"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O ENREDO SINISTRO DE RODRIGO MAIA



Bancar “Renda Cidadã” com calote nos precatórios seria a rendição final de Paulo Guedes. Na verdade a sorte dele e a nossa estão seladas desde que o torneio de egos Rodrigo Maia x Jair Bolsonaro colocou em R$ 600 reais por mês a ajuda de emergência do governo aos paralisados pela pandemia e à legião dos seus caronas.

Tentar Jair Bolsonaro com esse “Viva Zapata!” (“Imprima-se o dinheiro, oras!“) foi de uma covardia calculada que entrará para os anais da História das Grandes Traições ao Povo Brasileiro, este que os rodrigos maias reduziram à condição de colher uma onda de inflação nos alimentos básicos e nos materiais de construções miseráveis pela injeção de R$ 600 por família. 67 milhões delas, contando 64% da “força de trabalho”, passaram a comer algum arroz por causa disso. O varejo “internetavel” saltou em semanas para níveis pré-pandemia e os “likes” das vaidades a arder no Planalto foram à lua, como o autor da façanha previu … até quando dezembro viesse.

Foi naquele preciso momento que o futuro discernível do Brasil foi, mais uma vez, fulminado.



Paulo Guedes, como único representante do Brasil Real nessa novela da qual o povo brasileiro é apenas espectador, seria finalmente expelido como o corpo estranho que ameaça o organismo dentro do qual foi plantado. Barrado em todos e em cada um dos caminhos que tentou – o da racionalidade com justiça cortando privilégios da privilegiatura e privatizando seus feudos estatais chupados até o bagaço, o da implosão do labirinto tributário com todas as máfias que ele sustenta mediante a instituição de um imposto mínimo sobre transações e, finalmente, na ultima e desesperada tentativa de desamarrar o país coletivamente estuprado, pela via indireta dos 3D’s (desindexação, desvinculação, desobrigação) – vê-se agora enredado nesse calote dos calotes do estado anulados por via judicial, que é a tradução exata de “precatório”, mais a mão avançada sobre os caraminguás da educação básica que tem aquele cheiro característico dos bodes que se enfia na sala para ser retirado logo adiante. O clima no enclave do Ministério da Economia era, anteontem, de consternação. Bruno Funchal, secretário do Tesouro, praticamente declarou em “on” ao Valor que não são mais eles, é a “ala política” que dá as cartas pela economia.



Todos os outros personagens desse enredo sinistro se equivalem. Rodrigo Maia é um Bolsonaro com bons modos à mesa. E dele para baixo, até o limite do País Real, ou para cima, até o decano do STF com suas avalanches de prosopopéia sem sentido nos píncaros do Oficial, tudo exala o mesmo cheiro, só varia a hierarquia.

Caindo de podres como estavam, bastou um governo ameaçando mudar de conversa, desviando-a levemente do discurso da férrea hegemonia das corporações, e os cacos das “instituições brasileiras” vieram ruidosamente abaixo. Eleja o povo o que eleger, tudo que vai colher, na melhor hipótese, é o que disserem os 11 monocratas. “Estado democrático de direito” é o antônimo de “privilégio”. A “democracia brasileira” é uma fraude de que dá flagrantes diários o fato de não haver dois brasileiros portadores do mesmo conjunto de “direitos”, estes que, entre nós, pode-se “adquirir”, nominalmente ou a granel, por unção ou por atos de vassalagem aos “excelentes”, e de estar o país inteiro “na justiça” que tem entre nós a função de garantir o “especial” que eles houverem por bem conceder a cada um.



Houve esperança num Brasil democrático enquanto houve uma imprensa que acreditava na democracia. O “clima político” que se requer para fazer reformas e/ou obrigar o congresso dos “representantes do povo” a votar a favor do povo é sempre ela quem cria, mesmo nas que de fato existem. E esta que sobrou aqui, de herdeiros, eunuca e submissa, afirmo-o agora com o meu testemunho pessoal, joga para o adversário e expulsa sumariamente, com ou sem o auxílio direto do Grande Censor do STF, Alexandre de Moraes, quem ousar denunciar sua ditadura. Não foi, é verdade, necessário o empenho de doses excessivas de musculatura, como seria para aproveitar a deixa e empurrá-lo na direção que afirmava querer seguir, mas é dela mais que de qualquer outro agente a responsabilidade por jogar Jair Bolsonaro de volta ao colo do Centrão.


O golpe esboçado dos precatórios tem a cara desse Brasil falsificado. Em 31/12/2019 o estoque dessas dívidas era de R$ 183,6 bi, quase 3% do PIB. Mas, pela mesma razão que bem mais que a metade dos salários que os “nossos servidores” embolsam não se chama “salário”, esse valor não é contabilizado como “dívida pública”. Os precatórios só entram na estatística oficial quando são pagos. Daí não pagar precatórios, que na língua portuguesa significa dar calote no calote, na da antropofagia política macunaímica quer dizer “cortar despesas”, embora vá aumentar ano a ano a dívida transferida pelos palácios ao favelão nacional na lei irrevogável da aritmética.

Tudo isso nos empurra de novo para a conclusão tantas vezes avançada neste Vespeiro. Não ha a menor esperança de fugir a este cativeiro enquanto não se fizer a reforma política capaz de desmontar o esquema espúrio que nos põe em regime de escravidão. Os “negacionistas” do valor dos remédios da democracia na imprensa e fora dela escolheram a doença porque é dela que vivem. Vão resistir à cura até depois da descida da lâmina da guilhotina.

Mas para a força irresistível do povo, querer é poder. Com o voto distrital puro, o recall, o referendo e a iniciativa de propor e recusar as leis que quer seguir, esse poder materializa-se e viram fumaça todos os “tigres de papel” que nos reduziram a essa pobreza asiática surfando a mesma onda que resgatou o resto do mundo dela. O que falta agudamente ao favelão nacional é conhecê-lo. Se ele souber que o remédio existe, nada o impedirá de toma-lo.



01 de outubro de 2020
Vespeiro

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