Ao navegante que passeia por aqui, deve estar se perguntando por que encontra mensagens que abalam certas certezas, que mais se aproximam de um soco no estômago, ou na nossa vaidade. Essa e a intenção! Quando já estamos enfastiados de tanta desordem em nome de uma suposta ordem política, que nada nos oferece de grandeza, parece-me necessário dar um solavanco na realidade.
Aconselho aos meus eventuais e queridos leitores, que leiam um pequeno gigantesco conto de Voltaire: MICROMEGAS.
Para que já façam uma avaliação que encontrarão, adianto uma síntese analítica, do que pretendeu Voltaire, ao escrevê-lo.
Tenham paciência para ler...
Micromégas: a lição cruel da desproporção
Há textos que ensinam.
E há textos que desmontam.
Micromégas pertence à segunda categoria: não instrui, desnorteia. Voltaire não quer melhorar o homem; quer antes expô-lo — nu, ridículo, inflado de si.
O gigante vindo de Sírius não é um personagem: é uma perspectiva moral. Ele encarna o ponto de vista impossível, aquele que nos retira do centro e nos coloca onde raramente aceitamos estar: na periferia do cosmos, na margem do sentido, no quase nada.
E é justamente aí que dói.
Porque o ser humano, quando observado de longe, não é trágico nem grandioso. É cômico. Não por suas fraquezas naturais, mas por sua convicção delirante de grandeza.
Voltaire percebe algo devastador:
o verdadeiro ridículo não está na ignorância — mas na certeza.
Os filósofos humanos do conto falam, argumentam, explicam, disputam… mas o fazem como atores conscientes de estarem no palco, interessados não na verdade, mas na performance do saber. O conhecimento torna-se ornamento. A inteligência, um teatro.
E Micromégas escuta com paciência quase melancólica, como quem observa crianças explicando o funcionamento das estrelas com convicção absoluta.
A sátira como forma superior de piedade
O riso de Voltaire não é leve.
É um riso com lâmina.
Ele não odeia o ser humano — mas recusa a mentira que o humano conta a si mesmo. A sátira funciona como uma cirurgia: dói porque é precisa.
O gesto final — o livro em branco entregue à Academia — é talvez um dos mais elegantes atos de crueldade da história da literatura.
Não há resposta.
Não há revelação.
Não há salvação pelo saber.
A página em branco é o espelho perfeito: tudo o que acreditávamos possuir — sistemas, teorias, doutrinas, verdades — evapora diante do silêncio do universo.
E, no fundo, o que Voltaire sugere é mais radical ainda:
o problema não é que não sabemos — é que não suportamos não saber.
Por isso inventamos sistemas.
Por isso erguemos dogmas.
Por isso canonizamos opiniões e perseguimos dúvidas.
Micromégas como crítica ao poder, à religião e à civilização
Sob a leveza da fábula, há uma acusação grave:
a civilização humana construiu suas instituições sobre um erro de origem — a crença na própria centralidade.
O rei acredita ser necessário.
O teólogo acredita falar em nome de Deus.
O filósofo acredita possuir a estrutura do real.
O cientista dogmático acredita ter fechado o mistério.
Todos personagens do mesmo teatro da vaidade.
Voltaire escreve Micromégas em plena era das grandes certezas iluministas — e, ainda assim, parece já anunciar a falência dessas certezas. Ele ilumina… mas com ironia. Como quem diz: “sim, pensem — mas nunca confiem demais no próprio pensamento”.
A verdadeira grandeza nasce da consciência da pequenez
O que resta, então?
Não o cinismo.
Não o niilismo vazio.
Mas uma forma mais rara de dignidade: a humildade lúcida.
A grandeza possível ao humano, em Micromégas, não está no saber acumulado, mas na capacidade de escutar, de hesitar, de reconhecer limites. O silêncio, afinal, é mais honesto que o discurso pretensamente profundo.
Talvez por isso o conto incomode tanto: ele não oferece consolo.
Oferece apenas clareza.
E a clareza, quando real, é sempre desconfortável.
18 de janeiro de 2026
prof. mario moura
Nenhum comentário:
Postar um comentário