"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

MARXISMO SEM UTOPIA - O CAPITALISMO REAL


“A reconstituição do partido tem que começar, necessariamente, pela admissão da realidade tal qual ela é. Precisamos de uma luta de classes de mercado”. (Arnaldo Jabor, cineasta, Folha de São Paulo, 27de setembro de 1994)
 
Jacob Gorender, sociólogo marxista e escritor, foi membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Na década de 50 recebeu treinamento na Escola de Quadros do PCUS, na União Soviética e, em 1967, foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), organização que nos anos 70 participou da guerrilha urbana no Sudeste e Nordeste, até ser exterminada, em 1973. É autor de “O Escravismo Colonial” (obra considerada clássica pela comunidade acadêmica) e de “Combate nas Trevas”, uma história da esquerda armada nos anos 60 e 70 no Brasil. Foi professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.
 
Em seu mais recente livro, “Marxismo sem Utopia”, Gorender assinalou já ser tempo de atualizar a doutrina marxista, o que ele procurou realizar, através de uma análise do marxismo teórico e prático ao longo do Século XX. A tese central do livro é que Marx e Engels, embora projetassem superar as concepções utópicas e buscar fundamentos rigorosamente na ciência, não se livraram inteiramente delas, ficando no meio do trajeto.
 
Duas teses utópicas presentes na concepção marxiana destacadas pelo autor são a atribuição da missão revolucionária ao proletariado – uma vez que a prática se encarregou de mostrar que a classe operária é ontologicamente reformista – e a ideia da ditadura do proletariado, que não se realizou em nenhum país.
 
Desse percurso teórico e analítico, que inclui a avaliação da obra de diversos autores marxistas, resultaram teses sobre o socialismo que envolvem cinco proposições:
- a dominação do bloco de assalariados, sob hegemonia dos assalariados intelectuais;
- o socialismo como objetivo abrangido por uma única fase, dispensando a visão utópica de Marx sobre o comunismo;
- a permanência do Estado (que, segundo Marx, feneceria) ao invés de sua extinção;
- a necessidade da democracia pluralista no socialismo;
- a combinação de planejamento e mercado na economia socialista.
 
Um dos capítulos do livro de Jacob Gorender é dedicado ao que ele define como “o capitalismo real”, pois, segundo ele, “assim como se falou do socialismo real, também se deve falar de capitalismo real”.
 
Desse capítulo são os fragmentos abaixo, que exigem reflexão:
 
"O mercado, abandonado ao funcionamento espontâneo, converte-se num moinho satânico que tritura os seres humanos com a mais impessoal das cegueiras.
No início da década de 80, o mercado legalmente desregulamentado volvia praticamente regulamentado pelo controle das multinacionais. Como agentes principais da globalização capitalista, as empresas multinacionais conduziam a uma compartimentação cada vez mais restritiva do mercado. Por suas dimensões e pela verticalização do processo produtivo, cada uma dessas empresas interiorizava uma parte considerável do que antes era mercado e a convertia em repartição puramente administrativa.
 
Dentro de cada país capitalista, o grau de domínio econômico dessas grandes empresas, através das cadeias produtivas dos fornecedores, submetia outra parte do mercado a um regime de controle externo que se distanciava da livre concorrência e da auto-regulação apregoada como virtude suprema pela teoria neoliberal.
 
Por fim, o fato de que dois terços do comércio internacional se fazem atualmente entre empresas multinacionais e no interior delas próprias, ou seja, entre suas subsidiárias, permite aferir o grau de encolhimento ou de definhamento do mercado, precisamente no momento em que mais se reclama sua soberania.
 
Ocorre, na verdade, uma substituição da regulamentação estatal do mercado por sua regulamentação privada. Nisso tem consistido a desregulamentação neoliberal na era da globalização.
A absorção do mercado pelas multinacionais elimina degraus do processo econômico e torna a escada mais curta, mas não a extingue.
 
O planejamento do tipo soviético caiu em impasses insuperáveis. Já o planejamento aplicado pelas grandes empresas multinacionais, ainda que controlado por um mercado oligopólico, tem se mostrado viável e dotado de notável grau de eficiência.
 
Na década de 80, as empresas americanas, a começar pelos grandes fabricantes de auto-veículos, puseram em prática a técnica da terceirização, que reduziu consideravelmente as estruturas produtivas verticalizadas e estabeleceu vínculos mais estreitos das matrizes com os fornecedores.
 
Procedeu-se a uma reestruturação produtiva implacável, que eliminou efetivos de todos os escalões. Sob o imperativo da redução de custos, resultante precisamente do acirramento da concorrência, cortaram-se os efetivos operários em números absolutos e se eliminaram profissões inteiras. O modelo japonês permitiu suprimir os supervisores de qualidade, os especialistas em manutenção, os ferramenteiros e outros profissionais. O trabalho por equipes empurrou os operários a praticar o autocontrole, de tal maneira que a vigilância exercida pelos contramestres e outros superiores hierárquicos cedeu lugar à vigilância exercida pelos próprios companheiros de equipe.
 
Foi estabelecido um regime de trabalho dualista com um núcleo de operários mais qualificados, estáveis e melhor remunerados, e uma maioria de assalariados em caráter precário, menos qualificados e pior remunerados. Acentuaram-se a fragmentação e a diferenciação no seio da classe operária. O grande capital multinacional e oligopólico conseguiu, em conseqüência, incrementar a taxa de mais-valia relativa e, simultaneamente, retroceder a formas de mais-valia absoluta, como as de trabalho mais intenso e/ou mais prolongado.
 
A busca frenética de trabalho mais barato foi incentivada pela globalização do poder do capital, processando-se em duas direções. Numa delas, os governos e empresas implementaram uma ofensiva contra os dispositivos legais protetores dos trabalhadores, a fim de eliminar conquistas operárias, que custaram longos anos de lutas penosas. A norma de consumo estabelecida pelo Estado do Bem-Estar foi posta em xeque atacando-se sistemas previdenciários, serviços públicos de acesso democratizado, subsídios, programas assistenciais. Foram mutilados ou mesmo anulados dispositivos da legislação trabalhista, o que pôs em causa o reconhecimento de que a força de trabalho é uma mercadoria especial.
Essa orientação contrária à proteção social alcançou sua manifestação mais implacável nos EUA, onde o mercado de trabalho é o mais desregulamentado do mundo capitalista desenvolvido. A partir dos EUA, a prática de desregulamentação do mercado de trabalho se difunde a outros países, sob pressão das empresas multinacionais americanas e das instituições governamentais da superpotência.
 
Na outra direção, verifica-se a corrida à procura de trabalho barato através do deslocamento de instalações produtivas em direção aos países atrasados, o que as condições técnicas de transporte e comunicação vêm facilitando enormemente. Em conseqüência, as empresas multinacionais abrangem, em sua rede, subsidiárias e fornecedoras localizadas no Extremo Oriente ou na América Latina, onde encontram força de trabalho por salários várias vezes inferiores aos dos países-sede das matrizes.
A combinação de pesquisa tecnológica e utilização de trabalho altamente qualificado centralizado nas matrizes capitalistas, e de operações puramente executivas ou parciais, com emprego de trabalho barato, localizadas na periferia capitalista, se confirma como vantajosa ao grande capital imperialista. O resultado final é a elevação da taxa de exploração ou taxa geral de mais-valia por operário ocupado no total da força de trabalho empregada pela empresa.
 
Instrutiva, a esse respeito, é a publicidade difundida por uma instituição de consultoria empresarial – o Industrial Investiment Council (IIC) – na revista The Economist, edição de 6 de fevereiro de 1999. Em anúncio de página inteira, com um terço ocupado pela foto da cabeça esculpida de Marx, o IIC informa, exultante, que o fracasso do sistema marxista, na Alemanha Oriental, libertou a energia criativa dos seus operários, hoje um paradigma de flexibilidade na Europa. Por que? Pelo fato de custarem 45% menos e terem uma jornada de trabalho 20% maior do que seus colegas alemães ocidentais. Aí está o ideal de sempre do capital: jornada de trabalho mais comprida e salários mais baixos.
 
As inovações tecnológicas revolucionam sem cessar o que hoje se chama de mundo do trabalho, provocando o desemprego estrutural e, ao mesmo tempo, a fragmentação e a heterogeneização dos efetivos de trabalhadores ocupados.
 
Em meados dos anos 80, os EUA passaram de credores a devedores (os maiores do mundo), permitindo-se grandes déficits na balança comercial e nas contas-correntes do balanço de pagamentos – déficits que são financiados por seus parceiros. Pagando o saldo devedor em dólares ou em títulos da dívida pública, os EUA se permitem uma importação gigantesca de bens, que contribui significativamente ao barateamento de insumos produtivos e à elevação do padrão de vida do povo norte-americano.
 
O poderio já grande dos EUA é reforçado pela “senhoriagem”, que lhe dá direitos sobre os recursos de outros países, sem precisar pagar por eles senão com a emissão de seu papel-moeda. Mas essa importação paga em dólares é precisamente o que mantém em nível elevado a exportação dos parceiros dos EUA, fortemente dependentes do mercado interno norte-americano. Através dos títulos da dívida pública, do déficit da balança comercial e dos investimentos estrangeiros diretos em sua economia, os EUA absorvem recursos dos demais países e se fortalecem diante deles.
Sobre os fundos de pensão, a partir do início dos anos 80 eles passaram a se distinguir pelo fato de que sua fonte original já não é a mais-valia, mas o salário. Dos salários de milhões de empregados, entre os quais se inclui a classe média, é extraída a poupança encaminhada aos fundos de pensão. Mas os recursos procedentes do salário precisam ser convertidos por eles em capital, única maneira de produzir os rendimentos necessários ao pagamento das aposentadorias dos associados. Os fundos de pensão tornaram-se grandes acionistas das principais empresas e ganharam posições dominantes na economia.
O capital dos fundos de pensão tornou-se, em conseqüência, parte considerável do chamado capital volátil, que circula no mundo em busca incessante de lucros maiores, através da especulação. Constituem, em última instância, os fundos de pensão, um patrimônio dos assalariados associados, o que levou Peter Drucker (1) a afirmar que, através de tais instituições, a economia americana tornou-se “socialista”. Mas, na realidade, os fundos de pensão fortalecem a economia capitalista, na medida em que canalizam para ela os imensos recursos procedentes da poupança dos assalariados.
 
Operando dia-a-dia, 24 horas ininterruptas, o mercado financeiro globalizado tornou-se a instância decisória do êxito ou fracasso das políticas econômicas dos governos de quaisquer países, mesmo dos mais poderosos e ainda mais dos menos poderosos.
Assim, a sociedade capitalista apresenta-se como a sociedade do espetáculo. Importa mais do que tudo a imagem, a aparência, a exibição. A ostentação de consumo vale mais que o próprio consumo. A alienação do ser toma o lugar do próprio ser. A aparência se impõe por cima da existência. Parecer é mais importante do que ser. A teoria do fetichismo da mercadoria, que constitui uma das realizações teóricas de Marx, reclama e recebe novas contribuições.
 
Mas, se o capitalismo hoje joga solto, sem se defrontar com o desafio de um rival anticapitalista, por isso mesmo está mais sujeito aos riscos de suas forças motrizes e contradições sistêmicas. Riscos que dizem respeito às desigualdades sociais em processo de aguçamento, aos enfrentamentos étnicos, raciais e religiosos, à dependência funcional do sistema capitalista mundial com relação ao capital norte-americano, ao parasitismo voraz do capital financeiro, aos conflitos de interesse entre as potências capitalistas desenvolvidas e os países da periferia, aos danos ecológicos e a numerosos outros problemas que compõem uma agenda indigesta.
Os riscos que daí decorrem não atingem apenas a estabilidade do sistema econômico-social vigente, mas afetam todos os seres humanos, na vida cotidiana e na trajetória da existência individual.
É o que se verifica, em primeiro lugar, com a expansão das desigualdades sociais, em especial com o fenômeno tão comentado da exclusão social.
 
Além de baratear a força de trabalho, o capital tem conseguido reduzir a quantidade de trabalho vivo adicionada por unidade de produto. Redução que a concorrência intensificada impõe às empresas, sob pena de eliminação do mercado. O número de novos empregos criados é inferior aos dos empregos destruídos.
 
O ex-Secretário do Trabalho do governo Clinton, Robert Reich antevê, nos EUA, uma sociedade cindida, marcada pela secessão profunda. No topo, 20% da população terá uma boa vida, permitida pelo patrimônio ou por empregos atraentes e bem remunerados – cientistas e pesquisadores em geral, projetistas, “marketeiros”, especialistas em finanças, publicitários, etc -. Abaixo deles, uns 30% da população deverá contentar-se com empregos mal remunerados nas tarefas repetitivas da produção ou nos serviços pessoais. A metade restante viverá no desemprego permanente, à custa da assistência social. Esse quadro, de alguns anos atrás, até parece otimista diante das novas previsões que desenham a “sociedade de um quinto”, na qual somente 20% das pessoas capazes de trabalhar encontrarão emprego. Estamos diante do que Edward Luttwak (2) chamou de capitalismo turbinado: um regime que segue em frente de maneira implacável, arrasando e triturando tudo e todos que atravessam seu caminho.
 
Assim, no momento em que alcança nível altíssimo de produtividade, em que as forças produtivas ganharam enorme expansão, o capitalismo, por isso mesmo, priva de trabalho e da significação econômica massas crescentes de indivíduos aptos.
A exclusão social torna-se a condição de vida, de sub-vida ou de não-vida, de milhões de pessoas, que podem chegar a constituir a maioria da sociedade.
 
O aumento notável da expectativa de vida, verificável praticamente em todos os países, gera contradição específica, em processo de agravamento. Nos países ricos, a expectativa de vida subiu, neste século, cerca de 30 anos. Economistas, como Lester Thurow e Albert Fishlow, mostram-se alarmados com os gastos que os idosos exigirão dentro de prazos curtos, insustentáveis pelas receitas sociais previsíveis segundo o atual sistema previdenciário. Que fazer com tantos idosos? Reduzir os recursos requeridos por eles e, assim, baixar a expectativa de vida ou pura e simplesmente eliminá-los, como faziam as sociedades primitivas defrontadas pela inelasticidade das fontes de alimentos?
 
Se não quisermos a concretização do horror econômico, teremos de projetar uma sociedade alternativa à atual, na qual se cancelem aqueles itens de despesas públicas e privadas, que hoje absorvem grande parte dos recursos sociais e servem à prática da coerção repressiva, à defesa de privilégios e ao luxo escandaloso, de tal maneira que se destinem os recursos assim poupados aos idosos e a outras necessidades proveitosas para a grande maioria da sociedade.
 
Assim, o espírito do capitalismo selvagem, levado ao extremo pelo neoliberalismo, acaba minando as próprias condições de funcionamento do sistema e, de modo geral, o capitalismo não estaria mais ameaçado pela concorrência de um rival, já que o campo socialista deixou de existir, mas pela tendência à estagnação, pela inaptidão a aceitar o risco e o custo de desafios de grande envergadura.
 
A exclusão social não diz respeito apenas a segmentos das sociedades ricas, que vão formando“bolsões de miséria”, não diz respeito somente à dilatação da desigualdade social nos países capitalistas desenvolvidos, mas atinge também povos inteiros, os quais caem na categoria de povos marginalizados.
 
Na medida em que os alimentos e as matérias-primas que costumam produzir deixam de ser importados pelos países desenvolvidos, os países pobres e miseráveis da periferia do sistema se degradam na condição de descartáveis, de inúteis, de provocadores de encrencas e carentes de vigilância. Se não vierem a ser escolhidos como fornecedores de mão-de-obra barata para tarefas industriais complementares ou para a produção de manufaturados de baixa qualidade, as populações desses países têm o destino da marginalização, da inviabilização de projetos progressistas, passando simplesmente a alvo de ações caritativas da assistência internacional. São populações problemáticas por todos esses motivos e ainda por constituírem fontes de um fluxo imigratório indesejado pelos países ricos.
A desigualdade social e a marginalização de povos inteiros tornam-se fermentos altamente ativadores do racismo e dos ódios étnicos. A barbárie dos enfrentamentos na antiga Iugoslávia demonstrou a falsidade da pretendida solução da questão nacional pelos governos comunistas. Sob a aparente pacificação interétnica, promovida pelo longo governo do marechal Tito, continuavam ardendo desavenças e hostilidades geradas no passado remoto e horrivelmente remexidas pelo caldeirão da II Guerra Mundial.
Da tragédia balcânica emergiu o conceito de “limpeza étnica”, variante do genocídio e do Holocausto que pareciam desgraças irrepetíveis. Se isso pôde acontecer entre povos brancos e no solo europeu, cabe imaginar o que seriam os conflitos extremados que viessem a colocar em confronto povos de raças e continentes diferentes. Ao invés de se apagarem, o racismo anti-negro e o anti-semitismo continuam a ser cultivados e a provocar incidentes trágicos. O que, por enquanto, são apenas casos restritos e localizados, podem ganhar dimensões muito maiores e trazer de volta os massacres genocidas do passado recente e ainda crepitante.
Sob o capitalismo destroem-se os agentes humanos, considerados excedentes, e também os recursos naturais e o próprio ambiente natural indispensável à vida humana. A humanidade vem pagando preço altíssimo pelas realizações inovadoras do capitalismo. Este tem evidenciado ser a mais criativa das formações sociais que a humanidade já teve. Seu dinamismo permitiu um avanço fabuloso em muitos aspectos da existência humana, incluindo o encurtamento da jornada de trabalho, o prolongamento da expectativa de vida, a generalização da instrução, a rapidez dos meios de comunicação e transporte, o intercâmbio intenso entre civilizações e assim por diante.
Ao mesmo tempo, todavia, o capitalismo não consegue se desenvolver sem aprofundar antagonismos, sem provocar desperdícios, sem aniquilar imensos recursos humanos e sem devastar a natureza. Já não se trata da destruição criadora, porque o capitalismo não destrói somente o que se tornou obsoleto e imprestável a fim de substituí-lo pelo novo e mais eficiente. Movido pela avidez mais ignóbil de lucros infinitamente acumulados, aniquila, impiedosa e cegamente, o que há de mais precioso para os homens – os próprios homens e a natureza, as fontes de toda a riqueza -.
Trata-se da destruição esterilizante, que só traz retrocesso."
 
Notas:
(1) Peter Ferdinand Drucker, (nasceu em 19 de novembro de 1909, em Viena, Áustria - faleceu em 11 de novembro de 2005, em Claremont, Califórnia, EUA). Era filósofo e administrador austríaco, sendo considerado o pai do Marketing moderno e também pai da administração moderna. É o mais renomado dos pensadores de administração. Presidente honorário da Drucker Foundation e professor de ciências sociais da Claremont Graduate University, Califórnia, EUA, escreveu muitos artigos e mais de 30 livros.

(2) Edward Nicolae Luttwak, cientista político dos Estados Unidos.
 
20 de agosto de 2014

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

NOTAS POLÍTICAS DO JORNALISTA JORGE SERRÃO

TCU pode voltar atrás na decisão de bloquear bens de diretores da Petrobras, salvando Graça e Barbassa

Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

A Presidenta-candidata Dilma Rousseff reza e seus assessores articulam para que o Tribunal de Contas da União volte atrás na decisão de bloquear o patrimônio de diretores e ex-diretores da Petrobras envolvidos diretamente no prejuízo de US$ 792,3 milhões com a compra da refinaria Pasadena, no Texas (EUA). Caso o TCU confirme a decisão, e ainda incluía no rol de afetados Jorge Zelada (homem de confiança do PMDB) e Maria das Graças Foster, a amiga de Dilma ficará insustentável na presidência da Petrobras.

No governo, ainda corre uma aposta de que o ministro-conselheiro José Jorge possa aliviar a barra de Graça Foster, fazendo o malabarismo de voltar atrás. Basta que ele e a maioria do plenário do TCU acatem os embargos de declaração feitos pela Petrobras contra a indisponibilidade dos bens de José Sérgio Gabrielli (homem de confiança do Presidentro Luiz Inácio Lula da Silva) e demais dirigentes da petrolífera. O caso mais desesperador é o de Paulo Roberto Costa – preso e investigado na Operação Lava Jato. Mais delicado que o caso deles só o de Graça que, se for obrigada a “tomar no TCU” (como ironizam deputados da oposição petista no congresso), perde automaticamente o cargo.

José Jorge e demais conselheiros podem se basear no pedido feito pelo Advogado Geral da União, Luis Inácio Adams, para que o TCU “dissocie os diretores envolvidos para efeito de indisponibilidade de bens”. A grande preocupação de Adams é com Graça Foster e o poderoso diretor Financeiro, Almir Barbassa. Se os dois forem colocados sob suspeita pelo TCU, ficam obrigados a deixar seus cargos. A queda de ambos poderia ser fatal para o governo Dilma Rousseff. Por isso, a pizza já está assando no forno do TCU.

O “Tribunal” de Contas da União, que não é órgão do Judiciário, mas auxiliar do poder Legislativo, já tinha pisado na bola na decisão anterior de excluir, ao menos temporariamente, Dilma Rousseff e demais integrantes do Conselho de Administração da Petrobras do processo que apura responsabilidades sobre o caso Pasadena. O TCU tomou uma decisão flagrantemente política e contrária ao próprio estatuto da Petrobras – que torna os diretores executivos e os membros do conselho responsáveis pelas decisões da empresa.

Por isso, é grande o risco de o TCU, novamente, “revogar a gravidade” dos fatos para preservar o poder de Graça Foster e Almir Barbassa – os poderosos comandantes da Petrobras. Se Pasadena for adiante, o Passadilma (previsto para as urnas) vira uma realidade antecipada...

Estamos fritos...

A marketagem reeleitoreira petista comprovou mesmo que seu conteúdo é indigesto.

Apresentar a Dilma, na propaganda de TV, como “mulher que gosta de cozinhar”, preparando uma “dificílima” macarronada, é uma piada macarrônica...

E o fato de Dilma alegar que, em sua rotina de trabalho, tem de “matar um leão por dia” vai parecer que ela é candidata à presidência de algum país africano ou, então do Jardim Zoológico...

Pior que isto é ela ter usado a imagem de que é obrigada a “subir e descer o monte Everest” – em pleno Planalto...

Tá de sacanagem...

No mesmo programa releeitoral do PT, o Presidentro Lula apareceu, rapidinho, para soltar uma indagação em cima da qual a oposição deveria surfar:

“Já imaginou o prejuízo que o país teria se eu não tivesse um segundo mandato?”.

$talinácio deve ter razão, pois sem o seu segundo mandado não teríamos todos aqueles escândalos, de desvio e lavagem de US$ 10 milhões, que é investigado pela Operação Lava Jato, e aquele monte de escândalo, devidamente abafado e em segredinho judiciário na Operação Porto Seguro, contra a amiga Rosemary Noronha...

Triste Memória

Falecido Lula...

Lula deve ter ficado PT da vida com o programa do PSB, que evocou a memória do recém-falecido Eduardo Campos.

Os marketeiros socialistas usaram o áudio do enterro dele, domingo passado, quando o povão gritou: “Eduardo, Guerreiro do Povo Brasileiro”.

Lula, que chegou a ser vaiado no velório, é quem usava este título de “Guerreiro do Povo Brasileiro” – agora roubado pela propaganda adversária.

Deve ter sido o troco da História nos marketeiros petistas que, em eleições passadas, roubaram de Leonel Brizola o slogan “A Força do Povo” (que agora volta a ser usado pela eterna brizolista Dilma).

Guerra contra a Rede Globo

Má influenza...


Nelson Couto, o Xerife da Confraria do Garoto, faz uma grave denúncia via facebook.

Torcedores da Costa do marfim, que vieram curtir a Copa do Mundo no Brasil, podem ter trazido o terrível vírus da Influenza.

Médicos já avaliam o risco de uma epidemia da gripe – que se pensava extinta -, a partir do Rio de Janeiro...

Dia do Maçom

Perguntinha que se faz lá pelos lados do Paraná por maçons:

Como é que o ex-petista, deputado federal André Vargas, vai comemorar o Dia do Maçom, neste dia 20 de agosto?

O “irmão” André Vargas teve seu nome citado nas investigações da Operação Lava Jato, por suas ligações com o doleiro Alberto Youssef, que por sua vez é parceiro de Paulo Roberto Costa, que comandou o “abastecimento” e controlou 1382 contas correntes da Petrobras.

Dicas para o Abdelmassih

Cuidado: daqui pouco, na campanha, os petistas vão dizer que o Roger Abdelmassih é o Pai do Plano Real...

Que reforma, Dunga?

O técnico Dunga convocou 10 jogadores da Era Felipão para a "nova" seleção brasileira.

Ainda bem que não chamou Alberto Yousseff para o lugar do Guido Mantega.

Paulo Roberto Costa jamais o perdoaria...

20 de agosto de 2014
Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor.

PESQUISA ELEITOREIRA


 
Um cão de raça peluda escapa de seu dono, corre e pula numa piscina.
 
Provavelmente o seu dono estava respondendo a uma pesquisa eleitoral e se distraiu.
 
Sempre tive fascinação por pesquisas; se assemelham muito aos horóscopos.
 
A maioria dos entrevistados não entende as perguntas. Respondem procurando agradar o entrevistador como num programa de televisão.
 
Quem são os clientes das empresas de pesquisas eleitorais? Os marqueteiros que querem vender gato por lebre! Os órgãos da mídia (que dependem da publicidade de empresas estatais)! Os militantes partidários que transformam os eleitores em meras torcidas organizadas, como as de times de futebol.
 
Pagam pelas pesquisas e não tem 110% (cento e dez por cento) de aprovação para o seu candidato?!? Que incompetência!
 
A vantagem da pesquisa é induzir os idiotas a votarem no “vencedor” (antecipado pela numerologia).
 
A barbaridade da pesquisa é coonestar um resultado que será moldado pelas urnas fraudáveis e por um dogmático sistema de apuração de votos, sem possibilidade de recontagem e auditoria independente.
 
Por tudo isso, em vez de pesquisas de araque, prefiro o palmômetro ou atualmente, o vaiômetro com ou sem TCU.
 
20 de agosto de 2014
Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

GETÚLIO VARGAS E A INDEPENDÊNCIA


Aproxima-se o 60º aniversário do golpe de Estado com o  qual a oligarquia angloamericana derrubou o presidente Vargas, em 24 de agosto de 1954.
 
Esse acontecimento teve efeitos tão desastrosos como importantes. Trata-se, nada menos, que da cassação da independência do Brasil.
 
A soberania do País nunca foi plenamente exercida, mas, se houve governante que tomou iniciativas para alcançá-la, esse foi Getúlio Vargas.
 
Exatamente por isso, a oligarquia imperial angloamericana sempre conspirou contra ele, com a ajuda de pseudo-elites e de agentes locais da política e da mídia, amiúde recrutados por meio de corrupção.
 
Em 1932, a oligarquia paulista promovera o fracassado movimento de 9 de julho, movida pelos interesses britânicos. Intitularam-no constitucionalista, conquanto Getúlio organizara as eleições para a Constituinte que votou a Constituição de 1934, a qual instituiu significativos avanços econômicos e sociais.
 
Tão profunda como a estima dos verdadeiros industriais e a veneração dos trabalhadores brasileiros a Getúlio, foi a ojeriza da minoria desorientada pelos preconceitos da “democracia” liberal e dos contrários à industrialização, alimentada pela hostilidade da mídia,  caluniosa e falsificadora dos fatos.
 
Vargas fora forçado, durante a Segunda Guerra Mundial,  a ceder bases militares no Nordeste aos EUA, e cometeu o erro de insistir em enviar a Força Expedicionária Brasileira à Itália. A FEB foi equipada e armada pelos EUA e combateu sob comando norte-americano.
 
Daí se criaram laços entre os comandantes e oficiais de ligação estadunidenses e os oficiais brasileiros que conspiraram nos quatro golpes pró-EUA (1945, 1954, 1961 e 1964.
 
Em outubro de 1945, o pretexto foi derrubar um ditador, o que não tinha sentido, pois o presidente viabilizara eleições, já marcadas para o início de dezembro,  e não era candidato. Após o golpe, recomendou votar no marechal Dutra, pois o brigadeiro Eduardo Gomes representava os que sempre se haviam oposto a Vargas.
 
Quando Vargas,  eleito em 1950, voltou à presidência, nos braços do povo, já estava em marcha a desestabilização de seu governo, a qual culminou com o crime da rua Toneleros, já em agosto de 1954.
 
O crime foi dirigido  pelo chefe da delegacia de ordem política e social (DOPS), famosa por seus métodos desumanos de repressão aos comunistas, desde a época do Estado Novo, instituído por golpe militar, em 1937.
 
Esse golpe proveio de oficiais do exército, que colocaram Felinto Muller na chefia da polícia.  Vargas, presidente constitucional desde 1934,  permaneceu à frente do governo, mas não teve poder e/ou vontade suficiente para  limitar significativamente as violências.
 
Ele sempre foi contemporizador, negociava com pessoas de diferentes tendências e, por vezes,  as colocava ou mantinha no governo. Ao voltar Vargas, em 1951, continuou na DOPS o filonazista Cecil Borer,  que vinha da administração do marechal Dutra. Como tantos pró-nazistas, mundo afora, movido pelo anticomunismo, Dutra subordinou-se aos interesses dos EUA.
 
Apesar de seus erros, Vargas merece lugar de honra na história do Brasil, por ter dado o indispensável apoio do Estado ao desenvolvimento industrial, que despontava desde o início do século XX e ganhou força, de 1914 a 1945, graças também à redução dos vínculos comerciais e financeiros com os centros mundiais, propiciada pelas duas guerras e a longa depressão dos anos 30.
 
Antes do fim da Segunda  Guerra Mundial, o império já planejava fazer abortar esse processo. Mais tarde, diria o notório Henry Kissinger: “para os EUA seria intolerável o surgimento de uma nova potência industrial no hemisfério sul.”
 
Os serviços secretos dos EUA e do Reino Unido vinham, de há muito, operando na desestabilização do presidente. Em 1954, Borer envolveu informantes da polícia e pistoleiros no crime da Toneleros, que matou o major Vaz, da aeronáutica, simulando que o alvo seria o  virulento adversário de Vargas, Carlos Lacerda. 
 
Na armação policial-jornalistica-militar, Vaz, casado e pai de filhos pequenos, substituiu, na ocasião, o solteiro major Gustavo Borges. Lacerda engessou o pé dizendo ter tomado um tiro de revólver,  mas, se isso fosse verdade, o pé teria sido destroçado.  Nunca se encontrou um prontuário de atendimento em hospital.
 
A conspiração enredou a guarda pessoal do presidente e o fiel guarda-costas Gregório Fortunato, que foi torturado e ameaçado para confessar o que não fez. Condenado a 15 anos de detenção, foi assassinado na prisão, em operação de queima de arquivo.
 
O golpe de 1954 é o maior marco negativo da história do Brasil,  pois o governo udenista-militar, dele egresso, criou vantagens incríveis para as empresas transnacionais dominarem por completo a produção industrial do País. Fez os brasileiros pagar caríssimo para serem explorados.
 
Foi, assim,  inviabilizado o desenvolvimento de tecnologias nacionais, a não ser por grandes empresas estatais ou apenas em nichos menores, no caso de indústrias privadas  nacionais, ainda assim, fadadas a ser desnacionalizadas.
Tanto o golpe de 1964, que instituiu os governos militares, como a falsa democratização, a partir de 1985, intensificaram as políticas pró-capital estrangeiro em detrimento do País. 
 
Os governos de 1954-1955 e 1956-1960 (JK) foram motores da desnacionalização da economia. Os de Collor e FHC os mais monoliticamente entreguistas. Nenhum operou reversões nessa marcha infeliz.
 
A herança hoje é a desindustrialização e a colossal dívida pública, tendo a União já  gastado nela, desde 1988, quase 20 trilhões de reais. Além disso, recorrentes crises devidas aos déficits de comércio exterior.
 
As  realizações do presidente Vargas fazem dele o principal herói nacional e exemplo para futuros líderes. Mas não sem reservas, porque  lhe faltou combatividade e espírito revolucionário.
 
Não me parece verdade que o nobre sacrifício de sua vida tenha frustrado os objetivos dos imperialistas. Preservaram-se as estatais, mas a própria Petrobrás - que já nascera sem o monopólio na distribuição, o segmento mais lucrativo – acabou, em parte, arrancada da propriedade estatal. Além disso, nos anos 90, ocorreram as doações-privatizações de dezenas de fabulosas estatais, algumas  criadas durante governos militares.
 
A grande derrota estratégica deu-se com a entrega dos mercados e da produção industrial privada às transnacionais. Sem isso, a dívida externa não teria explodido em 1982, nem sido torradas as estatais, a pretexto de liquidar  dívidas públicas, as quais, depois disso, ao contrário, se avolumaram como nunca.
 
O momento para evitar esse lastimável destino, era com Vargas,  amado pelo povo, que foi às ruas, em massa nunca vista, pronto a tudo, quando de sua morte. Aí não havia liderança, nem plano.
 
Getúlio precisava ter cortado, no nascedouro, os lances que minaram suas bases de poder.  Entre estes, o acordo militar Brasil-Estados Unidos, de 1952, negociado por Neves da Fontoura, ministro das Relações Exteriores, e por  Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior das FFAA,  sem o conhecimento do ministro do Exército, Estillac Leal.
 
Este se demitiu, pois Vargas assinou o acordo, e, com isso, cedeu aos que, mais uma vez, o traíam, e perdeu seu ministro nacionalista.
 
Fraquejou novamente em 1953, quando, embora mantendo o correto reajuste do salário mínimo, demitiu João Goulart do ministério do Trabalho, medida exigida em memorial assinado por 82 coroneis do Exército. Nesse episódio, caiu o ministro do Exército, Cyro do Espírito Santo Cardoso.
 
Não era tarefa simples sustentar-se sob constante e intensa pressão contrária da alta finança angloamericana, a qual não economiza recursos nem hesita em recorrer à corrupção e a práticas celeradas. Entretanto, a pior maneira de reagir a essa pressão é fazer concessões, em vez de cortar a crista dos golpistas.
 
Deixando de coibir aquelas práticas,  Vargas facilitou o caminho dos inimigos. Sobraram-lhe escrúpulos, ao exagerar em sua tolerância, para não ser acoimado de ditador. Faltaram bons serviços de inteligência e  a compreensão de que seria derrotado, se não mobilizasse o povo e  a oficialidade nacionalista.
20 de agosto de 2014
Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento

CURSO INICIAL DE COMUNISMO CIENTÍFICO


O texto revela como a utopia socialista naufragou há muito tempo em Cuba, restando apenas miséria e autoritarismo.

A Internacional Comunista não está morta. Ressuscitou como a Internacional de Estupidez Humana. Ao contrário da sua antecessora, que não agradava a todos, ela tem um número ilimitado de adeptos potenciais. Mas seu sucesso não se explica só pela atração do abismo: funda-se numa bem montada estrutura de apoio, que abrange desde a malha planetária dos velhos partidos comunistas, com nomes trocados ou não, até a grande mídia internacional praticamente inteira, a militância islâmica onipresente e a rede global de ONGs ativistas subsidiadas por fundações bilionárias, como Rockefeller, Soros ou Ford”  (“Palhaçada Total”, Olavo de Carvalho, Jornal do Brasil de 18 de janeiro de 2006)

“Palhaçada Total” é o qualificativo apropriado para o livro Curso Inicial de Comunismo Científico, editado em 1985, em Cuba, pelo Partido Comunista Cubano, através da “Editorial de Ciências Sociales La Habana”. Um calhamaço de 369 páginas, cópia de um velho manual do Partido Comunista da União Soviética, elaborado por um coletivo de autores soviéticos.

Observe-se que em 1985, quando esse manual foi editado em Cuba, o Grande Timoneiro Mikhail Gorbachev, com base em duas palavrinhas – perestroika e glasnost - já havia, sem saber, iniciado o desmantelamento da coisa que por 70 anos foi conhecida como socialismo real, que levaria ao fim do PCUS e do próprio Estado soviético.

O Curso Inicial de Comunismo Científico poderia, portanto, ser melhor denominado de Curso Inicial de Palhaçada Total.

Desse calhamaço abordaremos apenas, resumido, um pequeno capítulo, denominado A Tática, iniciado com a seguinte frase bombástica: “Os povos dos países socialistas, os proletários, as forças democráticas nos países capitalistas, os povos libertados e oprimidos, unem-se na luta contra o imperialismo, pela paz, pela independência nacional, pelo progresso social, a democracia e o socialismo. Essa é a linha geral do Movimento Comunista Internacional contemporâneo”. E muita gente, em todo o mundo, acreditou e continua acreditando.

Embora o socialismo real tenha sido jogado na lata de lixo da História, as diretrizes constantes nesse velho manual não deixaram de ser o livrinho de cabeceira daqueles que insistem em ressuscitar, com um boca-a-boca, a doutrina científica.

Uma das diretrizes diz respeito à Tática. O manual define a tática como “o conjunto de formas, métodos e procedimentos de luta pela realização do objetivo estratégico nas condições histórico-concretas”. A tática envolve uma grande quantidade de questões diversas: as formas de luta (econômicas, políticas, ideológicas, legais e ilegais, pacíficas e não-pacíficas); a conjugação das diferentes formas; a ofensiva, a defesa e a retirada; os compromissos e convênios; o aproveitamento das contradições e dos conflitos; a frente única com as massas não proletárias, etc.

A Tática está vinculada ao trabalho diário do partido na educação e na organização da classe operária e de todos os trabalhadores, com a finalidade de levá-los a intervenções revolucionárias e à obtenção do objetivo fundamental do movimento. “A tática marxista – escreveu Lênin –consiste na união dos diferentes procedimentos de luta, na hábil transição de um a outro, na indeclinável elevação da consciência das massas e da ampliação de suas ações coletivas”. As tarefas táticas estão subordinadas aos objetivos estratégicos (fantástica conclusão...).

A estratégia é relativamente constante e estável, e depende do grau de desenvolvimento de um país determinado. É evidente que novas tarefas estratégicas são promovidas tão logo sejam cumpridas as anteriores e o país tenha entrado em uma nova fase de desenvolvimento. Por exemplo: se são cumpridas as tarefas da revolução democrático-burguesa, o partido promove uma nova estratégia: a preparação e realização da revolução socialista. No que diz respeito à tática, as formas e procedimentos da luta mudam de acordo com a mudança da correlação das forças de classes, das condições concretas do desenvolvimento de um ou outro país e – o que é importante - da situação internacional.

O movimento de libertação não pode desenvolver-se em forma de uma onda crescente ininterrupta. A desigualdade do desenvolvimento econômico e político do capitalismo provoca fluxos e refluxos, ofensivas e retiradas do movimento revolucionário, o diferente tratamento dos ânimos revolucionários nas diferentes regiões e o amadurecimento, em diferentes épocas, de suas premissas revolucionárias. A tática deve levar em consideração essas mudanças.

No arsenal das formulações táticas do proletariado revolucionário entra, por exemplo, a luta pelas reformas. Em determinadas condições, essa luta pode coadjuvar a educação revolucionária do proletariado, a sua preparação para a luta pelo socialismo e o debilitamento da burguesia.Embora o marxismo-leninismo seja incompatível com o reformismo, ele ensina ao proletariado revolucionário a utilizar mais habilmente a luta por reformas no interesse do socialismo.

A tática não pode ser a mesma para todos os países, pois depende do desenvolvimento econômico, da correlação das forças de classes, do amadurecimento político da classe operária e dos demais trabalhadores, do caráter do poder do Estado, da situação internacional, etc.

Um dos mais importantes princípios táticos é o que leva em conta, obrigatoriamente, o nacional, específico por cada país em separado. Ignorar as particularidades nacionais condena o partido ao isolamento sectário das massas e à separação dogmática da vida.

Os comunistas consideram como uma importante forma de ação tática a importância do trabalho nos sindicatos e todas as demais organizações de massas, bem como a participação nos parlamentos burgueses e nas campanhas eleitorais, utilizando habilmente a tribuna parlamentar para a conquista das grandes massas populares, para sua educação política e organização e – o mais importante – para desmascarar a burguesia.

Outra exigência fundamental da tática é saber aproveitar as forças dos aliados e dos seguidores temporários, bem como as contradições e as vacilações no campo do inimigo. Para garantir os aliados e aproveitar as contradições entre os inimigos do socialismo, os partidos comunistas devem saber manobrar e concertar compromissos e convênios úteis à revolução. Uma tática flexível como essa ajuda a privar o inimigo do apoio popular, a unir as amplas massas ao redor da vanguarda proletária e juntar forças para o assalto revolucionário contra o capitalismo.

Na conclusão do capítulo Tática, vejam essa declaração inacreditável. Isso em 1985, quando o socialismo real já ia ladeira abaixo de forma irreversível:

“A classe operária soviética em aliança com o campesinato e sob a direção do Partido Comunista, construiu o socialismo desenvolvido e realiza atualmente a construção do comunismo (...). Os ganhos do socialismo são grandes e reconhecidos em todo o mundo. O comunismo abre perspectivas ainda maiores, pois é a fase superior da nova sociedade. O comunismo garantirá aos povos da Terra a paz eterna, e os homens serão libertados para sempre da intranqüilidade por seu futuro e o de seus filhos. O comunismo confirmará o Reino do Trabalho na Terra, fará o trabalho livre e criador para todos e o converterá na primeira necessidade vital do homem e em fonte de sua alegria e inspiração. O comunismo criará o verdadeiro Reino da Liberdade do homem como trabalhador, como ser social, como criador e pensador, possuidor das poderosas forças sociais e da natureza. O comunismo garantirá a Igualdade e Fraternidade entre todos os homens, já que todos serão trabalhadores que se desempenharão plenamente de acordo com suas capacidades, e na mesma medida serão satisfeitas suas necessidades. O homem será outro, companheiro e irmão no mais elevado sentido da palavra. O comunismo levará a todos os homens a verdadeira Felicidade, a confiança no belo futuro e a trabalhar criativamente para que seja de grande utilidade à humanidade e a si mesmo, e dará a possibilidade de aperfeiçoar infinitamente suas qualidades físicas e intelectuais. O comunismo é o futuro luminoso de toda a humanidade”.

O passado sangrento é esquecido e o presente ignorado. Tudo é prometido em nome de um futuro utópico, de um socialismo, agora democrático. O socialismo democrático, a grande utopia pós-socialismo real, é irrealizável. O próprio esforço para realizá-lo produz algo tão inteiramente diverso que aqueles que ainda o desejam não estão preparados para aceitar suas conseqüências!

E há pessoas desavisadas que, ainda hoje, anos depois da rejeição do comunismo pelos povos que foram forçados a viver sob ele, acreditam piamente nas historinhas fantásticas e extravagantes constantes nesses manuais, historinhas que nem eles – os comunistas – não mais acreditam. Nem em Cuba e Coréia do Norte, países onde o socialismo real agoniza lentamente.
 
20 de agosto de 2014
Carlos I. S. Azambuja é Historiador.