"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o governo estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade." Alexis de Tocqueville
(1805-1859)

"A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas." Winston Churchill.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A MÃO DA KGB NO ASSASSINATO DE JFK: A NOVA PROVA

 

          Artigos - Desinformação        

livropacepa“Para entender realmente os mistérios da espionagem soviética, de nada ajuda ver um filme de agente secreto ou ler um romance de espiões, pois isto é apenas diversão. Você precisa ter vivido naquele mundo de segredo e falsidade durante uma vida, como eu vivi, e mesmo assim pode não entender o que está acontecendo nos momentos mais obscuros, a menos que seja um dos pouquíssimos no topo da pirâmide.”

O presidente John F. Kennedy foi assassinado faz 50 anos, e a maior parte das pessoas ainda acredita erroneamente que o culpado foi a CIA ou o FBI, a máfia ou os empresários conservadores americanos. Também há 50 anos, o Kremlin deu início a uma intensa operação de desinformação mundial, de codinome “Dragon”, destinada a desviar a atenção da ligação da KGB com Lee Harvey Oswald.
Há uma conexão entre os fatos: Oswald era um marine americano que desertou para Moscou, retornou aos Estados Unidos três anos depois com a sua esposa russa, matou o presidente Kennedy e foi preso antes de conseguir pôr em prática o seu plano de fugir para Moscou.
Em uma carta datada de 1° de julho de 1963, Oswald pediu à embaixada soviética em Washington, D.C., para conceder à sua esposa um visto imediato de entrada na União Soviética e outro para ele separadamente (na carta, “separadamente” está escrito com erro de ortografia e sublinhado).

A operação “Dragon” do Kremlin está descrita no meu livro Programmed to Kill: Moscow’s Responsibility for Lee Harvey Oswald’s Assassination of President John Fitzgerald Kennedy. Em 2010, este livro foi exibido na Organization of American Historians junto com uma resenha do professor Stan Weber (McNeese State University). Ele descreveu o livro como um “novo e excelente trabalho exemplar sobre a morte do presidente Kennedy” e “leitura obrigatória por toda e qualquer pessoa interessada no assunto”. [1]
Programmed to Kill é uma análise real do crime do século da KGB cometido durante a era Khrushchev. Naqueles dias, o antigo conselheiro chefe da KGB na Romênia havia se tornado o comandante do onipotente serviço de espionagem estrangeiro soviético e me levou para os mais altos círculos da camarilha da inteligência do bloco soviético.
O meu livro também contém uma apresentação real dos frenéticos esforços de Khrushchev para proteger o seu traseiro. Lembrando-se de que o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista sérvio Gavrilo Princip, em 1914, havia dado início à Primeira Guerra Mundial, Khrushchev temia que o conhecimento pelos EUA do envolvimento da KGB com Oswald podia ser o estopim da primeira guerra nuclear. Os interesses de Khrushchev coincidiram com os interesses de Lyndon Johnson, o novo presidente americano, prestes a enfrentar eleições em menos de um ano, e qualquer conclusão implicando a União Soviética no assassinato forçaria Johnson a tomar uma ação política ou militar indesejada, prejudicando ainda mais a sua popularidade, já baixa por causa da guerra no Vietnã.
De acordo com novos documentos da KGB, disponíveis após Programmed to Kill ter sido publicado, o esforço soviético para desviar a atenção do envolvimento da KGB no assassinato de Kennedy começou no dia 23 de novembro de 1963 – o dia imediatamente seguinte ao dia em que Kennedy foi morto – e teve início com um memorando para o Kremlin assinado pelo comandante da KGB Vladimir Semichastny. Ele pediu ao Kremlin para publicar imediatamente um artigo em um “jornal progressista em um dos países do Ocidente… mostrando a tentativa, por círculos reacionários nos EUA, de tirar a responsabilidade pelo assassinato de Kennedy dos verdadeiros criminosos, (ou seja), os racistas e ultra-direitistas, culpados pela propagação e crescimento da violência e terror nos Estados Unidos”.
O Kremlin concordou. Dois meses mais tarde, R. Palme Dutt, editor de um jornal britânico controlado pelos comunistas chamado Labour Monthly, assinou um artigo levantando o espectro do envolvimento da CIA sem oferecer a mínima prova. “(A maior parte d)os comentaristas” Dutt escreveu “suspeita de um golpe de ultra-direitistas ou racistas de Dallas… (que), com a manifesta cumplicidade necessária por parte de uma ampla gama de autoridades, exibe todos os carimbos de um trabalho da CIA”. A carta super secreta de Semichastny e o subsequente artigo de Dutt foram reveladas pelo ex-presidente russo Boris Yeltsin no seu livro The Struggle for Russia, publicado 32 anos após o assassinato de Kennedy.
Não é de admirar que Yeltsin tenha sido desalojado do palácio por um golpe da KGB transferindo o trono do Kremlin para as mãos da KGB – que ainda o segura com firmeza. Em 31 de dezembro de 1999, Yeltsin surpreendeu a Rússia e o resto do mundo ao anunciar a sua aposentadoria. “Entendo que devo fazê-lo” (2) explicou, falando em frente a uma árvore festivamente decorada para o Ano Novo junto a uma bandeira russa azul, vermelha e branca e uma águia russa dourada. Yeltsin em seguida assinou uma lei “no uso dos poderes do presidente russo” declarando que, sob o Artigo 92 Seção 3 da Constituição Russa, o poder do presidente russo seria temporariamente exercido pelo Primeiro Ministro Vladimir Putin, a partir do meio-dia de 31 de dezembro de 1999. (3)
De sua parte, o recentemente designado presidente assinou um decreto perdoando Yeltsin, supostamente ligado a pesados escândalos de suborno, “de quaisquer possíveis delitos” e concedendo a ele “total imunidade” a processos (ou até mesmo investigações e interrogatórios) referentes a “toda e qualquer” ação realizada durante o governo. Putin também deu a Yeltsin uma pensão vitalícia e uma dacha do estado (4).
Logo em seguida, a pequena janela no arquivo da KGB, aberta com estrondo por Yeltsin, foi fechada silenciosamente. Felizmente, antes disso ele foi capaz de revelar o memorando de Semichastny, responsável por gerar a conspiração Kennedy que nunca mais parou.
O artigo de Dutt foi seguido pelo primeiro livro sobre o assassinato de JFK publicado nos Estados Unidos: Oswald: Assassin or Fall Guy? Escrito por um antigo membro do Partido Comunista da Alemanha, Joachim Joesten, foi publicado em Nova Iorque em 1964 por Carlo Aldo Marzani, antigo membro do Partido Comunista Americano e agente da KGB. O livro de Joesten alega, sem fornecer nenhuma prova, que Oswald era “um agitador do FBI com passado na CIA”.
Documentos altamente secretos da KGB contrabandeados da Rússia pelo desertor Vasili Mitrokhin, com a ajuda do MI6 britânico, em 1993 – bem depois das duas investigações do governo americano sobre o assassinato terem sido concluídas – mostram que no início dos anos 1960, Marzani recebeu subsídios num total de 672 mil dólares do Comitê Central do Partido Comunista.
Isto levanta a questão do porquê Marzani ter sido pago pelo partido e não pela KGB, da qual era agente. A carta recentemente liberada de Semichastny nos dá a resposta: no dia seguinte ao do assassinato, o Kremlin assumiu o controle da operação de desinformação destinada a culpar os Estados Unidos pelo assassinato de JFK. Por este motivo, Oswald: Assassin or Fall Guy? foi promovido por uma operação conjunta do partido com a KGB.
A primeira resenha do livro, altamente elogiosa, foi assinada por Victor Perlo, membro do Partido Comunista Americano, e publicada em 23 de setembro de 1964 na publicação New Times, a qual eu conhecia como uma fachada da KGB por ter sido impressa uma vez na Romênia. Em 9 de dezembro de 1963, o jornalista “progressista” americano I. F. Stone publicou um longo artigo no qual tentou justificar porque os Estados Unidos haviam assassinado o seu próprio presidente.
Ele chamou Oswald de louco direitista, mas colocou a culpa real na “belicosa Administração” dos Estados Unidos, que estava tentando vender para a Europa uma “monstruosidade nuclear”. Stone foi identificado como agente pago da KGB, de codinome “Blin”.
Joesten dedicou o seu livro a Mark Lane, esquerdista americano autor, em 1966, do best-seller Rush to Judgment, segundo o qual Kennedy fôra assassinado por um grupo americano conservador. Documentos do Arquivo Mitrokhin mostram que a KGB enviou indiretamente dinheiro para Mark Lane (dois mil dólares) e que o agente da KGB Genrikh Borovik mantinha contato regular com ele.
Outro desertor da KGB, o coronel Oleg Gordievsky (antigo chefe do posto da KGB em Londres) identificou Borovik como cunhado do general Vladimir Kryuchkov; Kryuchlov se tornou comandante da KGB em 1988 e em agosto de 1991 liderou o golpe em Moscou tentando recriar a União Soviética.
O ano de 1967 viu a publicação de mais dois livros atribuídos a Joesten: The Case Against Lyndon Johnson in the Assassination of President Ken­nedy e Oswald: The Truth. Ambos sugeriam que o presidente Johnson e a CIA haviam matado Kennedy. Logo foram seguidos por A Citizen´s Dissent, de Mark Lane (1968). Lane também viajou bastante mundo afora pregando que os Estados Unidos eram um “estado policial do FBI” responsável pela morte do seu próprio presidente.
Com tais livros, a conspiração sobre Kennedy nascera, e jamais morreria. A crescente popularidade dos livros sobre o assassinato de JFK encorajou todo o tipo de gente com qualquer conhecimento remotamente relacionado com o assunto a entrar na festa, cada qual vendo os eventos a partir de sua limitada perspectiva.
Alguns milhares de livros foram escritos sobre o assassinato de Kennedy, e a hemorragia continua. A despeito desta crescente montanha de papel, uma explicação satisfatória da motivação de Oswald ainda precisa ser dada, primeiramente porque a importante dimensão do assunto da política externa soviética e da prática da inteligência soviética no fim dos anos 1950 e no começo dos anos 1960 ainda não foi relacionada com Oswald por nenhuma autoridade competente. Por que não? Porque nenhuma destas autoridades jamais pertenceu à KGB, nenhuma tem familiaridade com o seu modus operandi.
Por sua própria natureza, a espionagem é um empreendimento enigmático e dúbio, e  nas mãos dos soviéticos desenvolveu-se e virou uma filosofia completa, onde cada aspecto tinha o seu próprio conjunto de regras testadas e precisas e seguia um padrão fixo. Para entender realmente os mistérios da espionagem soviética, de nada ajuda ver um filme de agentes secretos ou ler um romance de espiões, pois isto é apenas diversão.
Você precisa ter vivido naquele mundo de segredo e falsidade durante uma vida, como eu vivi, e mesmo assim pode não entender o que está acontecendo nos momentos mais obscuros, a menos que seja um dos pouquíssimos no topo da pirâmide.
Por isso, fiz uma curta apresentação destes momentos sombrios, cruciais para entender como o Kremlin tem sido capaz de fazer todo mundo de bobo, levando todos a acreditar que os Estados Unidos mataram um dos seus mais amados presidentes. Clique aqui para ler “11 Facts That Destroy JFK Conspiracy Theories”.
Vamos juntos retornar àquele mundo de espionagem e falsidade soviéticas. Ao fim do nosso resumo, espero que você concorde comigo de que os soviéticos têm uma mão no assassinato do presidente Kennedy. Também espero que depois você veja com olhos diferentes futuros documentos referentes ao assassinato de JFK. Talvez você possa descobrir manobras soviéticas/russas neles ocultas.


Notas:


1 - Stan Weber, “A New Paradigmatic Work on the JFK Assassination,” H-Net Online, October 2009, http://www.h-net.org/reviews/showrev.php?id=25348

2 - Barry Renfrew, “Boris Yeltsin Resigns,” The Washington Post, December 31, 1999, 6:48 a.m.

3 - Matt Drudge Report, December 31, 1999, 11:00 AM UTC.

4 - Ariel Cohen, “End of the Yeltsin Era,” The Washington Times, January 3, 2000, Internet Edition, cohen-20000103.
 
Publicado no site PJ Media em 20 de novembro.

26 de novembro de 2013
Ion Mihai Pacepa, general da Securitate, a polícia política romena, é o oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.
 
Tradução: Ricardo Hashimoto

O QUE SE PASSOU KAMARADA? NADA, APENAS O TEMPO.


          Artigos - Movimento Revolucionário 
A dissidência nas hostes comunistas é interessante de acompanhar, pois é rica em argumentos e expõe suas mazelas. 

Após o desmonte do socialismo, Nicolas Buenaventura, engenheiro e professor, que hipotecou sua vida ao comunismo, pois durante 40 anos foi membro do Comitê Central do Partido Comunista Colombiano com o cargo de chefe da Seção de Educação de Massas, explorou a fundo, numa autocrítica ácida e demolidora, através de seu livro “Que Pasó, Camarada?”, as razões da catástrofe dos”socialismos reais”.
 

Disse ele que os comunistas sempre lutaram por um pedaço da democracia formal e burguesa. Sempre defenderam, até a morte, a sua minguada liberdade de palavra, de imprensa, de dissidência e de oposição. A liberdade de locomoção, de ir e vir, de empresa - das empresas do partido -, dos camaradas, das associações, dos sindicatos. Cada resquício de democracia tradicional, formal, era sagrado para eles.     
 
Defendíamos o pedaço de pão velho, como diria Bertolt Brecht. Porém, isso nunca foi considerado suficiente. Esse não era o objetivo. Era o meio. Queríamos o pão inteiro. Defendíamos a democracia possível. Porém, quando chegasse o momento e tudo mudasse, chegaria a hora da democracia real. Onde estava, então, o nosso erro? Qual foi o nosso pecado?                 
 
A verdade é que sempre fizemos uma leitura muito óbvia, muito simples, da história da democracia formal. Sempre raciocinamos assim: uma democracia sem pão, sem escola, sem terra, puramente formal, é mentirosa.
 
E daí em diante, dessa leitura simplista, vinha o resto, a grande dedução: primeiro o pão, primeiro a roupa, primeiro a terra e a escola e, depois, só depois, viria... a democracia.                 
 
Era assim que nós encarávamos as coisas: sem pão, a democracia é uma mentira. Sem teto, sem escola, sem o conhecimento, é mentirosa a democracia. De forma que tudo tem o seu tempo, como diz a Santa Bíblia. Por agora, a saúde e a educação gratuitas. Depois, só depois, a democracia.                 
Nunca dissemos isso assim, explicitamente, na Colômbia, em Cuba ou na União Soviética. Nunca dissemos isso com estas palavras precisas.

Essa, porém, era a essência da nossa democracia real. E era, por outro lado, a que melhor se adaptava ao mundo do subdesenvolvimento, sem maior cultura política ou tradição democrática. Esse mundo onde foi implantado e existiu o socialismo real”.   
              
Então, para essa viagem desde o pão à democracia real, do futuro - uma viagem difícil; uma viagem, ademais, sem calendário -, para esse percurso tão acidentado, um grupo de escolhidos, formado pelos melhores, entre os quais Nicolas Buenaventura se encontrava, foi encarregado da direção. E esse grupo construiu o instrumento que conduziria os oprimidos à Terra Prometida. Esse instrumento denominava-se O PARTIDO, assim, em maiúsculas.                 
 
“Não se tratava de falar, de protestar ou de fazer oposição. Para isso havia sua hora, o seu tempo. Tratava-se de construir a democracia real.                 
Depois, as coisas aconteceram como já sabemos. É um fato e uma verdade. Primeiro faltou a democracia, faltou a dissidência, faltou a oposição, faltou a minoria.
Todos eram maioria. Uma maioria ideal, plena, uniforme, de uma só cor, que pouco a pouco foi se convertendo em unanimidade. Porém, o pão se acabou, veio a queda de produção, a ineficiência e a obsolescência.                 
 
Primeiro, o Partido foi roubado na democracia. Depois também no pão.                 
Dessa forma, nós, comunistas, aprendemos muito duramente, para sempre, esta lição: a democracia não tem ordem, não tem espera, não tem comissários políticos, nem delegação e nem guardiões. A democracia somos cada um de nós. É você mesmo.      
           
E mais: a democracia é, certamente, o governo da maioria. Democracia é o contrário da pirâmide centralista do Partido, na qual a cúpula, isolada das bases, era sempre endeusada, convertendo-se em uma dinastia.       
          
Em uma palavra: democracia é cada vez menos governo do Partido e do Estado, e mais autogoverno da sociedade civil.                 
E, paralelamente, com isso e junto com isso, estará o problema do pão, da escola, da terra e do Direito.            
     
Nós, do Partido Comunista, havíamos tapado, afogado, o pensamento de Marx com a tradução de um montão de manuais de marxismo-leninismo.                 
Vivemos sempre em um partido que não fez outra coisa, durante mais de meio século, senão instalar-se na porta da revolução, convencido, com a maior certeza, de que esse era o seu lugar, acabando por receber, por isso, o castigo mais duro.      
           
Todas as revoluções neste século, em qualquer parte do mundo - e as revoluções são muito de invenção e riqueza -, utilizaram a violência para moer a antiga máquina, para quebrar o poder militar entrincheirado no capital. Tudo era uma grande festa.                 
Porém, mesmo após cumprir o seu papel demolidor, rompendo as antigas cadeias, mesmo após forçar as portas dos cárceres, a violência não cessou, não se deteve e institucionalizou-se.                 
 
Eu vivi isso muitas vezes, na Nicarágua, na China e em Cuba. Experimentei o poder local guerrilheiro e vivi o poder opressor e absolutamente arbitrário dos donos do novo poder.  E tudo me parecia lógico. O novo dia, após anos de obscuridade, surgiria enredado em fios invisíveis de medo à cidade, ao povo, à vereda, ao camarada, ao guerrilheiro, ao dirigente. O novo poder não se equivoca. Ele conhece os traidores, os colaboradores, os cúmplices passivos, os que nunca fizeram nada, os que não moveram um dedo. Ele conhece a todos.                 
 
Esse, todavia, não foi o problema, pois essa dinâmica é própria de todas as revoluções. Isso não foi o mais grave no nosso caso, na história do socialismo real. O grande problema nunca foi, entre nós, a violência revolucionária e criadora, que se prolongou, quase sempre, além do seu tempo.        
         
O grande problema, o verdadeiro problema, o problema real e profundo, teve lugar mais adiante e foi de outra natureza. Trata-se do esquema do socialismo real. O do esquema sacralizado, o do esquema que converte um possível processo histórico, uma hipótese de trabalho a verificar, em lei, norma e sentença. Essa racionalidade seca e fria, inaugurada pelo stalinismo, gerou inflexivelmente uma nova violência que matou metodicamente todas as primaveras revolucionárias e aguou todas as grandes festas do nosso século.         
        
E agora, eu me pergunto, depois de todo esse cataclismo: quando, em que momento, por que, nos convertemos a essa idéia, à idéia desse socialismo de bruxos, desse socialismo que deveria desmantelar o capitalismo como uma alternativa violenta, inevitável? Quando se atravessou em nosso caminho essa idéia tão fácil do Estado todo-poderoso, proprietário único, com todo o poder ao ombro, como se fosse um fuzil? Quando e como se impôs entre nós o mito do Estado como panacéia e a estadolatria? Esse mito, que se transformou em miséria sacralizada e repartida?”                 
Foi esse o depoimento de Nicolas Buenaventura, que dedicou 40 anos de sua vida ao partido da classe operária.                 
Na década de 90, logo após o desmantelamento do socialismo real, em um muro, em Quito, Equador, foi pichada por comunistas a seguinte inscrição: “Ahora que teníamos todas las respuestas se cambiaram las preguntas”.                 
A partir de então, um sem número de defensores da causa, em todos os quadrantes, entregam-se a uma autocrítica devastadora, chegando, desolados, invariavelmente a uma mesma conclusão: os que progrediram no partido da classe operária foram os burocratas, os secretários, os maiores culpados pelo desmantelamento do socialismo real.                 
Onde quer que existisse um partido comunista, o modesto burocrata sempre observava, desde a sua mesa, quase com admiração, como chegavam à sede do partido os revolucionários, os heróis da agitação social, que imediatamente eram recebidos pelos chefes. O agitador, o brilhante lutador, apenas notava o burocrata porque fora convencido de que ele era a alma da burocracia partidária.                 
Passam-se os anos. O herói revolucionário, o agitador de massas, líder nas greves, nas passeatas, nas colagens de cartazes e nas pichações, na distribuição de panfletos e outras tarefas menos nobres, continuava indo à sede do partido. Algumas vezes até para ser repreendido e fazer uma autocrítica. O burocrata, no entanto, prosseguia ali, impassível, porém já em uma mesa maior. Antes manejava uma velha máquina de escrever expropriada pelo revolucionário, brilhante lutador. Agora, na era da informática, passava as idéias e decisões do partido diretamente ao computador. Continuava, no entanto, obsequioso e admirador do ativista.                 
Passam-se mais alguns anos. O agitador tem orgulho de seu passado glorioso, das prisões e perseguições que sofrera; da clandestinidade, longe da família e dos amigos, e das eventuais vitórias revolucionárias. É uma legenda, respeitado e admirado dentro do partido.                 
Em suas idas ao Comitê Central, continua a ser recebido por aquele mesmo funcionário. Porém, com o passar do tempo, já algo mais que um simples burocrata, pois fora elevado, por cooptação, ao cargo de Secretário de Agitação e Propaganda (Agitprop, na terminologia partidária) ou Secretário de Organização, com poderes, portanto, para remover o agitador, o brilhante ativista, de um lugar para outro. Já, então, o burocrata encara o velho lutador de forma diferente, pois agora lhe dá ordens, e o famoso princípio do centralismo democrático faz com que essas ordens não sejam discutidas.                 
Posteriormente, passados mais alguns anos, o lutador, o ativista, o brilhante lutador, comprova que o Secretário passou a integrar o Comitê Central, substituindo um companheiro falecido. E que, assim, tornou-se membro da privilegiada nomenklatura partidária, passando a ter direito a passagens aéreas, férias anuais na Criméia e a matricular seus filhos na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, na Escola de Ballet de Leningrado e em outras do paraíso soviético.                 
O que se passou? Nada. Apenas o tempo.                 
O ativista, brilhante lutador, conserva seu passado, porém já não é útil, pois está “queimado”, seja por ter se tornado excessivamente conhecido da polícia, seja porque militantes mais jovens já murmuram contra seus antiquados e ultrapassados métodos de trabalho. Protestará, e então lhe recordarão, como se fosse um membro da juventude comunista, que o partido da classe operária possui um Estatuto que exige disciplina férrea e que, mais uma vez, deverá autocriticar-se.                 
Ao fazê-lo, a que conclusão chegará? Que sua vida política já está - como o partido e a própria doutrina -, no descenso da derrota, pois sonhou ser um chefe e não passou de um “quadro”; sonhou tornar-se um teórico doutrinador e limitou-se, em toda a sua vida, a assimilar as palavras-de-ordem alheias, nas quais, hoje, ninguém mais acredita.                 
Agora, resta ao velho lutador, ao agitador, ao herói revolucionário, curar as cicatrizes e desilusões e, como Lenin, indagar: ‘o que fazer?’ Enquanto não encontra uma resposta, engaja-se, como tantos outros, no esporte da moda: atirar pedras nos patriotas que impediram que a Pátria fosse transformada em um pleonasmo: uma “democracia popular.”                 
Jamais a militância política nos partidos da esquerda revolucionária poderá ser a mesma militância arquitetada pelo Partido Bolchevique. A impressionante explosão dos meios de comunicação de massa modificou profundamente os padrões de sociabilidade, diminuindo o peso das ruas, das assembléias, das passeatas, dificultando a mobilização das chamadas massas, além do que a atual caminhada, sem volta, para a globalização da economia, ao invés de concentrar trabalhadores, dispersa-os em unidades produtivas, mantendo-os mais preocupados com seus interesses espontâneos imediatos.                 
Até o início da década de 70, pelo menos, os comunistas cultivavam a imagem do militante abnegado, totalmente dedicado à “causa”, disciplinado, que colocava em segundo plano sua vida pessoal - quando não abria mão dela - em função de um ideal: a vitória da revolução que abriria caminho para a emancipação da humanidade.                 
O militante era, antes de tudo, o soldado de uma causa, o homem do partido, quase o “homem-novo” idealizado por Marx. Extremamente ideologizado, sempre dava razão ao partido, ou àquele que, no momento, o encarnasse: Lenin, Stalin, Mao, Prestes e tantos outros. O militante forjou-se no interior de partidos militarizados. Determinado, capaz de tudo suportar, de jogar todas as suas fichas na utopia, de sufocar a individualidade em nome de sua dissolução no universo do coletivo construído pelo partido.                                    
Todavia, é certo que o militante pós-Guerra Fria, pós-”perestroika” e pós-”glasnost”, pós-socialismo real, jamais será o mesmo, pois não mais seguirá cegamente seus líderes; espera que o partido imagine outros caminhos de mobilização, pois não mais poderá insistir, simplesmente, em “colocar as massas nas ruas”.            
Definitivamente, os modelos de militância que marcaram os setores mais radicais da esquerda por cerca de 70 anos se esgotaram. Figuras como “o bolchevique, o agitador anarquista, o guerrilheiro urbano, o soldado-partido”, não mais existirão, pois as regras que regulavam o funcionamento dos coletivos que constituíam essas figuras “jurássicas” foram derrubadas. Uma dessas regras, a fundamental, foi aquela que a Rainha Vermelha, do livro “Alice no País das Maravilhas”, bradava: “Primeiro a sentença; depois o veredicto!”
 
26 de novembro de 2013
Carlos Azambuja é historiador.

O QUE SE PASSOU KAMARADA? NADA, APENAS O TEMPO.


          Artigos - Movimento Revolucionário 
A dissidência nas hostes comunistas é interessante de acompanhar, pois é rica em argumentos e expõe suas mazelas. 

Após o desmonte do socialismo, Nicolas Buenaventura, engenheiro e professor, que hipotecou sua vida ao comunismo, pois durante 40 anos foi membro do Comitê Central do Partido Comunista Colombiano com o cargo de chefe da Seção de Educação de Massas, explorou a fundo, numa autocrítica ácida e demolidora, através de seu livro “Que Pasó, Camarada?”, as razões da catástrofe dos”socialismos reais”.
 

Disse ele que os comunistas sempre lutaram por um pedaço da democracia formal e burguesa. Sempre defenderam, até a morte, a sua minguada liberdade de palavra, de imprensa, de dissidência e de oposição. A liberdade de locomoção, de ir e vir, de empresa - das empresas do partido -, dos camaradas, das associações, dos sindicatos. Cada resquício de democracia tradicional, formal, era sagrado para eles.     
 
Defendíamos o pedaço de pão velho, como diria Bertolt Brecht. Porém, isso nunca foi considerado suficiente. Esse não era o objetivo. Era o meio. Queríamos o pão inteiro. Defendíamos a democracia possível. Porém, quando chegasse o momento e tudo mudasse, chegaria a hora da democracia real. Onde estava, então, o nosso erro? Qual foi o nosso pecado?                 
 
A verdade é que sempre fizemos uma leitura muito óbvia, muito simples, da história da democracia formal. Sempre raciocinamos assim: uma democracia sem pão, sem escola, sem terra, puramente formal, é mentirosa.
 
E daí em diante, dessa leitura simplista, vinha o resto, a grande dedução: primeiro o pão, primeiro a roupa, primeiro a terra e a escola e, depois, só depois, viria... a democracia.                 
 
Era assim que nós encarávamos as coisas: sem pão, a democracia é uma mentira. Sem teto, sem escola, sem o conhecimento, é mentirosa a democracia. De forma que tudo tem o seu tempo, como diz a Santa Bíblia. Por agora, a saúde e a educação gratuitas. Depois, só depois, a democracia.                 
Nunca dissemos isso assim, explicitamente, na Colômbia, em Cuba ou na União Soviética. Nunca dissemos isso com estas palavras precisas.

Essa, porém, era a essência da nossa democracia real. E era, por outro lado, a que melhor se adaptava ao mundo do subdesenvolvimento, sem maior cultura política ou tradição democrática. Esse mundo onde foi implantado e existiu o socialismo real”.   
              
Então, para essa viagem desde o pão à democracia real, do futuro - uma viagem difícil; uma viagem, ademais, sem calendário -, para esse percurso tão acidentado, um grupo de escolhidos, formado pelos melhores, entre os quais Nicolas Buenaventura se encontrava, foi encarregado da direção. E esse grupo construiu o instrumento que conduziria os oprimidos à Terra Prometida. Esse instrumento denominava-se O PARTIDO, assim, em maiúsculas.                 
 
“Não se tratava de falar, de protestar ou de fazer oposição. Para isso havia sua hora, o seu tempo. Tratava-se de construir a democracia real.                 
Depois, as coisas aconteceram como já sabemos. É um fato e uma verdade. Primeiro faltou a democracia, faltou a dissidência, faltou a oposição, faltou a minoria.
Todos eram maioria. Uma maioria ideal, plena, uniforme, de uma só cor, que pouco a pouco foi se convertendo em unanimidade. Porém, o pão se acabou, veio a queda de produção, a ineficiência e a obsolescência.                 
 
Primeiro, o Partido foi roubado na democracia. Depois também no pão.                 
Dessa forma, nós, comunistas, aprendemos muito duramente, para sempre, esta lição: a democracia não tem ordem, não tem espera, não tem comissários políticos, nem delegação e nem guardiões. A democracia somos cada um de nós. É você mesmo.      
           
E mais: a democracia é, certamente, o governo da maioria. Democracia é o contrário da pirâmide centralista do Partido, na qual a cúpula, isolada das bases, era sempre endeusada, convertendo-se em uma dinastia.       
          
Em uma palavra: democracia é cada vez menos governo do Partido e do Estado, e mais autogoverno da sociedade civil.                 
E, paralelamente, com isso e junto com isso, estará o problema do pão, da escola, da terra e do Direito.            
     
Nós, do Partido Comunista, havíamos tapado, afogado, o pensamento de Marx com a tradução de um montão de manuais de marxismo-leninismo.                 
Vivemos sempre em um partido que não fez outra coisa, durante mais de meio século, senão instalar-se na porta da revolução, convencido, com a maior certeza, de que esse era o seu lugar, acabando por receber, por isso, o castigo mais duro.      
           
Todas as revoluções neste século, em qualquer parte do mundo - e as revoluções são muito de invenção e riqueza -, utilizaram a violência para moer a antiga máquina, para quebrar o poder militar entrincheirado no capital. Tudo era uma grande festa.                 
Porém, mesmo após cumprir o seu papel demolidor, rompendo as antigas cadeias, mesmo após forçar as portas dos cárceres, a violência não cessou, não se deteve e institucionalizou-se.                 
 
Eu vivi isso muitas vezes, na Nicarágua, na China e em Cuba. Experimentei o poder local guerrilheiro e vivi o poder opressor e absolutamente arbitrário dos donos do novo poder.  E tudo me parecia lógico. O novo dia, após anos de obscuridade, surgiria enredado em fios invisíveis de medo à cidade, ao povo, à vereda, ao camarada, ao guerrilheiro, ao dirigente. O novo poder não se equivoca. Ele conhece os traidores, os colaboradores, os cúmplices passivos, os que nunca fizeram nada, os que não moveram um dedo. Ele conhece a todos.                 
 
Esse, todavia, não foi o problema, pois essa dinâmica é própria de todas as revoluções. Isso não foi o mais grave no nosso caso, na história do socialismo real. O grande problema nunca foi, entre nós, a violência revolucionária e criadora, que se prolongou, quase sempre, além do seu tempo.        
         
O grande problema, o verdadeiro problema, o problema real e profundo, teve lugar mais adiante e foi de outra natureza. Trata-se do esquema do socialismo real. O do esquema sacralizado, o do esquema que converte um possível processo histórico, uma hipótese de trabalho a verificar, em lei, norma e sentença. Essa racionalidade seca e fria, inaugurada pelo stalinismo, gerou inflexivelmente uma nova violência que matou metodicamente todas as primaveras revolucionárias e aguou todas as grandes festas do nosso século.         
        
E agora, eu me pergunto, depois de todo esse cataclismo: quando, em que momento, por que, nos convertemos a essa idéia, à idéia desse socialismo de bruxos, desse socialismo que deveria desmantelar o capitalismo como uma alternativa violenta, inevitável? Quando se atravessou em nosso caminho essa idéia tão fácil do Estado todo-poderoso, proprietário único, com todo o poder ao ombro, como se fosse um fuzil? Quando e como se impôs entre nós o mito do Estado como panacéia e a estadolatria? Esse mito, que se transformou em miséria sacralizada e repartida?”                 
Foi esse o depoimento de Nicolas Buenaventura, que dedicou 40 anos de sua vida ao partido da classe operária.                 
Na década de 90, logo após o desmantelamento do socialismo real, em um muro, em Quito, Equador, foi pichada por comunistas a seguinte inscrição: “Ahora que teníamos todas las respuestas se cambiaram las preguntas”.                 
A partir de então, um sem número de defensores da causa, em todos os quadrantes, entregam-se a uma autocrítica devastadora, chegando, desolados, invariavelmente a uma mesma conclusão: os que progrediram no partido da classe operária foram os burocratas, os secretários, os maiores culpados pelo desmantelamento do socialismo real.                 
Onde quer que existisse um partido comunista, o modesto burocrata sempre observava, desde a sua mesa, quase com admiração, como chegavam à sede do partido os revolucionários, os heróis da agitação social, que imediatamente eram recebidos pelos chefes. O agitador, o brilhante lutador, apenas notava o burocrata porque fora convencido de que ele era a alma da burocracia partidária.                 
Passam-se os anos. O herói revolucionário, o agitador de massas, líder nas greves, nas passeatas, nas colagens de cartazes e nas pichações, na distribuição de panfletos e outras tarefas menos nobres, continuava indo à sede do partido. Algumas vezes até para ser repreendido e fazer uma autocrítica. O burocrata, no entanto, prosseguia ali, impassível, porém já em uma mesa maior. Antes manejava uma velha máquina de escrever expropriada pelo revolucionário, brilhante lutador. Agora, na era da informática, passava as idéias e decisões do partido diretamente ao computador. Continuava, no entanto, obsequioso e admirador do ativista.                 
Passam-se mais alguns anos. O agitador tem orgulho de seu passado glorioso, das prisões e perseguições que sofrera; da clandestinidade, longe da família e dos amigos, e das eventuais vitórias revolucionárias. É uma legenda, respeitado e admirado dentro do partido.                 
Em suas idas ao Comitê Central, continua a ser recebido por aquele mesmo funcionário. Porém, com o passar do tempo, já algo mais que um simples burocrata, pois fora elevado, por cooptação, ao cargo de Secretário de Agitação e Propaganda (Agitprop, na terminologia partidária) ou Secretário de Organização, com poderes, portanto, para remover o agitador, o brilhante ativista, de um lugar para outro. Já, então, o burocrata encara o velho lutador de forma diferente, pois agora lhe dá ordens, e o famoso princípio do centralismo democrático faz com que essas ordens não sejam discutidas.                 
Posteriormente, passados mais alguns anos, o lutador, o ativista, o brilhante lutador, comprova que o Secretário passou a integrar o Comitê Central, substituindo um companheiro falecido. E que, assim, tornou-se membro da privilegiada nomenklatura partidária, passando a ter direito a passagens aéreas, férias anuais na Criméia e a matricular seus filhos na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, na Escola de Ballet de Leningrado e em outras do paraíso soviético.                 
O que se passou? Nada. Apenas o tempo.                 
O ativista, brilhante lutador, conserva seu passado, porém já não é útil, pois está “queimado”, seja por ter se tornado excessivamente conhecido da polícia, seja porque militantes mais jovens já murmuram contra seus antiquados e ultrapassados métodos de trabalho. Protestará, e então lhe recordarão, como se fosse um membro da juventude comunista, que o partido da classe operária possui um Estatuto que exige disciplina férrea e que, mais uma vez, deverá autocriticar-se.                 
Ao fazê-lo, a que conclusão chegará? Que sua vida política já está - como o partido e a própria doutrina -, no descenso da derrota, pois sonhou ser um chefe e não passou de um “quadro”; sonhou tornar-se um teórico doutrinador e limitou-se, em toda a sua vida, a assimilar as palavras-de-ordem alheias, nas quais, hoje, ninguém mais acredita.                 
Agora, resta ao velho lutador, ao agitador, ao herói revolucionário, curar as cicatrizes e desilusões e, como Lenin, indagar: ‘o que fazer?’ Enquanto não encontra uma resposta, engaja-se, como tantos outros, no esporte da moda: atirar pedras nos patriotas que impediram que a Pátria fosse transformada em um pleonasmo: uma “democracia popular.”                 
Jamais a militância política nos partidos da esquerda revolucionária poderá ser a mesma militância arquitetada pelo Partido Bolchevique. A impressionante explosão dos meios de comunicação de massa modificou profundamente os padrões de sociabilidade, diminuindo o peso das ruas, das assembléias, das passeatas, dificultando a mobilização das chamadas massas, além do que a atual caminhada, sem volta, para a globalização da economia, ao invés de concentrar trabalhadores, dispersa-os em unidades produtivas, mantendo-os mais preocupados com seus interesses espontâneos imediatos.                 
Até o início da década de 70, pelo menos, os comunistas cultivavam a imagem do militante abnegado, totalmente dedicado à “causa”, disciplinado, que colocava em segundo plano sua vida pessoal - quando não abria mão dela - em função de um ideal: a vitória da revolução que abriria caminho para a emancipação da humanidade.                 
O militante era, antes de tudo, o soldado de uma causa, o homem do partido, quase o “homem-novo” idealizado por Marx. Extremamente ideologizado, sempre dava razão ao partido, ou àquele que, no momento, o encarnasse: Lenin, Stalin, Mao, Prestes e tantos outros. O militante forjou-se no interior de partidos militarizados. Determinado, capaz de tudo suportar, de jogar todas as suas fichas na utopia, de sufocar a individualidade em nome de sua dissolução no universo do coletivo construído pelo partido.                                    
Todavia, é certo que o militante pós-Guerra Fria, pós-”perestroika” e pós-”glasnost”, pós-socialismo real, jamais será o mesmo, pois não mais seguirá cegamente seus líderes; espera que o partido imagine outros caminhos de mobilização, pois não mais poderá insistir, simplesmente, em “colocar as massas nas ruas”.            
Definitivamente, os modelos de militância que marcaram os setores mais radicais da esquerda por cerca de 70 anos se esgotaram. Figuras como “o bolchevique, o agitador anarquista, o guerrilheiro urbano, o soldado-partido”, não mais existirão, pois as regras que regulavam o funcionamento dos coletivos que constituíam essas figuras “jurássicas” foram derrubadas. Uma dessas regras, a fundamental, foi aquela que a Rainha Vermelha, do livro “Alice no País das Maravilhas”, bradava: “Primeiro a sentença; depois o veredicto!”
 
26 de novembro de 2013
Carlos Azambuja é historiador.

JUNG E HITLER


          Artigos - Movimento Revolucionário 
Jung escreveu que Hitler era um pseudólogo, como se ele próprio não fosse um. O Livro Vermelho revelou que Jung fez também seu próprio pacto fáustico, ainda mais delirante que o de Hitler. Ele empenhou-se em fundar uma religião, da qual seria o sumo sacerdote. O nazismo foi apenas a expressão política deves movimento mais amplo de cunho cultural e religioso.

É preciso compreender a obra de Jung e talvez o melhor texto para ver como o psicólogo suíço tropeçou nas próprias pernas seja no ensaio publicado em 1945, “Depois da Catástrofe” (inserido no livro Aspectos do Drama Contemporâneo, editado pela Vozes). É certo que esse texto só será compreensível, em todo o horror de suas contradições, se se conhecer bem a obra e a biografia de Jun
g, portanto não é leitura para iniciantes.
O ensaio foi escrito para que ele, Jung, dissesse o que realmente pensava de Hitler e dos acontecimentos dramáticos da II Guerra Mundial. Ao término da guerra os rumores de que era nazista estavam vivos. O primeiro gesto de tirar o corpo fora de Jung sobre a sua responsabilidade pessoal sobre os acontecimentos foi ele atribuir os fatos aos alemães da Alemanha. Ora, Jung sempre se declarou alemão, narrava com prazer sua “nobre” ascendência bastarda desde Goethe e se sentia alemão. Tudo que foi feito por Hitler e pela Alemanha era em nome e para o pan-germanismo. É claro que o Estado nacional alemão assumiu o comando de tudo, mas vimos como em diversos países (até no Brasil!) os verdadeiros alemães apoiaram com entusiasmo a estranha ideia que eram um povo superior, fadado a dominar o mundo. Bem vimos no que deu.
Jung sabia perfeitamente bem a origem de tudo, mas não teve a coragem moral de assumir sua própria responsabilidade. Ao contrário, Thomas Mann engajou-se no esforço de guerra contra a barbárie e escreveu o monumental Doutor Fausto, livro no qual faz o acerto de contas consigo mesmo e sua própria história familiar. Ao atribuir uma suposta culpa coletiva sobre os alemães Jung pulou o capítulo de sua própria responsabilidade. O próprio Jung fundou em torno de si um culto satânico no qual os sacerdotes acreditados eram os seus seguidores “analisados”. Jung cultuava o mal com todas as letras, como bem demonstrei nas minhas palestras sobre o Livro Vermelho (https://www.youtube.com/watch?v=ydR_ZpeyadA&hd=1).
A raiz mais geral para o que houve naqueles tempos está na Reforma Religiosa, que teve a nefasta consequência de transformar a Igreja Universal em igrejas nacionais, comandadas segundo interesse político. Na Alemanha, o passo seguinte foi humanizar o Cristo, negando-lhe a condição divina, juntamente com as ideias pagãs do neoplatonismo. Chegou-se a falar em um Cristo “alemão”.
No século XVIII, sob a influência poderosa de Goethe, tivemos o esteticismo, que propôs a salvação pela Arte, aqui compreendida em sentido amplo, inclusive nas práticas esotéricas das artes alquímicas. O passo final foi decretar a morte de Deus e tivemos o surgimento de Nietzsche no esplendor de toda sua loucura para fazê-lo. Era o João Batista anunciador do novo Cristo, Jung ele mesmo.
Esse é o trilho que explica Hitler e Jung foi o maior divulgador dessa tradição esteticista. Ele se considerava, e de fato era, o maior seguidor de Goethe e Nietzsche (e Wagner). Caberia a Jung em mea culpa ter dito isso no ensaio: que ele preparou gerações de pessoas, sejam os seus leitores, sejam os seus analisandos/pacientes, para aceitar voluntariamente o mal como se bem fosse, e servi-lo. Ele fundou um culto satânico tão esdrúxulo que elevou o Zaratustra de Nietzsche à condição de profeta e ele mesmo, Jung, á condição de um novo salvador, em substituição à Cristo. Nada dos crimes ocorridos na Alemanha são alheios a Jung e sua obra.
A loucura delirante de Jung foi tamanha que se recusou a traduzir o poema de Nietzsche ‘O Canto Noturno’ no seminário que deu sobre o Zaratustra, na década de Trinta. Segundo ele, ali falaria o próprio deus/Zaratustra e o alemão passou a ser uma língua sagrada, algo como são o hebraico para os judeus e o latim para os católicos. O culto fundado por Jung negava os valores cristãos e tentava implantar a falsa ética pagã pregada por Nietzsche, todos os falsos valores da Nova Era defendida pelo psicólogo suíço.
Toda a elite alemã (pan-germânica) sabia o Fausto, de Goethe, de cor. O livro virou a bíblia para a alta cultura dos falantes de alemão. Ali estaria a verdade. Jung acreditava nisso. Pregou isso. Viveu isso em toda a intensidade. E, na vida pessoal, adotou a nova ética, praticando a poligamia consciente em franca oposição aos valores cristãos. Pior ainda, fez do andrógino um símbolo de totalidade e algo a ser buscado, legitimando a eclosão do homossexualismo como hoje o conhecemos. De certa forma, para Jung, a androginia tornava o sujeito mais filho de Deus.
No texto, Jung ridiculariza a figura de Hilter, sem dizer de si uma única palavra de reprovação. Nenhuma autocrítica. E, depois de 1945, continuou a cultivar e a divulgar a sua psicologia analítica, como se nada tivesse acontecido. Como se tudo não pudesse se repetir novamente. Colocar o demônio no lugar de Deus tem consequências.
Jung escreveu que Hitler era um pseudólogo, como se ele próprio não fosse um. O Livro Vermelho revelou que Jung fez também seu próprio pacto fáustico, ainda mais delirante que o de Hitler. Ele empenhou-se em fundar uma religião, da qual seria o sumo sacerdote. O nazismo foi apenas a expressão política deves movimento mais amplo de cunho cultural e religioso.
Jung escreveu: “Ao dizer que os alemães estão psiquicamente doentes estou sendo mais benevolente do que se dissesse que são criminosos”. Uma frase perfeita que poderia bem ser aplicada a si mesmo. Mais à frente: “(o alemão) Esqueceu seu cristianismo, vendeu o espírito à técnica, trocou a moral pelo cinismo e consagrou sua maior aspiração às forças de aniquilação”. Teria sido uma bela confissão se Jung estivesse falando de si mesmo e não no coletivo alemão.
Não, o problema alemão não é a emergência de forças coletivas incontroláveis, é um problema de pessoas individualmente comprometidas com o mal. O pacto fáustico pressupõe sempre um “sim” consciente ao mal por cada um. Jung fez isso. Nietzsche fez isso. Goethe também. Levou séculos para que esse mal fosse transformado e potenciado em fornos crematórios e em matanças generalizadas, inclusive de alemães. Não se dá as costas à conversão, ao Bem, sem se pagar alto preço.
26 de novembro de 2013
Nivaldo Cordeiro