma permissão tácita para os aiatolás construírem uma bomba atômica, assim que o acordo expirar, em cerca de uma década. Antes de partir para Washington, ele declarou: “Eu respeito a Casa Branca e o presidente dos EUA, mas num assunto sério, é meu dever fazer tudo pela segurança de Israel.”

Na prática, porém, diante da perspectiva de um Irã nuclearmente armado, Netanyahu não hesitou em atacar Obama, abalando assim as já frágeis relações israelo-americanas. O secretário de Estado John Kerry colocou abertamente em dúvida o julgamento de Netanyahu sobre a questão.
Novo estágio de tensão

Fontes diplomáticas acreditam que Obama seria capaz de implementar grande parte do acordo nuclear sem a ajuda do Congresso. Por outro lado, é possível que alguns deputados criem dificuldades, com o fim de exibir suas credenciais pró-Israel, antecipando as eleições gerais de 2016. Para isso, eles poderiam se recusar a suspender determinadas sanções contra Teerã, ou até introduzir novas, o que ameaçaria gerar uma desistência iraniana do projeto.

Desde que Netanyahu e Obama assumiram seus postos, em 2009, impera a tensão diplomática entre as duas potências, repetindo-se os confrontos sobre temas sensíveis, como a política de assentamento israelense nos territórios palestinos, ou o estagnado processo de paz no Oriente Médio.

No entanto, o fato de o premiê se apresentar no Congresso – adentrando, por assim dizer, o “quintal dos fundos” do chefe de Estado democrata –, ainda mais a convite dos adversários republicanos, tem todo o potencial para inaugurar um novo grau de estranhamento entre os dois governos.
Parcialidade perigosa

Por mais que Netanyahu alegue ter “a intenção única de expressar as graves apreensões de Israel”, a Casa Branca rebateu com energia a manobra que interpreta como uma ingerência na política interna americana. Obama se recusou a receber Benjamin Netanyahu durante a visita dele à capital americana, enquanto seu vice-presidente e secretário de Estado estarão mesmo no exterior, na ocasião.

Numa entrevista televisiva, a conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice, acusou o político conservador israelense de, com esse passo, injetar um grau de parcialidade “destrutiva para o tecido do relacionamento bilateral”, o qual deveria estar acima da política.
Vários democratas moderados prometeram se ausentar do Congresso, na próxima terça-feira, falando de um “grave insulto” a Obama. Um deles, Tim Kaine, classificou o discurso de Benjamin Netanyahu como “altamente inapropriado”, diante da proximidade das eleições de 17 de março em Israel.

Outros deputados do partido de Obama propuseram um encontro particular com o premiê israelense, durante sua estada em Washington. Ele declinou, afirmando não querer, justamente, “piorar a falsa impressão de parcialidade” em torno de sua visita.

(Com agências internacionais)

28 de fevereiro de 2015
ucho.info

PARAFUSO SOLTO

Terroristas do “Estado Islâmico” destrói estátuas milenares no Iraque

estado_islamico_41A organização terrorista “Estado Islâmico” (EI) divulgou nesta quinta-feira (26) um vídeo que mostra militantes do grupo usando marretas para destruir estátuas com mais de 3 mil anos em um museu na cidade iraquiana de Mossul.

As destruições fazem parte de uma campanha dos extremistas para arruinar relíquias ou santuários – incluindo locais sagrados muçulmanos – que classificam como heresia. Além disso, é especulado que a organização tenha vendido alguns artefatos históricos no mercado negro a fim de financiar sua campanha jihadista no Oriente Médio.

O vídeo de cinco minutos mostra um grupo de homens dentro do Museu de Mossul, usando martelos e brocas para destruir várias estátuas do período mesopotâmico.
Na sequência, um homem é visto num sítio arqueológico na mesma cidade perfurando e destruindo uma estátua de um touro alado assírio, uma divindade protetora que remonta ao século 7 a.C.

“Caros muçulmanos, estes artefatos que estão atrás de mim eram ídolos e deuses adorados por pessoas que viveram séculos antes de Alá”, disse o homem à câmera, em frente ao parcialmente destruído touro. “O nosso profeta mandou que removêssemos todas essas estátuas como seus seguidores fizeram quando conquistaram nações.”

Professor da Faculdade de Arqueologia de Mossul, Amir al-Jumaili confirmou que os dois locais retratados no vídeo são o museu da cidade e um local conhecido como o Portão de Nergal, uma das várias entradas para a capital do antigo Império Assírio.

“Estou totalmente chocado”, disse Jumaili, que destacou que a maioria das peças era genuína. “É uma catástrofe. Com a destruição dos artefatos, não podemos mais ficar orgulhosos da civilização de Mossul.”

Em Nova York, Stéphane Dujarric, porta-voz das Nações Unidas, disse que a agência cultural da organização (Unesco) está analisando o material.

“A destruição de patrimônio cultural é repreensível e criminosa”, disse Dujarric. “Isso priva as gerações atuais e futuras da história de seu passado.”

Na quarta-feira, membros dos EI invadiram uma biblioteca pública em Mossul e destruíram ao menos 8 mil livros e manuscritos raros que datavam de até 5 mil a.C.

(Com agências internacionais)

28 de fevereiro de 2015
ucho.info

OPOSITOR DE VLADIMIR PUTIN É ASSASSINADO A TIROS NO CENTRO DE MOSCOU

 

boris_nemtsov_01Missa encomendada – O ex-vice-primeiro-ministro Boris Nemtsov, um das principais vozes de oposição ao presidente Vladimir Putin, foi morto ao ser alvejado por pelo menos quatro tiros na noite desta sexta-feira (27), no centro de Moscou.

“De acordo com informações preliminares, uma pessoa não identificada disparou contra Boris Nemtsov nada menos do que sete a oito vezes a partir de um carro enquanto ele caminhava na ponte Bolshoi Moskvoretsky”, disse o porta-voz do Comitê de Investigação russo, Vladimir Markin.

O crime teria sido presenciado por várias testemunhas, entre elas uma mulher ucraniana que o acompanhava. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que Putin condenou o assassinato do líder opositor. Segundo ele, o presidente supervisionará pessoalmente a investigação. Ou seja, mais uma pizza russa será servida em breve, pois Putin, um ex-agente da KGB, não admite ser contrariado ou ter opositores. Basta ver o que acontece no leste da Ucrânia.

Ainda de acordo com o porta-voz, Putin afirmou que a morte de Nemtsov parece ser um assassinato encomendado e classificou o crime como “brutal” e uma “grande provocação”.
Nemtsov iniciou carreira política como governador da região de Níjni Novgorod, na Rússia central, e tornou-se vice-primeiro-ministro do país no final da década de 90, sob a presidência de Boris Ieltsin.

Ele é considerado um dos arquitetos da reforma econômica liberal russa. Depois de deixar o Parlamento, em 2003, Boris Nemtsov ajudou a criar e liderar diversos partidos e grupos de oposição.

“Devastado por ouvir sobre o assassinato brutal do meu colega opositor de longa data Boris Nemtsov. Baleado quatro vezes, uma para cada filho que ele deixa”, afirmou o ativista opositor e enxadrista Garry Kasparov.

Crítico ferrenho de Putin, Nemtsov era copresidente da coligação entre Partido Republicano da Rússia e Partido da Liberdade Popular (RPR-PARNAS). Por ter protestado nas ruas contra as prisões de opositores de Putin, ele próprio teve que passar alguns dias preso, há um ano.

No próximo domingo (2), Boris Nemtsov participaria da primeira grande manifestação da oposição na capital russa em meses.

(Com agências internacionais)

28 de fevereiro de 2015
ucho.info
 

PÚBLICO PAGANTE

 inflação chegou a 7,36% com a economia estagnada. Foi o dado do IPCA-15 divulgado ontem. Em dois meses, a taxa acumulada é metade da meta do ano. O aumento da energia elétrica em 12 meses é de quase 30%. Dez de 11 capitais pesquisadas pelo IBGE têm inflação acima do teto da meta. O IPCA-15 de 1,33% deve ser confirmado no IPCA do mês de fevereiro.

Até recentemente os economistas brasileiros achavam muito altas as taxas de inflação da Índia, que oscilaram de 7% a 11% entre 2006 e 2012. Os indianos eram o patinho feio inflacionário dos Brics, ao lado da Rússia, pois tinham taxas mais altas quando comparadas às da China, Brasil, e África do Sul. Hoje, a inflação no Brasil é maior que a da Índia, que tem se beneficiado muito da queda dos preços do petróleo, dos alimentos e da energia. O BC indiano está cortando juros.

Nas 11 capitais pesquisadas, apenas Salvador não está com a inflação acima do teto da meta, com 6,19%. As outras 10 estão com índices acima de 6,5%. O Rio de Janeiro é quem sofre mais com a alta dos preços, que dispararam 8,84% em um ano. O Rio passou quase todo 2014 com a inflação acima do teto, e agora se aproxima de 9%. Goiânia e Porto Alegre também têm índices na casa dos 8%. Recife, Brasília, Belém, Curitiba e São Paulo marcam inflação na casa de 7%.

A inflação é mais um caso de Dilma versus Dilma. Ela errou no governo passado, e a conta chegou no atual mandato. Os preços administrados foram contidos artificialmente e agora estão sendo corrigidos. Têm subido muito os grupos transporte e habitação.

Nos transportes, é o efeito da alta da gasolina e da volta da Cide, mas, em fevereiro, foi principalmente aumento de ônibus em todas as cidades pesquisadas. Há dois anos, o então ministro da Fazenda Guido Mantega ligou para prefeitos e governadores pedindo para que eles não reajustassem as tarifas de transporte público. Queria evitar que a inflação do mês de janeiro fosse alta demais. Em junho de 2013, no meio dos protestos, o governo segurou os pedágios nas rodovias federais.

Preço que é contido em um momento aparece em outro. A gasolina e o diesel foram mantidos com preços abaixo do que a Petrobras pagava no mercado internacional. Agora, quando cai a cotação lá fora, os combustíveis sobem aqui dentro. A consequência se viu ontem nas estradas: os caminhoneiros pararam rodovias em oito estados protestando contra o aumento do diesel e a alta dos pedágios. Além disso, o frete, o que eles recebem, não subiu. A paralisação em si já provoca efeitos econômicos. Há cidades desabastecidas e preços subindo. Isso produzirá mais inflação.

Há aumentos que acontecem num período do ano, como o do item educação, o que mais subiu no IPCA-15 de fevereiro. Há outros que vão incomodar o ano inteiro, como a energia. Além dos 29,5% de alta nos últimos 12 meses, o item vai continuar subindo pelos reajustes nas datas de cada concessionária e elevações extraordinárias que estão previstas. Vão subir porque o governo derrubou o preço artificialmente, desequilibrou as empresas financeiramente, deixou que elas pegassem empréstimos para serem cobrados do consumidor. É isso que fará o item habitação ficar alto o ano inteiro.

As projeções para a inflação de 2015 estão se distanciando do teto da meta de 6,5%. O economista chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio Leal, estima que a inflação vá terminar o ano entre 7,5% e8%. O Itaú Unibanco estima alta de 7,4%, a mesma projeção da consultoria Rosenberg Associados.

O IPCA-15 é uma espécie de prévia. Pega a metade de um mês e a metade do outro. E subiu em relação ao IPCA de janeiro, que deu 1,24%. Mesmo se essa aceleração não continuar, o IPCA do mês de janeiro deve ficar acima de 1%, o que elevaria a taxa em 12 meses para 7,6%.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já havia avisado que esse seria o pior bimestre do ano e que em março a inflação em 12 meses começaria a cair. Tomara que seja só um momento ruim. Há muita pressão de alta. Uma delas é a do dólar. Há dias de queda, como ontem, mas a tendência tem sido de fortalecimento da moeda americana. O aumento do dólar tem efeito em vários produtos, inclusive a tarifa da energia de Itaipu. Dilma recebeu de Dilma uma pesada herança. E o público pagante somos todos nós.

28 de fevereiro de 2015
Miriam Leitão, O Globo

MOVIMENTO CONTRA A LIBERDADE DE IMPRENSA

O 'crime' da mídia brasileira é publicar as maiores barbaridades perpetradas contra o nosso país

O desprezo pela liberdade de imprensa e de expressão cresce nos políticos radicais brasileiros; e, no Facebook, valendo-se da liberdade da internet, militantes engrossam a voz contra a mídia. O sonho totalitário é tornar a grande imprensa brasileira de timbre estatal, buscando a "harmonia" ditatorial. Assim, jamais teríamos reportagens estarrecedoras sobre a progressiva e interminável cultura da corrupção, do furto aberto ao dinheiro público e a desavergonhada sucessão de crimes, em uma escalada reconhecida por especialistas como talvez a maior da história da humanidade.

Contudo, nada parece abalar a convicção que a preservação e a expansão política e demográfica do homo corruptus depende da destruição da liberdade. Em latim, corrumpere significa destruir. Assim, corromper a liberdade é a garantia quase constitucional de expandir a corrupção do dinheiro público. O mantra liberticida faz alusão ao "controle social da mídia" ou "regulação da mídia", eufemismos para a repressão. Controle social da mídia faz o consumidor, que escolhe livremente seus veículos de comunicação. Os trabalhadores dos meios de comunicação de massa são oriundos dos mais diversos estados da federação, das mais diferentes origens sociais, econômicas, ideológicas, culturais e políticas.

A guerra de posição gramsciana contra a liberdade de imprensa já começou por meios econômicos, políticos, psicossociais e culturais. Quanto mais são divulgados os malfeitos criminosos, maior o movimento contra a imprensa livre. O "crime" da mídia brasileira é publicar as maiores barbaridades perpetradas contra o Brasil. A chamada revolução bolivariana na América Latina tem especial objetivo de calar a liberdade para implantar uma imprensa subserviente, obediente, corrupta, chapa- branca e autoritária. A liberdade de expressão é a pedra no sapato dos totalitarismos. Por isso, todos os países do eixo bolivariano formam um bloco unido contra a crítica da imprensa.

A guerra contra a mídia atinge diretamente a liberdade da arte, da cultura, da ciência, da religião, da economia, da política, do esporte e demais atividades humanas. O fanatismo ideológico associado ao furor da paixão pelo crime financeiro, o materialismo mais hediondo da adoração ao bezerro de ouro e uma vontade patológica de poder se associam para condenar os mais elevados valores e princípios do Estado Democrático de Direito. É nosso dever, pois, defender a liberdade de imprensa e de expressão de toda tentativa de repressão autoritária, e de todas as agressões explícitas ou dissimuladas. Mais vale corrigir alguns excessos inerentes à democracia que aprovar a exceção do fim da liberdade no Brasil. Democracia é contradição.


28 de fevereiro de 2015
João Ricardo Moderno, O Globo

A ESPERA DE UM MILAGRE

Não surpreende que ninguém esteja disposto a assumir o fracasso da 'nova matriz macroeconômica'

É sabido que a economia brasileira encolherá em 2015, se é que já não encolheu um tanto no ano passado.

Também não é segredo que a inflação persistirá alta e deverá superar a registrada em 2014, ultrapassando também o limite superior permitido pela sistemática de metas para a inflação.

Já o mercado de trabalho provavelmente registrará piora visível, liquidando com o último argumento em favor da política econômica prevalecente durante o primeiro mandato da presidente.

Trata-se, enfim, de uma combinação nada invejável. Não chega a ser surpreendente, pois, que ninguém esteja disposto a assumir o fracasso retumbante da "nova matriz macroeconômica". A vitória, já se disse, tem muitos pais; a derrota, porém, é órfã.

Não é outro o motivo para que economistas que apoiaram abertamente as políticas adotadas nos últimos anos venham a público agora afirmar terem feito "inúmeras críticas" a elas.

Contudo, no começo de 2014, quando meus 18 leitores já viam as inconsistências aqui apontadas, membros da mesma tropa não tiveram o menor problema em afirmar que acreditavam "em um crescimento do PIB em torno de 4% para 2014 (...), [pois] o investimento está acelerando neste ano, recuperando o ano passado". E projetavam uma taxa de inflação "entre 4% e 5%".

Como se pode ver, eram previsões que refletiam uma visão profundamente crítica da política econômica então vigente. Só que não...

Isto dito, eu seria injusto se não mencionasse as críticas que de fato foram feitas. A principal, de longe, é a acusação de "austericídio" fiscal, mesmo em face da maior expansão orçamentária em, pelo menos, 18 anos.

Como já notado neste espaço, o governo Dilma registrou simplesmente o maior avanço do gasto federal no Brasil desde que esses dados passaram a ser compilados (mais de R$ 200 bilhões a preços de hoje, ou 2,7% do PIB).

Nesse mesmo período o superavit primário veio em queda, registrando valores menores a cada ano desde 2011, culminando com o registro de um deficit primário em 2014, mesmo pelos números oficiais, que, como se sabe, têm sistematicamente puxado a brasa para a sardinha do Tesouro.

Apenas um habitante da Dimensão Z, alheio a tudo o que acontece neste quadrante da galáxia, poderia sugerir que o Brasil passou por qualquer processo que se assemelhasse a um aperto fiscal. Ao contrário do que afirmavam os "keynesianos de quermesse", foi a falta, não o excesso de rigor fiscal, que jogou nossa dívida pública a 63,4% do PIB em 2014, exatos dez pontos percentuais do PIB a mais do que o registrado em 2010.

Nesse contexto, jogar a culpa do mau desempenho da economia no suposto "austericídio" revela completo desconhecimento dos dados, ou diagnóstico preconcebido.

Trata-se de mais uma instância de desonestidade intelectual: ou porque a conclusão é mantida apesar dos fatos discordantes ou, ainda pior, porque se arrogam o direito de chegar a conclusões sem se preocupar em saber se Sua Excelência, o dado, se mostra minimamente coerente com o argumento.

A verdade é que esses economistas aplaudiram de pé a "nova matriz macroeconômica", no máximo opondo-se a um aperto fiscal que jamais existiu. Foram signatários de documentos que pediam a manutenção da política adotada no primeiro governo da presidente, apesar de sinais inequívocos de deterioração do crescimento econômico, da inflação e das contas externas.

Não se opuseram à maciça intervenção governamental no domínio econômico, que resultou em for- te queda do ritmo de expansão da produtividade e em desarticula- ção de setores importantes da economia, como o energético e o sucroalcooleiro.

Os custos dessas políticas estão expressos na lamentável combinação de crescimento e inflação de 2015. A honestidade intelectual requereria profunda autocrítica acerca dessas consequências, mas é melhor tocar a vida do que esperar por um milagre nessa área.


28 de fevereiro de 2015
Alexandre Schwartsman, Folha de SP

O ESPAÇO DO PMDB

Pela enésima vez, PMDB e PT buscam a reaproximação, mas não está fácil para ninguém. Tudo levava a crer que o jantar de segunda-feira com a equipe econômica havia selado um acordo para que o PMDB apoiasse a aprovação do pacote fiscal do governo, quando ficou claro que nem mesmo o PT está disposto a dar sua aprovação cegamente. E por que o PMDB o faria, ficando exposto às críticas da opinião pública, enquanto o PT sai de bonzinho?

O afastamento entre PMDB e PT, explicitado na campanha presidencial, é promessa de crise nos próximos anos, à medida que as forças políticas começarem a buscar seus espaços na reorganização do poder, que todos sentem que está prestes a acontecer, a partir deste que pode vir a ser o último dos governos petistas em sequência.

O desgaste partidário vem ficando evidente nas sucessivas crises políticas em que o PT se vê envolvido desde 2005, o que reduz a expectativa de poder, que é o combustível para a manutenção da base aliada. Mesmo sendo o principal partido da base aliada, o PMDB, descobre a cada dia que perde poder de fato, embora na aparência esteja mais forte, com 6 ministérios e a vice-presidência da República.

Mas os ministérios somados não têm a verba do ministério das Cidades, e quatro são meras secretarias com nível ministerial. E o vice Michel Temer não fala com a presidente sobre coisas concretas, como a ocupação do segundo escalão, há um mês. Quando o PMDB sentiu que o novo "núcleo duro" do Palácio do Planalto, do qual exige fazer parte, estava armando um esquema político para dar mais força a partidos aliados como o PSD de Gilberto Kassab, o PROS de Cid Gomes, o PP e o PTB, que receberam ministérios importantes e com verbas, decidiu partir para a disputa novamente das presidências da Câmara e do Senado, sendo que a eleição do deputado Eduardo Cunha para a presidência da Câmara deu-se derrotando diretamente o governo.

O senador Renan Calheiros, que continua na presidência do Senado, jogou água fria ontem na comemoração da reaproximação do PT quando disse que a coalizão estava "capenga", informando que os cortes serão da ordem de R$ 80 milhões, segundo a equipe econômica comunicou ao PMDB.

Mesmo com o Congresso fragilizado pelas constantes denúncias envolvendo seus membros, o PMDB, continuando a dominar as duas Casas, tem condições de barrar iniciativas do Executivo, de propor ações concretas, de não limitar sua ação ao fisiologismo, se quiser ter um peso decisivo nas próximas eleições.

O deputado Eduardo Cunha assumiu delimitando seus poderes claramente, dando demonstrações de que a independência da Câmara em relação ao Executivo será a base de sua administração. Sinais de ter boa vontade com o governo também cabem nesse figurino, quando defendeu por exemplo a aprovação do pacote fiscal alegando que é preciso ter responsabilidade nos momentos decisivos.

Embora tenha instalado a CPI da Petrobras, Cunha acabou dando a relatoria para o PT, mas guardou a presidência para um aliado de fé, o jovem deputado Hugo Motta, da Paraíba, que até o momento está mais preocupado em marcar sua independência em relação ao governo.

Essa preocupação não é só do PMDB, mas de todos os partidos aliados do governo que têm projetos políticos de mais longo prazo, como o PSB - que já anunciou que continuará independente. O PMDB começa a mudar de posição em relação à disputa presidencial, que não disputou nos últimos anos para se tornar parceiro preferencial de qualquer governo a ser eleito.

Com isso, ao longo dos anos, perdeu uma imagem política nacional, embora domine a política regional mantendo sua estrutura enraizada por todo o país. Há cada vez mais políticos dentro do PMDB que consideram que é chegado o momento de disputar com candidato próprio a eleição presidencial de 2018, para que o partido deixe de ser vítima de sua própria estratégia política, sem condições de governar, mas imprescindível a qualquer governo.


28 de fevereiro de 2015
Merval Pereira, O Globo

DILMA FRACA E O PT MEDÍOCRE

Em meio à crise política provocada pela incompetência do governo Dilma, o Palácio do Planalto e o PT, não necessariamente articulados entre si, iniciaram esta semana uma ofensiva junto à chamada base aliada na tentativa de garantir um mínimo de apoio à adoção das medidas necessárias, algumas delas impopulares, para botar em ordem as contas públicas e retomar o caminho do equilíbrio fiscal e do desenvolvimento econômico, que são precondições para a manutenção e a ampliação das conquistas sociais.

O desafio que se coloca diante de Dilma Rousseff e do lulopetismo é enorme. Principalmente porque, antes de mais nada, Dilma precisa se entender com seu próprio partido e entrar em acordo com o lulopetismo sobre objetivos comuns que se estendam além de um obsessivo projeto de poder. E a maior dificuldade para esse entendimento parece ser a mediocridade dos quadros mais qualificados do partido, a incapacidade que revelam de enxergar um palmo além do nariz e de seus próprios interesses imediatos.

Essa espantosa mediocridade está estampada em manifestação, muito compreensivelmente off the record, de um senador petista colhida pelo jornal Valor em matéria que trata exatamente dos esforços do partido para rearticular sua base de apoio parlamentar. Incomodado com a posição incômoda e "ridícula" em que, em sua opinião, o governo colocou suas bancadas no Congresso em relação ao debate sobre as medidas de ajuste fiscal que estão sendo propostas pela equipe econômica, desabafou o senador: "Estamos agora com o PT defendendo a tese do patrão e os tucanos, a manutenção dos direitos trabalhistas".

Essa redução do problema a termos tão banais é a tradução mais fiel do maniqueísmo que inspira o discurso político de Lula, o defensor do Bem, do Reino da Luz, em luta contra os representantes do Mal, do Reino das Trevas.

Só pode ser daí que o ilustre senador petista tirou a brilhante ideia de que o grande problema do País é o conflito entre dois valores reciprocamente excludentes: "a tese do patrão" e "a manutenção dos direitos trabalhistas". Não ocorre nem por um instante ao parlamentar que seu papel, como membro de um órgão de representação, antes de defender a "tese do patrão" ou "os direitos trabalhistas" é o de defender prioritariamente os interesses do País. O acirramento do conflito entre os interesses naturais e legítimos dos vários segmentos sociais só leva à desagregação nacional, pois a expressão mais autêntica do espírito de nação consiste na conciliação democrática dos interesses divergentes abrigados no seio da comunidade.

É claro que os vários segmentos sociais, numa sociedade democraticamente institucionalizada, merecem sempre atenção e tratamentos diferentes por parte do governo que representa a todos e - por um imperativo de justiça, e sempre rigorosamente de acordo com a lei - tem a obrigação de estabelecer prioridades no campo social. Mas a prioridade maior será sempre a harmonização dos interesses conflitantes em benefício do bem comum.

Não é isso o que, por conveniência eleitoral, pregam os populistas que estão no poder. Não é isso que Lula e o PT querem para o Brasil quando reduzem os grandes problemas nacionais à opção sectária do "nós" ou "eles".

E é exatamente por isso que Dilma Rousseff está metida até o pescoço numa encrenca da qual procura se livrar mobilizando seus comandados e as (poucas) forças políticas que a ela se declaram fiéis. Não será fácil. A presidente passou quatro anos cometendo erros. Não os admite publicamente. Mas foi obrigada, por imposição dos fatos, a defender medidas que contrariam seu discurso eleitoral populista. Essa contradição está lhe custando a credibilidade. Já ao PT provoca enorme desconforto, pois um partido politicamente medíocre e moralmente carcomido não entende que, para garantir os "interesses do povo", é preciso a coragem de assumir, quando necessário, decisões impopulares.

Em 2002, o PT se desdisse, com a Carta aos Brasileiros. Mas nunca adotou um código ético nem adquiriu respeito pelo povo. Está, agora, com o petrolão seguindo-se ao mensalão e com a revelação da sua incompetência em todas as áreas do governo, pagando o preço da desídia. Lamentavelmente, os brasileiros arcam com o aval dado a pessoa que não merecia confiança.


28 de fevereiro de 2015
Editorial O Estado de S.Paulo

PERIGO EXTERNO PARA OS IMPLICADOS NO PETROLÃO

Se o réu de um processo sobre o escândalo for absolvido ou receber pena que a Justiça americana considere insuficiente, ele ainda poderá ser condenado nos EUA

No front interno do petrolão, aumentam as especulações em torno da lista de políticos envolvidos no escândalo, a ser liberada pelo Ministério Público Federal, enquanto se movimentam o Ministério da Justiça, a AGU e a CGU — Advocacia e Controladoria-Geral da União —, para livrar empreiteiras de punições, desejo expresso da presidente Dilma Rousseff.

Também transparece, em toda essa operação política, o temor do governo e do PT com a possibilidade de executivos e acionistas de empreiteiras assinarem acordos de delação premiada, pelos quais poderiam implicar algum poderoso de ocasião no esquema de roubalheira montado por PT e aliados (PP e PMDB) na estatal.

Mas os pesadelos de implicados no petrolão não se esgotam aqui, porque há também um front externo do escândalo, não fosse a Petrobras uma empresa globalizada, com ações na Bolsa de Nova York, títulos de crédito emitidos no exterior e uma enorme malha de fornecedores mundiais, alguns deles envolvidos no esquema de propinas.

Livrar-se de punições no Brasil — por debilidade da legislação, falhas judiciais, amizades em Brasília, o que seja — não significa que o participante do petrolão estará livre de dores de cabeça.

Ele pode, por exemplo, ser apanhado pela Justiça dos Estados Unidos, onde as reclamações formalizadas até há poucos dias somavam prejuízos alegados de meio bilhão de dólares, segundo informações da Bloomberg. A maior parcela dessa cifra é de investidores institucionais, entre eles fundos de pensão de funcionários públicos.

Reportagem do jornal inglês “Financial Times”, da edição de domingo, trouxe a opinião do advogado canadense Marin Kenney, especializado em recuperar dinheiro perdido em fraudes empresariais. Segundo ele, o caso Petrobras transita num “ambiente multijurisdicional". Ou seja, em diversas Justiças.

São citados dois exemplos: estão envolvidas nessa história a britânica Rolls-Royce e a holandesa SBM, citadas como pagadoras de propinas. No caso da SBM, há um processo específico contra a empresa em tramitação na Holanda, porque a companhia distribuiu dinheiro ilegal em escala planetária.

Nos Estados Unidos, transcorrem investigações na SEC (a CVM americana) e no próprio Departamento de Justiça (DoJ). De acordo com o “FT”, se o DoJ considerar as instituições brasileiras muito lenientes nas punições no petrolão, ele deve deflagrar ações nos Estados Unidos contra os envolvidos no escândalo.

Cita-se o caso de corrupção ocorrido entre a norueguesa Statoil e o Irã, em 2006. O DoJ entrou no assunto porque a Statoil tem ações em Wall Street, como a Petrobras. Resultado: o Departamento de Justiça triplicou a multa recebida pela Statoil na Justiça do seu país, a Noruega.

Cabe repetir: o lulopetismo não teve visão estratégica ao conectar o caixa da Petrobras a seu projeto de poder.


28 de fevereiro de 2015
Editorial O Globo

A CONTA PARA O CONSUMIDOR

O incômodo e os prejuízos causados pelo protesto dos caminhoneiros, que paralisou rodovias em pelo menos sete estados do país nos últimos dias, não constituíram fato isolado. É mais uma das pontas da herança que a presidente Dilma Rousseff recebeu da antecessora, ou seja, dela mesma. O voluntarismo que marcou o primeiro governo abandonou regras elementares de política econômica, aumentou a intervenção do Estado no funcionamento de mercados, forçou a queda de alguns preços e adiou o reajuste de outros para evitar que os índices de inflação refletissem a realidade em ano eleitoral.

O preço dos combustíveis, incluindo o diesel, e o valor cobrado nos pedágios rodoviários fizeram parte do cardápio de analgésicos e panos quentes. Mas, como o dinheiro não aceita desaforos, a conta teria que ser paga mais dia menos dia. Neste começo de ano, ela foi espetada no peito de quem vive do transporte rodoviário, provocando difícil queda de braço entre o caminhoneiro e as empresas que pagam o frete.

Sabemos quem vai pagar o prejuízo: o consumidor da mercadoria transportada. Ou seja, o diesel, o caminhão e o pedágio são apenas elos de várias cadeias produtivas, que podem começar numa fazenda e acabar em um supermercado, nascer na mina de ferro e alimentar a montadora de automóveis. Quanto maior a cadeia, pior o efeito do ato de segurar artificialmente os preços de um dos elos.

Mesmo que o consumidor não perceba a ligação entre uma coisa e outra, a conta de igual trapalhada praticada em outros setores da economia está batendo forte no bolso. Ontem, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a prévia da inflação de fevereiro, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) 15. Trata-se da inflação oficial pesquisada entre os dias 15 de um mês e 14 do mês seguinte.

O resultado, alta de 1,33%, é preocupante, bem acima da apurada em janeiro, de 0,89%. Com isso, o índice acumulado em 12 meses pelo IPCA 15 soma 7,36%, muito longe da meta de 4,5% fixada pelo governo para este ano. Pior: significa que, em apenas dois meses, a disparada dos preços engoliu a metade da meta.

É certo que a inflação de fevereiro carrega a sazonalidade das matrículas e do material escolar. Este ano não foi diferente: o item teve alta no período de 5,98%. Mas esse é impacto localizado no tempo e nas famílias com esse tipo de gasto.

O verdadeiro vilão tem DNA parecido com o do diesel dos caminhoneiros: a energia elétrica, que reflete o resultado de uma maiores trapalhadas do primeiro governo Dilma. Em 2012, a presidente foi à tevê alardear heroica decisão de forçar inédita redução nas contas de luz. Inadequada e inoportuna, a medida não se sustentou mais que um ano, abalou o caixa das concessionárias e estimulou o consumo em meio aos avisos de que havia crise hídrica a caminho.

Resultado: somente entre a segunda quinzena de janeiro e a primeira de fevereiro, a energia subiu nada menos do que 7,7% na média nacional, segundo o IBGE, pesando na inflação do período e sinalizando que as cadeias produtivas que dependem da energia elétrica (a maioria) vão refletir o aumento de custos nos próximos meses. Ao fechar as estradas em protesto legítimo, os caminhoneiros punem a sociedade. Melhor fariam se levassem os caminhões para a grama do Planalto. Teriam, certamente, mais vítimas da alta do custo de vida a apoiá-los.


28 de fevereiro de 2015
Editorial Correio Braziliense

O GOVERNO NA DEFESA DOS GATOS GORDOS

A retórica do Planalto, do ministro da Justiça e da AGU embute uma ajuda às empreiteiras, driblando o MP

Quando o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, trata das malfeitorias das empreiteiras e diz que "é preciso separar as pessoas das empresas", pressupõe que milhões de dólares rolavam porque "pessoas" delinquiam. Ele acrescenta: "Temos que ter cuidado para não atentar contra a economia, contra o emprego e contra o bem-estar da sociedade".

É a doutrina Engevix. Em novembro, quando a Lava Jato começou a cercar as empreiteiras, um de seus maganos anotou: "Janot e Teori sabem que não podem tomar a decisão. Pode parar o país". Ou seja, o procurador-geral Rodrigo Janot e o ministro Teori Zavascki travariam o processo. Não travaram. Essa doutrina ecoa a tolerância com o tráfico de escravos no século 19. A lei o proibia, mas, se fosse cumprida, as fazendas de café quebrariam. Com uma diferença: d. Pedro 2º não recebia doações de negreiros.

Trazendo a doutrina Engevix para a vida real, o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, defendeu a tese segundo a qual as empreiteiras podem negociar acordos de leniência com a Controladoria-Geral da União, um órgão do aparelho do Executivo. Sua argumentação parte da constatação de que há no Brasil uma "especifidade", a "sobreposição" de órgãos e leis. De fato, para caçar larápios, há uma sopa de letras (CGU, TCU, CVM, Cade, MP) e de números de leis (2.864, 8.429, 8.433). Deu no que deu.

Na sua exposição, Adams ofendeu o fatos. Disse o seguinte: "No caso americano, quem faz os acordos é a SEC, que é o nosso correspondente à Comissão de Valores Mobiliários". Nem pensar. Os acordos que a SEC faz, como os da CVM, são pontuais, quando não há processo penal. O ex-diretor financeiro da Petrobras fechou sete acordos com a CVM, no valor de R$ 1,75 milhão, desembolsados pela seguradora da empresa. Num deles estava o "amigo Paulinho". Deu no que deu.

Adams ilustrou sua posição dizendo mais: "A Siemens fez no mundo, empresas americanas fizeram e fazem". Nem pensar.

A Siemens foi apanhada na Alemanha e nos Estados Unidos. Suas "pessoas", como diria o ministro Cardozo, haviam aspergido US$ 1,4 bilhão de dólares pelo mundo afora (inclusive no Brasil). A empresa não propagou a patranha do perigo de desemprego para 400 mil empregados em 190 países. Gastou US$ 1,3 bilhão para se investigar e achou mais US$ 1 bilhão de capilés. Negociou com o governo e propôs acordos ao juiz federal americano e ao Ministério Público alemão. Pagou US$ 1,6 bilhão em multas e chamou um ex-ministro das Finanças da Alemanha para fazer uma faxina em sua práticas. O acordo foi precedido pelas chancelas do juiz e do procurador. Nessas especificidades há lógica.

Como o pulo do sapo de Guimarães Rosa, a balbúrdia de leis e siglas brasileira não é produto da boniteza, mas da precisão. Elas tecem uma rede de atalhos úteis para o andar de cima, inacessíveis ao andar de baixo. Para que os paralelos mencionados por Adams tivessem solidez, as empreiteiras precisariam da chancela do juiz Sergio Moro ou do Ministério Público.

Adams mostrou que um acordo com a CGU não trava o processo penal. Era o que faltava. Ele disse que nesse processo "as provas que forem carreadas levarão à condenação ou absolvição dos culpados". Em seguida corrigiu-se: "dos acusados". Ainda bem.


28 de fevereiro de 2015
Elio Gaspari, Folha de SP

AQUI NAS NOSSAS BARBAS

Não foi por falta de aviso que a presidente Dilma Rousseff caiu em mais essa esparrela: se ver, neste momento, perigosamente atrelada ao curioso e decrépito regime da Venezuela, onde Nicolás Maduro está literalmente caindo de maduro. O Itamaraty bem que avisou.

Ainda no primeiro mandato, aquele que já foi tarde, o então chanceler Antônio Patriota procurou a presidente para alertar que a coisa ia de mal a pior e sugerir que o Brasil mantivesse uma distância cautelosa, para não se contaminar nem inviabilizar o diálogo com a oposição (que pode vir a ocupar o poder um dia...).

Cheio de dedos, possivelmente morrendo de medo da presidente (ou "presidenta"...), Patriota relatou que os informes recebidos de Caracas pelas vias oficiais, diplomáticas, davam conta de uma deterioração acentuada do regime: recessão, inflação galopante, grave desabastecimento e até declínio das tão badaladas missões sociais, as "misiones".

Não se sabe como ele disse, mas o objetivo foi dizer que Maduro estava perdendo o controle da situação, a oposição se fortalecia e, portanto, seria conveniente aos interesses brasileiros e à imagem internacional do Brasil enviar sinais de descolamento do regime.

Dilma, que ouvira calada do início ao fim, cruzou os braços, mirou Patriota olho no olho e, conforme relatos, perguntou com jeitão de poucos amigos: "Acabou, chanceler?" E praticamente pôs Patriota porta afora.

Arminio Fraga diz que, na era PT, a economia é carregada de ideologia. Pois isso cabe como uma luva também para a política externa, que deixa de lado o pragmatismo conveniente aos interesses nacionais para agir na base de dois pesos, duas medidas.

Quando a Câmara, o Senado, a Justiça e a opinião pública aprovaram o impeachment do presidente Fernando Lugo dentro dos preceitos legais e constitucionais do país, o Brasil foi rápido no gatilho: condenou publicamente e liderou ligeirinho o movimento para suspender o Paraguai da Unasul e do Mercosul.

E agora, quando o governo Maduro manda prender o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, e não se vexa de invadir as sedes dos partidos de oposição? Uma nota daqui, outra dali, sempre escritas no Planalto e sem uma condenação explícita nem ao governo nem à ação típica e escancaradamente antidemocrática.

Fica aquela dúvida: aprovar o impeachment de um "cumpanheiro" de esquerda dentro da lei fere as suscetibilidades do governo brasileiro e as regras democráticas da Unasul e do Mercosul. Mas prender arbitrariamente o prefeito da capital e invadir as sedes dos partidos adversários são ações legítimas, aceitáveis?

O governo Maduro diz que se previne contra um golpe, mas não mostrou até agora uma mísera prova de conspiração de Washington, Prefeitura de Caracas, oposição e Forças Armadas - que, aliás, tanto ajudaram Hugo Chávez - para derrubar Maduro.

Ao contrário, é evidente que Maduro é quem trabalha contra Maduro. Seu governo é um desastre histórico para a Venezuela, para os venezuelanos, para o legado de Chávez e, claro, para sua própria biografia.

A prisão de Ledezma e a invasão dos partidos nada mais é do que um velho truque de governos aflitos e acuados: criar inimigos externos e miragens para tentar sobreviver à sua própria incompetência, à própria tragédia imposta a seus países e cidadãos.

E o Brasil com isso? O Brasil, como maior economia, maior território, maior população e principal líder político da região, deveria parar com isso de sobrepor as simpatias ideológicas aos interesses dos cidadãos.

Democracia é um conceito elástico, mas nem o mais ingênuo dos ingênuos pode considerar democrático o que ocorre na Venezuela, aqui nas nossas barbas. O Itamaraty sabe disso, mas quem manda é a presidente e sua assessoria, que fingem não saber. É aí que mora o perigo.


28 de fevereiro de 2015
Eliane Cantanhede, O Estado de S. Paulo

DEPENDE...

Quando uma escola de samba tradicional é financiada por uma ditadura estrangeira, chegamos ao fundo do poço


“O Brasil está na idade da tramela!”, dizia um grande intelectual. Tendo estudado nos Estados Unidos e lá, como dizia Monteiro Lobato, fora lapidado, pois jamais rejeitara o seu lado brasileiro (o qual foi, ironicamente, intensificado na convivência por contraste com o que, àquela época, chamava-se de “países adiantados”), ele era capaz de enxergar o que todo mundo simplesmente via como as nossas arqueológicas tramelas.

Quem saiu do Brasil para as “Europa” ou “América” até os anos 60 (como foi o meu caso), ficou espantado com a ausência das “tramelas” e das gigantescas chaves de ferro; esses instrumentos dos superiores que permitiam abrir ou fechar portas, cadeias, porões, dispensas e gavetas. Esses compartimentos que até hoje são vedados a quem continua a ser tratado como “povo”, pois jamais foi lapidado ou visto como cidadão.

Quando visitei os Estados Unidos pela primeira vez, recebi a chave não só do meu modesto escritório mas — eis o susto — a do prédio do famoso Departamento de Relações Sociais de Harvard!

No Brasil, receber essas máquinas “depende”.

O ministro tem a chave de todos os prédios e somente ele abre a sua porta. Nas democracias, todos têm precisamente a chave da porta dos que governam, já que presidentes, ministros, governadores, senadores e deputados servem ao povo. É, pois, do povo a propriedade das chaves!

Não há, nenhum “depende...” a condicionar a transparência. Não existe o famoso, lamentável e onipresente “eu não sabia” ou a divisão permanente entre “público interno e externo”, rotineiros na ditadura militar e no lulopetismo.

O roubo público, o assalto irresponsável em escala bíblica e pornográfica aos bens coletivos e à Petrobras — símbolo de independência econômica que suicidou quem teve honra e foi incestuosamente agredida por quem não sabe o significado dessa palavra — continuam sujeito ao “depende...”

Depende de quem. Se foi do tempo deles vale, se foi nessa nossa década de poder, não vale. Na Alemanha nazista, todos os males eram atribuídos aos judeus vistos como agentes de impureza diante da superioridade indiscutível da raça germânica. Os judeus eram o veneno ao lado dos homossexuais, dos ciganos e dos deficientes. Eles conspurcavam a “raça superior” — emblemática de uma integração perfeita porque seria biológica, entre o indivíduo e a coletividade. Esse problema de todas as nossas antropologias e sociologias que, em geral, leem o individuo como algo separado do grupo quando de, fato, seja nas suas formas mais ativas (como na América sem tramelas) ou brandas, como no Brasil relacional das trancas e frestas, o individuo é a expressão de uma cosmologia ou ideologia. A redução individualista é dominante na vida moderna que, conforme sabem alguns, não é, como o jazz, tão moderna assim.

Sem o “depende” não se entende a hipocrisia política dominante. Ela é a chave que abre ou fecha os baús de escândalos que, de tão rotineiros, chegaram ao carnaval, uma celebração aberta a tudo, mas hoje manchada pelo financiamento questionável.

Todos nós admitíamos cinicamente o financiamento carnavalesco de estabelecidos “contraventores”. Notem que não usamos a palavra “bandido” para os que se legitimavam como mecenas das escolas de samba. Por meio do carnaval e do até hoje não legalizado jogo do bicho, eles eram nossos “heróis-bandidos” ou simplesmente malandros, dentro da ética de ambiguidade que proíbe ou torna reacionário dizer isso “não pode!” ou, o muito mais sério, “isso eu não faço!” Mas quando uma escola de samba tradicional é financiada por uma ditadura estrangeira, chegamos ao fundo do poço porque o “depende” tem desculpa: afinal é (ou era) carnaval.

Ao se despedir, o professor Richard Moneygrand riu de sua profecia segundo a qual o fim do carnaval, conforme revelei na semana passada, assinalava o fim da ordem brasileira. Mas até mesmo a ordem, para vocês, disse ele, depende...

O “depende”, em paralelo ao “desculpável”, é parte do nosso Direito fundado no purgatório. Se os extremos e os limites são evitados, como não aceder a filosófica admoestação de batedor de carteira da presidenta Dilma, quando afirma que se a Petrobras tivesse sido investigada no governo Fernando Henrique Cardoso, toda essa roubalheira teria sido evitada?

E por que não nesses 12 anos de PT? Mas isso seria o questionamento do cronista reacionário que publica mas não é ouvido porque a preferência “depende” de quem fala e não do que é dito.


28 de fevereiro de 2015
Roberto Damatta, O Globo